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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Belo Horizonte

      Em homenagem aos 120 anos de Belo Horizonte, que hoje se comemoram, transcrevo página do romance Outono atordoado, alusiva à cidade. Clique.




sábado, 9 de dezembro de 2017

Joaquim Manuel Magalhães

Livro do mês:     

      Joaquim Manuel Magalhães (Consequência do lugar é de 1974) está ligado à geração poética surgida em Portugal nos anos 70 e aos jovens que em 1976 lançaram Cartucho – Antônio Franco Alexandre, Helder Moura Pereira, João Miguel Fernandes Jorge. Esta experiência coletiva assinala um aspecto básico para a compreensão de sua poesia, a companhia de outros, a elaboração criativa a partir da leitura de outros autores. A dimensão de poeta crítico pode ser delineada através do percurso que vai de Os dois crepúsculos (1981) a Dylan Thomas (1982), de Um pouco da morte (1989) a Rima pobre (1999). A poesia de Cartucho (poemas amassados, à semelhança de bombons) mostra-se particularmente voltada para a reabilitação da subjetividade e a expressão do desejo. De acordo com sua formulação, a geração dos anos 70 assume “um discurso cuja tensão é menos verbal do que explicitamente emocional” (Magalhães, 1981, 258).



      Seu poema subentende a marca cética da linguagem: ainda quando emerge de sentidos localizáveis, recusa quaisquer certezas ou paraísos e sobrevive, sempre, no limiar da dúvida: “Não és real, eu não existo./ Raízes desertas do auriga.” (Magalhães, 1990, 14) Construída nas bordas (e nas dobras) da realidade, transfere para a espessura da linguagem a respiração vertiginosa da paisagem urbana:

         (…) Uma vez
         saí da cidade para a aldeia costeira.
         Cantavam. Perguntou
         o que era o jantar, apanhou canas,
         com um golpe de rins soltou um ramo
         da macieira. A lua recebe a luz
         do seu corpo deitado. (Magalhães, 1990, 31)

      O cenário físico, com suas conotações específicas de luminosidade, configura um recorte luminoso da experiência, estabelecendo uma irradiação entre a natureza e o sujeito nela inserto:

         Os rilheiros dos cereais em rama
         e os almenares de palha erguiam-se
         na eira bem lavrada de travessia e de forcão.
         Os melros entoam um canto de companhia
         fugitivo, metálico sobre nós os dois. (Magalhães, 1990, 48)

      O poeta cria um simulacro da realidade, dela lhe chegam vestígios indecisos que apontam para uma das funções da poesia: transfigurar o real ou transformá-lo em antídoto:

         Detesto a poesia. Essa tarefa
         debruada de troca social. (“Transvasamento”)

      Detestar a poesia por sabê-la espaço de transferência das utopias? A única provável permanência? O terreno minado onde pulsam as ilusões da representação? Um forma de diálogo impossível, uma vez que sempre escapa alguma coisa na depuração da linguagem: do um apenas com todos os outros?


MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Uma luz com toldo vermelho. Lisboa: Presença, 1990.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

As querelas do Prêmio Oceanos 2017

      Divulgada a lista dos premiados em 2017 no Prêmio Oceanos, Maria Teresa Horta, premiada ex-aequo em quarto lugar, expôs sua recusa ao mesmo. Importantes autores portugueses têm-lhe endossado apoio, por considerarem falta de respeito ou "humilhação" um quarto lugar, dividido com outro escritor. Em verdade, Maria Teresa Horta, desde a década de 1960, vem produzindo uma obra de excepcional qualidade na poesia portuguesa contemporânea. Mas não se trata do Prêmio Camões, honraria que contempla a totalidade da obra, pode-se argumentar. Mesmo assim, a romancista Inês Pedrosa, no blog Delito de opinião, observou: "Não achavam Anunciações - a obra em causa neste prémio - digna do Prémio? Não a premiassem, e assumissem essa decisão. Dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino é que não é coisa que se faça a uma autora que, desde 1960, quando publicou a colectânea de poemas Espelho inicial, até hoje, construiu uma obra ímpar, com mais de 40 livros publicados". Contam-se, dentre outros, títulos da consistência de Tatuagem (1961), poemas incluídos na publicação coletiva Poesia 61, Amor habitado (1963),  Minha senhora de mim (1967), as ficções Ambas as mãos sobre o corpo (1970), As luzes de Leonor (2011). Sem esquecer a coautoria de Novas cartas portuguesas (1971), juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, obra considerada transgressora pela censura salazarista, submetida a ruidoso processo policial, de amplas repercussões.
      O menino referido, o escritor brasileiro Bernardo Carvalho, tem 57 anos e 11 romances, alguns publicados em Portugal: foi justamente o primeiro vencedor do Prêmio Portugal Telecom, origem do atual Prêmio Oceanos, em 2003, com o romance Nove noites. Com o impasse, Selma Caetano, curadora do Oceanos, afirmou que o prêmio relativo ao quarto lugar será integralmente destinado a Bernardo Carvalho. Integraram o Júri seis intelectuais  e editores brasileiros, Beatriz Resende, Mirna Queiroz, Heloísa Jahn, Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz, além do português Antônio Guerreiro e a luso-angolana Ana Mafalda Leite.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Prêmio Oceanos 2017

      Foram anunciados ontem, no Instituto Itaú, em São Paulo, os vencedores do Prêmio Oceanos de Literatura de 2017. A premiação passou a levar este nome em 2015, após mais de uma década ser conhecida como Prêmio Portugal Telecom. Concorrem as obras lançadas em língua portuguesa no ano anterior; neste ano os finalistas somaram 51 títulos (31 brasileiros, 19 portugueses, um angolano).
      A grande vencedora deste ano é a portuguesa Ana Teresa Pereira, com o romance Karen (Relógio D'água). Colecionadora de troféus, com mais de duas dezenas de títulos publicados, surgiu como escritora em 1989, ganhando o Prêmio Caminho de Literatura Policial, com Matar a imagem; em 2005, sua obra Se nos encontrarmos de novo foi considerada a melhor ficção do ano pelo PEN Clube Português e, em 2007, seu romance A neve faturou o Prêmio Máxima de Literatura.

