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sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

O filho de Machado de Assis

      José Martiniano de Alencar (1829-1877). Joaquim Maria Machado de Assis (1839-1908). Mário Cóchrane de Alencar (1872-1925). Três nomes ilustres, tendo em comum aparentemente o fato de serem escritores. Até recentemente, a tradição aceitava que Mário de Alencar era filho de José de Alencar. A partir de uma crônica de Humberto de Campos, passou-se a suspeitar que o verdadeiro pai de Mário de Alencar teria sido Machado de Assis, que todos acreditavam não ter tido filho. Para tanto, eram aventadas as palavras finais do narrador de um de seus livros, Memórias Póstumas de Brás Cubas, : "Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria".
      Transcrevo, a seguir, passagem da crônica citada de Humberto de Campos (1886-1934), extraída de Diário secreto, obra póstuma publicada em 1954e trecho de crônica de Carlos Heitor Cony, ambas tratando do tema. A ser verdade, cai por terra todo um repertório crítico, desenvolvido em torno de um homem desencantado, cético, estéril.

                                   (Machado de Assis. Imagem: saocarlosemrede.com.br)

           "Havia, realmente, nos dois, traços fisionômicos que corriam paralelos. E aquela afeição paternal de Machado de Assis, tão desconfiado nas suas amizades e, no entanto, tão ligado a M. de A., cuja presença na velhice não dispensava um só dia?
Meses depois, em uma das minhas visitas ao consultório de Afonso Mac-Dowell, meu médico e amigo, este me recebe exclamando:
 Se você chega dois minutos antes, encontraria aqui um colega seu, da Academia.
 Qual deles?
 O M... M. de A.
Sem a menor lembrança, no momento, das palavras de Goulart de Azevedo, falei-lhe do nervoso do M., o qual não saía à rua sem companhia de um ou dois filhos.
 Nervoso, só, não  atalhou o médico.
E com ares misteriosos:
 Eu lhe digo aqui com a devida reserva: o M. é epilético.
Essa informação pôs um raio de luz em minha dúvida. J. de A. jamais sofreu de epilepsia. Machado de Assis morreu dessa moléstia. Como explicar, pois, a epilepsia de M. de A.?
Mergulhei no oceano desse mistério, tateantes as mãos do meu pensamento. Dom Casmurro não será uma história verdadeira? Aquele amigo que trai o amigo, aquele filho que fica de uns amores clandestinos, não seriam páginas de uma autobiografia?"
                                                                
(Trecho de crônica de Humberto de Campos, em que o autor insinua que Machado de Assis teve um caso com a mulher de José de Alencar.)

                                                           (Mário de Alencar. Imagem: geneall.net)

      "Todos sabiam da amizade final de Machado de Assis por M. de A. - simples coincidência nas iniciais. Ao fundar a Academia, indicou-o como membro da primeira leva, o rapaz tinha então 20 e tantos anos, um único livro sem valor. Fisicamente, tinha traços de Machado, a mesma testa, o mesmo cabelo crespo, alguns tiques iguais. Indo a um médico, por causa desses tiques, teve diagnosticada a epilepsia - doença hereditária que tanto maltratara Machado. Tão discreto quando o autor de Helena, viveu na sombra, passou anos fora do Brasil. Ninguém entendia o amor que Machado tinha por ele".
                                        (CONY, Carlos Heitor. Folha de São Paulo. São Paulo, 04/08/1999)

domingo, 11 de dezembro de 2016

Josué Montello

    Livro do mês:

  Antes de focar o autor referido no título, permito-me desfiar algumas palavras preliminares. Em consideração aos mais de trezentos acessos diários, entabulo (certas palavras precisam ser usadas, para não perderem a serventia) um breve papo de fim de ano.
      Vivemos tempos complicados no país. A corrupção grassa nas altas esferas, com reflexos negativos para toda a sociedade, como se sabe. O ensino público nunca esteve tão precário, a universidade chega a nos envergonhar por suas opções e ineficiência, não há segurança efetiva que nos proteja de bandidos e o pior, o que já padecia de abandono, vai ao deus dará. A cultura. Vivemos num país em que os valores culturais são distorcidos, os verdadeiros obreiros da cultura não são reconhecidos. Anos atrás dizia-se que um par de chuteiras de Pelé valia aqui mais que as obras completas de Machado de Assis. Não mudou nada. Pelo menos, nos últimos anos testemunhamos a Justiça acordar de seu sono profundo e algumas investigações começaram a cursar, mirando aqueles que praticaram ilícitos, mesmo entre os poderosos. A sociedade, vigilante, apóia esse esforço para prender os culpados, aqueles que se serviram do dinheiro público em proveito próprio.
      Leio um romance de Josué Montello, um autor de grandes méritos, que deixou uma obra imensa e de alta qualidade. Participa do rol dos grandes criadores, numa posição de destaque que os pares ratificam. Sua importância evidencia-se quando o vemos analisado entre os grandes romancistas do século XX, em lugar merecido na monumental obra A literatura no Brasil, dirigida por Afrânio Coutinho. Infelizmente, esquecido. Em tempos em que os maiores prêmios se veem um tanto descaracterizados (o Nobel de 2016 o ilustra a contento), esperar o que, em proporções nacionais?

                                                   (Imagem: pt.wikipedia.org)

      Pela primeira vez, o livro do mês é um livro que ainda leio, e com grande interesse: Cais da sagração. Escrito por um autor talentoso, dotado de pleno domínio dos processos romanescos: apuro de linguagem, gosto pelo detalhe, enredo atraente, sem efeitos mirabolantes. O romance elege como protagonista um barqueiro de grande experiência, o Mestre Severino. À sua volta, movimentam-se personagens pitorescas e histórias vivas, com amplo espectro de motivações e surpresas. Divirto-me um bocado.

domingo, 4 de dezembro de 2016

Ferreira Gullar (1930-2016)

      Morreu hoje de pneumonia, no Rio de Janeiro, aos 86 anos, o poeta, crítico de arte, dramaturgo e escritor Ferreira Gullar. Eleito em 2014 para a Academia Brasileira de Letras, colecionou vários prêmios, ao longo da carreira.

                                                        (Foto: pt.wikipedia.org.)

      Nascido em São Luís do Maranhão (1930), mudou-se para o Rio de Janeiro nos anos 1950, destacando-se pela intensa participação no cenário cultural. Juntamente com Lígia Clark e Hélio Oiticica, atuou na consolidação do movimento artístico denominado Neoconcretismo. Foram desenvolvidas marcantes contribuições no sentido de projetar novos processos e suportes para a pintura, além do quadro, com recusas e repercussões polêmicas. A subversão de noções tradicionais no campo das artes plásticas determinou um sistema de trocas entre pintura e escultura, pintura e teatro, alargando os postulados conceituais em vários campos artísticos. Nos anos de 1970, perseguido pela ditadura militar, por ser comunista, exilou-se do país. Retornando ao final da década, numa operação de solidariedade organizada por amigos influentes e jornalistas, foi preso, depois liberado. Dentre os prêmios, destacam-se dois Jabutis, o primeiro em 2007, pelo livro de crônicas Resmungos, o segundo, recebido em 2011, pelo livro de poesia Em alguma parte alguma. Concedido pela Academia Brasileira de Letras, o Prêmio Machado de Assis, pelo conjunto da obra, veio em 2005. Em 2010, recebeu o Prêmio Camões, maior láurea destinada a escritor de língua portuguesa.


      Dentre seus principais livros, numa produção multifacetada e central para o debate estético nas últimas décadas, merecem ser referidos: na poesia, A luta corporal (1954), com a visível ruptura com o verso linear, Dentro da noite veloz (1975), seguido de Poema sujo (1976), escrito no exílio argentino, título decisivo para se desvencilhar do radical impasse diante do verso discursivo, Na vertigem do dia (1980); no ensaio, Teoria do não objeto (1959), Vanguarda e subdesenvolvimento (1969), Experiência neoconcreta: Momento-Limite da arte (2007): no teatro, Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come (1966), Um rubi no umbigo (1978); Rabo de foguete (1998), de memórias.

sábado, 3 de dezembro de 2016

Quinquilharias, lixo cultural e boas intenções

      Continuam em vigor as práticas de explorar a ingenuidade e boa fé das pessoas. Em operação, a manjada armadilha de autores e editores inescrupulosos. Fim de ano, época de festas e de dar presentes. Fim de ano, época de lançamento de livros de autoajuda à fartura. Predominam aqueles de extração religiosa, oriundos das mais diversas raízes e tendências. Em alguns casos, são os mesmos livros de anos passados, com novos títulos e um ou outro remanejamento. Fique esperto.

