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sábado, 10 de outubro de 2015

Será o Bené?

 Nos últimos meses, as notícias negativas envolvendo Fernando Pimentel (PT), governador de Minas Gerais, sucedem-se, insistentes e desabonadoras, na imprensa. Além das contas de campanha em processo de investigação, com suspeita de manipulação de dados e irregularidades, pesam sobre ele fortes indícios de tráfico de influência, em favor do empresário, misto de lobista e padrinho de casamento, Benedito Rodrigues de Oliveira, conhecido como Bené.

À época da campanha, fins de 2014, foi flagrado em Brasília um avião em que viajavam executivos, identificados como agentes da campanha de Pimentel, entre os quais o empresário Benedito R. O., portando R$ 113.000,00 em espécie. Segundo os jornais, Bené teria sido o coordenador da campanha de Fernando Pimentel para governador. A proximidade entre políticos e empresários de conduta ilícita tem se prestado a compor cenários propícios à contaminação viciosa da administração e ao assalto dos cofres públicos. O antigo ditado “diga-me com quem andas e te direi quem és” mantém-se ainda convincente.


      (Imagem: Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas Gerais www.guiabh.com.br)

            As suspeitas vêm lá de trás, antes da campanha eleitoral, do período em que Fernando Pimentel foi Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. De acordo com a revista Época, a Polícia Federal comprovou que portarias então exaradas pelo MDIC teriam favorecido com vantagens fiscais a montadora de veículos Caoa. De janeiro de 2011 a fevereiro de 2014, período em que Pimentel esteve no posto de Ministro, e na gestão de seu substituto na Pasta, Mauro Borges, no âmbito do Programa Inovar-Auto, criado pelos dois ministros, a Caoa foi favorecida com benefícios fiscais. A ponte entre a montadora e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, seria o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira. Como pagamento pela ingerência nos meandros da administração federal, o empresário amigo de Pimentel recebeu R$2, 1 milhões da referida montadora, segundo documentos apreendidos pela Polícia Federal. Com a eleição de Pimentel para governador de Minas, Mauro Borges foi nomeado Presidente da poderosa Cemig, empresa de energia, controlada pelo governo do Estado.
            Mas a atuação do empresário nas diligências em favor de determinadas empresas não se limitou ao Ministério do Comércio, Indústria e Comércio, alastrou-se para outras áreas, como O Ministério da Cultura e o Ministério da Saúde, nos quais conseguiu emplacar diversos contratos para a Gráfica e Editora Brasil, propriedade de seus familiares. O jornal O Estado de S. Paulo, de acordo com O Tempo, teve acesso a Relatório da Operação Acrônimo, no qual se confirma que o empresário amigo de Fernando Pimentel teria, através de fraudes em licitações, obtido contratos superfaturados no governo federal, estimados em 200 milhões.
            Diante de claros indícios de tráfico de influência, causa, no mínimo, indignação o modo arrogante como os advogados do governador mineiro assobiam para o lado, como se os fatos se dessem nas ilhas Maldivas. Não se sabe até quando.


            Pimentel ajudou Bené, diz PF. O tempo. Belo Horizonte, p. 6, 10 out. 2015.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Jorge Edwards

Livro do mês:

            Caudalosa, exuberante, feérica, ousada, erudita, sofisticada, cosmopolita, inovadora, de excessivas peripécias, recetiva aos sentidos, colorida como as mantas tecidas nas altitudes andinas, a ficção de Jorge Edwards, em O inútil da família, não se intimida caso seja comparada à dos festejados autores fantásticos da literatura latinoamericana dos anos de 1970. Embaixador chileno, com passagem por Havana, Madri, Paris, Prêmio Cervantes, dentre outras premiações, Jorge Edwards apresenta, neste romance, um refinado contador de histórias, dotado de invulgares recursos, conhecimento de cultura e dos bastidores do mundo do dinheiro e da arte. O rótulo de memórias não condiz inteiramente ao resultado alcançado, embora as lembranças pessoais se misturem aos incidentes da saga do famoso tio-avô, cruzando os dois destinos. O romance engloba traços textuais heterogêneos: biografia, ensaio literário e novela de costumes alternam-se numa arejada carpintaria. O objetivo inicial seria biografar uma figura lendária das letras chilenas, o parente, Joaquín Edwards Bello, agraciado em 1943 com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile. O primeiro parágrafo esclarece: “Como é sabido por toda a gente no Chile, Joaquín Edwards Bello teve existência real. Nasceu em Valparaíso em 1887 e morreu em Santiago no início de 1968” (p.8). A pesquisa efetuada sobre o escritor, que no círculo familiar é visto como marginal, um fantasma a ser evitado, descobre uma vida tumultuada transcorrida em palácios, mansões, tabernas, cassinos e teatros da América e da Europa. “Agradava-me, sempre me agradou, a sensação de navegar entre papéis, de escarafunchar, de me submergir no tempo” (p.403).


