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sábado, 22 de agosto de 2015

Tristão de Ataíde em São João del Rei

      Um amigo morador no Campo das Vertentes, após ler a postagem anterior, entra em contato comigo para dizer que minha opinião sobre São João del Rei agrega pontos de contato com uma visão mais antiga, de Alceu Amoroso Lima. E me indica a referência de um artigo escrito pelo líder católico, há 83 anos atrás, mais precisamente em 1932, após fazer uma conferência na cidade mineira. E os fios vão se desatando. O artigo de Alceu Amoroso Lima (1893-1983), intelectual conhecido também como Tristão de Athayde, data de 6 de junho de 1932. Dessa conferência, também dá notícia o ficcionista sãojoanense Otto Lara Resende (1922-1992), autor  dos admiráveis livros de contos O lado humano (1952), Boca do inferno (1956), As pompas do mundo (1975), do romance O braço direito (1971), que afirma tê-la ouvido, na certa entendendo muito pouco, por ter então dez anos.

                        (Foto: Oto Lara Resende, www.monitordasgerais.com)

      Fui ler o artigo. As semelhanças na avaliação geral me surpreendem, ainda que as separem mais de oitenta anos, pela satisfação de perceber que minha modesta percepção da cidade condensa analogias com a do notável pensador e crítico literário. A importância de Tristão de Ataíde no cenário cultural brasileiro é incontestável: convertido ao catolicismo na década de 20, por influência do Jackson de Figueiredo, participou efetivamente na cultura do país, tendo abraçado posições progressistas que o afastaram dos conservadores, ao adotar posturas liberais na Igreja e na política. Fortemente influenciado por Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e Teilhard de Chardin, Alceu Amoroso Lima logrou conquistar uma avançada concepção humanista, segura e fundamentada em vários campos de saber. Publicou perto de uma centena de livros, dentre os quais,  Afonso Arinos (1929), os cinco volumes da série Estudos (1927 a 1933), No limiar da idade nova (1935), Voz de Minas (1945), Idade, sexo e tempo (1938), Mitos do nosso tempo (1943), A realidade americana (1954), Introdução à literatura brasileira (1956), Revolução, reação ou reforma (1966). Aprendi a admirá-lo na década de 60, acompanhando, no internato, suas colunas publicadas no Jornal do Brasil, onde colaborou a partir de 1958 até falecer. A seguir, trechos do artigo sobre São João del Rei.

                       (Foto: Alceu Amoroso Lima, www.mensagenscomamor.com)

      "(...) Contava encontrar uma cidade do passado, com a beleza histórica de Ouro Preto, o prestígio secular de Diamantina, o encanto silencioso de Sabará ou de Mariana.
      Encontrei uma cidade de hoje, em que o passado não pesa, ao contrário das cidades mortas, sobre as quais parece ele cair como um manto triste. 
      Há um encanto imenso nessas cidades melancólicas, em que a vida dos tempos idos enche o ar que se respira e alonga as perspectivas da imaginação. Cidades de repouso e recolhimento. Cidades de estudo e de meditação. 
      Não é esse o encanto de São João del Rei. Não é apenas o passado que ali se respira, e sim a vida mineira e brasileira bem viva e bem presente, bem ativa e bem consciente de sua força e do seu destino.As coisas do passado, ali, parecem ter apenas o lugar que devem ter em nossa vida, sem nenhum romantismo, sem nenhum saudosismo. São João del Rei não vive do seu passado. Vive com ele.



      A admirável igreja de S. Francisco, a mais bela joia arquitetônica de Minas, porventura, pela harmonia de linhas, pela posição a um tempo sobranceira e discreta, pela finura dos rendilhados esculturais, pela elegância dos terraços do adro, por tudo o que nela se respira de simples, de puro, de belo, não é uma peça de museu. Enquadra-se naturalmente, como joia que é, na montagem que a cidade lhe fornece. E o mesmo se dá com as velhas torres do Carmo ou com essas duas pontes, à romana, cruzando o Lenheiro, que atravessa a cidade, num canal amplo, de praias verdes, abrindo horizontes e lembrando Verona, a cidade de Romeu e Julieta". (...)