                                                         (Foto: dnotícias.pt)

      Silviano Santiago, outro colecionador de distinções, ficou em segundo lugar, com Machado (Cia. das Letras), título também ganhador do Jabuti deste ano. Com o romance Mil rosas roubadas, o autor mineiro foi o vencedor da primeira edição do Oceanos, em 2015.
      O terceiro lugar coube a Helder Moura Pereira, com o livro de poemas Golpe de teatro (Assírio & Alvim), que recebeu em abril o Grande Prêmio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores). Autor de títulos marcantes da poesia portuguesa contemporânea (como Sedução pelo inimigo, Carta de rumos, Um raio de sol, Mútuo consentimento,  Lágrima),  Helder M. Pereira, como os outros portugueses premiados, inédito no Brasil, vem sendo, enfim, justamente reconhecido. Ao lado de mais três poetas (Antônio Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães), Pereira  participou do histórico Cartucho, (Lisboa, 1976), objeto de análise em minha tese de doutorado, defendida em 1997 na UFRJ, publicada depois, sob o título de Portugal, poetas do fim do milênio (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999).
      No quarto lugar, ficaram empatados dois livros: Anunciações, da poeta portuguesa Maria Teresa Horta, e Simpatia pelo demônio, do brasileiro Bernardo Carvalho.
      Os vencedores recebem quantia em dinheiro: R$100 mil para o primeiro colocado, R$60 mil para o segundo; R$40 mil para o terceiro; R$30 mil divididos entre os dois classificados em quarto lugar.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Frans Krajcberg (1921-2017)

      Aos 96 anos, morreu ontem, no Rio de Janeiro, Frans Krajcberg, artista plástico de grande projeção internacional, conhecido pelos trabalhos feitos em madeira calcinada de incêndios florestais. Nascido na Polônia, morou na Rússia, onde estudou engenharia e artes, e na Alemanha, tendo perdido os familiares em campo de concentração nazista. Em 1948, chegou ao Brasil, naturalizando-se brasileiro em 1957. Apaixonado pelo país, fixou-se inicialmente no Paraná, depois na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Artista múltiplo, escultor, pintor, fotógrafo, gravurista, atuou no território limítrofe entre a arte e a militância ecológica. Sua obra em geral caracteriza-se por intervenções em troncos e raízes, considerados como objetos visuais de forte impacto espacial.

                                   
                                                  (Imagem: conexão planeta.com.br)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nélida Piñon

      Livro do mês




      Compete às sagas serem portadoras dos valores e apreensões do contexto em que foram escritas. No caso de A república dos sonhos, depara-se o leitor com uma visão de mundo esfacelada pelo arbítrio de uma ditadura, a um tempo impiedosa diante da corrupção e dos movimentos libertários. O Brasil, como república de sonhos, expõe-se como território recetivo aos imigrantes, ao mesmo tempo em que se busca reescrever seu fantasioso passado de impunidade, de prodigalidade inquieta, fonte de oportunidades e expectativa de desenvolvimento. O mito da terra provedora, de riquezas inesgotáveis, perpassa ao longo dos capítulos da trama: “Era hora de voltar a escavar as terras brasileiras, em busca de tesouros. Sempre teve certeza de encontrá-los” (PIÑON, 2015,126).


      A paisagem ensolarada de Galícia paira sobre as personagens que de lá saíram, na ilusão de se enriquecerem numa América coroada de fartura e extravagância. Em polos opostos, movimentam-se os protagonistas Madruga e Venâncio. Em Madruga presenciamos a sedução pela aventura numa América construída em sonhos, cultivados por uma desenfreada ambição: “De resto, sou ainda um estrangeiro nesta terra, sob permanente suspeita. Meu único sonho é conquistar o Brasil” (PIÑON, 2015,168). O apelo da aventura, envolta nas asas da cobiça, norteia os seus movimentos, ao se deparar com as oportunidades de trabalho e riqueza.
      Viver no Brasil para Venâncio só se justifica se puder projetar nos elementos naturais a lembrança comovida de sua terra distante: “Quantas vezes, desta varanda do Leblon, poderiam eles, em seguidos exercícios de imaginação, alcançar a Galícia em rápidas braçadas, levados apenas pelos alísios, favoráveis à navegação” (PIÑON, 2015,301). Galego aqui exilado, europeu que se deixa aos poucos e com dificuldade contaminar pela cultura tropical, compõe um diário, importante documento de interpretação de hábitos e costumes brasileiros: “Ninguém aqui se isenta facilmente dos apelos sexuais. Eles ganham forma pela manhã, sem hora de se esgotar” (PIÑON, 2015,390). O lento e gradativo processo que encaminha Venâncio à loucura produz devastadora destruição no ânimo de Madruga, o antigo amigo de todos os dias. “Os motivos que atraíram Venâncio à América divergiam frontalmente dos seus. Ele não viera de tão longe para esburacar a terra pelas manhãs, criando bolhas e feridas pelo corpo, em busca de um tesouro. O único tesouro de Venâncio consistia em preservar o direito ao sonho” (PIÑON, 2015,252).
      A produção de um romance vigilante em relação ao tempo de sua escrita – e numa dimensão grandiosa – acarreta alguns ajustes de contas ao autor. Um deles, inarredável, diz respeito à aceitação resignada da impotência de sua geração diante da avassaladora opressão instalada pelo estado autoritário. Vários blocos narrativos alternam-se, sem que a linguagem tendente ao poético e às digressões reflexivas se modifique. Projeto arrojado, complexo, realizado numa extraordinária combinação de sabedoria e excepcional domínio de recursos.
      A lenta e extenuante agonia de Eulália atravessa todo o relato que se alastra esmiuçando as escaramuças familiares, a agrura de viver num espaço a princípio inóspito e os expedientes adotados pelos imigrantes no esforço de adaptação à nova terra. Personagens reais misturam-se aos fictícios, com os quais se moldam harmoniosamente, como os botões novos ocupam o lugar antes ocupado por outros que se perderam. Santiago Dantas, Manuel Bandeira, Getúlio Vargas ocupam algumas páginas com sua aura histórica polida, sem influenciar a sequência da trama, convocados a compor um canto da moldura de um quadro previamente esboçado. Ao narrador multifacetado não escapam as sutilezas dos pequenos gestos, nem a desmedida das grandes empreitadas.







