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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O filho de Machado de Assis

      José Martiniano de Alencar (1829-1877). Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Mário Cóchrane de Alencar (1872-1925). Três nomes ilustres, tendo em comum aparentemente o fato de serem escritores. Até recentemente, a tradição aceitava que Mário de Alencar era filho de José de Alencar. A partir de uma crônica de Humberto de Campos, passou-se a suspeitar que o verdadeiro pai de Mário de Alencar teria sido Machado de Assis, que todos acreditavam não ter tido filho. Para tanto, eram aventadas as palavras finais do narrador de um de seus livros, Memórias Póstumas de Brás Cubas, : "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".
      Transcrevo, a seguir, passagem da crônica citada de Humberto de Campos (1886-1934), extraída de Diário secreto, obra póstuma publicada em 1954e trecho de crônica de Carlos Heitor Cony, ambas tratando do tema. A ser verdade, cai por terra todo um repertório crítico, desenvolvido em torno de um homem desencantado, cético, estéril.

                                   (Machado de Assis. Imagem: saocarlosemrede.com.br)

           "Havia, realmente, nos dois, traços fisionômicos que corriam paralelos. E aquela afeição paternal de Machado de Assis, tão desconfiado nas suas amizades e, no entanto, tão ligado a M. de A., cuja presença na velhice não dispensava um só dia?
Meses depois, em uma das minhas visitas ao consultório de Afonso Mac-Dowell, meu médico e amigo, este me recebe exclamando:
 Se você chega dois minutos antes, encontraria aqui um colega seu, da Academia.
 Qual deles?
 O M... M. de A.
Sem a menor lembrança, no momento, das palavras de Goulart de Azevedo, falei-lhe do nervoso do M., o qual não saía à rua sem companhia de um ou dois filhos.
 Nervoso, só, não  atalhou o médico.
E com ares misteriosos:
 Eu lhe digo aqui com a devida reserva: o M. é epilético.
Essa informação pôs um raio de luz em minha dúvida. J. de A. jamais sofreu de epilepsia. Machado de Assis morreu dessa moléstia. Como explicar, pois, a epilepsia de M. de A.?
Mergulhei no oceano desse mistério, tateantes as mãos do meu pensamento. Dom Casmurro não será uma história verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que fica de uns amores clandestinos, não seriam páginas de uma autobiografia?"
                                                                
(Trecho de crônica de Humberto de Campos, em que o autor insinua que Machado de Assis teve um caso com a mulher de José de Alencar.)

                                                           (Mário de Alencar. Imagem: geneall.net)

      "Todos sabiam da amizade final de Machado de Assis por M. de A. - simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo crespo, alguns tiques iguais. Indo a um médico, por causa desses tiques, teve diagnosticada a epilepsia - doença hereditária que tanto maltratara Machado. Tão discreto quando o autor de Helena, viveu na sombra, passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele".
                                        (CONY, Carlos Heitor. Folha de São Paulo. São Paulo, 04/08/1999)

domingo, 11 de dezembro de 2016

Josué Montello

    Livro do mês:

  Antes de focar o autor referido no título, permito-me desfiar algumas palavras preliminares. Em consideração aos mais de trezentos acessos diários, entabulo (certas palavras precisam ser usadas, para não perderem a serventia) um breve papo de fim de ano.
      Vivemos tempos complicados no país. A corrupção grassa nas altas esferas, com reflexos negativos para toda a sociedade, como se sabe. O ensino público nunca esteve tão precário, a universidade chega a nos envergonhar por suas opções e ineficiência, não há segurança efetiva que nos proteja de bandidos e o pior, o que já padecia de abandono, vai ao deus dará. A cultura. Vivemos num país em que os valores culturais são distorcidos, os verdadeiros obreiros da cultura não são reconhecidos. Anos atrás dizia-se que um par de chuteiras de Pelé valia aqui mais que as obras completas de Machado de Assis. Não mudou nada. Pelo menos, nos últimos anos testemunhamos a Justiça acordar de seu sono profundo e algumas investigações começaram a cursar, mirando aqueles que praticaram ilícitos, mesmo entre os poderosos. A sociedade, vigilante, apóia esse esforço para prender os culpados, aqueles que se serviram do dinheiro público em proveito próprio.
      Leio um romance de Josué Montello, um autor de grandes méritos, que deixou uma obra imensa e de alta qualidade. Participa do rol dos grandes criadores, numa posição de destaque que os pares ratificam. Sua importância evidencia-se quando o vemos analisado entre os grandes romancistas do século XX, em lugar merecido na monumental obra A literatura no Brasil, dirigida por Afrânio Coutinho. Infelizmente, esquecido. Em tempos em que os maiores prêmios se veem um tanto descaracterizados (o Nobel de 2016 o ilustra a contento), esperar o que, em proporções nacionais?