            O retrato final resulta excessivamente contaminado pela presença de eventos históricos e culturais dos dois continentes, num grande painel em que desfilam atores da mais variada extração: multimilionários, políticos inescrupulosos, espiões, artistas plásticos, contrabandistas, nobres de títulos insólitos, aventureiros, estrelas dos palcos, religiosos, intelectuais de nomeada, obstinados príncipes russos, pálidos poetas. (...) Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Borges, Edgar Allan Poe, Amiel, Apollinaire, Baudelaire, Neruda, Álvaro Guerra, Ezra Pound, Vicente Huidobro, Tristan Tzara integram o diversificado rol de referências literárias, alguns atuando como personagens em situações pontuais. Os romances folhetinescos do escritor biografado são uma fonte rica de conexões e tiradas reflexivas. Os traços associados ao efeito de caricatura e do grotesco são especialmente produtivos na elaboração da intriga. Personagens que emergem do plano ficcional confundem-se com pessoas reais ou figuras supostamente extraídas da História, num emaranhado de ações e relatos habilmente entrelaçados. “A ficção parece estabelecer um desenho mais claro e menos caótico da realidade. A ficção reduz a proliferação confusa dos fatos. Em certo sentido, simplifica, introduz no caos dos acontecimentos algo a que se poderá chamar coerência” (p.317).
            Circunstâncias e bizarrias associadas ao lendário parente, amante do jogo e de corridas de cavalo, ilustram uma concepção de arte como fusão de realidade e fantasia. O narrador elabora instâncias de ambiguidade e espelhos, delineando um jogo entre a nitidez de contornos e a difusa silhueta na configuração de personagens. Em alguns momentos questiona-se o limite tênue entre realidade e fantasia, ou realidade e invenção, vistas como instâncias complementares no processo romanesco. A equivalência entre o relato verdadeiro e o imaginado é uma questão que não abala a credulidade dos leitores. Dirá o escriba, pelas tantas: “Por muito que se ponha ao serviço das notícias, um escritor pode permitir-se certas liberdades, certos luxos” (p.280). Observa-se por vezes uma troca de foco narrativo: o narrador externo (em terceira pessoa) delega a um narrador interno (em segunda pessoa) a condução do enredo. Tal expediente será intensificado nos últimos capítulos, quando são referidas as diligências esclarecedoras da aproximação à memória e efemérides do laureado homem de letras. As reviravoltas da engenhosa transação (a posse do revólver com que o protagonista se matou e extensa tralha de documentos e anotações) ampliam a faceta de jogo e trapaça. O diálogo com a literatura do tio-avô, que escreveu o romance El inútil, desdobra-se no título do livro de Edwards, El inútil de la família. Aos poucos, o narrador percebe os pontos de contato entre sua vida e a do parente evocado, suspeita assinalada desde o início: “A história que narro neste livro, por conseguinte, é a de um heroi trágico, alguém que sempre fui seguindo com os olhos abertos, com uma atenção apaixonada e não raras vezes abismada. É, em certa medida, a minha própria história, mas senti por mais de uma vez, embora só agora me atreva a reconhecer isso, que o sacrifício de Joaquín contribuiu de algum modo, de forma indireta e em certo sentido misteriosa, para tornar mais fácil o meu próprio caminho” (p.9-10).
            A ideia de duplo, facilmente sacada no recorte da relação sobrinho/tio-avô, presta-se também para captar o envolvimento e a reverência do sobrinho por outra personagem, uma parenta, grande cultora das artes, leitora voraz de autores ingleses. No segundo capítulo, portanto, no início de uma sequência de trinta e sete, seu perfil merece um esboço, revelador do conceito de literatura praticada pelos dois autores: “Mas não era bem medo: a tia Elisa, com o seu nariz de pássaro das selvas tropicais, gostava de histórias, de segredos, de intrigas. Não seria escritora, ela também? Andava sempre metida em efabulações, em enredos, propondo algo de que podia depender, segundo ela e no mínimo, a vida e a morte” (p.32). O interesse ficcional pela enigmática senhora insinua-se como eixo de convergência entre aquele que narra e o protagonista, que a ela também dedica atenção nos seus livros: “Encontrei duas páginas e meia dedicadas à tia Elisa. Falavam da sua estatura baixa e do seu nariz de tucano de uma maneira que não deixava qualquer dúvida quanto à referência” (p.33). Instalado num quarto, no Chile, munido de jornais, revistas e notícias de rádio, o protagonista transforma-se em correspondente da guerra civil espanhola, sem perder a capacidade de convencimento. Após o episódio do escritor transformado em correspondente de guerra, num esconderijo andino, narra-se outra incidência de duplicidade: o jornalista Joseph Pla, enviado de Barcelona ao Chile para cobrir o terremoto de janeiro de 1939, ocorrido no sul, teria produzido matérias provando vinhos em Santiago, tendo por base informes de terceiros.
            Para quem espera a apologia da arte, o risco de engano se impõe: “Ao invés, fora da ficção, os irmãos, os primos, os amigos, os inimigos, até mesmo os animais, proliferam. Os nomes de pessoas, coisas e lugares multiplicam-se. A não-ficção é caótica e superabundante, excessiva. Tudo cresce nela como erva daninha. A imaginação criadora, pelo contrário, limpa, desenha, corta” (p.188). Para além das peripécias do enredo, num contexto temporal que se distende por quase um século, a escrita ficcional revela-se por vezes vocacionada a acolher reflexões de natureza teórica, focalizando a própria e paradoxal impossibilidade de dar conta da inescapável densidade dos fenômenos, a pequenez da invenção criativa em face da existência.
A tradução portuguesa, a cargo de Helder Moura Pereira, premiada em 2009, no âmbito da Casa da América Latina/Banif, de Lisboa, mantém o colorido e a vivacidade do original em espanhol.