                                              
                                                     (O desenho é de Almada Negreiros)


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Conferindo títulos



Estrela da manhã, Manuel Bandeira.
Estrela polar, Vergílio Ferreira.
Luz da estrela morta, Josué Montello.

O baile da despedida, Josué Montello.
Antes do baile verde, Lygia Fagundes Telles.

Casa Grande & Senzala, Gilberto Freire.
A velha casa, José Régio.
Casa grande de Romarigães, Aquilino Ribeiro.
Relíquias da casa velha, Machado de Assis.
A Casa Verde, Vargas Llosa.



Festa, Mário Garcia de Paiva.
A festa, Ivan Ângelo.

Inquieta viagem ao fundo do poço, Elias José.
A viagem sem regresso, Josué Montello.

Memorial do convento, José Saramago.
Memorial do fim, Haroldo Maranhão.
Memorial de Isla Negra, Pablo Neruda.
Memorial de  Aires, Machado de Assis.

Memórias sentimentais de João Miramar, Oswald de Andrade.
Memórias póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis.
Memórias de um sargento de milícias, Manuel Antônio de Almeida.

A república dos sonhos, Nélida Piñon.
A república das abelhas, Rodrigo Lacerda.


Os sertões, Euclides da Cunha.
Grande sertão: veredas, Guimarães Rosa.

Ano novo, vida nova, Maria José de Queiroz.
Feliz ano velho, Marcelo Rubem Paiva.
Feliz ano novo, Rubem Fonseca.

A cinza das horas, Manuel Bandeira.
A cinza do purgatório, Otto Maria Carpeaux.
Cinzas do norte, Milton Hatoum.


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Lawrence Durrell

Livro do mês:

Quarteto de Alexandria


Como decorre em algumas temporadas, pus-me a reler o Quarteto de Alexandria, obra máxima do escritor britânico, nascido na Índia, Lawrence Durrell (1912-1990), grande e arrebatadora descoberta literária da minha adolescência. Como se sabe, o autor, em breve nota ao último estágio da narrativa, confirma que os quatro volumes (Justine, Baltasar, Mountolive e Clea) formam “um corpo homogêneo e como tal deve ser considerado”. Na nota de apresentação a Baltasar, deixou uma trilha: “o eixo deste livro é uma investigação do amor moderno”. Sentimento visceral, como tal reconhecido numa das páginas: “Compreendi, então, a verdade do amor: um absoluto que tudo aceita ou tudo despreza. Os outros sentimentos, a compaixão, a ternura, e assim por diante, só existem à periferia, são aquisições da vida social e do hábito. A austera e impiedosa Afrodite é legitimamente pagã. Não é do nosso cérebro, nem dos nossos instintos, que ela se apodera – mas da nossa medula” (DURRELL, s.d.a,125-126).

                  (Durrell com a filha Penelope. Imagem: Durrelliana-WordPress.com)

A opção da vez foi Clea, o último da série, talvez o mais trágico. E como sempre, acabo me envolvendo naquele universo mágico de mulheres fatais, alto mundo das finanças, emoldurado por tiradas filosóficas e literárias bastante sofisticadas. A re-leitura de um relato motiva inevitavelmente a procura de passagens de outro, enleados que somos pelas íntimas conexões existentes nesse círculo obsessivo de personagens: “Justine, Melissa, Clea... Éramos tão poucos que na verdade um livro devia ser suficiente para esgotar-nos. Eu também acreditei que assim fosse. Agora dispersos pelo tempo e pelas circunstâncias, quebrado para sempre o circuito...” (DURRELL, 1970a, 14).


Meu preferido tem sido Mountolive, o terceiro volume. Em seguida, Baltasar. Neles são mais nítidos os traços romanescos desta saga fabulosa, em que as surtidas amorosas surgem envoltas em camadas de significação secreta, devastando os bastidores da política internacional (ainda sob a combalida hegemonia da Inglaterra), o cotidiano de uma embaixada inglesa no Oriente, bancarrotas e ruínas de poderosos grupos. Mas os quatro relatos são excelentes. Tudo narrado com invulgar domínio da técnica romanesca, sob a lupa vertiginosa de um observador esmerado em se arriscar em análises psicológicas, extremamente atento aos mínimos detalhes, projetando uma temática ainda atual – o conflito Ocidente/Oriente, dentre outras investigações. Algumas associações inesperadas, aliadas a recursos poéticos incisivos, produzem efeitos por vezes surpreendentes, como neste flash ao rosto de Memlik Paxá: “Os seus lábios eram muito vermelhos, o inferior, principalmente; e a sua aparência de fruto maduro sugeria a epilepsia” (DURRELL, s.d.b, 304). Os ambientes sociais glamourosos de Cairo e de Alexandria funcionam como cenário decadente para um enredo diversificado, excessivamente amplo e aberto para acolher desvios, aberrações e situações-limites como rubricas, suporte ou pano de fundo ao eixo narrativo principal. São célebres as descrições do luxo feminino, envolvendo Justine, Melissa, Clea, Liza, Leila, dentre outras deusas esplendorosas, flagradas em salões exuberantes, reluzentes. Não menos famosas as descrições de suntuosos palácios de armadores e empresários, vazadas sob impressões que respingam em referência ao Rio de Janeiro, como esta a respeito da arquitetura urbana, extraída de Mountolive: “Seja nas ruas de Roma ou do Rio, uma pessoa fica pasmada diante das suas fachadas sinistras. Os pilares curtos e grossos sugerem um mamute atacado de elefantíase, uma sobrevivência grotesca, ou talvez o renascimento, de algo genuinamente macabro – uma espécie de gótico-otomano-egípcio (DURRELL, s.d.b,302)”. Como estratégia para fugir à sedução da Unidade, que o narrador supõe ter desaparecido do mundo moderno, somos conduzidos a perceber os eventos e as personagens filtrados por uma abrangente visão prismática, continuamente renovada. O colapso do império britânico esbate-se num mural impiedoso da decadência da aristocracia inglesa, numa crônica indiscreta, de personagens densos, bizarros, algo sinistros. O encontro final entre Mountolive e Leila assume uma dimensão dramática, patética.


São surpreendentes e poéticos os relatos noturnos de Alexandria que reverberam, de forma transfigurada, o percurso misterioso e o destino marginal do poeta grego Constantino Caváfis. “...E, embora ocupado o meu espírito por estas recordações, ia vendo com outra parte de minha consciência aquela Alexandria que se desbobinava uma vez mais diante de mim – com seus cativantes pormenores, o seu insolente colorido, a sua pobreza e a sua beleza esmagadora” (DURRELL, 1970b,37). Somos a cada página tocados por uma paisagem inesquecível, um rosto marcante, um olhar devastador ou por um pensamento, como este, exarado diante do corpo inerte de Melissa: “Creio que nós, os escritores, temos um coração de pedra. Os mortos não contam. São os vivos que nos interessam desde que lhes possamos arrancar a mensagem que se esconde no cerne de toda a experiência humana” (DURRELL, s.d.a, 278). Difícil ficar indiferente aos terríveis encantos de Justine, de quem o marido, Nessim Hosnani, afirma: “Nem sequer posso afirmar que ela não fez mal a ninguém. Mas mesmo aqueles a quem ela feriu saíram enriquecidos da experiência. Ela arrancava as pessoas de seus velhos invólucros, obrigava-as a sair de si próprias. É natural que isso seja doloroso e muitos se equivocaram sobre a natureza da dor que ela lhes infligia” (DURRELL, s.d.a, 39).


DURRELL, Lawrence. Justine. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, s.d.a.
DURRELL, Lawrence. Baltasar. Trad. Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970a.
DURRELL, Lawrence. Mountolive. Trad. Daniel Gonçalves. Rio de Janeiro: Ulisseia, s.d.b.
DURRELL, Lawrence. Clea. Trad. de Daniel Gonçalves. Lisboa: Ulisseia, 1970b.


sábado, 22 de outubro de 2016

Um pesadelo


            “Baios e sonhos semelham-se. Não se esperem, daqueles, coerência e moderação nas disparadas pelos prados, quando não busquem um fim; nem dos sonhos que se desatem com método” (MARANHÃO, Haroldo, 2004, p. 64).

