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terça-feira, 24 de março de 2015

Herberto Helder (1930-2015)

       Os jornais e amigos escritores espalharam: morreu ontem, em Cascais (Portugal), o poeta Herberto Helder. Para muitos, era o mais importante poeta português do século passado, depois de Fernando Pessoa. Nascido no Funchal (Madeira), com 17 anos vai para Lisboa estudar. Numa vida de muitos problemas financeiros, inquieta, passou por várias profissões, garçom, publicitário, guia de marinheiros na Holanda, revisor, editor, tradutor, redator de programa de rádio, etc.
       O primeiro livro, O amor em visita, saiu em 1958. Vieram, depois, vários outros: A colher na boca, Ofício cantante, O bebedor noturno, Kodak, Cinco canções lacunares, Os passos em volta, Os brancos arquipélagos, Photomaton & voz, Cobra, Poesia toda, para citar alguns.


        Fragmentos de um poema do primeiro livro:


           O AMOR EM VISITA

Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar
uma mulher com quer beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de  alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

(...)

sábado, 21 de março de 2015

22/03/2015, Dia da Poesia: Henriqueta Lisboa

          CICATRIZ

O transeunte traz
no rosto uma cicatriz.
Um sinuoso gilvaz
talvez por motivos vis.

O rosto era de tão belo
talhado para navalha.
E fímbria de lua em duelo
de lâminas o retalha.

Hoje o rosto de ira e anelo
tem arrogâncias viris.
Secretamento mais belo
com esta flor de cicatriz.

(De Miradouro)


                                                  (Imagem:vidaslusófonas.pt)
        OS ESTÁGIOS

        (...)
        4

Talvez exista um novo reino
para muito além das fronteiras
do mineral, do vegetal, do animal.
Talvez a desaguar do oceano
salpicada de primevas espumas
outra aurora se faça. Talvez.
Aleluia por esse talvez. Aleluia.

(De O alvo humano)

sexta-feira, 6 de março de 2015

De aves noturnas, cabarés, dentifrícios


            A literatura é uma arte assimiladora, vai agregando motivos, cenas, atmosfera, cheiros, detalhes. Muitas vezes, quando lemos um livro, somos surpreendidos por semelhanças com outro, aparentemente diferente daquele que estamos lendo. Sem querer, percebemos fios intertextuais a aproximar dois ou mais textos. Referências usadas por um autor são retomadas mais tarde por outro, em novo contexto .



         Em Noite, de 1954, Érico Veríssimo, até então conhecido por narrativas épicas, sacode o público com a publicação de uma novela psicológica. O narrador acompanha a trajetória infame do Desconhecido (esse o nome do protagonista) dentro da noite escura e infecta, mergulhando em ambientes imundos, alcovas, cabarés, becos sórdidos, mal cheirosos, habitados por marginais e prostitutas. Junto com um comparsa, um corcunda misterioso, o Desconhecido caminha na zona boêmia da cidade. Os dois são chamados de “duas aves noturnas”, o protagonista destaca-se por uma elegância brega, “gravata grená, chapéu de feltro negro e sapato de duas cores. Na botoeira do jaquetão chamejava um cravo vermelho” (Veríssimo, 1995, 23).
            Assim como uma jogada de futebol lembra outra, uma canção suscita outra canção, também nos livros algumas semelhanças são recorrentes. A descrição de ambientes boêmios, via de regra, vem marcada por uso de estereótipos. Três décadas depois da novela de Veríssimo, Jaime Prado Gouvêa aborda o submundo da cidade grande, em alguns contos de Fichas de vitrola (1986).  Um deles traz como título, “A morte da ave noturna”. O narrador adentra por noites vagabundas, movimentadas por bêbados alucinados e pervertidos. As duas escritas aproximam-se na expressão do ambiente viscoso e viciado da noite urbana. Apenas nisso, os dois livros em nada mais se assemelham. Uma das aves noturnas do autor mineiro chama-se Colibri, o que usa um “lenço pontudo no bolso do paletó”.
            Perceber tais analogias constitui um dos fenômenos relacionados à leitura.

“As mulheres tinham as caras muito pintadas e algumas eram duma palidez cadavérica. De dentro de seus quartos, alumiados por lâmpadas veladas, vinha um cheiro de fogareiro de espírito-de-vinho misturado com a fragrância de pó de arroz e dentifrício”.  (Veríssimo, 1995, 35)

“Ao lado da cama, um rolo de papel higiênico. Ela volta do banheiro sem a peruca, os peitos murchos, o cheiro de dentifrício”. (Gouvêa, 1986, 28)

 GOUVÊA, Jaime Prado. Fichas de vitrola. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986.

VERÍSSIMO, Érico. Noite. 20ª. ed. São Paulo: Globo, 1995.



segunda-feira, 2 de março de 2015

Tânia Jamardo Faillace

Livro do mês

Mário/Vera Brasil, 1962/1964, romance de Tânia Jamardo Faillace (1939-), foi publicado em 1983, pela editora Marco Zero, do Rio de Janeiro. A autora é uma escritora gaúcha, estreou em 1964, com a novela Fuga (Porto Alegre, 1964), a que se seguiram a novela Adão e Eva (Porto Alegre, 1965), os contos de O 35º. ano de Inês (Porto Alegre, 1977), de Vinde a mim os pequeninos (1977) e de Tradição, família e outras estórias (Ática, São Paulo, 1978). A relação de títulos atesta um trabalho persistente e uma progressiva aceitação no mercado editorial brasileiro.

