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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Lucas, o evangelista

      "Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa.

                                        (Imagem: site.ucdb.br)

      Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: "Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor."

      Lucas, 2,1-11. (Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 2002)


      Desejo a todos um feliz Natal, com a perspectiva de melhores dias, construídos na esperança com os valores do saber, solidariedade e do trabalho honesto.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

José Guilherme Merquior

Livro do mês:

       Procura-se cada vez mais profissional competente no Brasil. Dentre eles, procura-se também um historiador de literatura. Ao invés de me deter no livro de José Guilherme Merquior (1941-1991), um dos mais brilhantes ensaístas de seu tempo, optei por discretear a respeito de sua temática - a história da literatura brasileira, além de apresentar uma bibliografia sucinta sobre o assunto. Para situar o contexto, não custa referir que Merquior sofreu forte patrulha, por ter denunciado em público que a filósofa Marilena Chauí teria plagiado o filósofo francês Claude Lefort.

                                                   (Imagem: estadao.com.br)

O Brasil pode se considerar privilegiado pelo competente elenco de historiadores da literatura revelados entre o final do século dezenove e os anos setenta do século vinte. O terreno é um tanto espinhoso, tentemos desbastar o que for possível para uma visão mais nítida. De lá para cá, o cenário foi se esvaziando, em amplitude e densidade analítica. Os exercícios mais provectos foram efetivados por Inocêncio Francisco da Silva (Dicionário bibliográfico português, publicado entre 1858 e 1923, em Lisboa) e Ronald de Carvalho (Pequena história da literatura brasileira, de 1919). Curiosamente, Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876) nem era brasileiro e deixou registradas queixas a respeito da dificuldade em obter informações e livros de autores brasileiros em Portugal; mesmo assim, a ele se deve o grandioso projeto por ele iniciado. Na sequência desses  pioneiros, dois autores, nascidos no século dezenove, dominam nesta área até meados do século XX: Sílvio Romero (1851-1914) e José Veríssimo (1857-1916). 
        Não seria exagero afirmar que com eles tem início a sistematização crítica da produção literária brasileira como um todo, em visão abrangente. Com suas idiossincrasias e preferências discutíveis, pouco importa. A História da literatura brasileira de Sílvio Romero data de 1888, (5ª. edição em 1953). Influenciado pelo cientificismo, Sílvio Romero tropeça em alguns momentos (considera Tobias Barreto superior como poeta a Castro Alves, subestima Machado de Assis). A respeito desta obra, argumenta José Guilherme Merquior:

“... os juízos estéticos de Sílvio Romero são às vezes claudicantes, às vezes insustentáveis (...); contudo, o estilo ágil e combativo facilita a leitura, e o patriotismo sem ufanismo faz desse colosso historiográfico, ao qual se deve a fixação definitiva (em termos globais) do nosso corpus literário, um depoimento fundamental sobre o itinerário da cultura brasileira” (MERQUIOR, 1977, p.112).

