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quinta-feira, 25 de junho de 2015

Liberada carta de Mário de Andrade

      Demorou 70 anos para que uma carta de Mário de Andrade (1893-1945) a Manuel Bandeira (1886-1968) fosse aberta ao público. Nela o escritor paulista, autor de do romance Macunaíma, dos poemas de Paulicéia desvairada, de Contos novos, dos textos críticos de O empalhador de passarinhos, admite ao amigo sua homossexualidade.


                                                   (Foto: Arquivo IEB)
          
       A revista Época (edição 889, 22 junho 2015) registra a árdua diligência para a liberação do documento, o que só ocorreu agora, em meados de junho. Trata-se de uma carta de Mário de Andrade ao poeta Manuel Bandeira, datada de abril de 1928. O espólio literário de Manuel Bandeira foi doado em 1978, por Maria de Lurdes, companheira do poeta, à Fundação Casa de Rui Barbosa. Plínio Doyle, então diretor da instituição, dez anos depois decide, assessorado por uma comissão, interditar o acesso de alguns documentos desse espólio, dentre os quais, a carta de Mário de Andrade, em razão de um conteúdo “sensível ou muito íntimo”. Esse conjunto ficaria lacrado até se passar meio século após a morte de Mário, portanto seria liberado em 1995. À altura, técnicos da Casa de Rui Barbosa opinaram peremptoriamente que a carta de Mário não poderia ser aberta. Condicionou-se, depois, dado o impasse e interesse de pesquisadores, o acesso a uma autorização expressa dos herdeiros. Com base na Lei de Acesso à Informação, a revista Época solicitou um pedido à Fundação, negado em duas instâncias. A revista recorre, por fim, à Controladoria Geral da União, que estabelece o acesso ao documento. A decisão é acatada pela Fundação para os outros documentos, mantendo o lacre à carta do modernista, com o argumento de que liberar poderia trazer “danos irreparáveis” à Instituição, anexando, inclusive, um parecer de um sobrinho de Mário, favorável à manutenção do sigilo, em respeito a "questões íntimas" do escritor. O recurso é derrubado pela CGU, com o entendimento de que “informações pessoais não podem ser protegidas quando necessárias à compreensão de fatos históricos de maior relevância”.
      Na carta, Mário de Andrade registra os revezes e discriminações que sofria em decorrência de sua fama de homossexual. Critica o interesse pelo assunto: “Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria para nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar um muito de exagero que há nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você, que não é indivíduo de intrigas sociais”. Noutro passo, expõe o assédio costumeiro de que era vítima: “Me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão)”.
       O documento é curioso, numa concepção ousada de linguagem, com torneios coloquiais e de sintaxe peculiares ao estilo do autor. A matéria tem assinatura de Marcelo Bortoloti, (disponível em epoca.com.br).

BORTOLOTI, Marcelo. A correspondência secreta de Mário de Andrade. Época. São Paulo, n. 889, 22 junho 2015.


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