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quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Cabo Frio

      E lá fomos, curtir oito noites em Cabo Frio. Para quem não sabe, Cabo Frio abriga atualmente mais mineiros que as praias capixabas, depois que um prefeito de Guarapari anunciou que ia cobrar pedágio aos turistas oriundos das Gerais. Bom para nós, uma vez que somos brindados com melhor infraestrutura, praias mais descoladas (limpas, de areia branca) e o humor dos cariocas. A cidade, além de oferecer boas praias (Dunas, do Forte, Peró), é também porta de acesso a outros destinos, como Arraial do Cabo, Búzios, Rio das Ostras, com praias para todos os gostos (Azeda, Azedinha, Ferradura, Tartaruga, Geribá). Todas praticamente lotadas de turistas nesse final de férias.

                                       (Forte São Mateus. Foto; soguimóveis.com.br) 

      Mas nem tudo é maravilhoso com areia branca e fina, ela tem seu lado predatório: por refletir o sol, queima mais intensamente no seu entorno, o calor excessivo chega a incomodar. Isto aliado ao clima úmido e quente da região é um tanto perigoso, acelera o bronzeamento, com os riscos inerentes. Todo o cuidado é necessário. No meu caso,voltei tão queimado que pareço egresso da Índia, toda manhã preciso me certificar de que eu sou eu mesmo. As praias de Arraial do Cabo têm água super gelada, parece que fomos levados para a Antártida. A praia do Peró, a preferida pelas famílias, depois da praia do Forte,  é retalhada por buracos na areia onde o mar bate. 
      Observar os vendedores ambulantes é um espetáculo à parte: homens, mulheres, garotos e idosos. Aliás, os idosos detêm melhor desempenho de marketing: aproximam-se das barracas, entabulam conversa, oferecem seu produto. Vendem quase tudo: sacolés, espetinhos, cocos, sucos, cerveja, salgados, queijo de coalho, bolinhos de aipim, quibes, empadas. No próximo ano tem mais, mas então vou evitar época de férias. Congestionamentos, filas para todo lado.
      

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Alceu Amoroso Lima

Livro do mês:    

       Atualizado e publicado em 1956, em primeira edição, por Alceu Amoroso Lima (1893-1983), há pouco mais de sessenta anos, Quadro sintético da Literatura Brasileira ocupa posto singular em nossa historiografia literária, tendo em vista a importância do autor no contexto cultural desde os anos de 1940. Corresponde a uma significativa reavaliação do legado modernista, além de seu estatuto de registro privilegiado, decorrente da participação de Alceu A. Lima, principal liderança católica entre os intelectuais, em inúmeros eventos dignos de relevo.

                                            (Foto: Núcleo de memória PUC-Rio)

            A busca de uma visão abrangente nem sempre logra resultados positivos; o recorte que se pretende abreviado mostra-se por vezes excessivamente resumido (no caso do Simbolismo). A esse aspecto, releve-se o reiterado cuidado do organizador em referir o caráter panorâmico, de voo de pássaro, adotado. No último parágrafo do capítulo dedicado ao Simbolismo, após referir Cruz e Souza, Alphonsus de Guimarães e Mário Pederneiras, afirma; “sem mencionar os poetas menores que esta curta memória não comporta” (LIMA, 1959, 60). A matéria apresenta-se sob um enfoque geral tripartido (Fase colonial, Fase imperial, Fase moderna), em que as duas primeiras vertentes parecem denotar inferências sociológicas ou políticas; as subdivisões acolhem critérios baseados nos estilos de época (a Fase imperial cobre dois momentos –“Romantismo (1830-1870)” e “Realismo e Naturalismo (1870-1890)”. A denominação da terceira fase aparentemente foge ao formato seguido nas duas primeiras: sua nitidez decorre do lastro de autonomia que subentende. Inventário cuidadoso de nomes e obras,  o livro alcançou largo prestígio ao longo dos anos de 1960 a 1970. A fundamentação filosófica que alicerça o esboço dos distintos contextos assenta-se em produtivo diálogo com o movimento das ideias instalado no solo europeu. No prefácio desta segunda edição, somos informados que algumas alterações teriam sido efetuadas levando em conta a “colaboração crítica de leitores”. Alguns comentários e posturas interpretativas revelam as esperadas idiossincrasias do autor: a destacada importância atribuída ao grupo de escritores católicos dos anos 1940 e 50 e a defesa da crítica impressionista, considerada como “uma forma indireta de humanismo”. No primeiro tópico, percebe-se a vigilância de alguém que viveu de perto aquela inquietação, como se acompanhasse o próprio percurso de convertido.
            Com a distância de mais de meio século, alguns temas desenvolvidos, hoje, se ressentem de uma postura um tanto apressada, em abordagem ziguezagueante, num movimento ondulatório, que avança um passo, atrasa dois. Josué Montello, romancista, tem uma referência rápida, sem referência a obras, embora receba destaque como ensaísta. O colaborador Eduardo Portela é assinalado de forma equivocada, Eduardo Fontela (p.82). A atuação de Oscar Mendes é reconhecida, sem alusão a títulos publicados. Alceu, como todo crítico, gosta de inventar tendências ou palavras, como “gramaticalidade metalógica”, de conceituação obscura. O gosto dos confrontos tem no autor um praticante entusiasta. A publicação modernista mineira, Revista, ocorreu em 1925, não em 1930, como se lê à página 81. A ausência de uma bibliografia geral e a de um índice onomástico alinham-se como falha capital. Os capítulos focados no Modernismo e Neomodernismo são o ponto alto, com avaliações ainda válidas e oportunas. “A beleza é essencialmente mutável e relativa. Não há modelos, nem fórmulas, nem formas válidas para sempre” (LIMA, 1959, 126).



