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sábado, 18 de fevereiro de 2017

Desmontando as teses

Não sei se alguém já se atreveu a contar: o que antecede a escrita de um copião de tese acadêmica. Acompanhar o percurso desorientado, as anotações apressadas, as impressões desguarnecidas que poderiam fornecer mais tarde uma pista. 

                                     (Imagem: escrevendo o futuro. org.)

À frente, um livro inteiro, páginas inteiras coalhadas de riscos, chaves, colchetes, anotações, marcações de página onde a mesma ideia retorna, ref. bibliográfica. A marginália interpretativa, o comentário ingênuo destinado ao lixo. Riscos indicativos, na maioria incongruentes, de um pensamento fugaz, que não chegou a se consolidar, riscos que o leitor cansado (ou enfadado) faz à margem de um poema, uma descrição. Por vezes, um desenho grosseiro e tosco.
Registro as hesitações e tensões que antecedem a hora do lobo. Os inúmeros recheios, notas, reflexões, suposição que vamos alinhando, em geral, entusiasmados no fulgor provisório. As mutações e sobressaltos, em gradação só justificável no instante da colheita. Notas escritas a lápis alternam-se a outras, a tinta permanente, em cores variadas, vermelho, azul, preto, verde. Excertos de leituras variadas superpõem-se, Levinas, Barthes, Deleuze, Foucault, Todorov, Blanchot, Benveniste, Eduardo Prado Coelho, Fernando Pessoa. Ocioso frisar a importância da citação, nos moldes éticos e científicos.

Um livro de mais de 600 páginas abriga muito espaço para glosas – sérias, idiotas, explicativas, de sinonímia, ou simplesmente hilárias. Como o autor investigado era um poeta contemporâneo, um rol de palavras reiteradas: mãos, mágoas, corpo, rosto, riscos, folha, vento, sol, casa, ruas, versos, Um consolo, calado digo a mim mesmo: se tivesse aproveitado metade das sugestões, talvez a versão definitiva teria sido mais abrangente. O que poderia ter sido e não foi. O que não se reporta ao orientador. Os resíduos de um intricado jogo de xadrez.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Antônio Carlos Villaça


      O livro de Antônio Carlos Villaça foi um fenômeno de lançamento nos anos 70. Só recentemente tive condição de ler. É um caso raro de excelência num gênero pouco comum no país, o de memórias. A ciranda do autor entre um convento e outro, sua indecisão diante da vocação monástica, a busca desesperada de um sentido para a vida são questões fundamentais nesse livro pungente. A dilacerante busca de saída reflete a inquietude humana. A impressão é de que assim como se entra num convento, também se entra num associação benemérita, a condição humana não se dá por realizada. Os depoimentos a respeito de intelectuais com os quais conviveu são preciosos. Sobre Graciliano Ramos: “Graciliano era áspero e delicado, como os tímidos de seu tipo, o dos moralistas, inconformados, exigentes. Era um solitário” (VILLAÇA, 2006, 278). O escritor francês Bernanos, radicado num sítio perto de Barbacena, tinha um vozeirão. O poeta Augusto Frederico Schmidt era célere, apesar de gordo. A proximidade, o companheirismo entre os dois, fortalece a ideia de que o poeta teria sido um dos mediadores intelectuais da trajetória do autor. Sobretudo, fica o registro de uma autêntica vocação literária, o atribulado percurso de alguém que se não se contentava com a mediocridade.


      O autor traça um cuidadoso panorama do pensamento católico no país, dos anos de 1950 a 1970, detendo-se em nomes expressivos da nossa inteligência. Alceu Amoroso Lima, Bernanos, Gustavo Corção, Padre Penido (reconhecido na França como um expoente do tomismo), Padre Leonel Franca, Carlos Sussekind de Mendonça, Dom Abade Tomás Keller, Galdino do Valle, Augusto Frederico Schmidt, Osvaldo Neiva, Álvaro Americano, Rui Otávio Domingos, Dom Marcos Barbosa, Carlos Drummond de Andrade, Rodrigo Otávio Filho, João Condé, Manuel Bandeira, D. Aquino Correia, figuras centrais de nossa intelectualidade, formam o diversificado círculo em que se movimentava.
      Por vezes mostra-se áspero em relação a amigos. Como Alceu Amoroso Lima. “Repete-se muito, vive preso a seus esquemas, divisões, subdivisões. É seu feitio e ele próprio o confessa, o admite e nos diz que recorre aos esquemas para não se perder. Como seria bom para nós e para ele que se perdesse. Alceu me pôs em contato com a cultura universal, através de seus livros maçudos, seus artigos maçadões, suas conferências desordenadas” (VILLAÇA, 2006, 131).
      Muitas páginas, ainda que impregnadas de religiosidade, não perdem o elo visceral com a vida, revelando por vezes a vaidade e o artificialismo das relações. "Oh interminável estrada, ó ruas do mundo, ó caminhos da vida, ó rio dos homens por onde incessantemente rolamos como gloriosos destroços" (VILLAÇA, 2006, 215). Vindo de um intelectual de tendência universalista, de raízes humanistas, alguns pensamentos fulguram: “Creio na extrema lucidez do irracional. E desconfio da clareza, da sistematização, da logicidade, que é pobre, da racionalidade ordenadora”. (...) “A grande arte não admite pressa. Mas a grande arte exige amor e ódio” (VILLAÇA, 2006, 328). O Nariz do morto desmitifica a ideia de que o conhecimento do mundo seria patrimônio de cientistas pragmáticos, ateus acima de tudo. Aprendemos com o autor a extrair do mínimo percepções profundas.

VILLAÇA, Antônio Carlos. O nariz do morto. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2006.