            Tenho um sonho com sobressaltos. Acordo nervoso e trêmulo, suando a púcaros.
          Um velho esgrouvinhado, barba por fazer, aspecto entre arrependido e assustado, parecido com a imagem gasta impressa em jornais, aproxima-se de mim. Nada de anormal, até perceber tratar-se de um ser alado. Não só, os adjetivos em fileira mostram-se impotentes para a exata configuração: astuto, demagogo, dissimulado, falastrão, inescrupuloso, patusco, solerte. Eu estava então como Inês: posto em sono sossegado. Andava impávido num passeio urbano, defronte de grades de um hotel, nitidamente aterrorizantes. Se me evadisse para as estrelas, projetado por satélites, mesmo assim o encontro dar-se-ia.
            Antes de prosseguir, impõe-se uma divagação preliminar a respeito de sonho e derivados. Se me atenho ao narrador de Haroldo Maranhão, em reflexão transcrita na epígrafe, sou levado a comparar os sonhos a cavalos desembestados, que galopam sem rumo certo. Se resolvo seguir o conselho de Madredeus, o grupo musical português, não devo prosseguir, porque “contar um sonho é proibido”. Preciso refinar o conceito: o que tive não foi um sonho, mas um pesadelo. Em que pesem os elementos inconscientes envolvidos num pesadelo, contar um pesadelo é abominável. Em que pesem idênticos traços, pesadelo é matéria de descarrego, tendente a dissipar-se. Em vista disso, desisto de fornecer os detalhes da cena, divulgo apenas o essencial, no caso, o diálogo travado, entre um profissional das letras (eu) e a tortuosa e velhusca criatura. Extintas ficam circunstâncias anódinas, relativas à escolha do logradouro, a hora aprazada, o papel de intermediários.

                                              (Imagem: www.hdwalls.syz)

            O improvisado escriba abanca-se à mesa de um bar, ofegante. Traz, abrigados nos calores das axilas, os calores crispados da polêmica, envoltos em fitilha vermelha.
“Gostaria que corrigisse este artigo”, ele diz, passando para as minhas mãos um manuscrito ensebado, letras em garrancho em laudas e laudas de almaço. “Preciso me explicar ao povo, alguém deve corrigir este artigo, fazendo-o submeter-se aos parâmetros da gramática. O estilo não deve ser mexido”.
“As denúncias não desaparecem, diante de argumentos esfarrapados”, atrevo-me a retrucar.
“Denúncias infundadas, diante de mimos e benfeitorias desinteressadas, um sítio bucólico e airoso, uma banal casa de praia”.
            “Uma tarefa embaraçosa”, afianço, na expectativa de me safar.
            “Sem dúvida, uma tarefa trabalhosa, mas será recompensado à altura”.
            “Centenas de profissionais, igualmente capacitados, aceitariam atendê-lo graciosamente”, atiro no escuro da noite, sutil estratégia de elogio e desistência.
            “Você foi escolhido. Diga seu preço, sem tergiversar”. Os olhos são esferas chamejantes. Sinto-me no exato beco sem saída, na noite opressora, opaca.
            “Trinta reais a página”, retruco, inflacionando em dobro o serviço. “Mais: pagamento em cheque, referendado por assinatura, seguido de recibo, com especificação do labor prestado”.
            “De menos. Contratado!” exclama em tom firme e impositivo.
            Acordo, frio e trêmulo, suando a púcaros.


MARANHÃO, Haroldo. Memorial do fim: a morte de Machado de Assis. 2ª. ed. São Paulo: Planeta do Brasil, 2004.

sábado, 15 de outubro de 2016

Fala, Caetano

      O compositor, cantor e escritor Caetano Veloso afirmou, recentemente: "Quando eu era jovem, o show era só um rápido detalhe da viagem. Esticadas noturnas, museus, pessoas locais, bairros típicos é o que mais importava. Hoje preciso me resguardar".
      Esta declaração ratifica impressões partilhadas por alguns amigos e o breve relato, aqui exarado, há algum tempo. Os curiosos podem clicar no nome do artista no sumário ao lado para comprovar. Ao se referir à necessidade de "se resguardar", no atual contexto, seria desejável que tal cuidado, justificável e natural,  não se misturasse a apoio a políticos corruptos, como tem ocorrido. Sem chance de ser diferente. Afinal, trata-se de um dos maiores beneficiados pelo Ministério da Cultura nos governos petistas.

    
                                              (Foto: osul.com.br)

VELOSO, Caetano. O tempo. Magazine, Lupa, Belo Horizonte, 13/10/2016, p.12.

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Afonso Arinos de Mello Franco

      Livro do mês

        Há livros que dizem menos do que esperamos. Dito de outro modo: livros que nos decepcionam. Que deviam ficar pela metade de suas páginas. Este é o caso de Diário de bolso seguido de Retrato de noiva, de Afonso Arinos de Melo Franco, (1905-1990), dois livros, editados num único volume. O que tento dizer ficará agora cristalino: este livro deveria conter apenas o Diário de bolso. A sequência, registro de um episódio sentimental, alusivo a um arrebatado namoro, interessa apenas aos dois agentes envolvidos na teia amorosa. Retrato de noiva enfeixa a correspondência entre o autor e a noiva, Ana G. Rodrigues Alves, no período entre 1925, quando se conhecem, até 1928, quando se casam. A urgência da publicação só se justificaria em caso de notória relevância seja da linguagem, seja das vivências e desdobramentos. Nem uma, nem outra se observam. No prefácio, no entanto, Carlos Drummond de Andrade tem posição contrária, em arenga poética de compadre.

                                                            (Foto: origem.biz)

            De aristocrática ascendência mineira, Afonso Arinos de Melo Franco desempenhou variadas funções: promotor de justiça, professor universitário; deputado e senador (participou da Constituinte de 1988); membro da Academia Brasileira de Letras; ministro de relações exteriores do governo Jânio Quadros (1962). A simplicidade da grafia despojada de seu Afonso, com um único F, (ao contrário do que ocorre com outros intelectuais mineiros, Affonso Romano de Santana e Affonso Ávila, mais conformados com a objetividade moderna) acaba, no entanto, desmontada pelo estilo protocolar, excessivamente empolado, formal e solene. O ponto alto de sua obra equilibra-se entre os livros de história (como Um estadista da República; Afrânio de Melo Franco e seu tempo, de 1955) e os de memórias: A alma do tempo (1961), Planalto (1968), Alto mar, maralto (1979), que colige os anteriores, Amor a Roma (1982).
            Devemos ao político Afonso Arinos, sobrinho do autor de Pelo Sertão, o primeiro do nome, a lei contra o racismo. A personalidade do autor, evocado nos livros de memórias de Antônio Carlos Villaça como um cavalheiro sofisticado, o “finíssimo” diplomata, é sobejamente conhecida. Reproduz uma afirmação do cientista alemão Schwege, em descrição de um baile, sobre as mulheres paulistas de oitocentos: “Elas tinham a fama de serem belas, pois em São Paulo a pele clara predominava, ao contrário do que ocorria nas capitanias situadas mais ao norte”.
            De temática difusa, os registros recobrem os anos de 1977 e 1978, dando relevo à análise do contexto político, ao contato com figuras representativas da política, da diplomacia e das artes (Carlos Lacerda, Petrônio Portela, Prudente de Morais, Rubem Braga, Ribeiro Couto, dentre outros). Os livros de memória servem para nos revelar eventos, lugares e pessoas que não conhecemos ao vivo. Passamos a conhecê-los de ler, diferindo da maneira machadiana de conhecer, através da visão, o conhecimento “de vista e de chapéu”, como afirma o narrador de Dom Casmurro. Com o acúmulo de leituras, vamos formando um mosaico de referências e alusões, cada vez mais rico e diversificado. Ao referir-se ao Jockey Clube do Rio de Janeiro, lembra como se aproximou de Manuel Bandeira, autor na plenitude criativa. As memórias de um escritor acabam por se cruzar com as memórias de outro, ainda que sob perspectivas distintas. Alguns lugares ou eventos firmam-se em nosso espírito, em decorrência de critérios subjetivos de assimilação. Estas evocações, disseminadas no rol de eventos, notas eruditas, impressões de viagens e de leituras configuram-se como a parte mais viva e interessante.  Dentre elas, as passagens que reverberam a amizade com Ribeiro Couto, a informação de que o poeta de Jardim das confidências, quando promotor em Pouso Alto, no sul de Minas, hospedou Bandeira em 1928 por um mês. Ou descrições soltas, como esta, sobre a cidade do Porto: “O Porto conserva o seu orgulhoso status de ser a cidade mais européia de Portugal, nada perde de seu jeito de feitoria inglesa” (FRANCO, l979, 133). Um índice Onomástico seria oportuno, não fosse pedir demais às edições da época.
      Uma singularidade da escrita diarística, traço para análise, é sua reduzida parcela de invenção e fantasia. Se o escritor descreve um monumento ou edificação não pode exacerbar os elementos reais. O leitor não raro compara a descrição efetuada com sua própria aferição. Neste autor, a distância da ficção se faz acompanhar pela rasura de transcendência e fidelidade ao descolorido chão da realidade. O teor panorâmico das reflexões, constituída de breves súmulas, perpassa o volume.