                                    (Imagem: mercadolivre.com.br)

Estava-se nos anos 70, quando se deu o boom editorial que lançou inúmeros escritores, em sua maioria contistas. De várias regiões brasileiras, em especial Minas, Rio Grande do Sul e São Paulo. Dentre outros, os mineiros Luis Vilela, surgido em fins dos anos 60, Ivan Ângelo, Roberto Drummond, Elias José, Duílio Gomes, Sérgio Santana, Jaime Prado Gouvêa, Luciene Samôr, Myriam Campello; os gaúchos Moacyr Scliar, Caio Fernando Abreu, João Gilberto Noll, Sérgio Faraco; o paulista Ignácio de Loyola Brandão. Na altura, surgiram também notáveis escritoras no Rio Grande do Sul, interessadas em discutir a condição feminina, com grande repercussão regional e nos meios literários: Tânia Faillace, Ieda Inda, autora de um refinado livro de contos (O arquiteto), Patrícia Bins e Lya Luft, que conseguiu manter-se em evidência por mais tempo. Os fatores determinantes na projeção de um nome ultrapassam a questão específica de mérito literário. Paulo Coelho é um bom argumento, para mais de um enfoque. A riqueza de uma literatura, porém, é bastante devedora de uma produção intensa e multifacetada. A efervescência da literatura feminina dos anos 70 esfumou-se duas décadas depois. Em 1994, Marilene Felinto, em artigo feroz na Folha de São Paulo, decreta a decadência da literatura feita então por mulheres no Brasil: “Como nós, mulheres, escrevemos mal! (...) Esgotou-se a espécie de fórmula da ‘literatura feminina’. Será que ninguém percebeu? O universo feminino é limitado, cheio de conflitos insignificantes, que nascem do umbigo das mulheres e se encerram neles mesmos. É uma literatura umbilical, centrada no corpo; quem aguenta mais descrições de orgasmos, menstruação e parto? Trata-se de uma literatura sem transcendência (...).” Nos dias que correm, observa-se uma revitalização na produção feminina, em várias frentes de atuação, como, por exemplo, a introspeção psicológica (Adriana Lisboa, Adriana Lunardi, Tatiana Salem Levy), a vertente política (Míriam Leitão), a denúncia social pelo viés alegórico (Ana Paula Maia), a inquietação experimental (Carola Saavedra, Maria Esther Maciel).
O extenso relato de Tânia Faillace, em torno de 500 páginas, reproduz em detalhes a experiência de mulheres solteiras que vivem caso amoroso com homens casados. Mulheres nem sempre indefesas, afinal buscam encontros clandestinos e se deixam envolver por promessas, entregam-se sexualmente, sofrem discriminação, preconceito, em troca de encontros fortuitos e espaçados. Na origem, quase sempre uma atração genérica ou um atributo irresistível, seja a beleza, virilidade, sedução, mistério. O que surge como namoro inconsequente acaba por se transformar em paixão avassaladora, com direito a gravidez e outros lances. Por força da convivência, ainda que esparsa, o desconhecido acaba por se tornar próximo e participante, quando não ocorre algum incidente trágico. Tais relatos são atraentes geralmente no início, uma vez que acabam enveredando por uma rotina de encontros e desencontros, aproximações eufóricas e separações turbulentas.
“Mário está vivo. Poderia ter escorregado sobre as telhas, ou desaparecido sob a lama dos morros, ou ido embora na enxurrada. Mas está ali. Vivo. Flancos mornos, úmidos, entre suas coxas. Sexo no seu. Boca na sua. Não basta. Vera quer romper-se para abrigar Mário dentro de si. Não ter nada fechado, guardado, secreto. Admiti-lo nela. Cada vez mais profundamente. Angústia. Desejo obscuro, inarticulado, de enxertar-se em Mário, tê-lo enxertado em si, uma mesma circulação, um mesmo pulmão” (p.290).
Por se tratar de um relato através da ótica feminina, incide quase sempre no estereótipo focado por Marilene Felinto, “a espécie de fórmula” da escrita desse gênero.  No caso da ficção de Tânia Faillace, com provável carga autobiográfica, cabe destacar o distanciamento de um registro excessivamente literário, sem lucubrações intelectuais, incursões eruditas ou filosóficas. Registra o fluir irrefreável e natural da realidade, de início com uma certa idealização do parceiro. Este aspecto é por sinal referido na orelha de Caio Fernando Abreu: “Este é um livro vivo. Não há, em nenhuma frase, nada de ‘literatura’, complexos efeitos estéticos, formas complicadas ou, enfim, acessórios dispensáveis”.
O corte temporal, inscrito no título (“Brasil, 1962/1964”), resulta em esboço ameno do período recortado. São feitas breves, neutras referências ao contexto político, anterior ao golpe militar, sem reflexos diretos nos conflitos narrados. Notas genéricas, fragmentadas, decisivas para moldar o contexto político e social como pano de fundo. Em obras de fôlego, se o risco da monotonia decorrente da reiteração de motivos e incidentes é uma possibilidade incontornável, a insistência em obsessões subjetivas e a fragilidade de recursos narrativos podem tornar a leitura enfadonha.

FAILLACE, Tânia Jamardo. Mário/Vera Brasil, 1962/1964. Rio de Janeiro: Marco Zero, 1983.