                                                   (Imagem: pt.wikipedia.org)

      Pela primeira vez, o livro do mês é um livro que ainda leio, e com grande interesse: Cais da sagração. Escrito por um autor talentoso, dotado de pleno domínio dos processos romanescos: apuro de linguagem, gosto pelo detalhe, enredo atraente, sem efeitos mirabolantes. O romance elege como protagonista um barqueiro de grande experiência, o Mestre Severino. À sua volta, movimentam-se personagens pitorescas e histórias vivas, com amplo espectro de motivações e surpresas. Divirto-me um bocado.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar (1930-2016)

      Morreu hoje de pneumonia, no Rio de Janeiro, aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, dramaturgo e escritor Ferreira Gullar. Eleito em 2014 para a Academia Brasileira de Letras, colecionou vários prêmios, ao longo da carreira.

                                                        (Foto: pt.wikipedia.org.)

      Nascido em São Luís do Maranhão (1930), mudou-se para o Rio de Janeiro nos anos 1950, destacando-se pela intensa participação no cenário cultural. Juntamente com Lígia Clark e Hélio Oiticica, atuou na consolidação do movimento artístico denominado Neoconcretismo. Foram desenvolvidas marcantes contribuições no sentido de projetar novos processos e suportes para a pintura, além do quadro, com recusas e repercussões polêmicas. A subversão de noções tradicionais no campo das artes plásticas determinou um sistema de trocas entre pintura e escultura, pintura e teatro, alargando os postulados conceituais em vários campos artísticos. Nos anos de 1970, perseguido pela ditadura militar, por ser comunista, exilou-se do país. Retornando ao final da década, numa operação de solidariedade organizada por amigos influentes e jornalistas, foi preso, depois liberado. Dentre os prêmios, destacam-se dois Jabutis, o primeiro em 2007, pelo livro de crônicas Resmungos, o segundo, recebido em 2011, pelo livro de poesia Em alguma parte alguma. Concedido pela Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, veio em 2005. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, maior láurea destinada a escritor de língua portuguesa.


      Dentre seus principais livros, numa produção multifacetada e central para o debate estético nas últimas décadas, merecem ser referidos: na poesia, A luta corporal (1954), com a visível ruptura com o verso linear, Dentro da noite veloz (1975), seguido de Poema sujo (1976), escrito no exílio argentino, título decisivo para se desvencilhar do radical impasse diante do verso discursivo, Na vertigem do dia (1980); no ensaio, Teoria do não objeto (1959), Vanguarda e subdesenvolvimento (1969), Experiência neoconcreta: Momento-Limite da arte (2007): no teatro, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966), Um rubi no umbigo (1978); Rabo de foguete (1998), de memórias.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Quinquilharias, lixo cultural e boas intenções

      Continuam em vigor as práticas de explorar a ingenuidade e boa fé das pessoas. Em operação, a manjada armadilha de autores e editores inescrupulosos. Fim de ano, época de festas e de dar presentes. Fim de ano, época de lançamento de livros de autoajuda à fartura. Predominam aqueles de extração religiosa, oriundos das mais diversas raízes e tendências. Em alguns casos, são os mesmos livros de anos passados, com novos títulos e um ou outro remanejamento. Fique esperto.

                                              
                                                     (O desenho é de Almada Negreiros)