FRANCO, Afonso Arinos de Melo. Diário de bolso seguido de Retrato de noiva. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1979.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Os sebos do Maletta

      O calor excessivo maltrata os belorizontinos. Tempestade anunciada nos ventos da madrugada. Setembro tropical bravo.
          Notas leves: garimpo em sebos no Maletta, sábado pela manhã. Referência para curtições noturnas em Belo Horizonte, o local é também pólo efervescente de cultura. O conhecido reduto de intelectuais  e artistas mineiros, cantado em prosa e verso, recentemente referido em poema de Marcelo Dolabela, como "coliseu da cidade", onde se convive com a "a baunilha dos vagabundos", não perdeu de todo o charme. Infelizmente, o bar Pelicano fechou as portas que davam para a Av. Augusto de LimaO famigerado prédio cosmopolita, de trepidantes lembranças desde os anos 70, no centro da cidade, abriga ainda célebres restaurantes (o Cantina do Lucas, o remanescente do antigo Lua Nova), e sebos famosos. Encontrei, em garimpo rápido, duas obras semirraras, Os saltimbancos da Porciúncula, de Antonio Carlos Villaça (Record, 1996) e Minérios domados, (Rocco, 1993) poemas de Hélio Pellegrino,  editados por Humberto Werneck, que assina uma apresentação jornalística. O acervo digitalizado poupa buscas inúteis. ACV concorre consigo, em patamar inferior, se confrontado com o clássico do memorialismo dos anos setenta, O nariz do morto, sem perder a importância de todo. Em geral, os acervos perderam consideravelmente o interesse: neles predominam os indefectíveis best-sellers, os títulos estrangeiros disparando na dianteira. Mas não deixa de ser um bom programa para quem gosta de bons livros.


(Imagem: entrelinhasdomaletta.com.br)
     

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Sérgio Milliett

Livro do mês:

Diário crítico II de Sérgio Milliet: o remate mineiro



As sete páginas finais do Diário crítico de Sérgio Milliet, v.II, assinalam a importância de Minas Gerais no quadro geral da nossa cultura. A obra completa estende-se por dez volumes, em coedição com a USP, mantém fielmente a grafia do autor; critério este discutível, por dar margem a certo desleixo, no que tange à ortografia e acentuação. Dizer que se mantém fiel ao original transfere a responsabilidade a terceiros: no caso, o original já se mostra manipulado, sujeito à mediação jornalística. O contexto histórico registra os anos devastadores e sangrentos da Segunda Grande Guerra. O mundo não está para docilidades e delicadezas. O material recolhido neste exemplar, alusivo a expoentes da moderna literatura brasileira (apreciação de livros surgidos à altura, no calor dos lançamentos), e a consagrados intelectuais europeus, pauta-se por notória desenvoltura conceitual, larga erudição e produtivas sugestões de análise. Em notas breves, corridas, mas consistentes, sucedem-se comentários sobre Mário de Andrade, Clarice Lispector, Ledo Ivo, Jorge Amado, Augusto Frederico Schmidt, João Cabral Melo Neto, Bueno de Rivera, Mário de Andrade, José Geraldo Vieira, Henriqueta Lisboa, Fernando Sabino, dentre muitos outros, ao lado dos desconhecidos Ivan Pedro de Monteiro, Darcy Azambuja, do repertório nacional. Georges Bernanos, Thomas Mann, Roger Bastide, Charles Baudelaire, Charles Péguy, André Gide e Anatole France predominam dentre os estrangeiros. Do gosto pelas artes plásticas, segunda paixão do autor, dão conta matérias sobre Lasar Segall, Pedro Américo, Tarsila do Amaral, Portinari, Goya, Alfredo Volpi, Almeida Júnior, entre outros. O interesse do labor intelectual dessa natureza engloba conhecimento literário profundo, receptividade ao novo, abertura à inquietação e capacidade de conexões, não tanto exaurir os contornos de uma suposta verdade, mas apontar sua provável silhueta. Em avaliação sobre a produção de Euclides da Cunha, o autor assevera: “uma obra de ciência se mede mais pela fecundidade de suas sugestões que pelo dogmatismo de suas certezas” (MILLIET, 1981, p.82).


                                                     (Imagem: abca.art.br)

O registro impresso sob a data de 19 de dezembro de 1944 inicia-se com uma nota apressada e aparentemente depreciativa sobre o conto, ao aludir à possibilidade de ser o conto um gênero menor. “Entretanto, Maupassant...” (MILLIET, 1981, P. 117). Nesse “entretanto”, seguido de uma referência ao mestre francês, acrescido de reticências, instala-se a autocrítica do autor que, de pronto, apressa-se a reconsiderar o lugar elevado atingido por determinados autores no gênero. “Pois se Maupassant se caracteriza pela objetividade e a precisão equilibradíssima do estilo, se Machado de Assis nos seduz especialmente pela penetração psicológica e a ironia, se Monteiro Lobato alcança um clímax graças à caricatura sarcástica das gentes e das coisas, Aníbal Machado comove pela expressão poética” (MILLIET, 1981, p.317).

                                                          (Imagem: estante virtual)
            Na sequência, Milliet, após citar João Alphonsus e Carlos Drummond de Andrade, envereda por uma análise da produção ficcional de Aníbal Machado, detendo-se em algumas novelas do escritor (“Vila Feliz”, “A morte da porta-estandarte”, “O telegrama de Ataxerxes”), como suporte ao argumento que se esforça por desenvolver, ou seja, a primazia de Minas na elaboração da grande ficção nacional: “Se o nordeste nos deu a consciência da terra e da tragédia do homem dentro do meio hostil, se Rio e São Paulo nos deram o humor, e o sul o pitoresco sadio, Minas trouxe a introspeção, a análise melancólica, de pouco brilho, mas de vigorosa intensidade. Por isso, creio eu, de Minas virá o grande romance brasileiro da maturidade nacional” (MILLIET, 1981, p.318). Sérgio Milliet erra apenas o alvo imediato, ao apostar que Aníbal Machado estaria capacitado para empreender a construção do grande romance nacional, ao salientar no autor mineiro alguns traços que para tal o teriam gabaritado: “complexidade, a análise cuidadosa, a multiplicidade de ações” (MILLIET, 1981, p.319). Doze anos mais tarde, com a publicação de Grande sertão: veredas e Corpo de baile, em 1956, pelo mineiro Guimarães Rosa, estaria consolidado o prognóstico de Sérgio Milliet.
            A seguir, o crítico paulista dedica comentários ao poeta Murilo Mendes (23 dezembro), direcionados ao livro recém-publicado, O discípulo de Emaús. Discute algumas máximas do poeta mineiro, empenhado em confrontar o poeta ao acadêmico e ao filósofo, dentre outras oposições de estatuto. “E assim se o acadêmico é homem que procura a poesia e a cerca por todos os modos, com pés e rimas, o poeta é o homem que a encontra sem procurá-la e quando a percebe deixa-a livre. Idêntico é o paralelo possível do poeta com o filósofo: este anda à cata da verdade mas quem a vislumbra é aquele. E também quem a exprime melhor” (MILLIET, 1981, p. 322).
            Quem deseja debruçar-se sobre o discurso crítico produzido no país não pode passar ao largo do escritor paulista. O volume encerra-se com um verdadeiro fecho de ouro, ao se voltar para a compreensão (é sabido o interesse básico de seu método, mais focado em compreender do que julgar as obras) do livro Voz de Minas, de Alceu Amoroso Lima. Expert em detectar tiradas impressionistas de Alceu Amoroso Lima, o crítico, contudo, não lhe poupa crédito de aprovação, referindo a elegância do estilo e a sutileza de algum raciocínio. Alerta para os traços afetivos que o brasileiro divide com Minas, pioneira na luta pela liberdade nacional: “O mistério de Minas, o humor mineiro, a sua densidade específica, o seu tradicionalismo, tudo isso forma um complexo exigente de contínuas interpretações” (MILLIET, 1981, p. 325).




