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quinta-feira, 9 de julho de 2015

De livros e acervos

         Ter amor a livros é o resultado de décadas de leitura e de esforço continuado pelo conhecimento. O prazer de montar uma biblioteca, só experimentado no limiar da maturidade, constitui-se de pequenos cuidados e interesses. Na pena do escritor João Alphonsus, na biblioteca do Conselheiro, havia estantes “largas e compridas, em cujas prateleiras envidraçadas os livros se enfileiravam sem perplexidade alguma, todos encadernados em marroquim marrom, (...) com um certo cuidado para que não se lhes notasse a diferença de estatura, igualdade e fraternidade de numerosíssimas obras em que o espírito humano se tem debatido, contradito, construído, derruído, esperado, desesperado. (...) Existia uma estante especial, destacada num ângulo, com raridades de bibliômano” (Alphonsus, s.d.,246-247).
         Biblioteca, no caso, refere acervo de mais de cem livros. Ainda que os critérios de escolha sejam democráticos, não seria improcedente classificar os acervos, tendo em conta a quantidade, numa ordem gradativa: de 100 a 500 exemplares, acervo de baixo clero; de 500 a 1000 exemplares, acervo de clero médio; de 1000 exemplares em diante, de alto clero.

                                                 (Imagem:vidaorganizada.com)

A procedência de livros que formam um acervo quase sempre revela-se atabalhoada, demandada, fortuita ou bastarda. À exceção da última categoria, os livros costumam procurar abrigo em lugares em que são bem-vindos: em geral caem em mãos de pessoas que gostam de ler. Por analogia se dirá que as violas frequentam as casas de violeiros. A maioria dos livros que possuímos foram obtidos, em decorrência de escolha pessoal, motivada por variados fatores, que incluem desde a afinidade eletiva, a relevância do assunto, o enfoque abordado, a importância do autor. Outros foram trazidos ao espólio por conta de exigência escolar, ao serem adotados para tarefas dos filhos. Muitos passam a fazer parte de nosso acervo por doação de amigos, vizinhos, namoradas, editoras, parentes ou dos próprios autores. A propósito, desenvolve-se no Brasil uma tradição nefasta que consiste em esperar receber livro de graça de um autor conhecido. Trata-se de um produto de consumo como qualquer outro, sujeito a tributação e custo de produção.  Na grande maioria dos casos, o autor não tem autonomia ou direito sobre a edição, por conta de contrato editorial. A cota de exemplares para divulgação (resenhas em jornal, blogs) envolve processo complexo, participação de profissionais específicos. Assim como, no decorrer dos anos, vamos dando baixa em alguns títulos, - entre os que são emprestados e não voltam, os que desaparecem nas mudanças, os que são surrupiados engenhosamente, os que perdemos, - existem os exemplares que fazem questão de vir até nós, os livros bastardos.
Manusear livro por si só a nada nos conduz. Cabe ter sempre um olhar curioso e analítico, comparar uma edição recente com outra antiga, consultar uma citação na fonte onde foi colhida, apreciar o efeito gráfico presente no desenho de uma capa. O reencontro de uma banal dedicatória pode suscitar lembranças agradáveis, reavivando a circunstância e contexto em que se tornou possível. Um detalhe retorna, alguma reminiscência vem à tona. Além do prazer inerente à leitura de um texto fictício, - acompanhar a trajetória de uma personagem, expor-se à sensação provocada por um poema - o contato com os livros guarda surpresas e emoções. O mais, tomando de empréstimo uma expressão de João Alphonsus, do conto “A noite do Conselheiro”, são tretas de filósofos e literatos.