LIMA, Alceu Amoroso. Lembrando as horas boas, de um dia de junho em Minas. Suplemento literário de Minas Gerais, Belo Horizonte, n. 899, 24/12/1983.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015

A estátua desmontada



      O centro histórico de São João Del Rei conserva, com pouca alteração, o perfil de cidade setecentista: espraia-se num vale, onde corre um ribeirão canalizado, com pontes, uma projetada com arcos romanos, passarelas e ruas de comércio intenso. Por sinal, o que torna uma cidade viva e dinâmica é a efetiva circulação de ventos, carros, pessoas. Nada mais tedioso do que uma cidade fantasma, estática, parada no tempo, hierática em seus frios monumentos de pedra. Uma cidade em que ressoa em tudo a impressão de ruína intocada. São João Del Rei apresenta essa mistura de tempos e cores, o passado nos envolve em fortes piscadelas, um detalhe arquitetônico surpreende aqui, outro vestígio chega a inquietar, quase nos tira o fôlego, mas alguns poucos quarteirões à frente, retomamos a respiração; um cartaz, um nome de rua, uma garagem comum nos trazem de volta ao presente.
      Alguns sobrados coloniais impõem-se pela arquitetura imponente e solene, ao lado de outros mais modestos, mas igualmente autênticos representantes de um passado opulento. As igrejas barrocas são um espetáculo à parte, altares de beleza indescritível, com profusão de adereços dourados, em especial a de São Francisco (foto acima), a Basílica Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora do Carmo.


                         
                                   (Imagem: saojoaodelreitransparente.com.br)

            Faltava visitar o museu. O Museu Regional fica num prédio de três andares, característico da arquitetura imperial brasileira, janelões de sacadas gradeadas. Tinha terminado a visitação, quando me dei conta de que não vira a réplica do profeta de Aleijadinho que faz parte do acervo. Indaguei a um dos guardas, aquele que me pareceu mais maduro dos três que estavam de plantão.
            “Como sabe do Profeta?”
            “Há referências em vários livros sobre esse Profeta. Num desses livros”.
            Diligente e gentil, o chefe dos guardas explicou que a Profeta fora retirado, encontrava-se na reserva técnica, para dar espaço à montagem de uma exposição temporária a ser aberta dali a dois dias.
            “Mostre-lhe onde está”, dirigiu-se ao companheiro de farda, mais novo mas igualmente gentil e atencioso, como foi possível apurar.
Fui, assim, conduzido à sala da reserva técnica do museu, enquanto meus familiares aguardavam nas imediações da saída do prédio. Retornamos à escada que dá acesso ao segundo pavimento, o guarda mais novo e eu, andamos à esquerda num corredor e sem mais estávamos diante de um cômodo fechado. O guarda, então mais identificado a um guia do museu, abriu uma porta centenária: uma sala escura e povoada de sombras foi-se clareando parcialmente. Adentrei apenas um passo, objetos espalhados no chão impediam adiantar mais. Numa estante comprida e larga, ou espalhadas no piso de madeira, quedavam-se várias peças antigas, entre elas – peanhas, oratórios, teares, liteiras, candeias, canastras.  Solícito e diligente, o guarda indicou onde estava a estátua do profeta, na verdade, as duas partes da estátua, uma vez que fora desmontada, não se sabe se antes ou depois de ser transportada até aquela sala. Controlei-me para não fazer perguntas inúteis. Dividida em dois blocos, a estátua do profeta Baruc, clonada do original existente no adro de uma igreja de Congonhas, postava-se bem à entrada da sala. Por ser moldada em gesso, pareceu-me exageradamente cinza, mas procurei explicar a mim mesmo que deveria ter recebido uma pátina de finíssima areia cinza, razão de coloração mais escura. O Baruc do adro de Congonhas pode contar com o espaço aberto, o horizonte de montanhas e enigmas. Exilados do local de exposição, os dois fragmentos do profeta restavam mudos, informes, destituídos de qualquer ideia de unidade e completude. Era incômodo vê-lo mutilado, despido de qualquer fantasia ou certeza identitária que pudesse ter. O ombro pousava na madeira do piso, deixando visível o ângulo direito do rosto, envolto numa fria expressão de imaterialidade, angustiada mas serena, a face macerada pela poeira do tempo. Vê-lo assim em pedaços, quando nem estava preparado para se visto, era burlar o seu direito ao isolamento, seu efêmero descanso. Meus olhos, que num primeiro instante sofreram a privação da imagem inteiriça e perfeita, ameaçavam devassá-la.
“Perdoe o incômodo”. O guarda, além de cortês e gentil, acabara por se mostrar risonho. Satisfeita a curiosidade, cumpria agradecer e reencontrar o meu grupo. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Nuvem cigana