MILLIET, Sérgio. Diário crítico de Sérgio Milliet. II (1944). 2ª. ed. São Paulo: Martins-EDUSP, 1981.

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Temporada caipira


Passei uma semana longe da civilização, do trânsito de Belo Horizonte, de contas para pagar, de livros. O feriado emendou a semana inteira. Vida rústica. O lugar, um sítio entre Baldim e Santana do Riacho, propriedade do sogro, na área da Serra do Cipó. Um mergulho na vida rústica do cerrado, com literais mergulhos em poços e rios da região, um lugar meio paradisíaco, no meio das veredas de Guimarães Rosa, muito sol, água pura, campos de mato, pedregulho e carrapato. Comida regional: frango ao molho pardo, jurubeba, peixe, costela de boi, angu de fubá de moinho de água, feijão novo. Sossego, canto de passarinho, cerveja em boteco, alguma cachaça de alambique conhecido. Dez por cento de estrada de terra, asfalto novo. Tudo temperado com música sertaneja, ao vivo, com a típica toada caipira.
Para matar a sede de leitura que, infelizmente, não desgruda, nas duas vezes que bateu: uma seleção de poemas de Walmir Ayala, da Global editora. Voos ligeiros e de jeito arrebatado, surpreendentes por sinal.



quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Sylvio Vasconcellos

       Nas últimas férias, fomos a Diamantina, a derradeira cidade setecentista mineira que faltava conhecer. Estima-se a população em torno de 48 mil habitantes. Em 1938, recebeu o título de “patrimônio histórico nacional”, do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN). Desde 1999, o centro antigo é considerado Patrimônio cultural da Humanidade pela UNESCO. Dista aproximadamente a 360 km de Belo Horizonte, estrada asfaltada, em boas condições de uso. No caminho, bem depois de Curvelo, somos surpreendidos com paisagens belíssimas, indescritíveis. O texto que acompanha as fotos (na verdade, fragmentos dele) tem a assinatura do arquiteto e historiador Sylvio Vasconcellos (1916-1979), extraído do Suplemento Literário do Minas Gerais, 122, de 28 dez. de 1968. Em relação às fotos: as duas primeiras focalizam aspectos do centro histórico; a terceira flagra o passadiço que une os dois casarões que formam a Casa da Glória, no passado, colégio de freiras; a quarta foca um ângulo da praça do Mercado.

       Texto de Sylvio Vasconcellos:

            Enquanto as povoações alimentadas pelo ouro crescem orgânica e espontaneamente, espichando-se pelos caminhos que as servem, o Arraial do Tejuco concentra-se. As estradas o tangenciam, confinando-o. Do Mercado vai em direção à capela de N. S. do Rosário; desta procura a capela Carmelita; a seguir envieza para a capela de São Francisco de Assis e Matriz, encontrando novamente o Mercado.  Diagonais ligam pontos extremos, triangulando o centro.


            Nada lembra o traçado longilíneo de Ouro Preto ou Sabará, por exemplo. O diamante impôs domínio restrito, contenção e controle.


            Contida é a própria arquitetura local. Bem mais pobre que a realizada em outras povoações mineiras. (...)

            Os interiores das igrejas inundam-se de luz. Convidam melhor às aleluias que ao cantochão. Mais às esperanças que ao arrependimento. Mais ao louvor que à penitência. São poucos os dourados; os frontões externos armam-se em tábuas provisórios. A pompa ausenta-se de todo. Nenhuma igreja procura agigantar-se em competição com as demais. Nenhuma casa pretende ofuscar a próxima. O conjunto se desdobra em harmonias, como ser elaborado de uma só vez, obedientes a uma só elaboração. Dispostas em discreta postura, as construções ostentam apenas requintada displicência. (...)


            O conjunto urbano, concentrado e, praticamente, de plano, facilita a comunicabilidade humana, aproxima as gentes, promove a solidariedade.
                                                                                                         

VASCONCELLOS, Sylvio. O ser e o porque de Diamantina. Minas Gerais, Suplemento Literário. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura, 122, p. 1, 28 dez 1968.

      Sylvio Carvalho de Vasconcellos, nascido em Belo Horizonte (1916), dirigiu a Coordenadoria Regional do IPHAN, em Minas Gerais, por indicação de Rodrigo de Melo Franco, de 1940 a 1969. Professor da Escola de Arquitetura da UFMG, da qual foi também Diretor, cargo de que foi afastado em 1964, pelo Governo Militar. Coordenou a conversão do prédio do Cassino da Pampulha no Museu de Arte da Pampulha, de 1952 a 1957, tendo sido o primeiro Diretor do MAP. Impossibilitado de atuar no país, por intrigas políticas, exilou-se em Paris em 1965, estagiou posteriormente em Portugal, com bolsa da Fundação Gulbenkian. Trabalhou nos EUA, em organismo da OEA. Residiu algum tempo em Santiago, onde lecionou na Universidade do Chile (1966). Como arquiteto, projetou inúmeras residências em Belo Horizonte, construindo uma singular aliança entre recursos tradicionais e soluções modernas. Projetou ainda na mesma cidade as sedes do DCE (Diretório Central dos Estudantes) da UFMG (bairro de Lourdes) e do ICBEU (Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos), além do prédio de apartamentos MAPE, conhecido como Xodó, na Praça da Liberdade. Intelectual atuante, colaborou ativamente nos jornais Estado de Minas, Estadão, Jornal do Brasil. Publicou, dentre outros, os seguintes livros: Vila Rica: Formação e Desenvolvimento (INL,1956; Perspectiva, 1977); Arquitetura colonial mineira (1957); Arquitetura no Brasil: sistemas construtivos (1958); Pintura colonial mineira e outros temas (1959)Nossa Senhora do Ó (1964); Minas: cidades barrocas (1969, em convênio com a USP). Faleceu em Washington, DC, onde morava desde 1970, em 1979.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

Lúcio Cardoso

Livro do mês:

       Acabo de ler a novela O enfeitiçado, de Lúcio Cardoso. Mais um mergulho no exercício da ficção de tendência psicológica, experimentada em várias trilhas e matizes, através de exuberante fluxo verbal, dividido entre a reconstituição cuidadosa do cenário e a captação do universo interior das personagens, marca inconfundível do autor mineiro.


      Surpreende-me o final niilista, absolutamente desesperado, desesperançado. Após um longo percurso em busca do filho, o enigmático Rogério Palma, com o qual desfruta apenas breves momentos de abandono e fuga, em cenários decadentes, Inácio Palma confessa sua desistência, esquadrinhado num beco sem saída. Vê-se desprezado, relegado à sarjeta, pressionado a dar cabo da própria vida, sob a pérfida e implacável vigilância de um bandido, pago para exterminá-lo. “Mas isto era eu, unicamente eu, minha pobre matéria enganada e triste” (p.276). Em sua tumultuada demanda pelo reencontro com o filho, o protagonista não se constrange em pactuar com a mais descarada sordidez, nos arredores periféricos do submundo da prostituição. 
      Alguns críticos que se debruçaram sobre a obra polêmica do Autor usam a imagem do “poço sem fundo” para expressar o pessimismo nela presente e, sobretudo, a ousadia como desvenda as forças obscuras que dominam as personagens, atormentadas, incapazes de fugir de uma destinação trágica. Lúcio Cardoso denominou de “o mundo sem Deus” à trilogia formada por três novelas – Inácio, de 1944, O enfeitiçado, publicada em 1954 e Baltazar, que ficou inacabada. As páginas derradeiras exalam o gosto depressivo da degradação e da morte. 