PIÑON, Nélida. A república dos sonhos. Rio de Janeiro: Record, 2015. (Edição comemorativa dos 30 anos)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Herberto Helder

Livro do mês: Poesia toda

      Os grandes livros de poemas não são lidos de uma assentada. Vão sendo lidos aos poucos, de vagar, como devem ser. A eles voltamos com frequência e muito gosto. Com Poesia toda, de Herberto Helder (1930-2015), não foi diferente. Sempre que me via carente de bons poemas, voltava ao tijolão de 575 páginas. O que se seguia eram instantes de puro encantamento e renovado prazer.
      Herberto Helder, possuidor de uma escrita exuberante e hermética, volta-se para o resgate de energias arquetípicas em A colher na boca (1961), A máquina lírica (1964), O bebedor noturno (1968), Cobra (1977), A cabeça entre as mãos (1982). Segundo Natália Correia, “A poesia de Herberto Helder, sempre obsessiva, reflete como que um imenso orgasmo sem fim. Nela, a mulher – o gênero, mais que o amor individualizado – é a musa universal, receptáculo dos seus excessos e do êxtase que o projeta numa insaciável tensão. Daí, a corrosão de um erotismo que nele é visceral, orgiástico, e que mais não cessa, qual canto cósmico da atitude de amar e da presença matriarcal” (CORREIA, 1999, 455).


      A expressão dessa voz lírica arrojada, de um fôlego desmedido, vem desde o primeiro livro revelando-se dotada de uma dimensão mágica e cosmológica, nomeando e exaltando o corpo feminino como força aglutinadora de energias universais:

      “Dai-me uma jovem mulher, com sua harpa de sombra
      e seu arbusto de sangue. Com ela
      encantarei a noite.
      Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
      Seus ombros beijarei, a pedra pequena
      do sorriso de um momento.
      Mulher quase incriada, mas com a gravidade
      de dois seios, com o peso lúbrico e triste
      da boca. Seus ombros beijarei.

      Cantar? Longamente cantar.
      Uma mulher com quem beber e morrer.
      Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
      o atravessar trespassada por um grito marítimo
      e o pão for invadido pelas ondas -
      seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
      Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
      de alegria e de impudor.
      Seu corpo arderá para mim
      sobre um lençol mordido por flores com água.

      Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
      E enquanto ao dorso imagina, sob os dedos,
      os bordões da melodia,
      a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
      desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
      - Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
      as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
      mulher de pés no branco, transportadora
      da morte e da alegria.

       Dai-me uma mulher tão nova como a resina
      e o cheiro da terra.
      Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
      E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
      cantarei seu sorriso ardendo,
      suas mamas de pura substância,
      a curva quente dos cabelos.
      Beberei sua boca, para depois cantar a morte
      e a alegria da morte”.
      (…)
      (HELDER, 1990, 18-19)

      O efeito em mim produzido pela poesia de Herberto Helder corresponde antes a um mergulho num discurso matizado de efeitos fantásticos e cognitivos, mais do que uma passiva fruição de uma delirante montagem de imagens. Percebi nos seus poemas uma recolha de associações oníricas, mais do que um inventário de práticas poéticas cristalizadas. Uma inusitada capacidade de dizer coisas simples e belas, ao mesmo tempo, algo como -

      “Somente o mundo é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
            aos laços
            das constelações. (…)
      Porque o corpo é uma gruta de onda saltam
      os sóis, uma insónia que liga
            o dia ao dia,
      pelos jardins trespassando os estúdios
      ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
            astros brancos”.
      (HELDER, 1990, 376)

      “E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
      cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
            às janelas
      as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
            do espelho de onde salta
      uma braçada de luz. Cada lenço que ata
            a própria seda do lenço
      o desata”.
      (HELDER, 1990, 364)

      Como se a leitura só pudesse alcançar sua efetiva evolução se nos despíssemos, nos desnudássemos forçosamente do arcabouço lógico. Então era aceitar o desafio: enveredar sem freios numa desordenada aventura verbal, executada com pleno domínio de ritmo, sem desvios sintáticos e sobressaltos sentimentais. A leitura de Herberto Helder demanda um ajuste no sentido de codificar um discurso de exaltada espessura subjetiva e alargada densidade emotiva. Até 2015, era considerado o maior poeta português vivo, com todo o merecimento.


CORREIA, Natália. Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. 3a. ed. Lisboa: Antígona & Frenesi, 1999.
HELDER, Herberto. Poesia toda. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.
PEREIRA, Edgard; OLIVEIRA, Paulo Motta; OLIVEIRA, Silvana M. Pessôa de. Intersecções – ensaios de literatura portuguesa. Campinas: Komedi, 2002.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Os cadernos culturais

Os (cada vez mais) precários cadernos de cultura


      A convivência com escritores, de alguns anos para cá, serviu para fundamentar informações que envolvem alguns aspectos ligados à imprensa escrita. Reclamam, os escritores em geral, e só por eles posso falar, que cada vez mais se deteriora a cobertura por parte da imprensa a eventos na área literária. O silêncio, a falta de eco nos ditos cadernos específicos, de notas e informações sobre o cenário cultural (eventos, lançamentos, exposições), pode estar ligado a vários fatores. Em alguns casos, de pessoas que mantêm presença nas redes sociais, através de blogs, nos quais expõem opiniões e posturas, a falta de eco tem lá razões de ordem política, ou ideológica. A cor dos olhos é um argumento pequeno para motivar posicionamento de natureza social.

                                                       (Imagem:jws.com.br)

      Se o enunciador não se exime de fazer comentários não alinhados com as expectativas de determinado grupo, pode tornar-se alvo de críticas negativas oriundas desse grupo. Como vivemos uma época de adesões e rejeições que sempre possuem desdobramentos partidários ou políticos, aí o caldo engrossa de vez. Qualquer indício de apoio ou simpatia por ideias ou crenças será lido de forma inflamada pelo grupo que se alinha no lado oposto. Na realidade brasileira contemporânea, os cadernos culturais são remanescentes de um jornalismo de rosto socialista, refratário às críticas direcionadas aos descaminhos recentes da política de esquerda nos últimos treze anos de governo petista. O que se observa é um jornalismo de raso lastro intelectual, de espessura medíocre, que não suporta análises matizadas de maior envergadura e consistência hermenêutica. Nas configurações mais comuns e espalhadas, são redutos adestrados pela narrativa de que houve golpe com o impeachment da presidente afastada. No caso da literatura, área já solapada pelos ditos estudos culturais dos anos recentes, alijada da cobertura jornalística, o estrago pela não divulgação de eventos é maior. Quem fica prejudicada é a sociedade, atulhada de fofocas e pitis de famosos, desprovida de um canal eficiente e imparcial de informação e serviço.    

sábado, 30 de setembro de 2017

Edgard Pereira

Livro do mês:

Dias portugueses e outros

      O gênero diário tem uma pegada no cotidiano, no ritmo vertiginoso dos acontecimentos. Há diversos perfis de diário, desde aqueles diários meio clandestinos, escrita secreta em que se registram os segredos íntimos, que em geral ficam escondidos e não são destinados à publicação. 