LIMA, Alceu Amoroso. Quadro sintético da Literatura Brasileira. 2a. ed. Rio de Janeiro: Agir, 1959

domingo, 1 de janeiro de 2017

Augusto Meyer


            Acredita-se que a poesia foi a primeira manifestação humana. Em muitos países, os poetas foram os pioneiros no uso estético das palavras, na elaboração de seus sentimentos e emoções.


O escritor gaúcho Augusto Meyer (1902-1970), hoje mais conhecido como ensaísta, um dos principais nomes brasileiros nesta área, iniciou, muito novo, publicando livros de poesia, A ilusão querida (1923), Coração verde (1926), Giraluz (1928), Poemas de Bilu (1929).

                                             (Augusto Meyer por C. Portinari)

 Dirigiu o Instituto Nacional do Livro, desde a sua criação (1938), no governo Vargas, ao longo de quase duas décadas (até 1956). Eleito em 1960 para a Academia Brasileira de Letras, tomou posse em 1961. No ensaio, destacam-se os títulos Machado de Assis (1935), À sombra da estante (1947), Preto e branco (1956), Camões, o bruxo, e outros estudos (1958), A forma secreta (1964). Em 2008, a editora José Olympio deu a lume Augusto MeyerEnsaios escolhidos, com seleção e prefácio de Alberto da Costa e Silva. Augusto Meyer foi também tradutor. Camões, Eça de Queirós, Garrett e Machado de Assis figuram entre os autores analisados.
      Sobre sua poesia, afirma Péricles Eugênio S.Ramos: "É a principal figura do modernismo gaúcho, (...) projeta-se a partir de Coração verde, livro no qual praticou uma poesia melancólica, embora otimista, cheia de presença da terra, bem como de doçura e humildade, e tocada eventualmente por uma ponta de ironia. A expressão é por vezes meiga e idílica" (RAMOS, P. E. S., 1969,159).Para saudar o Ano Novo, um poema de sua autoria.

GAITA

Eu não tinha mais palavras,
vida minha,
palavras de bem-querer;
eu tinha um campo de mágoas,
vida minha,
para colher.

Eu era uma sombra longa,
vida minha,
sem cantigas de embalar;
tu passavas, tu sorrias,
vida minha,
sem me olhar.

Vida minha, tem pena,
tem pena da minha vida!
Eu bem sei que vou passando
como a tua sombra longa;
eu bem sei que vou sonhar
sem colher a tua vida,
vida minha,
sem ter mãos para acenar,
eu bem sei que vais levando
toda, toda a minha vida,
vida minha, e o meu orgulho
não tem voz para chamar.

(Coração verde, 1926.)

RAMOS, Péricles E. S. Verbete Augusto Meyer. PAES, J. Paulo; MOISÉS, Massaud. Org. Pequeno dicionário de Literatura Brasileira. São Paulo: Cultrix, 1969, 159.