CARDOSO, Lúcio. Inácio, O enfeitiçado e Baltazar. Rio de Janeiro: Record, 2002.




terça-feira, 19 de julho de 2016

Pampulha, Patrimônio cultural da Humanidade

     


      Na última quinta-feira, o Conjunto Moderno da Pampulha, em Belo Horizonte, recebeu o título de Patrimônio Cultural da Humanidade, por unanimidade pelos 19 países membros do Comitê do Patrimônio Mundial, da Unesco. O complexo arquitetônico abrange os edifícios e jardins da Igreja de São Francisco de Assis, Casa do Baile, Iate Tênis Clube e Museu de Arte (nas fotos), construídos entre 1942 e 1943, por grandes nomes brasileiros da arte e da arquitetura, Oscar Niemeyer, Roberto Burle Marx, Cândido Portinari, Alfredo Ceschiatti e José Pedrosa. Todo o conjunto instala-se na orla da Lagoa da Pampulha, idealizada pelo então prefeito Juscelino Kubitschek para ser uma área de lazer e turismo.

                                                (Imagem: portal.iphan.gov.br)

terça-feira, 5 de julho de 2016

Lino de Albergaria

Livro do mês:

            Lino de Albergaria tornou-se conhecido na década de 80 como autor de livros infanto-juvenis, com mais de meia centena de títulos publicados na área. Mais recentemente tem-se dedicado à ficção para adultos, tendo relançado, pela Scriptum, novas edições de Em nome do filho e A estação das chuvas, além de novos títulos, Os 31 dias e Um bailarino holandês. Deste último me ocupo por ora.


            Trata-se de um romance urbano, direcionado de forma emblemática a aspectos inerentes às artes. Literatura, dança, teatro, fotografia, pintura, música, cinema e arquitetura fornecem elementos condicionantes que se misturam com harmonia na narrativa. Concentração de foco. Cenário minimalista, reduzido ao essencial. Um vendedor de livros aproxima-se de um cliente, um fotógrafo em passagem acidental pela livraria, interessado em comprar ingresso para um espetáculo de dança. Antes, revela-se um ávido e atento leitor. O resultado é um confronto sutil, na esteira de um jogo de sedução, em que olhares, gestos vão se adensando e intensificando. As referências aventadas privilegiam um refinado universo artístico, povoado de conotações que recobrem um multifacetado mosaico de citações e contextos culturais. À medida que os jogos de aproximação se sucedem, alargam-se os reflexos de um instigante caleidoscópio de ressonâncias afetivas e eróticas. Os lances da mútua descoberta justapõem-se como etapas constitutivas e especulares do processo da escrita e da leitura. O cenário exterior – espaços situados no prédio do Palácio das Artes, em Belo Horizonte – oferece substrato ao desafiante processo de conhecimento e aproximação de dois homens. No anonimato do caminho de cada um não há lugar para assomos de posse e usurpação.
A estrutura narrativa opera em blocos pendulares, em que dois narradores vão construindo um arcabouço em ziguezague, cujas sendas terminam por se entrelaçar.  Límpida e despojada, a linguagem sabe tirar proveito de imagens e tomadas sugestivas.  



ABERGARIA, Lino de. Um bailarino holandês. Belo Horizonte: Scriptum, 2015.


           

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Helder Moura Pereira

Livro do mês:

      Helder Moura Pereira revela em Um raio de sol uma aparente oposição às referências sombrias de outros títulos (De novo as sombras e as calmas, Nem por sombras) sugerindo uma via mais aberta e positiva. Signatário de um verso paradigmático – “A mágoa é um vício” – e conhecido pela paciente “ordenação da mágoa”, para usar um comentário de Joaquim Manuel Magalhães, o escritor apresenta neste livro uma produção poética caudatária de novas e arejadas sensações e descobertas, fugindo às cristalizações do discurso crítico: “Vou escrever o destino do meu ser. / Mas é tudo contrário a um livro / que mesmo agora tiro da estante e abro / com as pontas dos dedos magoadas” (p.11). Entretanto, os poemas e o próprio título (pelo que sugerem de restrição e sinal de menos – “um raio” – para já não falar de ironia) não se conformam com uma relação opositiva apaziguadora. Estabelecem antes um modelo dialético de forças que se atraem e se neutralizam, uma rede de associações tensas que se entrecruzam com o intento de minar, na sequência de prerrogativas tradicionais da modernidade, a pretensa ordem burguesa. A tristeza
e a melancolia não desaparecem de todo, convivem com notações eufóricas ou flagrantes de um contexto social degradado num discurso flexível, impregnado da sensação de mistura e impureza de registros: “Aquela versão da realidade falava / de um homem com um só cobertor / de estanho, deitado entre jornais / com escândalos sexuais, baratos, ao som / de disco-house, neo-swuing, flipper music” (p.43). A linguagem torna-se receptiva a instantâneos expressivos, como em “unhas hardcore tamborilando” (p.65).

     
     
      
       A associação entre poesia e música (raio/clave de sol) constitui-se num dos eixos centrais, enunciada no primeiro poema – “A música é sem dúvida imortal” (p.11) – e retomada várias vezes como exercício lúdico ou suporte de elaboração conceitual: “Dar-me-ia por muito feliz / assim no soalho deitado? / A toda a frase sensata / eu torço sempre o nariz” (p.22). Para além das intenções galhofeiras, os significantes produzem ecos, ilustrando a epígrafe de I. A. Richards e a ideia de que o trabalho poético é antes de tudo um trabalho de linguagem: “No meu bairro ladram cães, / ladram cães, ladram cadelas. / E as minhas emoções, meu deus, / que é feito delas?” (p.47). As constantes ligações do poema à música configuram uma percepção do real por meio de vetores diversificados, despertando a memória involuntária do leitor e alianças fundadoras da modernidade poética (“Art poétique” de Verlaine, o “celestial girassol” de Eugênio de Castro, “Chuva oblíqua” de Pessoa – “E a música cessa como um muro que se desaba”): “Verdadeiras lágrimas salgadas, ó / baía de cascais, quantos dos teus iates / matavam a fome em moçambiques e que tais?” (p.46). A evocação da poesia de Pessoa serve ainda para outras ressonâncias: “Eu ponho um laço, / o meu primeiro laço de menino, / e faço de conta que o mundo é uma bola / que chutaram para dentro do meu quintal” (p.14).
      A obra de Helder Moura Pereira propõe-se uma percepção da realidade contaminada por traços de ironia, quase sempre articulada com elementos de denúncia desencantada. Desencantada e perplexa, na medida em que ultrapassa a atmosfera fronteiriça do humor e se equilibra perigosamente à beira do abismo. Permeada de incertezas, esta é uma poesia escrita com o artifício do enigma – o enigma de construir uma duplicidade que ao mesmo tempo constitui e condena à perda o sujeito da linguagem: “Meu coração igual ao meu / outro coração, vive comigo, / vive e faz do meu viver / o teu viver. Fui várias vezes / o mesmo, aceitei a primavera, / descontei contas por ti, / ó meu outro coração” (p.20). Inúmeras formas de questionar a realidade radicam na dificuldade de o sujeito se compreender a si próprio, seja através de alusões a contextos supostamente biográficos – “Procuras na minha secção de música / do mundo onde estará o destino / daquele povo agora muito em moda / nos filmes” (p.54), ou através da memória interessada em compreender a interlocução com o outro: “Ouve, sócio, então já não te lembras / de mim dos tempos do liceu? / Roubaste-me o que era meu, / não sei se também te lembras” (p.76).
     Um raio de sol reverbera uma realidade alterada pela elaboração estética (a longa tradição na poética ocidental do motivo do Sol como agente criador, revitalizada pelo Cesário Verde de “Num bairro moderno”: “Subitamente, - que visão de artista! - / Se eu transformasse os simples vegetais, / À luz do sol, o intenso colorista”) e captada por uma subjetividade esgarçada, dispersa e cética – “qual escrivão do vento / condenado à intempérie dos sentidos. (...) Se não traçarmos nenhum risco nada / nos pode perder, temos um lago, temos / um deserto, que mais podemos querer?” (p.41).