      Dias portugueses e outros é um livro que não se enquadra nesse perfil de diário íntimo. De natureza mais aberta, engloba, além de eventos pessoais e familiares, ocorrências ligadas ao contexto mais amplo da sociedade. Simultaneamente escrita de si, de eventos que reverberam na subjetividade e de ocorrências sociais, ainda que filtradas pelo sujeito que as anota, as páginas resultantes constituem uma tentativa de compreensão da realidade. O esforço de representação da realidade, afastando-se da camada superficial da espuma dos dias, que é matéria jornalística, pretende elevar-se a uma dimensão reflexiva. Diante de múltiplos sinais e acontecimentos, o escritor posiciona-se buscando novos sentidos para interpretar os fatos.
      Edgard Pereira, nascido em Minas Gerais em 1948, estreou como ficcionista em 1976, com o livro de contos Violeta Trindade, ao qual sucederam O lobo do cerrado (1996) e o romance Outono atordoado (premiado pela Xerox do Brasil em 2001). Professor aposentado de literatura portuguesa da UFMG, doutor em Letras pela UFRJ, de sua produção como crítico literário e ensaísta constam os títulos Portugal, poetas do fim do milênio (1999), Mosaico insólito (2006) e Arquivo e rota das sombras, edição portuguesa de 2014.


PEREIRA, Edgard. Dias portugueses e outros. Belo Horizonte: Suspiros PS, 2017.


sábado, 26 de agosto de 2017

Evaldo Balbino

     

Livro do mês:

      A poesia de Evaldo Balbino, estampada no livro Moinho, transita, hábil, por sólidos e tradicionais veios, como as trilhas aladas de Cecília Meireles: “Escrevo porque o tempo insiste / e a minha vida está incompleta”. O próprio título acolhe uma dimensão circular, de uma operação que se repete no tempo, afeita a triturar grãos. O forte simbolismo da preparação do alimento enriquece o ofício, concebido como aprendizagem e partilha de conhecimento. Recupera por vezes o estatuto primitivo do vate, de procedência ancestral, o bardo arrebatado, posto em delírio: “Minha alma é secular / como o meu corpo. / Quer copular antes da morte / que os come” (“Um modo”).


      Pulsando em rotas contraditórias, inerentes à contingência existencial, o poeta faz emergir, simultânea à aferição da implacável condição humana fadada ao sofrimento, o reiterado apelo à fruição - “Vivamos, / mesmo que os moinhos estejam mortos / e o que se trituram/ são apenas sonhos” (“Clareira”). O sujeito poético, impulsionado pelo labor de escolher e misturar palavras, equilibra-se, exposto às intempéries, entre o rigor e a impassibilidade da pedra e a leveza do ar: “Escrevamos / um moinho de pedra / incorruptível”. Escrever impõe-se como atividade fundamental, exercida sob “o nervoso atrito de meus dedos”, incapaz de eliminar o sentido da urgência: “dia após dia eu não tenho / nada mais que palavras se ofertando / ao sustento infindável dos meus sonhos” (“Entre duas margens”).



BALBINO, Evaldo. Moinho. Belo Horizonte: Scriptum livros, 2006.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Novo livro

      Saindo do prelo, um mergulho no passado recente,
Dias portugueses e outros. Aguarde.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Em louvor da cachaça


      A aguardente produzida com a cana-de-açúcar, vulgarmente conhecida como cachaça, cana ou pinga, é uma bebida bastante popular no Brasil. Com cachaça e limão, prepara-se a famosa caipirinha, coquetel fartamente celebrado. A cachaça também inspira poetas, como se observa nas quadras de Paschoal Motta e Hélio Petrus, em duelo poético.





BEBA, HÉLIO, A SUA ARCANA;
VOU DE SUPER DUBARROSO,
ESTA DA MAIS PURA CANA,
ME TORNA SEMPRE GARBOSO.
 
VALE A VIDA COM ALEGRIA,
NA PINGA DE PREFERÊNCIA,
SAUDÁVEL, SEM ALERGIA,
POR TODA MINHA EXISTÊNCIA.
 
... Aí:
 
HP, de pronto, joga verde com propostas sutis, numa manha:
 
    FAÇAMOS, ANTES, UM PACTO:
    SÓ DIZER O VERDADEIRO;
    NÃO VALE CAIR NO MATO
    E ESCORREGAR DO POLEIRO...

    SOU JUSTO EM MINHAS RAZÕES,
    DESDE PEQUENO EU BENDIGO:
    NUNCA TOMEI BELISCÕES
    ABAIXO DO MEU UMBIGO...
 
    SE ALGUMA MENTIRA DIZ,
    PEÇA PRIMEIRO LICENÇA:
    VOU CONSULTAR O JUIZ
    PRA VER SE EXISTE CLEMÊNCIA.
 
COM POUCOS VERSOS DERRUBO
ESSA LOQUAZ PRETENSÃO:
ARCANA NÃO É DO VULGO,
É CANA DE SELEÇÃO.
        
PM apela e recorda seu etéreo protetor etílico:      
 
 BACO PASSOU POR SÃO PEDRO
 ESPALHANDO A SUA GRAÇA,
 OS PURIS NO MATO TREDO
 SE ACALMARAM C’A CACHAÇA.

 COMO FOSSE NUM NIRVANA,
 OS ÍNDIOS VIVIAM AO LÉU,
 PLANTARAM ROÇAS DE CANA,
 PRA DUBARROSO DO CÉU...

 BACO ACERTOU A RECEITA
 PARA A ALEGRIA FUTURA,
 A PINGA ESPANTOU A MALEITA;
 E HOJE ARCANA QUEM ATURA?

 SÓ UM INCRÉU D’ARCANA INGERE
 UMA GOTA E MAIS NADA;
 DUBARROSO QUEM PREFERE
 TEM A FÉ RECUPERADA...
HP rebate com ameaça de seus protetores num juízo final:

TODO O JUIZ IRMANA
NUM JUÍZO PAVOROSO:
AOS BONS ELE DARÁ ARCANA;
AOS INFIÉIS, DUBARROSO.

ORDENARÁ A SEUS ANJOS
A SEPARAÇÃO ARCANA:
FAZENDO LINDOS ARRANJOS
À DIREITA, COM ARCANA.

