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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Helder Moura Pereira

Livro do mês:

      Helder Moura Pereira revela em Um raio de sol uma aparente oposição às referências sombrias de outros títulos (De novo as sombras e as calmas, Nem por sombras) sugerindo uma via mais aberta e positiva. Signatário de um verso paradigmático – “A mágoa é um vício” – e conhecido pela paciente “ordenação da mágoa”, para usar um comentário de Joaquim Manuel Magalhães, o escritor apresenta neste livro uma produção poética caudatária de novas e arejadas sensações e descobertas, fugindo às cristalizações do discurso crítico: “Vou escrever o destino do meu ser. / Mas é tudo contrário a um livro / que mesmo agora tiro da estante e abro / com as pontas dos dedos magoadas” (p.11). Entretanto, os poemas e o próprio título (pelo que sugerem de restrição e sinal de menos – “um raio” – para já não falar de ironia) não se conformam com uma relação opositiva apaziguadora. Estabelecem antes um modelo dialético de forças que se atraem e se neutralizam, uma rede de associações tensas que se entrecruzam com o intento de minar, na sequência de prerrogativas tradicionais da modernidade, a pretensa ordem burguesa. A tristeza
e a melancolia não desaparecem de todo, convivem com notações eufóricas ou flagrantes de um contexto social degradado num discurso flexível, impregnado da sensação de mistura e impureza de registros: “Aquela versão da realidade falava / de um homem com um só cobertor / de estanho, deitado entre jornais / com escândalos sexuais, baratos, ao som / de disco-house, neo-swuing, flipper music” (p.43). A linguagem torna-se receptiva a instantâneos expressivos, como em “unhas hardcore tamborilando” (p.65).

     
     
      
       A associação entre poesia e música (raio/clave de sol) constitui-se num dos eixos centrais, enunciada no primeiro poema – “A música é sem dúvida imortal” (p.11) – e retomada várias vezes como exercício lúdico ou suporte de elaboração conceitual: “Dar-me-ia por muito feliz / assim no soalho deitado? / A toda a frase sensata / eu torço sempre o nariz” (p.22). Para além das intenções galhofeiras, os significantes produzem ecos, ilustrando a epígrafe de I. A. Richards e a ideia de que o trabalho poético é antes de tudo um trabalho de linguagem: “No meu bairro ladram cães, / ladram cães, ladram cadelas. / E as minhas emoções, meu deus, / que é feito delas?” (p.47). As constantes ligações do poema à música configuram uma percepção do real por meio de vetores diversificados, despertando a memória involuntária do leitor e alianças fundadoras da modernidade poética (“Art poétique” de Verlaine, o “celestial girassol” de Eugênio de Castro, “Chuva oblíqua” de Pessoa – “E a música cessa como um muro que se desaba”): “Verdadeiras lágrimas salgadas, ó / baía de cascais, quantos dos teus iates / matavam a fome em moçambiques e que tais?” (p.46). A evocação da poesia de Pessoa serve ainda para outras ressonâncias: “Eu ponho um laço, / o meu primeiro laço de menino, / e faço de conta que o mundo é uma bola / que chutaram para dentro do meu quintal” (p.14).
      A obra de Helder Moura Pereira propõe-se uma percepção da realidade contaminada por traços de ironia, quase sempre articulada com elementos de denúncia desencantada. Desencantada e perplexa, na medida em que ultrapassa a atmosfera fronteiriça do humor e se equilibra perigosamente à beira do abismo. Permeada de incertezas, esta é uma poesia escrita com o artifício do enigma – o enigma de construir uma duplicidade que ao mesmo tempo constitui e condena à perda o sujeito da linguagem: “Meu coração igual ao meu / outro coração, vive comigo, / vive e faz do meu viver / o teu viver. Fui várias vezes / o mesmo, aceitei a primavera, / descontei contas por ti, / ó meu outro coração” (p.20). Inúmeras formas de questionar a realidade radicam na dificuldade de o sujeito se compreender a si próprio, seja através de alusões a contextos supostamente biográficos – “Procuras na minha secção de música / do mundo onde estará o destino / daquele povo agora muito em moda / nos filmes” (p.54), ou através da memória interessada em compreender a interlocução com o outro: “Ouve, sócio, então já não te lembras / de mim dos tempos do liceu? / Roubaste-me o que era meu, / não sei se também te lembras” (p.76).
     Um raio de sol reverbera uma realidade alterada pela elaboração estética (a longa tradição na poética ocidental do motivo do Sol como agente criador, revitalizada pelo Cesário Verde de “Num bairro moderno”: “Subitamente, - que visão de artista! - / Se eu transformasse os simples vegetais, / À luz do sol, o intenso colorista”) e captada por uma subjetividade esgarçada, dispersa e cética – “qual escrivão do vento / condenado à intempérie dos sentidos. (...) Se não traçarmos nenhum risco nada / nos pode perder, temos um lago, temos / um deserto, que mais podemos querer?” (p.41).