PEREIRA, Edgard. Helder Moura Pereira: tu vês a minha sombra. Lisboa: Aldeiabook, 2014, p.119-121.
PEREIRA, Edgard. Um raio de sol. Resenha em Colóquio-letras, 159-160, Lisboa: Fund. Calouste Gulbenkian, 2002, p.450-451.
PEREIRA, Helder Moura. Um raio de sol. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000. A esta edição prendem-se os números entre parênteses, nas citações.



quarta-feira, 1 de junho de 2016

Hélio Fraga

      Hélio Fraga, conceituado jornalista e escritor, atuou durante anos no Estado de Minas, com matérias de teor político, esportivas e crônicas de mérito considerável. Sob o título de "Prejudicando o Brasil", publicou ontem no jornal O tempo um artigo em que faz comentários pertinentes sobre os dias que correm, em especial sobre o comportamento da presidente afastada. Transcrevo, por considerá-lo oportuno, algumas passagens do artigo.

      "O direito à liberdade de expressão é sagrado em cada ser humano, mas pede-se e espera-se que a verdade dos fatos seja respeitada. Muitos brasileiros se sentiram constrangidos quando, no festival de Cannes, artistas do filme Aquarius exibiram cartazes afirmando que "un coup d'etat a eu lieu au Brèsil" e "a coup took place in Brazil".  Pode ser a opinião pessoal desses artistas e do diretor - eles, sorridentes, e ele, de óculos escuros. Mas estavam divulgando uma mentira e sujando a imagem de nosso país.
      A classe artística depende de verbas e isenções oficiais, e suas manifestações têm forte conteúdo corporativo. Os cofres federais sempre estiveram abertos para esses ativistas culturais produzirem filmes e shows para os quais o cidadão paga ingresso - portanto, nada têm de filantropia. Mamam nas tetas do governo e defendem suas boquinhas.
      Agora que o Brasil passa a ter, pala primeira vez nos últimos 13 anos, um Ministério das Relações Exteriores disposto a rechaçar o desrespeito aos direitos humanos e os ataques à democracia, não se submetendo mais aos governos populistas e autoritários de Bolívia, Venezuela e Equador, é importante que nossas embaixadas não deixem sem resposta nenhum ataque desse tipo, porque estão distorcendo a verdade dos fatos.
      Admitir que houve golpe, que uma presidente da República foi afastada do poder de forma arbitrária e inconstitucional, é aceitar que estejam sendo traídas e renegadas a Constituição, a Câmara dos Deputados, o Senado Federal, o Supremo Tribunal Federal e a Procuradoria Geral da República (PGR). Tudo foi feito dentro da lei. E a PGR ainda tem muito mais a mostrar - esperem.
      Após exaustivos debates, com amplo direito de defesa, a presidente perdeu em todas as votações: de 367 a 137 na Câmara Federal; de 15 a 5 na Comissão de Investigação do Senado; e de 55 a 22 no plenário do Senado Federal - daí seu afastamento provisório por 180 dias. Durante todo o processo, desde o início do ano, em todos os momentos, a presidente denunciou um golpe. Foi a primeira a manchar publicamente a imagem institucional do país ao reunir correspondentes estrangeiros no Planalto para insistir em sua tese, e eles transmitiram essa mentira aos mais poderosos meios de comunicação de todos os continentes."
      (...)

FRAGA, Hélio. Prejudicando o Brasil. O tempo. Belo Horizonte, p. 19, 31 maio de 2016.

terça-feira, 24 de maio de 2016

Referência cultural ameaçada

      O Governo de Minas Gerais enviou um Projeto de lei à Assembleia Legislativa com o objetivo de desativar a Imprensa Oficial do Estado. A medida tem gerado indignação entre os intelectuais, escritores e artistas plásticos. O Governo que patrocina o projeto é o mesmo cujo titular é alvo de investigação na operação Acrônimo. Será que o intento seria contratar a gráfica do amigo Bené, também investigado? A Imprensa Oficial firmou-se como referência cultural do Estado há mais de um século, tendo em vista seu papel pioneiro de divulgador de notícias, atos administrativos e livros há quase cento e vinte anos. Os historiadores atestam a data de 1898 como sendo o ano em que saiu a primeira edição de um órgão informativo do Estado.

                                              (Imagem: Divulgação IO MG)

      O prédio neoclássico da Avenida Augusto de Lima acolheu no passado nomes expressivos da política e das letras do país. Juscelino teria clinicado em seu recinto, num posto médico lá instalado, José Maria Alkmim, José Aparecido de Oliveira, Mário Casasanta, Darcy Ribeiro, Carlos Drummond de Andrade, Francisco Iglésias, Manoel Hygino dos Santos, Vivaldi Moreira, José Bento Teixeira Salles, Paulo Campos Guimarães, Guimarães Alves e outros nomes figuram como ilustres diretores da Casa ou publicaram obras em suas oficinas gráficas. 
      A importância da Imprensa Oficial para a literatura brasileira é incalculável. Murilo Rubião fundou em fins dos anos de 1960 o prestigioso Suplemento literário, órgão cultural hoje cinquentão, num país em que as folhas literárias não passam de duas ou três edições. Muitos escritores ali iniciaram publicando poesia ou ficção ou prestigiaram as páginas do Suplemente, como Cyro dos Anjos, Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Lúcia Machado de Almeida, Affonso Ávila, Dantas Mota, Bueno de Rivera, Benedito Nunes, Murilo Mendes, Pascoal Motta, Laís Corrêa Araújo, Fábio Lucas, Adélia Prado, Duílio Gomes, Mário Garcia de Paiva, Letícia Malard,  Fritz Teixeira Salles, Rui Mourão, Manoel Lobato, Ildeu Brandão, Silviano Santiago, Sérgio Santana, Carlos Ávila, Osvaldo André, Márcio Almeida, Hugo Almeida, Anelito de Oliveira, Adalgisa Botelho de Mendonça, Luiz Vilela, Lucienne Samôr,  Jaime Prado Gouvêa e  muitos outros nomes, que não se restringem aos limites do Estado. As matérias literárias apresentavam-se ilustradas por grandes nomes da arte mineira, como Yara Tupinambá, Márcio Sampaio, Chanina, Álvaro Apocalypse, Nelo Nuno, Bax, Liliane Dardot, Ferruccio, Eimir, Wolney, Eliana Rangel, Gilberto Abreu, Sebastião Nunes e muitos outros. Não é pouco.
      Desativar um órgão com extensa folha corrida de altíssima qualidade na área cultural é um verdadeiro atentado à história mineira. Como tem sido demonstrado, nos dias recentes, a Imprensa Oficial nem é deficitária. O sensato seria injetar recursos para modernizar o seu parque gráfico, em reconhecimento pelo muito que contribuiu e continuará gerando de relevante em termos de cultura para a sociedade.

quinta-feira, 19 de maio de 2016

Boris Schnaiderman (1917-2016)

      Morreu ontem no Hospital Samaritano, em São Paulo, o escritor e tradutor Boris Schnaiderman, aos 99 anos. Internado há uma semana, não resistiu a uma pneumonia. Nascido em 1917, na Ucrânia, veio para o Brasil em 1925, na companhia dos pais. Como tradutor, verteu para o português grandes autores russos, Dostoiévski, Tólstoi, Maiakóvski, dentre outros. Registrou na ficção a experiência da guerra - a campanha da FEB na Itália- no romance Guerra em surdina (1964), reeditado pela Cosac Naify em 2004. Em parceria com os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, participou da tradução de dois importantes lançamentos da década de sessenta: Poemas de Maiakóvski (1967), Poesia russa moderna (1968). Grande intelectual.
      Tenho uma carta de Boris Schnaiderman, devo a ele minha apresentação ao Suplemento literário do Estadão, no qual publiquei artigos nos anos de 1970. A carta consta do meu Mosaico insólito (2006).