DESPEJARÁ TODA IRA
DO SEU TRONO MAJESTOSO,
QUEIMANDO EM CELESTE PIRA
A INFERNAL DUBARROSO:
 
O POVO INGRATO E MALDOSO,
DE CAIM, RAÇA ESQUISITA,
ADORAVA DUBARROSO,
E EM JAVÉ NÃO ACREDITA!







sábado, 15 de julho de 2017

Miguel Torga

      O autor português Miguel Torga (1907-1995), pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, produziu obras literárias na área da ficção, da poesia, do teatro e do memorialismo. Na juventude, passou uma temporada de cinco anos no Brasil, mais precisamente na região de Leopoldina, Minas Gerais, em fazenda de um tio, tendo frequentado o Ginásio Leopoldinense. Sobre a permanência de Torga em solo brasileiro, registre-se o trabalho exemplar de Pedro Rogério Couto Moreira, desenvolvido a partir da leitura de páginas do Diário, do autor português e de pesquisas de campo - Geografia sentimental de Miguel Torga em Minas (Brasília, Thesaurus, 2016).

                            (Foto: formatura no curso de medicina, espacomigueltorga.pt)

"Coimbra, 25 de maio de 1949. O Marquês de Sade. Um calafrio que só as leituras proibidas dão. A gente volta cada página arrepiado, com a sensação de que está a meter a alma no Inferno. E é essa inquietação que todos os livros deviam provocar. (...) O homem necessita do pecado para viver, como de especiarias para comer. Julgo mesmo que o futuro se esforçará por contrariar cada vez mais a sonolência beócia das páginas cor-de-rosa.

Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935 — Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era".


Do Diário V.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Adélia Prado

Livro do mês:        


          Adélia Prado logra executar, em Os componentes da banda, uma partitura narrativa desfibrada, sem músculos. Fruto de uma arejada conceção do que seja uma novela, ou um concerto verbal de feição aglutinadora, a obra acolhe breves relatos, receitas domésticas, reflexões intempestivas, pensamentos aleatórios, esboços de poemas, lembranças do passado, registros diários e devaneios de uma anódina rotina doméstica. A narradora não faz segredos de seu estatuto de dona de casa, em segundo casamento, envolvida em tarefas corriqueiras, pequenos compromissos, eventos banais, efemérides citadinas e familiares. Na verdade, uma dublê de dona de casa e professora: “Em plena aula a cantineira abre a porta, sem bater: ‘ponho o que pra senhora hoje? Tem empada e biscoito frito.’ Sinto tanta vergonha que não tenho coragem de escolher. Põe qualquer coisa, falo depressa, pros meninos se esquecerem de que eu posso escolher entre empada e biscoito frito” (PRADO, 1985, 22). Sem esquecer as impressões fugidias sobre uma ou outra palavra – como “soturno”, a preferida do pai, ou “pudera”, considerada a mais bela palavra pela mãe. Prefere ser conhecida por compositora, não como escritora. Rodeada de frades solícitos, comadres espevitadas, amigas desconfiadas e parentes pernósticos, a narradora irascível se deixa contaminar pela poeta, religiosa e onipresente.



          “Não pinto o cabelo, os fios brancos têm excelente brilho, Deus me quer tão bem, as pessoas pensam que pinto as mechas esmeradamente. Penso em fazer balé, pra dar boa diligência aos gestos. Como se movem lindo os bailarinos. Senti uma sensação esquisita, a mocinha me elogiou: ‘que pés lindos!’ Papai tinha pés inacreditáveis, era bom ver ele descalço, pés para amoroso trabalho de estátua. Nunca soube. Fora melhor também eu não saber. Mãos não tenho bonitas, só quem acha é Pedro que se ri apenas de minhas orelhas” (PRADO, 1985, 78-79).

          Não há um enredo decisivo, uma ossatura de fatos encadeados logicamente. Mas os fatos narrados têm uma graça pitoresca, provocam um interesse dobrado em quem deles se aproxima, seduzido por uma descrição ingênua, uma situação simultaneamente grotesca e engraçada, o coloquial tosco. Sucedem-se, sem encadeamento rigoroso e uma fixação sólida em algum contexto, notações e comentários avulsos sobre eventos rarefeitos: um casamento na roça, um aniversário de criança, uma novena ensaiada. O que salva toda essa barafunda de intriga esgarçada é uma postura descontraída diante da linguagem, como se a cada linha a narradora se revelasse encantada pelo poder mágico das palavras. “Não sou carioca, por isso não uso verão, uso tempo de calor, quando a gente fazíamos piquenique na cachoeira do rio Lambari. Eu era má, eu já fui bem mazinha, quando comprava um queijo, era só pra mim. As mulheres na feira têm ancas de surrar marido, que belo manto adiposo, verdadeiras rainhas” (PRADO, 1985, 154).
          Por vezes o relato beira o universo infantil por ser poético, ou seria o contrário? A mistura de lucidez e sutileza, de lirismo e objetividade, com uma deliberada tentativa de embaralhar o universo referencial, culmina num mergulho desordenado no fluxo de consciência que só consegue pausa e respiração num apelo místico, cessado apenas com um ponto final.


PRADO, Adélia. Os componentes da banda. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Josué Montello

Livro do mês: Cais da sagração


      Retorna este título à rubrica - livro do mês, após encerrada a leitura. Impossível resistir ao poder de sedução do autor, que se impõe com perfeito domínio dos recursos narrativos. O leitor percebe quando o autor se entrega prazeirosamente à prática da escrita: Josué Montello (1917-2006) é bom exemplo dessa virtude. Transmite o gosto em descrever o rosto, as pestanas, as sobrancelhas das personagens, o que transparece a cada página. "A fisionomia devastada, sentia as mãos frias, o coração em disparada, o mesmo aperto na garganta"( MONTELLO, s.d.,53). Em poucas palavras, o narrador descreve a rotina de um grupo humano, sob a moldura ensolarada da orla de São Luís do Maranhão. Alguns aspectos singulares dão colorido às descrições vazadas em linguagem sóbria e elegante.

       "Os igaratés de pesca, com as suas pequenas velas triangulares, iam começando a voltar, na tarde que lentamente esmorecia. Uma claridade de cristal partido dançava por cima das ondas, enquanto uma luz mais suave, ora vermelha, ora rósea, diluindo-se em tonalidades violáceas, se estendia sobre as águas inquietas, riscada a espaços pelo balanceio calmo das asas das gaivotas. Um traço roxo, tirando a cinza, fechava o horizonte, no ponto em que o mar se encontrava com o céu, e acima desse traço alastrava-se a fulguração esbraseada do sol, que parecia também ondular no dorso das vagas a sua cabeça decepada" (MONTELLO, s.d.,72-73).