Sem o instrumental teórico proclamado por Romero, José Veríssimo produz uma obra equilibrada e lúcida, valoriza Machado de Assis e se pauta por critérios literários. Afeiçoado à poesia romântica, mostra-se pouco receptivo à poesia simbolista, que não compreende e mais condescendente em relação à poesia parnasiana. Sua História da literatura brasileira foi publicada no ano de sua morte, 1916. Depois surgiram, dentre outras, a obra de Otto Maria Carpeaux (Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, lançada em 1949), e a de Nelson Werneck Sodré (História da literatura brasileira - seus fundamentos econômicos, de 1938). A partir de então, as diversificam-se os objetivos e começam a surgir obras concebidas como recortes regionais (literatura mineira, riograndense, etc.) ou centradas em movimentos, sejam temáticos ou de gêneros específicos (os panoramas de poesia de vários estilos, estudos específicos e globais de contos, romances ou poesia). Nem sempre nas perspectivas e enfoques regionais se alcança um rigor analítico vertical, apesar do acerto de inúmeras sínteses e a riqueza de visões panorâmicas, quando não se restringe a mera enumeração de nomes (como ocorre por vezes na História da literatura mineira, de Martins de Oliveira). Nestas coleções temáticas ou de fixação num determinado período, esfuma-se o açodamento em torno do ideal nacionalista, visível na maioria dos historiadores literários, à exceção de José Veríssimo, sobressaindo o gosto de descobrir talentos (na antologia Poesia simbolista, de 1965, Péricles Eugênio da Silva Ramos acolhe o poeta Pedro Kilkerry, até então desconhecido) e a pesquisa interessada em parâmetros textuais e estilísticos. Na década de cinquenta, Afrânio Coutinho organiza a monumental coleção A literatura no Brasil, à frente de um selecionado rol de especialistas (publicada então – 1956-1959 - em três, hoje em seis volumes). No início dos anos noventa, foi lançada a Enciclopédia da literatura brasileira, dirigida por Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, posteriormente atualizada sob a coordenação de duas pesquisadoras, Rita Moutinho e Graça Coutinho.
      Dentre os manuais mais recentes, nem todos disponíveis, em que o escopo didático se alia ao rigor analítico, citam-se os trabalhos de José Guilherme Merquior, Antônio Soares Amora, Antonio Candido, José Aderaldo Castelo, Massaud Moisés e Alfredo Bosi. Nos planos de Merquior, previa-se um segundo volume, de Euclides da Cunha em diante, infelizmente interceptado pela morte precoce do autor. Suas leituras correspondem a mergulhos interpretativos lúcidos e desafiadores, aparelhados por enfoques altamente eruditos. Como todo trabalho dessa envergadura, porém, apresenta algumas lacunas e omissões, tais como o altivo desinteresse pela obra de Lima Barreto e certa miopia em relação a Afonso Arinos, em contrapartida ao destaque dado à obra ficcional e ensaística de Graça Aranha.


O país avançou em muitos aspectos, a população triplicou, os escritores também, numa sociedade cada vez mais dinâmica e complexa. Há vagas para historiadores da literatura, no Brasil.


AMORA, Antônio Soares. História da literatura brasileira. São Paulo: Saraiva, 1960.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1959. 2 v.
CANDIDO, Antônio; CASTELO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira. 3ª. ed. São Paulo: Difusão Européia do livro, 1968. 3 v.
CASTELO, José Aderaldo. A literatura brasileira. A era colonial. São Paulo: Cultrix, 1965, v.1.
CÉSAR, Guilhermino. História da literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1956.
COUTINHO, Afrânio et al. (Org.). A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Sul Americana, 1956-1959. 3 v.
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. 2ª. ed. rev., ampl., atual. sob a coord. de Graça Coutinho e Rita Moutinho. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fund. Biblioteca Naional.; Academia Bras. de Letras, 2001.
LIMA, Ébion de. Lições de literatura brasileira. 3ª. ed. rev. e atual. por Dino Del Pino. São Paulo: Salesiana, 1965.
LUCAS, Fábio. Poesia e prosa no Brasil. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
MARQUES, Oswaldino. Ensaios escolhidos. (Teoria e crítica literária). Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968.
MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. São Paulo: Cultrix, 1978. 7 v.
MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides. Breve história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1977.
MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através de textos. São Paulo: Cultrix, 1971. 21ª. ed., 1998.
MOISÉS, Massaud. O simbolismo (1893-1902), São Paulo: Cultrix, 1966. 4ª. ed. 1973.
MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1983. 4ª. ed. 1997.
MURICI, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. Brasília: INL, 1973. 2 v.
OLIVEIRA, Martins de. História da literatura mineira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1958.
         PEIXOTO, Sérgio Alves. A consciência criadora na poesia brasileira. São Paulo: Annablume, 1999.
PORTELA, Eduardo. Dimensões. Crítica literária. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1958-1965. 3 v.
RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Comp., introdução e notas). Poesia simbolista. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira; seus fundamentos econômicos. São Paulo: Cultura brasileira, 1938. 6ª. ed. Civ. Brasileira, 1976.