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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Conferindo títulos



Estrela da manhã, Manuel Bandeira.
Estrela polar, Vergílio Ferreira.
Luz da estrela morta, Josué Montello.

O baile da despedida, Josué Montello.
Antes do baile verde, Lygia Fagundes Telles.

Casa Grande & Senzala, Gilberto Freire.
A velha casa, José Régio.
Casa grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro.
Relíquias da casa velha, Machado de Assis.
A Casa Verde, Vargas Llosa.



Festa, Mário Garcia de Paiva.
A festa, Ivan Ângelo.

Inquieta viagem ao fundo do poço, Elias José.
A viagem sem regresso, Josué Montello.

Memorial do convento, José Saramago.
Memorial do fim, Haroldo Maranhão.
Memorial de Isla Negra, Pablo Neruda.
Memorial de  Aires, Machado de Assis.

Memórias sentimentais de João Miramar, Oswald de Andrade.
Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.
Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida.

A república dos sonhos, Nélida Piñon.
A república das abelhas, Rodrigo Lacerda.


Os sertões, Euclides da Cunha.
Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa.

Ano novo, vida nova, Maria José de Queiroz.
Feliz ano velho, Marcelo Rubem Paiva.
Feliz ano novo, Rubem Fonseca.

A cinza das horas, Manuel Bandeira.
A cinza do purgatório, Otto Maria Carpeaux.
Cinzas do norte, Milton Hatoum.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lawrence Durrell

Livro do mês:

Quarteto de Alexandria


Como decorre em algumas temporadas, pus-me a reler o Quarteto de Alexandria, obra máxima do escritor britânico, nascido na Índia, Lawrence Durrell (1912-1990), grande e arrebatadora descoberta literária da minha adolescência. Como se sabe, o autor, em breve nota ao último estágio da narrativa, confirma que os quatro volumes (Justine, Baltasar, Mountolive e Clea) formam “um corpo homogêneo e como tal deve ser considerado”. Na nota de apresentação a Baltasar, deixou uma trilha: “o eixo deste livro é uma investigação do amor moderno”. Sentimento visceral, como tal reconhecido numa das páginas: “Compreendi, então, a verdade do amor: um absoluto que tudo aceita ou tudo despreza. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura, e assim por diante, só existem à periferia, são aquisições da vida social e do hábito. A austera e impiedosa Afrodite é legitimamente pagã. Não é do nosso cérebro, nem dos nossos instintos, que ela se apodera – mas da nossa medula” (DURRELL, s.d.a,125-126).

                  (Durrell com a filha Penelope. Imagem: Durrelliana-WordPress.com)

A opção da vez foi Clea, o último da série, talvez o mais trágico. E como sempre, acabo me envolvendo naquele universo mágico de mulheres fatais, alto mundo das finanças, emoldurado por tiradas filosóficas e literárias bastante sofisticadas. A re-leitura de um relato motiva inevitavelmente a procura de passagens de outro, enleados que somos pelas íntimas conexões existentes nesse círculo obsessivo de personagens: “Justine, Melissa, Clea... Éramos tão poucos que na verdade um livro devia ser suficiente para esgotar-nos. Eu também acreditei que assim fosse. Agora dispersos pelo tempo e pelas circunstâncias, quebrado para sempre o circuito...” (DURRELL, 1970a, 14).


Meu preferido tem sido Mountolive, o terceiro volume. Em seguida, Baltasar. Neles são mais nítidos os traços romanescos desta saga fabulosa, em que as surtidas amorosas surgem envoltas em camadas de significação secreta, devastando os bastidores da política internacional (ainda sob a combalida hegemonia da Inglaterra), o cotidiano de uma embaixada inglesa no Oriente, bancarrotas e ruínas de poderosos grupos. Mas os quatro relatos são excelentes. Tudo narrado com invulgar domínio da técnica romanesca, sob a lupa vertiginosa de um observador esmerado em se arriscar em análises psicológicas, extremamente atento aos mínimos detalhes, projetando uma temática ainda atual – o conflito Ocidente/Oriente, dentre outras investigações. Algumas associações inesperadas, aliadas a recursos poéticos incisivos, produzem efeitos por vezes surpreendentes, como neste flash ao rosto de Memlik Paxá: “Os seus lábios eram muito vermelhos, o inferior, principalmente; e a sua aparência de fruto maduro sugeria a epilepsia” (DURRELL, s.d.b, 304). Os ambientes sociais glamourosos de Cairo e de Alexandria funcionam como cenário decadente para um enredo diversificado, excessivamente amplo e aberto para acolher desvios, aberrações e situações-limites como rubricas, suporte ou pano de fundo ao eixo narrativo principal. São célebres as descrições do luxo feminino, envolvendo Justine, Melissa, Clea, Liza, Leila, dentre outras deusas esplendorosas, flagradas em salões exuberantes, reluzentes. Não menos famosas as descrições de suntuosos palácios de armadores e empresários, vazadas sob impressões que respingam em referência ao Rio de Janeiro, como esta a respeito da arquitetura urbana, extraída de Mountolive: “Seja nas ruas de Roma ou do Rio, uma pessoa fica pasmada diante das suas fachadas sinistras. Os pilares curtos e grossos sugerem um mamute atacado de elefantíase, uma sobrevivência grotesca, ou talvez o renascimento, de algo genuinamente macabro – uma espécie de gótico-otomano-egípcio (DURRELL, s.d.b,302)”. Como estratégia para fugir à sedução da Unidade, que o narrador supõe ter desaparecido do mundo moderno, somos conduzidos a perceber os eventos e as personagens filtrados por uma abrangente visão prismática, continuamente renovada. O colapso do império britânico esbate-se num mural impiedoso da decadência da aristocracia inglesa, numa crônica indiscreta, de personagens densos, bizarros, algo sinistros. O encontro final entre Mountolive e Leila assume uma dimensão dramática, patética.


São surpreendentes e poéticos os relatos noturnos de Alexandria que reverberam, de forma transfigurada, o percurso misterioso e o destino marginal do poeta grego Constantino Caváfis. “...E, embora ocupado o meu espírito por estas recordações, ia vendo com outra parte de minha consciência aquela Alexandria que se desbobinava uma vez mais diante de mim – com seus cativantes pormenores, o seu insolente colorido, a sua pobreza e a sua beleza esmagadora” (DURRELL, 1970b,37). Somos a cada página tocados por uma paisagem inesquecível, um rosto marcante, um olhar devastador ou por um pensamento, como este, exarado diante do corpo inerte de Melissa: “Creio que nós, os escritores, temos um coração de pedra. Os mortos não contam. São os vivos que nos interessam desde que lhes possamos arrancar a mensagem que se esconde no cerne de toda a experiência humana” (DURRELL, s.d.a, 278). Difícil ficar indiferente aos terríveis encantos de Justine, de quem o marido, Nessim Hosnani, afirma: “Nem sequer posso afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as pessoas de seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural que isso seja doloroso e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela lhes infligia” (DURRELL, s.d.a, 39).


DURRELL, Lawrence. Justine. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, s.d.a.
DURRELL, Lawrence. Baltasar. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970a.
DURRELL, Lawrence. Mountolive. Trad. Daniel Gonçalves. Rio de Janeiro: Ulisseia, s.d.b.
DURRELL, Lawrence. Clea. Trad. de Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970b.