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domingo, 21 de maio de 2017

A Lava Jato na soleira da Cultura

       A operação Lava Jato, desencadeada há três anos em Curitiba, com o objetivo de combater focos de corrupção no país, bate às portas dos umbrais da Cultura. Em alerta, ou às portas da prisão, alguns corifeus e mandarins da cena cultural dos últimos dez anos. Por enquanto, fiquemos com um único produtor. Surgido nos anos 70 em Belo Horizonte, como promessa nos redutos da literatura, Luiz Fernando Emediato perpetrou ao longo de vinte anos alguns livros de contos, inspirados numa concepção de arte socialista ao pé da letra. A fama de figura maldita, sob o viés político, espalhou-se. Tornou-se aos poucos figura exponencial no milieu,  como militante cultural nos governos petistas, promoveu saraus e a 2a. Bienal do Livro em Brasília, agregando empolgados simpatizantes do sistema. Como editor, publicou, com estardalhaço de marketing, o livro Privataria tucana. Recentemente, esteve envolvido até o pescoço num negócio bilionário entre a Odebrecht e o Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Trabalhador (FI do FGTS), com mafiosos graúdos, Eduardo Cunha no meio, em que teria recebido mais de três milhões, como Conselheiro do FI do FGTS. Foi demitido do Conselho. O noticiário de hoje é incisivo e fala por si. Cito, a seguir, o jornal O tempo:

                                        "J&F PAGA ASSESSOR DE MINISTRO 
        O diretor de relações institucionais do grupo J&F, Ricardo Saud, disse em delação premiada que pagou R$ 2,5 milhões a Luiz Fernando Emediato, quando trabalhava como assessor especial do Ministério do Trabalho, para aumentar a fiscalização de frigoríficos concorrentes da JBS."

O tempo, Belo Horizonte, Política, 21 maio 2017, p.3.

                                               (Imagem: culturamix.com)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Antonio Cândido (1918-2017)

      O crítico, ensaísta e intelectual Antônio Cândido de Melo e Sousa morreu nesta madrugada em São Paulo. Formado em ciências sociais pela USP, em 1941, passou a lecionar, na mesma instituição, sociologia e, depois, teoria literária. Dedicou-se ainda jovem à crítica, a princípio em rodapés de jornais, em seguida, em livros, que recolhem ensaios de natureza sociológica e de interpretação da cultura nacional. Com o livro Formação da literatura brasileira (1959), recebeu o primeiro prêmio Jabuti, alcançando indiscutível prestígio. Os principais traços em que fundamenta sua análise crítica compreendem a "síntese segura", a "exposição sistemática" e a "erudição discreta", reconhecidos em 1946 por Sérgio Milliet, em resenha ao trabalho Introdução ao método crítico de Sílvio Romero (1945). Um forte sentido nacionalista, por vezes com discutíveis desdobramentos, permeia a totalidade de sua produção ensaística, referência fundamental no campo dos estudos literários. Recebeu em 1998 o Prêmio Camões, em Lisboa; em 2005, o prêmio internacional Alfonso Reyes, no México. Faturou por quatro vezes o prêmio Jabuti (1960, 1965, 1988, 1993). 

                                                  (Foto: veja.abril.com.br)
                                               
      Seus principais títulos privilegiam o ensaio e a hermenêutica. Além dos citados, destacam-se: Brigada ligeira (1945), Ficção e confissão (sobre Graciliano Ramos) (1956), A personagem de ficção (1963), Tese e antítese (1964), Os parceiros do Rio Bonito (1964),  Literatura e sociedade  (1965), Vários escritos (1970), O discurso e a cidade (1993), A educação pela noite e outros ensaios (3a. ed. 2000).

MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet IV. 2a. ed.São Paulo: Martins EdUSP, 1981.

terça-feira, 2 de maio de 2017

José Régio

             Li com interesse As raízes do futuro, segundo volume da saga A Velha casa, belíssimo romance do autor português, José Régio (1901-1969). Agrada-me a narrativa lenta, discreta, votada a acompanhar o cotidiano de uma família, atenta aos pequenos gestos, celebrações e conflitos. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, o autor fundou a revista literária Presença, que circulou em Portugal durante treze anos, entre 1927 a 1940. José Régio escreveu poesia, ficção, teatro, crítica, memórias, ensaios, em alta espessura estética. Como autor dramático, teve uma peça de sua autoria, Jacob e o Anjo, encenada em Paris, em 1952. Nos anos de 1950, exerceu larga influência em novos autores, presidindo encontros em lugares públicos, como o Café Central, em Coimbra, depois em  Portalegre. “Grande parte do jantar decorrera sem novidades, com as conversas do costume no estilo e tom costumados. Porém a dada altura, num intervalo de silêncio, que havia de ocorrer ao primo Hipólito? Aludir à carta de João. Como se espalhara a notícia dessa carta entre todos os parentes e aderentes, não se sabia claro. O certo é que se espalhara. E se a prima Ricardina fora viva, Deus lhe perdoe!, não deixara de gulosamente agarrar o assunto como infalível meio de magoar os seus hospedeiros. Tal não era a intenção do primo Hipólito. Mas o primo Hipólito era um desatento e um tímido. E quando um tímido desatento procura mascarar a sua timidez – é capaz, sem querer, de desencadear catástrofes!” (RÉGIO, 1972, 129-130).


                Autor de extensa obra, publicou, no gênero poesia, Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As encruzilhadas de Deus (1936), Filho do Homem (1961), Cântico suspenso (1968). Em ficção, os principais títulos compreendem o primeiro romance Jogo da cabra-cega (1934); Davam grandes passeios aos domingos (1941); O Príncipe com orelhas de burro (1942); Histórias de mulheres (1946); os cinco volumes da saga A velha casa: Uma gota de sangue (1945), As raízes do futuro (1947), Os avisos do destino (1953), As monstruosidades vulgares (1960), Vidas são vidas (1966). Para o teatro, destacam-se Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem-mãe (1947). Revela-se memorialista em Confissões dum homem religioso (1971), publicação póstuma. O ensaísta afirma-se em Ensaios de interpretação artística (1964) e Três ensaios sobre arte (1967).
                Li depois o terceiro volume (Os avisos do destino). Encontrei o exemplar na internet, capa dura em bela encadernação de iluminuras douradas, a edição de 1980, pela ed. Brasília, do Porto. Dosada com ironia e cuidadosa análise de caracteres, acompanha a narrativa a formação de Lèlito, focando, em riqueza de detalhes, o ambiente de pensões de estudantes em Coimbra, a vida acadêmica, algum namoro, a boêmia de uma geração de jovens escritores. As discussões a respeito da criação literária sublinham os conceitos de autenticidade e literatura viva, que constituem o legado teórico deixado por Régio em artigos publicados em Presença.
               O enredo simples, ao redor do desenvolvimento social, afetivo e intelectual de Lèlito, parece reunir, transfiguradas, passagens biográficas de José Régio. O reencontro dos irmãos (Lèlito e João), após o longo desaparecimento do segundo, possibilita a discussão de temas ligados à militância social.  Esse aspecto, um dos sentidos sugeridos pelo título, insinua-se nesta fala, proferida num quarto de estudante, diante de alguns simpatizantes: “O que tenho a dizer-vos – recomeçou João – é, ao mesmo tempo, muito simples, e difícil de dizer. Ou talvez ainda mais de compreender, quando se não viveu a longa e complexa experiência que tenho vivido: experiência dos fatos, dos seres, dos ambientes diversos; e também outra forma de experiência, que chamarei íntima” (RÉGIO, 1980, 399). Na sequência, o jovem e improvisado orador assegura a importância de partilhar a experiência adquirida: "Viver, conviver, observar, meditar... - eis as bases, creio, de toda a cultura viva. Uma aventura predominantemente doutrinária e teórica bem poderá conduzir à estreiteza dum fanatismo intolerante" (RÉGIO, 1980, 401). No geral, as avaliações à produção ficcional de José Régio reforçam platitudes genéricas, por vezes indiciadoras de um orquestrado processo de silenciamento em torno de uma obra monumental, desafiadora, em face de rasos parâmetros socializantes.
               
RÉGIO, José. As raízes do futuro. 2ª. ed.  Porto: Brasília, 1972.

RÉGIO, José. Os avisos do destino. Porto: Brasília, 1980.