EDWARDS, Jorge. O inútil da família. Trad. Helder Moura Pereira. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008. Os números de páginas citados entre parênteses remetem a esta edição.

      Uma versão completa deste artigo, sob o título de "Destinos cruzados", foi publicada no Suplemento literário de Minas Gerais (Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura, n. 1 358, jan./fev. 2015, p. 18-19.)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Notas de viagem: Campinas

      Estive recentemente em Campinas, por dois dias, em companhia a familiar, submetido a exaustivos exames clínicos para a ANAC. Acirradas disputas políticas impediam a instalação de clínicas similares em solo mineiro, com prejuízos na ponta da corda ao cidadão, como sempre acontece. Mais uma vez muitas pessoas eram vítimas de política mal direcionada, encarada não como prática de promoção de autonomia do cidadão, mas como forma de manutenção de poder a qualquer custo. Enfim, deixa pra lá.


Uma hora de vôo Belo Horizonte/Campinas. A cidade estende-se aparentemente plana e surpreende pelo tamanho, metrópole que ultrapassa a escala de um milhão e duzentos mil habitantes, com os ingredientes da categoria – trânsito intenso, prédios arrojados, centro histórico deteriorado. As buzinas e urros de motores dos carros sufocam o ruflar das andorinhas que não existem mais. Um prêmio para quem se lembra do autor de texto antológico sobre as andorinhas de Campinas. Espremidas, deslocadas a meio de desenfreada selva de pedra, muitas construções antigas resistem imponentes. 



A estação ferroviária, que avisto em frente ao hotel em que me hospedo, é uma delas que, com sua arquitetura vitoriana, nos transporta para a desdenhosa Inglaterra do século dezenove. À altura dos anos 60, infelizmente, o nosso país desativou de forma irresponsável o transporte ferroviário. Com estilosa torre pontiaguda e extensa gare abandonada, a antiga estação ferroviária de Campinas é um cartão postal, fartamente iluminado à noite.



            Na breve incursão ao núcleo do centro, no encalço de lanchonete confiável, cruzo com uma escultura em granito picotado numa esquina de amplas conexões, bares e comércio variado. Ao pesquisar, descobri que a estátua, construída pelo escultor Yolando Malozzi, representa o político Campos Salles (1841-1913), rodeado de imagens e alegorias da República. Quarto presidente do país, no período entre 1898 a 1902, o seu nome batiza a avenida, projetada numa descida disfarçada, de que só nos damos conta na volta, quando sentimos o peso de uma subida.


       O Largo do Rosário, em reforma, pouco tem a mostrar, a não ser moradores de rua e canteiros de obra. A caminho da UNICAMP, em ônibus urbano, atravesso rápido o que uma placa diz ser a Praça Carlos Gomes, em homenagem ao grande músico: merecia uma visita mais detalhada, ficou para outra oportunidade. Enquanto esta não chega, uma boa pedida é ler o romance O selvagem da ópera, de Rubem Fonseca. A cidade universitária, apesar de planejada, condiz com o nome, enorme, um labirinto a ser explorado com paciência de um lado, boa vontade do outro (lavador de carros, funcionários subalternos). Quanto mais humildes, mais prestativas e solidárias são as pessoas nesse país. Não conheci quase nada da cidade, mas o suficiente para perceber sua vitalidade, dinamismo, importância cultural e enigmática densidade humana.