      Cais da sagração traz um protagonista rico de experiência, o velejador Severino. E o estilo é elegante, transparente, as descrições poéticas e sugestivas. Ainda atual, comove pela densidade humana e amplo espectro de motivações. O final flagra o conflito vivido pelo velho barqueiro, experimentado nas lides do mar, ao perceber o desinteresse do neto pelo seu ofício. Mestre Severino, de índole fria, assassino da mulher Vanju, ao espreitar artimanhas adversas, decide morrer no mar, lançando-se no perigo da grande tempestade que sacode as altas ondas alvoroçadas. O pior lhe ronda a mente: morrer, "arrastando na morte o neto que não queria ser barqueiro" (MONTELLO, s.d., 297). Josué Montello transfigura nesse desenlace o drama de muitos pais (ou avós) que sofrem a indiferença dos descendentes. Entre ondas agitadas e trovões, o barco avança "aos trombolhões", na treva escura oceano adentro, retalhado por relâmpagos. Os eventos sucedem-se dramáticos, nas malhas de uma destinação trágica, ampliada por vínculos religiosos. Nessa luta com o mar, o neto descobre seu destino, amparando o avô arquejante. 

                                                           (Foto: www.terra.com.br)

     Ao lado de Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcio Cardoso, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Osman Lins, Clarice Lispector, Josué Montello integra a seleção dos expoentes da moderna ficção brasileira. Autor de extensa obra ficcional, ensaísta de méritos, testado em vários títulos, publicou também biografias, peças teatrais, novelas e diários. Muitos livros de sua autoria figuram entre as mais expressivas criações romanescas do país, como A décima noite (1959), Os degraus do paraíso (1965), Cais da sagração (1971), Os tambores de São Luís (1975), A noite sobre Alcântara (1978), O largo do desterro (1981), O baile da despedida (1992).

MONTELLO, Josué. Cais da sagração. Rio de Janeiro: Record/Altaya, s.d.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Armando Silva Carvalho (1938-2017)

      Morreu esta manhã, em hospital de Caldas da Rainha, Portugal, o escritor Armando Silva Carvalho. Acima de tudo, como poeta, deixa uma obra relevante, embora a produção do ficcionista e tradutor também seja digna de apreço. Seus principais livros de poesia compreendem O comércio dos nervos (1968), Armas brancas (1977), Técnicas de engate (1979), Canis Dei (1995), Lisboas (2000), Sol a sol (2005), O amante japonês (2008), nos quais se evidenciam, ao lado da consciência do labor poético, um forte interesse pelas pulsões do afeto, do corpo, da experiência cotidiana, sem se contaminar de banalidade, acrescido pelas solicitações eruditas e um refinado registro de tradições lusas. O que não impedia a paixão pelos brasileiros Elis Regina e João Cabral de Melo Neto. O que foi passado a limpo (2007) é o título da obra poética que colige a produção completa até então. Em prosa, publicou Portuguex  (1977), Em nome da mãe (1994), O homem que sabia a mar (2001), O menino ao colo. Momentos, falas, lugares do sublime Santo António (2003), Elena e as mãos dos homens (2004), dentre outros. Traduziu Stéphane Mallarmé, Marguerite Duras, Samuel Beckett, Aimé Césaire, Jean Genet.

                                                   (Foto: www.sol.sapo.pt)

domingo, 21 de maio de 2017

A Lava Jato na soleira da Cultura

       A operação Lava Jato, desencadeada há três anos em Curitiba, com o objetivo de combater focos de corrupção no país, bate às portas dos umbrais da Cultura. Em alerta, ou às portas da prisão, alguns corifeus e mandarins da cena cultural dos últimos dez anos. Por enquanto, fiquemos com um único produtor. Surgido nos anos 70 em Belo Horizonte, como promessa nos redutos da literatura, Luiz Fernando Emediato perpetrou ao longo de vinte anos alguns livros de contos, inspirados numa concepção de arte socialista ao pé da letra. A fama de figura maldita, sob o viés político, espalhou-se. Tornou-se aos poucos figura exponencial no milieu,  como militante cultural nos governos petistas, promoveu saraus e a 2a. Bienal do Livro em Brasília, agregando empolgados simpatizantes do sistema. Como editor, publicou, com estardalhaço de marketing, o livro Privataria tucana. Recentemente, esteve envolvido até o pescoço num negócio bilionário entre a Odebrecht e o Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Trabalhador (FI do FGTS), com mafiosos graúdos, Eduardo Cunha no meio, em que teria recebido mais de três milhões, como Conselheiro do FI do FGTS. Foi demitido do Conselho. O noticiário de hoje é incisivo e fala por si. Cito, a seguir, o jornal O tempo:

                                        "J&F PAGA ASSESSOR DE MINISTRO 
        O diretor de relações institucionais do grupo J&F, Ricardo Saud, disse em delação premiada que pagou R$ 2,5 milhões a Luiz Fernando Emediato, quando trabalhava como assessor especial do Ministério do Trabalho, para aumentar a fiscalização de frigoríficos concorrentes da JBS."

O tempo, Belo Horizonte, Política, 21 maio 2017, p.3.

                                               (Imagem: culturamix.com)

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Antonio Cândido (1918-2017)

      O crítico, ensaísta e intelectual Antônio Cândido de Melo e Sousa morreu nesta madrugada em São Paulo. Formado em ciências sociais pela USP, em 1941, passou a lecionar, na mesma instituição, sociologia e, depois, teoria literária. Dedicou-se ainda jovem à crítica, a princípio em rodapés de jornais, em seguida, em livros, que recolhem ensaios de natureza sociológica e de interpretação da cultura nacional. Com o livro Formação da literatura brasileira (1959), recebeu o primeiro prêmio Jabuti, alcançando indiscutível prestígio. Os principais traços em que fundamenta sua análise crítica compreendem a "síntese segura", a "exposição sistemática" e a "erudição discreta", reconhecidos em 1946 por Sérgio Milliet, em resenha ao trabalho Introdução ao método crítico de Sílvio Romero (1945). Um forte sentido nacionalista, por vezes com discutíveis desdobramentos, permeia a totalidade de sua produção ensaística, referência fundamental no campo dos estudos literários. Recebeu em 1998 o Prêmio Camões, em Lisboa; em 2005, o prêmio internacional Alfonso Reyes, no México. Faturou por quatro vezes o prêmio Jabuti (1960, 1965, 1988, 1993). 

