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quinta-feira, 14 de maio de 2015

José Saramago

Livro do mês:

            Dentre as qualidades de narrador, dadas à mostra de sobra por Saramago, avulta, além do consumado domínio das peculiaridades da língua, um adequado ajuste à configuração fantasiosa da trama. De tal maneira encontra-se o malfadado revisor ocupado em compreender as razões de seu erro que, de certa forma, vê-se projetado pela máquina do tempo, confrontando-se com a suposta realidade de fatos históricos bem diante dos olhos. Vê-se num campo de batalha, em plena Idade Média, entre soldados leais a Afonso Henriques de um lado e do outro, empedernidos combatentes mouros, duplamente adversários, no terreno político e no religioso. Como tempero às passagens do enredo, contaminadas de fantasia e detalhadas notas de cor local, o narrador apela a variados recursos, um deles a referência ao bagaço, consumido pelos soldados e pelo revisor. Daí decorrem as hesitações, algum delírio e mudanças de comportamento de personagens.
            O romance  História do cerco de Lisboa é a um só tempo objeto de trabalho de revisão e exercício de releitura de fatos históricos. A inserção de um clandestino e rebelde não ao texto histórico tem a força de questionar o aspecto imutável, quase sagrado da História como ciência. O cruzamento de fatos dela extraídos aos da monótona rotina da vida de revisor medíocre, além de enriquecer a trama de peripécias e vocábulos pouco usuais, cumpre a finalidade de emaranhar o fio narrativo, propiciando a observação da ficção dentro da ficção. Instigado pela autoridade a que se submete enquanto revisor (e futura parceira amorosa), Raimundo da Silva empenha-se, ele próprio, a escrever uma outra narrativa histórica, paralela àquela a que se dedicara como parte de seu ofício. De revisor de textos alheios transforma-se o protagonista em produtor de texto original, após fortuita sugestão de Maria Sara. “... e está claro que Raimundo da Silva, que de escritor nada tem, nem os vícios nem as virtudes, não poderia, em um dia e meio, ter escrito tão e tão variado, que sobre os méritos literários do que fez não há que falar, por ser isto história, logo ciência, e por carência de autoridade propriamente dita” (Saramago, 2003, p.141). O romance passa a trilhar dois atalhos, um relacionado à rotina do revisor, outro conectado ao embate histórico entre lusos e mouros, às portas da cidade de Lisboa, cerca de mil anos atrás.

   (Imagem: www.arqnet.pt)
           
            A cidade de Lisboa, até então referida pelo revisor, como paisagem vista de sua varanda, no alto da Rua do Milagre de Santo Antônio, admite outra incursão, desta vez uma cidade medieval. Da cidade do presente, seu olhar meticuloso focaliza a Igreja da Sé, os telhados das casas em linha descendente até aproximar-se do leito do rio Tejo, fotografando a dinâmica dos turistas nas ruas da Baixa. Permite-se a liberdade de referir o ruidoso bonde na curva da Madalena e o vago perfil de um cineasta em atividade.  Sobrepõe-se a esta cidade contemporânea, outra, resgatada em pleno século XII, época do confronto entre mouros e lusos. Uma torre moura, encaixada numa das portas da cidade, faz contraponto no presente à casa do revisor. A ficção de Saramago acolhe o diálogo entre o ficcionista e o historiador, cujo esboço engloba impressões sobre a criação, o tempo e a escrita. As sutis relações entre história e a vida, o fingimento e a astúcia literária, os desdobramentos reflexivos sobre a precariedade da verdade, o ato de corrigir e emendar passam a ocupar a atenção do narrador.  Ao revisar um livro que narra o episódio do cerco e tomada de Lisboa aos mouros por tropas cristãs no ano de l l47, Raimundo da Silva adultera-lhe uma passagem. Os cruzados europeus, em trânsito pela cidade a caminho da Terra Santa, por conta e risco da emenda do revisor, dizem não, em lugar de sim, à convocação feita por D. Afonso Henriques, rei de Portugal, em busca de auxílio na batalha contra os mouros. Jamais um NÃO rendeu tamanha fortuna crítica e retórica.  Esse equívoco motiva uma tomada de consciência do revisor, conduzindo-o a enveredar por uma empreitada nova e inusitada. Diante da tarefa de escrever seu relato, jogado de súbito na “noite dos tempos”, reporta algumas reflexões sobre a ficção, espaço “... onde nem as felicidades narrativas faltam, a alternância do breve e do longo, o corte súbito, a mudança de plano, a suspensão, até a ironia levemente desrespeitosa” (Saramago, 2003, p.169). O fragmentado perfil do improvisado escritor vai sendo elaborado aos poucos, merecendo vez por outra alguma nota complementar: “além da mais que uma vez confessada falta de preparo para tudo quanto não seja a miúda tarefa de rever, é homem de escrita lenta, sempre cuidando das concordâncias, avaro na adjectivação, molesto na etimologia, pontual no ponto e outros sinais,” (Saramago, 2003, p.140).
Quinto romance de uma obra diversificada, História do cerco de Lisboa é de l989, elaborado quando o autor encontra-se sobejamente aparelhado para o ofício, em pleno domínio dos expedientes ficcionais, após publicar títulos expressivos, como Levantado do chão (1980), Memorial do convento (1982), O ano da morte de Ricardo Reis (1984), A jangada de pedra (1986).

SARAMAGO, José. História do cerco de Lisboa. Rio de Janeiro: O Globo; São Paulo: Folha de São Paulo, 2003.

      

sexta-feira, 8 de maio de 2015

100 anos de Orpheu

      O ano de 2015 assinala o centenário da revista literária portuguesa Orpheu, que circulou em duas edições em Lisboa em 1915. Trimestral, o n.1, publicado em março, foi dirigido por Luís de Montalvor e pelo brasileiro Ronald de Carvalho; o número dois, datado de junho, por Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa. Elaborada em padrões gráficos avançados, tendo como colaboradores jovens poetas talentosos, a revista logrou a reunião de literatura e pintura. Luís de Montalvor, Ronald de Carvalho, Sá-Carneiro, Alfredo Guisado, Cortes Rodrigues, Fernando Pessoa e o heterônimo Álvaro de Campos, o também brasileiro Eduardo Guimarães, dentre outros, assinam os textos. A capa do número 1 foi desenhada por José Pacheco, a do segundo (imagem) por Almada Negreiros. A revista despertou na época uma recepção pouco favorável, as críticas foram agressivas. Seus colaboradores foram rotulados de loucos e idiotas, pela imprensa burguesa e conservadora.


      
  PIRES, Daniel. Dicionário das revistas literárias portuguesas do século XX. Lisboa: Contexto, 1986.
  PIRES, Daniel. Dicionário da imprensa literária portuguesa do séc. XX. (1900-19400. Lisboa: Grifo, 1996.