Livro do mês:

          Acabo de ler, ou antes, folhear avidamente, meio nocauteado, o livro Nuvem cigana, organizado por Sergio Cohn. Um longo depoimento dos participantes do grupo, entremeado de ilustrações, poemas, capas de livro e fotos. Uma energia pura, a amizade desses jovens, reunidos em torno de poesia, droga, política, álcool e sexo no Rio de Janeiro agitado daquela década, como diz o sub título “Poesia & delírio no Rio dos anos 70”. Um deles se jogou de uma janela de arranha-céu, Guilherme Mandaro, no inverno de l979, alguns meses antes da poeta Ana Cristina César fazer o mesmo, ali perto. O diferencial, nos dois casos, é que produziram muito boa poesia, conhecida como poesia marginal ou geração mimeógrafo. Outro, Charles Peixoto, de nome completo Carlos Ronald Carvalho, é neto de Ronald de Carvalho, um dos fundadores da revista Orpheu, 1915, que fascinou e publicou Pessoa e Sá-Carneiro, na Lisboa do início do século vinte. De grupo que publicava em precárias edições artesanais, conhecido como Nuvem cigana, em razão da receptividade, o coletivo chegou a ter álbum (Navilouca) editado pela Phillips, a gravadora multinacional.


            Nuvem cigana é também o nome de uma música de Lô Borges e Ronaldo Bastos: “Se você quiser eu danço com você no pó da estrada/ pó, poeira, ventania”. Os integrantes tornaram-se profissionais em áreas conexas à poesia, como jornalismo, cinema, televisão, teatro, música, cenografia, editoria. Nos anos 70, eles faziam show de poesia, em Ipanema e Copacabana, lugares bastante exigentes no quesito qualidade, em se tratando de qualquer manifestação artística. Produziram uma poesia alegre, com alguma pitada coloquial, uma dose de humor, alguma prospecção reflexiva e um bocado de experiência lúdica. A temática urbana é assumida com certo desbunde, um tanto delinquente, focada em drogas, pirações psicodélicas, numa fatura de alta qualidade. Conforme diz Bernardo Vilhena: “Eu tinha uma estratégia muito clara na minha cabeça: para ser popular, ao menos naquele momento, você precisava ser romântico. Primeiro, era necessário conquistar um espaço: a política, a porrada, vinha depois” (p.135).
           
            Um poema característico das tendências do grupo, este de Ronaldo Santos:

            a morte em mim não mata nada
            a não ser o corpo
            ela de mim não leva nada
            a não ser o morto

          Em “Revanche”, Bernardo Vilhena, o mais prestigiado pelos produtores da música popular brasileira, revela o alcance de sua pegada pop:

            (...)
            a favela é a nova senzala
            correntes da velha tribo
            e a sala é a nova cela
            prisioneiros nas grades do vídeo
            e se o sol ainda nasce quadrado
            quem é que vai pagar por isso
            (...)

         Uma estrofe de “Desabutino”, do poeta Chacal, desbocado e como sempre fora do tom:          

(...)
quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira dum calipso neurótico
um Orfeu fudido sem ficha nem ninguém pra ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia

Eis os integrantes: Bernardo Vilhena, Charles Peixoto, Chacal, Guilherme Mandaro, Ronaldo Santos e Ronaldo Bastos, este último letrista do Clube da esquina, movimento musical que reuniu poesia e música nos anos 70 em Minas Gerais (Mílton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Novelli, Nelson Ângelo, Wagner Tiso, entre outros) e no Rio de Janeiro (os poetas Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, o capista Cafi). Bernardo Vilhena atuou intensamente nos anos 70 e 80 como parceiro de importantes músicos, como Ritchie, Lobão, Cazuza, compondo canções de sucesso (“Menina veneno”, “Revanche”). Três deles integram a antologia 26 poetas hoje, (1998) de Heloísa Buarque de Holanda: Chacal, Charles e Bernardo Vilhena. Ronaldo Santos teria declinado do convite para participar da antologia, inconformado com a conotação comercial do projeto.



COHN, Sergio. Nuvem cigana - poesia e delírio no Rio dos anos 70. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.