                                                  (Foto: veja.abril.com.br)
                                               
      Seus principais títulos privilegiam o ensaio e a hermenêutica. Além dos citados, destacam-se: Brigada ligeira (1945), Ficção e confissão (sobre Graciliano Ramos) (1956), A personagem de ficção (1963), Tese e antítese (1964), Os parceiros do Rio Bonito (1964),  Literatura e sociedade  (1965), Vários escritos (1970), O discurso e a cidade (1993), A educação pela noite e outros ensaios (3a. ed. 2000).

MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet IV. 2a. ed.São Paulo: Martins EdUSP, 1981.

terça-feira, 2 de maio de 2017

José Régio

             Li com interesse As raízes do futuro, segundo volume da saga A Velha casa, belíssimo romance do autor português, José Régio (1901-1969). Agrada-me a narrativa lenta, discreta, votada a acompanhar o cotidiano de uma família, atenta aos pequenos gestos, celebrações e conflitos. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, o autor fundou a revista literária Presença, que circulou em Portugal durante treze anos, entre 1927 a 1940. José Régio escreveu poesia, ficção, teatro, crítica, memórias, ensaios, em alta espessura estética. Como autor dramático, teve uma peça de sua autoria, Jacob e o Anjo, encenada em Paris, em 1952. Nos anos de 1950, exerceu larga influência em novos autores, presidindo encontros em lugares públicos, como o Café Central, em Coimbra, depois em  Portalegre. “Grande parte do jantar decorrera sem novidades, com as conversas do costume no estilo e tom costumados. Porém a dada altura, num intervalo de silêncio, que havia de ocorrer ao primo Hipólito? Aludir à carta de João. Como se espalhara a notícia dessa carta entre todos os parentes e aderentes, não se sabia claro. O certo é que se espalhara. E se a prima Ricardina fora viva, Deus lhe perdoe!, não deixara de gulosamente agarrar o assunto como infalível meio de magoar os seus hospedeiros. Tal não era a intenção do primo Hipólito. Mas o primo Hipólito era um desatento e um tímido. E quando um tímido desatento procura mascarar a sua timidez – é capaz, sem querer, de desencadear catástrofes!” (RÉGIO, 1972, 129-130).


                Autor de extensa obra, publicou, no gênero poesia, Poemas de Deus e do Diabo (1925), Biografia (1929), As encruzilhadas de Deus (1936), Filho do Homem (1961), Cântico suspenso (1968). Em ficção, os principais títulos compreendem o primeiro romance Jogo da cabra-cega (1934); Davam grandes passeios aos domingos (1941); O Príncipe com orelhas de burro (1942); Histórias de mulheres (1946); os cinco volumes da saga A velha casa: Uma gota de sangue (1945), As raízes do futuro (1947), Os avisos do destino (1953), As monstruosidades vulgares (1960), Vidas são vidas (1966). Para o teatro, destacam-se Jacob e o Anjo (1940), Benilde ou a Virgem-mãe (1947). Revela-se memorialista em Confissões dum homem religioso (1971), publicação póstuma. O ensaísta afirma-se em Ensaios de interpretação artística (1964) e Três ensaios sobre arte (1967).
                Li depois o terceiro volume (Os avisos do destino). Encontrei o exemplar na internet, capa dura em bela encadernação de iluminuras douradas, a edição de 1980, pela ed. Brasília, do Porto. Dosada com ironia e cuidadosa análise de caracteres, acompanha a narrativa a formação de Lèlito, focando, em riqueza de detalhes, o ambiente de pensões de estudantes em Coimbra, a vida acadêmica, algum namoro, a boêmia de uma geração de jovens escritores. As discussões a respeito da criação literária sublinham os conceitos de autenticidade e literatura viva, que constituem o legado teórico deixado por Régio em artigos publicados em Presença.
               O enredo simples, ao redor do desenvolvimento social, afetivo e intelectual de Lèlito, parece reunir, transfiguradas, passagens biográficas de José Régio. O reencontro dos irmãos (Lèlito e João), após o longo desaparecimento do segundo, possibilita a discussão de temas ligados à militância social.  Esse aspecto, um dos sentidos sugeridos pelo título, insinua-se nesta fala, proferida num quarto de estudante, diante de alguns simpatizantes: “O que tenho a dizer-vos – recomeçou João – é, ao mesmo tempo, muito simples, e difícil de dizer. Ou talvez ainda mais de compreender, quando se não viveu a longa e complexa experiência que tenho vivido: experiência dos fatos, dos seres, dos ambientes diversos; e também outra forma de experiência, que chamarei íntima” (RÉGIO, 1980, 399). Na sequência, o jovem e improvisado orador assegura a importância de partilhar a experiência adquirida: "Viver, conviver, observar, meditar... - eis as bases, creio, de toda a cultura viva. Uma aventura predominantemente doutrinária e teórica bem poderá conduzir à estreiteza dum fanatismo intolerante" (RÉGIO, 1980, 401). No geral, as avaliações à produção ficcional de José Régio reforçam platitudes genéricas, por vezes indiciadoras de um orquestrado processo de silenciamento em torno de uma obra monumental, desafiadora, em face de rasos parâmetros socializantes.
               
RÉGIO, José. As raízes do futuro. 2ª. ed.  Porto: Brasília, 1972.

RÉGIO, José. Os avisos do destino. Porto: Brasília, 1980.

domingo, 16 de abril de 2017

Ministro do Supremo autoriza investigar mais políticos

      Na última semana, um terremoto abalou a elite política brasileira. O Ministro do Supremo, Edson Fachin, autorizou a Justiça a investigar 76 políticos envolvidos em corrupção. Para corroborar o processo, um dos maiores empresários do país, Emílio Odebrecht veio a público confirmar a parceria estreita com o ex-presidente Lula, rendosa para os dois lados. O país tomou conhecimento de que a República estava nas mãos de uma empreiteira. A Odebrecht comprou o presidente petista em várias frentes (prestando suporte ao filho do presidente, reformando o sítio de Atibaia, depositando dinheiro para parentes, construindo estádio, além de depósitos mensais para quitar supostas palestras). Assim, a Odebrecht ampliou sua atuação no mercado, expandindo-se internacionalmente, tendo o governo petista financiado obras em Cuba e em Angola. Ficamos sabendo que a "Carta aos brasileiros" foi escrita pelo quadro jurídico da Odebrecht, em troca de favores e regalias. Na sequência, para facilitar aprovação de leis que lhe eram vantajosas, a empreiteira favoreceu quase uma centena de políticos sem escrúpulos, que receberam propinas através de um departamento criado para equacionar todo o esquema. 