ALPHONSUS, João. A noite do Conselheiro. In: RAMOS, Graciliano. Seleção de contos Brasileiros - Leste. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, s.d.

sábado, 4 de julho de 2015

Geraldo Reis

Livro do mês:

       Galardoado com o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 1981, o livro de poemas de Geraldo Reis, Pastoral de Minas, mantém-se atual e instigante. Muito mais que uma coletânea de versos, o leitor vê-se diante de uma estrutura verbal orgânica e significativa. O título arrasta consigo uma dupla inscrição, ao indiciar uma fértil ambigidade: de um lado aponta a vizinhança com os documentos episcopais, de natureza moral, enquanto de outro se mostrar como registro de digressões e notas a respeito de pastores. Enquanto aquela denota o zelo em apregoar a exortação moral, como tratado de condutas e modos de viver, esta alinha-se como rol de sabedoria de conhecimentos empíricos, relacionada a assuntos ligados à vida rústica e pastoril. Em ambas, o que sobeja diz respeito à manutenção de códigos, de intenções e alcance específicos, evidentes em resquícios, vestígios cartoriais e poéticos, com assertivas introdutórias pungentes: “Essa penumbra de proibição, destempero, alumbramento. Esse pelo, esse cavalo a galope tão primeiro, e derradeiro, e decadente, e parvo, o próprio peito. Esse pelo-sinal de pobreza, assessoria de miserê, parceria de ‘prevaricou’, ‘pecou’, ‘levou’.” (Reis, 1981, 23)

                                               (Imagem; poetageraldoreis.blogspot.com.br)

Não se nasce impunemente nas montanhas, Minas é muito mais que uma notação geográfica ou histórica – é silício, destino de farsa e desengano - “onde domar a trama / onde bulir o drama / onde cozer a farsa // onde cevar a faina / onde doer a fama / onde puir a praça” (Reis, 1981, 37). A segunda epígrafe, de Cecília Meireles, põe em relevo a crispada onda de sublevação, de fundas e sombrias memórias: “O país da Arcádia / súbito escurece / em nuvens de lágrimas. / Acabou-se a alegre / pastoral dourada: / pelas nuvens baixas, / a tormenta cresce”. A convenção árcade, desde então convocada, faz-se presente ao longo dos poemas, em traços que relevam a delicadeza da écloga, o viver nômade, a exaltação da sabedoria rústica. Tudo isso, sem desdenhar a bruta realidade, em que pontuam “aves de ag’ouro, encomendas / o couro negro das fadas // há penhas como quimeras / quimeras como pedradas” (Reis, 1981, 27). Em notações mais incisivas, pontuais: “caiam bênçãos de Deus / sobre o teu quepe // como uma faca viva / te decepe” (Reis, 1981, 40). A identificação do poeta ao pastor salienta um sentido de sabedoria intuitiva, segundo lição de Chevalier e Gheerbrant: “O pastor simboliza a vigília; sua função é um constante exercício de vigilância: este está desperto e vê. (...) Por causa das diferentes funções que exerce, o pastor aparece como um sábio, cuja ação deriva da contemplação e da visão interior”. (Chevalier; Gheerbrant, 1988, 691-692).

eu sei dos danos das minas
arando o ouro da intriga

também conheço o carinho
de devotadas marílias

se não me aprumo é por logro
das amadas concubinas

dou minhas barras de ouro
pelo coito das meninas
(...)
            (Reis, 1981, 64)

Ainda que voltada para formas populares, a escrita poética desta pastoral não se afasta da consciência da história. Nem dos torneios frasais típicos da fala da província, encaminhando o registro para a esfera da linguagem como legado: “meu coração não emenda coisa com coisa / pensamento ou fala / ou mesmo um fio / de memória amarga” (Reis, 1981, 70). O verso de Geraldo Reis guarda segredos e ecos imprevistos – “e era tudo um mau cheiro de mudo / arengando detrás da vidraça” (Reis, 1981, 33); “antes de tudo / o riacho / compondo rimas no vale// antes de tudo / o capacho / do que me corte ou retalhe” (Reis, 1981, 36). O livro termina cigano como começou, reavivando o nomadismo, no início, a viagem das tropas: “agora o touro / agora o ouro / agora o negro// as mulas de carga rara”; no final, referindo o cavalo “negro, baio e erradio”.  Bela e surpreendente fábula poética, de ressonâncias melódicas inusitadas, alguma incursão barroca, aguda percepção das modulações mínimas, sem medo de transitar pelos atalhos da história e da tradição, municiada das ferramentas da modernidade e da crítica.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva et al. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
REIS, Geraldo. Pastoral de Minas. Belo Horizonte: Comunicação, 1981.