Total de visualizações de página

Pesquisar este blog

quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sylvio Vasconcellos

       Nas últimas férias, fomos a Diamantina, a derradeira cidade setecentista mineira que faltava conhecer. Estima-se a população em torno de 48 mil habitantes. Em 1938, recebeu o título de “patrimônio histórico nacional”, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Desde 1999, o centro antigo é considerado Patrimônio cultural da Humanidade pela UNESCO. Dista aproximadamente a 360 km de Belo Horizonte, estrada asfaltada, em boas condições de uso. No caminho, bem depois de Curvelo, somos surpreendidos com paisagens belíssimas, indescritíveis. O texto que acompanha as fotos (na verdade, fragmentos dele) tem a assinatura do arquiteto e historiador Sylvio Vasconcellos (1916-1979), extraído do Suplemento Literário do Minas Gerais, 122, de 28 dez. de 1968. Em relação às fotos: as duas primeiras focalizam aspectos do centro histórico; a terceira flagra o passadiço que une os dois casarões que formam a Casa da Glória, no passado, colégio de freiras; a quarta foca um ângulo da praça do Mercado.

       Texto de Sylvio Vasconcellos:

            Enquanto as povoações alimentadas pelo ouro crescem orgânica e espontaneamente, espichando-se pelos caminhos que as servem, o Arraial do Tejuco concentra-se. As estradas o tangenciam, confinando-o. Do Mercado vai em direção à capela de N. S. do Rosário; desta procura a capela Carmelita; a seguir envieza para a capela de São Francisco de Assis e Matriz, encontrando novamente o Mercado.  Diagonais ligam pontos extremos, triangulando o centro.


            Nada lembra o traçado longilíneo de Ouro Preto ou Sabará, por exemplo. O diamante impôs domínio restrito, contenção e controle.


            Contida é a própria arquitetura local. Bem mais pobre que a realizada em outras povoações mineiras. (...)

            Os interiores das igrejas inundam-se de luz. Convidam melhor às aleluias que ao cantochão. Mais às esperanças que ao arrependimento. Mais ao louvor que à penitência. São poucos os dourados; os frontões externos armam-se em tábuas provisórios. A pompa ausenta-se de todo. Nenhuma igreja procura agigantar-se em competição com as demais. Nenhuma casa pretende ofuscar a próxima. O conjunto se desdobra em harmonias, como ser elaborado de uma só vez, obedientes a uma só elaboração. Dispostas em discreta postura, as construções ostentam apenas requintada displicência. (...)


            O conjunto urbano, concentrado e, praticamente, de plano, facilita a comunicabilidade humana, aproxima as gentes, promove a solidariedade.
                                                                                                         

VASCONCELLOS, Sylvio. O ser e o porque de Diamantina. Minas Gerais, Suplemento Literário. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura, 122, p. 1, 28 dez 1968.

      Sylvio Carvalho de Vasconcellos, nascido em Belo Horizonte (1916), dirigiu a Coordenadoria Regional do IPHAN, em Minas Gerais, por indicação de Rodrigo de Melo Franco, de 1940 a 1969. Professor da Escola de Arquitetura da UFMG, da qual foi também Diretor, cargo de que foi afastado em 1964, pelo Governo Militar. Coordenou a conversão do prédio do Cassino da Pampulha no Museu de Arte da Pampulha, de 1952 a 1957, tendo sido o primeiro Diretor do MAP. Impossibilitado de atuar no país, por intrigas políticas, exilou-se em Paris em 1965, estagiou posteriormente em Portugal, com bolsa da Fundação Gulbenkian. Trabalhou nos EUA, em organismo da OEA. Residiu algum tempo em Santiago, onde lecionou na Universidade do Chile (1966). Como arquiteto, projetou inúmeras residências em Belo Horizonte, construindo uma singular aliança entre recursos tradicionais e soluções modernas. Projetou ainda na mesma cidade as sedes do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFMG (bairro de Lourdes) e do ICBEU (Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos), além do prédio de apartamentos MAPE, conhecido como Xodó, na Praça da Liberdade. Intelectual atuante, colaborou ativamente nos jornais Estado de Minas, Estadão, Jornal do Brasil. Publicou, dentre outros, os seguintes livros: Vila Rica: Formação e Desenvolvimento (INL,1956; Perspectiva, 1977); Arquitetura colonial mineira (1957); Arquitetura no Brasil: sistemas construtivos (1958); Pintura colonial mineira e outros temas (1959)Nossa Senhora do Ó (1964); Minas: cidades barrocas (1969, em convênio com a USP). Faleceu em Washington, DC, onde morava desde 1970, em 1979.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lúcio Cardoso

Livro do mês:

       Acabo de ler a novela O enfeitiçado, de Lúcio Cardoso. Mais um mergulho no exercício da ficção de tendência psicológica, experimentada em várias trilhas e matizes, através de exuberante fluxo verbal, dividido entre a reconstituição cuidadosa do cenário e a captação do universo interior das personagens, marca inconfundível do autor mineiro.


      Surpreende-me o final niilista, absolutamente desesperado, desesperançado. Após um longo percurso em busca do filho, o enigmático Rogério Palma, com o qual desfruta apenas breves momentos de abandono e fuga, em cenários decadentes, Inácio Palma confessa sua desistência, esquadrinhado num beco sem saída. Vê-se desprezado, relegado à sarjeta, pressionado a dar cabo da própria vida, sob a pérfida e implacável vigilância de um bandido, pago para exterminá-lo. “Mas isto era eu, unicamente eu, minha pobre matéria enganada e triste” (p.276). Em sua tumultuada demanda pelo reencontro com o filho, o protagonista não se constrange em pactuar com a mais descarada sordidez, nos arredores periféricos do submundo da prostituição. 
      Alguns críticos que se debruçaram sobre a obra polêmica do Autor usam a imagem do “poço sem fundo” para expressar o pessimismo nela presente e, sobretudo, a ousadia como desvenda as forças obscuras que dominam as personagens, atormentadas, incapazes de fugir de uma destinação trágica. Lúcio Cardoso denominou de “o mundo sem Deus” à trilogia formada por três novelas – Inácio, de 1944, O enfeitiçado, publicada em 1954 e Baltazar, que ficou inacabada. As páginas derradeiras exalam o gosto depressivo da degradação e da morte. 

CARDOSO, Lúcio. Inácio, O enfeitiçado e Baltazar. Rio de Janeiro: Record, 2002.