                                                           (Imagem: mundoedu.com.br)

      Muitos desses políticos eram já conhecidos pela desfaçatez com que sempre trataram o ofício. Outros viram a máscara de honestidade se desfazer em pó, até pouco tempo atrás se arvoravam como reservas de moralidade - a lista abrange quase todos os partidos,  mas o PT e o PMBB estão na dianteira, com o maior número de citados. Além dos contumazes frequentadores de listas do naipe, como o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT)e o senador Romero Jucá (PMDB), a nova listagem contempla oito ministros do governo Temer, três governadores, e uma enfiada de políticos, tais como os deputados Maria do Rosário, Humberto Costa, Lindbergh Farias, Paulo Rocha, Arlindo Chinaglia, Vicentinho, Zeca do PT, Zeca Dirceu, Marco Maia e outros do PT, mais de uma dezena do PP, do PMDB, do PSDB (incluindo o senador Antônio Anastasia de Minas), do PC do B (Vanessa Graciotin, senadora por Amazonas), do DEM (o deputado Ônix Lorenzoni). O que antes se dizia como interpretação dos fatos pelos cientistas políticos, agora se pode dizer que fazia parte de um projeto de perpetuação no poder por parte do PT, arquitetado por aquele que se apresenta como o mais honesto de todos os políticos desse país. Todos devem ser investigados e aqueles que a Justiça provar que cometeram atos ilícitos devem ser exemplarmente punidos.

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Nuno Camarneiro

       
Livro do mês:


             O projeto ficcional de Nuno Camarneiro, neste romance que é sua estreia na literatura, assenta-se, a princípio, num mosaico em homenagem a três autores – Fernando Pessoa, Jorge Luís Borges e Kafka.  Dois personagens replicam o nome dos primeiros autores – Fernando e Jorge; o terceiro protagonista, Karl, remete ao personagem principal do romance de Kafka, America. Os personagens postam-se, à partida, como clones imaginários dos autores, em rotas que apontam para pistas especulares.


                Fernando passa os dias numa Lisboa sombria, envolvido em intrigas com as tias, a preocupação em alugar um quarto, o encontro com amigos em tavernas urbanas, a escrita de poemas e incontáveis devaneios melancólicos, que lhe inspiram versos e frases marcantes. “Portugal é assim, diminutivo e manso. O que foi chegando fez-se à escala e por cá ficou, as indiazinhas, as americanazinhas, os pretitos, pobrezinhos. Os portugueses não querem nada que não possam meter no bolso. Como é que esta gente descobriu tanto mundo?” (CAMARNEIRO, 2012, 22).  Jorge nasceu e vive com a avó num bairro popular de uma Buenos Aires idealizada, divide as tarefas infantis com a irmã Norah, “sempre que aprende algo novo faz traços no caderno” (CAMARNEIRO, 2012, 14); a sua casa é a única casa com jardim no bairro, que abriga também um cão de três pernas, inventado pelo garoto que adora inventar animais. Na verdade, Jorge inventa ainda jogos e cenários que lhe propiciem sonhar, além de conceitos surpreendentes. “Jorge comprovou uma ideia que era sua: qualquer animal que possa ser inventado pelos homens tem de existir em algum sítio” (CAMARNEIRO, 2012, 33). Karl é um operário, de descendência europeia que, no início, lava as paredes de vidro em arranha-céus de Nova Iorque.  “Quando acaba de limpar a última janela, detém-se por alguns momentos a olhar a cidade lá em baixo. Dali sente-se capaz de pensar coisas novas, de ver longe e de descobrir significados até aí ocultos. Na verdade nada disso acontece, talvez por não estar habituado a pensar coisas novas, talvez porque Nova Iorque não permita que se pense muito” (CAMARNEIRO, 2012, 24-25). Em torno desses eixos, são construídos os capítulos, intitulados com os nomes de cidades e bairros onde vivem os protagonistas.
                Sabemos que a arte contemporânea desenvolveu-se tributária de uma concepção moderna que encarece a complexidade, herdada dos inúmeros conflitos estéticos das primeiras décadas do século XX, o seu teor enigmático e obscuro.  Já afirmava Hugo Friedrich, em sua monumental La estructura de la lírica moderna:  “El acceso a la lírica europea del siglo XX no es cosa fácil, en cuanto ésta se expresa por médio de enigmas y de misterios” (FRIEDRICH, 1974, 21). Um dos aspectos produtivos da empreitada levada a cabo por Camarneiro consiste em elaborar frases, algumas postiças, nem de longe isentas de efeitos espetaculares, como se tiradas de legendas de revistas burguesas. Dentre os conceitos desenvolvidos, sobressaem vagas sugestões de duplicidade, melancolia, solidão e o poder da linguagem. “Ele explica-lhe que é um livro onde estão todas as coisas, mas a irmã continua sem entender.  Pergunta-lhe se esse livro é como a bíblia, de que a avó já lhe falou.  Jorge diz que não, a enciclopédia tem todas as ideias dos homens, a bíblia apenas as de um deus” (CAMARNEIRO, 2012, 94). Os protagonistas lembram os autores renomados, mas não se confundem inteiramente com eles.  A identificação completa seria reducionista, embora as pistas continuem a ser feitas: “Fernando nasceu para ser um homem que ainda não existia, cheio de palavras novas a quererem ser ditas, frases assombrosas que não são do céu nem da terra” (CAMARNEIRO, 2012, 35). Karl, o imigrante judeu, protagonista com maior aderência ao real, ao concreto e à tragédia, acaba demitido, após provocar um acidente; ao final, retorna ao velho mundo.  “Karl foi buscar o mundo novo e leva-o agora para casa. Tão novo e já tão estragado. Traz também um língua que cedo esquecerá, algumas poucas palavras hão de resistir porque Karl não as sabe traduzir, palavras como subway ou chinatown, nomes de bebidas e palavras ordinárias cheias de sexo”(CAMARNEIRO, 2012, 176).  Hesitante entre o registro direto e o poético, o dito e o por dizer, o determinado e o indeterminado, a linguagem não consegue livrar-se de uma inflexão semelhante, patente nas melhores páginas de Saramago.

CAMARNEIRO, Nuno. No meu peito não cabem pássaros. Rio de Janeiro: Leya, 2012.

FRIEDRICH, Hugo. La estructura de la lírica moderna. Barcelona: Seix Barral, 1974.