PEREIRA, Edgard. Helder Moura Pereira: tu vês a minha sombra. Lisboa: Aldeiabook, 2014, p.119-121.
PEREIRA, Edgard. Um raio de sol. Resenha em Colóquio-letras, 159-160, Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 2002, p.450-451.
PEREIRA, Helder Moura. Um raio de sol. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. A esta edição prendem-se os números entre parênteses, nas citações.



quarta-feira, 1 de junho de 2016

Hélio Fraga

      Hélio Fraga, conceituado jornalista e escritor, atuou durante anos no Estado de Minas, com matérias de teor político, esportivas e crônicas de mérito considerável. Sob o título de "Prejudicando o Brasil", publicou ontem no jornal O tempo um artigo em que faz comentários pertinentes sobre os dias que correm, em especial sobre o comportamento da presidente afastada. Transcrevo, por considerá-lo oportuno, algumas passagens do artigo.

      "O direito à liberdade de expressão é sagrado em cada ser humano, mas pede-se e espera-se que a verdade dos fatos seja respeitada. Muitos brasileiros se sentiram constrangidos quando, no festival de Cannes, artistas do filme Aquarius exibiram cartazes afirmando que "un coup d'etat a eu lieu au Brèsil" e "a coup took place in Brazil".  Pode ser a opinião pessoal desses artistas e do diretor - eles, sorridentes, e ele, de óculos escuros. Mas estavam divulgando uma mentira e sujando a imagem de nosso país.
      A classe artística depende de verbas e isenções oficiais, e suas manifestações têm forte conteúdo corporativo. Os cofres federais sempre estiveram abertos para esses ativistas culturais produzirem filmes e shows para os quais o cidadão paga ingresso - portanto, nada têm de filantropia. Mamam nas tetas do governo e defendem suas boquinhas.
      Agora que o Brasil passa a ter, pala primeira vez nos últimos 13 anos, um Ministério das Relações Exteriores disposto a rechaçar o desrespeito aos direitos humanos e os ataques à democracia, não se submetendo mais aos governos populistas e autoritários de Bolívia, Venezuela e Equador, é importante que nossas embaixadas não deixem sem resposta nenhum ataque desse tipo, porque estão distorcendo a verdade dos fatos.
      Admitir que houve golpe, que uma presidente da República foi afastada do poder de forma arbitrária e inconstitucional, é aceitar que estejam sendo traídas e renegadas a Constituição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República (PGR). Tudo foi feito dentro da lei. E a PGR ainda tem muito mais a mostrar - esperem.
      Após exaustivos debates, com amplo direito de defesa, a presidente perdeu em todas as votações: de 367 a 137 na Câmara Federal; de 15 a 5 na Comissão de Investigação do Senado; e de 55 a 22 no plenário do Senado Federal - daí seu afastamento provisório por 180 dias. Durante todo o processo, desde o início do ano, em todos os momentos, a presidente denunciou um golpe. Foi a primeira a manchar publicamente a imagem institucional do país ao reunir correspondentes estrangeiros no Planalto para insistir em sua tese, e eles transmitiram essa mentira aos mais poderosos meios de comunicação de todos os continentes."
      (...)

FRAGA, Hélio. Prejudicando o Brasil. O tempo. Belo Horizonte, p. 19, 31 maio de 2016.