                                              (Foto: youtube.com)


domingo, 8 de maio de 2016

Louis-Ferdinand Céline

Livro do mês:  

       O livro escolhido para a rubrica do mês atravessou o Atlântico duas vezes: pela autoria, focando um grande nome da literatura francesa; por força da tradução e edição portuguesas. Para tempos conturbados nos trópicos, recheados de líderes hipócritas e populistas, um mergulho num período escuro da história universal: Viagem ao fim da noite, romance publicado em 1932, do polêmico Louis-Ferdinand Céline (1894-1961). Um retrato realista do tempo da guerra, empreendido por alguém que viveu todos aqueles horrores e desespero. Querer encontrar um escritor otimista, cheio de esperança e bons sentimentos, é gostar de ver o mundo de olhos vendados. Execrado por expressiva parcela da inteligência ocidental, Celine retruca com algum cinismo erudito. Tomado pelo medo e atrocidades, retrata os anos de pavor e falta de perspectiva da primeira guerra, estendendo-se até os anos 30. Não hesita em celebrar a perigosa aliança entre a poesia e a violência: “Os tempos já não estão para atuações mesquinhas! Abaixo as literaturas empedernidas! Uma nova alma floresce no meio do grande e nobre tumulto das batalhas!” (p. 110). Impiedoso em relação à cultura ocidental alicerçada na crença em valores transcendentes, o autor ataca os intelectuais: “Nunca mais tornei a vê-lo, ao Princhard. Tinha o vício dos intelectuais, era fútil. Sabia coisas de mais, aquele rapaz, e as coisas confundiam-no. Tinha necessidade de uma porção de expedientes para se excitar, para se decidir” (p.82).

                                                    (Foto: write-aholic.com)

             O escritor, em panfletos escritos em fins dos anos 30, não esconde seu ódio à sociedade capitalista (por extensão, aos judeus), explicitado nos anos de pânico e barbárie, motivo de sobra para merecer, mais tarde, acusação de Sartre (não de todo convincente) de que teria colaborado com nazistas. A obsessão pela morte, a imersão numa noite ameaçadora e interminável, não lhe dão trégua: “Nesta profissão de sermos mortos, não devemos mostrar-nos difíceis; temos de proceder como se a vida vá continuar, o mais duro é isto, esta mentira” (p. 46). Em meio aos relatos bélicos, acrescidos de inúmeras peripécias e situações exóticas, inclui uma extensa narrativa, de extração autobiográfica, que retrata uma temporada exótica entre os negros africanos, nos confins do Congo. Cenas de apelo sensual misturam-se ao perigo de epidemias, leitos a tresandar urina, diarreias tropicais, sob o calor tórrido, o perigo de ataque de crocodilos, corrupção desenfreada em meio à mais degradante miséria.
Entre descrições de episódios violentos e sórdidos, tiroteio, saques, deserções, extermínios a sangue frio, de mistura a flagrantes de bordéis ignóbeis, o narrador dá vazão a um sem número de confidências e queixas: “Tudo aquilo em que tocávamos estava falsificado: o açúcar, os aviões, as sandálias, os doces, as fotografias; tudo quanto líamos, engolíamos, chupávamos, admirávamos, proclamávamos, refutávamos, defendíamos, não passava de fantasmas odiosos, contrafacções e mascaradas. Os próprios traidores eram falsos” (p.66). Transmite ceticismo e uma visão amarga, nada piedosa do sofrimento humano, abalado frontalmente pela constatação da instabilidade e colapso das formas civilizadas de vida dadas como válidas, nem se intimida em mostrar sua impotência e fragilidade diante da civilização compactuada com a loucura da guerra. Diante de certezas que se esfumam, revela-se destituído de espiritualidade, num mundo em que os valores materiais se tornaram hegemônicos. Os recursos narrativos encarecem a sátira feroz, o realismo e o insólito de cenas, o registro linguístico calcado na oralidade, o uso equilibrado de adjetivos e a ênfase na descrição.

CÉLINE, Louis-Ferdinand. Viagem ao fim da noite. 3ª. ed., trad, apres. e notas de Aníbal Fernandes. Lisboa: Frenesi, 1997.

terça-feira, 26 de abril de 2016

Sá-Carneiro

No dia 26 de abril de 1916, o poeta português Mário de Sá-Carneiro suicidou-se no Hotel Nice, em Paris. Contava 36 anos, exilara-se na capital francesa na sequência de turbulenta crise existencial e financeira. Publicara um livro de poesia (Dispersão, 1914), uma novela (A confissão de Lúcio, 1914), um volume de contos (Céu em fogo, 1915), tendo participado do lançamento de duas edições da revista Orpheu (1915), o mais importante periódico do modernismo português. Grande amigo de Fernando Pessoa com quem se correspondia, deixou registrada em cartas a atribulada vivência dos últimos três meses, com a confidência de queixas, notas de desespero e avisos de desistência. Sua morte  completa hoje cem anos.
Como poeta, Sá-Carneiro granjeara a atenção dos intelectuais por uma refinada consciência artesanal e engenhosos recursos criativos. O restante de sua obra – constituído por mais um livro de versos (Indícios de oiro), - seria publicado graças ao empenho de Fernando Pessoa, só em 1937.

                                     
                                       (Imagem: pensamentosnomadas.com)


          “A poesia de Sá-Carneiro deixa sob suspeição qualquer traço de plenitude e elege a dispersão como opção estética: “Um pouco mais de sol – eu era brasa./ Um pouco mais de azul – eu era além” (“Quase”).

         Produzida num contexto tenso – entre o simbolismo e o futurismo – a poesia de Sá-Carneiro oscila entre o hermetismo e a dissonância, entre a ironia e o desejo de escandalizar a mentalidade burguesa, questionando padrões estratificados ...” (PEREIRA, Edgard et alii.  Intersecções – ensaios de literatura portuguesa. Campinas: Komedi,  2002, p.41-42).

quinta-feira, 21 de abril de 2016

Poesia portuguesa moderna e contemporânea

        O I Colóquio Internacional de poesia portuguesa moderna e contemporânea reuniu, na Faculdade de Letras da UFMG, em Belo Horizonte, um seleto grupo de pesquisadores de Literatura Portuguesa, nos últimos dias 18, 19 e 20 de abril. Promovido pelo Grupo de Estudos de Poesia Portuguesa Moderna e Contemporânea, Centro de Estudos Portugueses da UFMG, Centro Federal de Educação Tecnológica de MG (CEFET-MG), Departamento de Letras da UFOP, o evento propôs-se a discutir um amplo rol de autores portugueses das últimas décadas.


A proposta vem registrada no Caderno de Resumos como “apresentar um panorama alargado da poesia portuguesa, pensando-a como lugar de convergência e de dissonância de algumas linhas de força que, em suas diferentes formas e metamorfoses, ao longo de todo o século XX e já agora nestas duas décadas do século XXI, consolidam-na como um dos mais vigorosos e inventivos discursos da lírica européia”.



No meu caso, foi o momento imperdível de reencontrar os amigos Silvana Pessoa, Raquel Madanêlo, Viviane Cunha, Jorge Fernandes da Silveira, Duarte Drumond Braga, Luís Maffei, Roberto Pontes e Wagner Moreira. Tempo também de fazer novas amizades - Joana Matos Frias, Jorge Valentim, Paulo Braz, Rosa Martelo, Sandro Ornellas. Tempo de lamentar a impossibilidade de conhecer ou rever, dentre outros,  por incompatibilidade de agenda, pessoas não menos queridas – Conceição Flores, Ida Alves, Lélia Parreira Duarte, João Batista Santiago, Manaíra Aires Athayde. Apresentei, na tarde do dia 19, o ensaio “António Franco Alexandre: os códigos do mito e da modernidade”. Coordenei, na tarde do dia 20, uma mesa em que foram apresentados abordagens críticas, interpretações e debates sobre os poetas Ana Luísa Amaral, Chacal, Luíza Neto Jorge e Maria Gabriela Llansol, por Cláudia da Cruz Cerqueira, Gabriela F. de Abreu Carneiro, Tatiane da Costa Souza e Valéria Soares Coelho.
      Entre os participantes, brasileiros e estrangeiros, muitos estudantes de graduação e de Pós. Apesar da vitalidade do setor, uma comissão do governo federal (petista) emite sucessivos pareceres favoráveis à eliminação da Literatura portuguesa do currículo nacional. "Pátria educadora"... Vai entender.