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terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Em Lisboa, curso de roteiros de telenovelas

      Para quem estiver em Lisboa nos próximos dias, divulgo um evento que na certa enriquecerá qualquer currículo. O local é a Casa da América Latina, onde em abril do ano passado lancei o livro Arquivo e rota das sombras, critica literária centrada na literatura portuguesa




      A roteirista brasileira Ana Paula Guedes oferece o curso "Cenas do próximo capítulo: curso de guionismo para telenovelas luso-brasileiras", de 23 a 27 de fevereiro, das 14:00 às 18:00 horas. A ementa compreende intensa atividade, aulas teóricas e práticas realizadas durante uma semana. Os alunos terão aulas expositivas sobre a telenovela, sua história e evolução, suas características enquanto narrativa, além de participar de atividades de elaboração de personagens, cenas e diálogos.
      O objetivo do curso é trabalhar em conjunto uma proposta de telenovela inédita, desenvolvida e discutida pelos participantes, para que percebam como são criados e planejados o enredo geral, as histórias secundárias, os núcleos dramáticos e as personagens, resultando na primeira versão de um produto que abordará a realidade e a cultura de Lisboa.
      Um brinde histórico. Quem chegar mais cedo, poderá participar da manifestação contra o governo Dilma, agendada para ocorrer na praça Camões, uma das mais simpáticas da Europa, no centro de Lisboa. Ninguém imaginava que lá as coisas iam acontecer, ao  pé da estátua do bardo... Nada mais cult: "Cantando espalharei por toda parte, se a tanto me ajudar engenho e arte".

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Machado de Assis em quadrinhos

      Livro do mês:

      Em 1899 publicava Machado de Assis seu terceiro romance, Dom Casmurro. Mais de um século e uma década depois, Wellington Sberk e José Aguiar vertem para quadrinhos a obra de Machado.
      A versão de obras literárias consagradas para outros suportes, mais modernos e  com forte apelo comunicativo, torna-se uma prática usual, além de oportuna e produtiva. O risco de interferir numa obra excessivamente consumida e admirada mistura-se à responsabilidade de tornar pública uma interpretação da mesma. O que está em causa, mais do que atrair novos leitores, jovens em especial, é a intervenção em outro código e  a possibilidade de contribuir com mais uma interpretação, às tantas já produzidas. Acompanhar o desempenho do resultado alcançado pelos quadrinhos à leitura do produto original, este é um dos desafios ao leitor machadiano. Muitos são os fatores determinantes no entrelaçamento de códigos, tais como os meios de que se servem, os limites e alcance de cada linguagem. Se a narrativa dá conta de que o protagonista é um indivíduo casmurro, não basta, na versão em quadrinhos, desenhar um sujeito triste e carrancudo, a casmurrice no desenho alarga-se a outros recursos que atingem cenário, vestuário, gestos, etc.


     Em Dom Casmurro, Machado de Assis imprime à fabulação um deliberado enfoque visual. No primeiro parágrafo vem uma nota expressiva nesse sentido, quando o narrador refere-se ao encontro que tivera com um rapaz "no trem da Central",  conhecido "de vista e de chapéu". E seguem-se outras memoráveis referências que destacam a experiência do olhar: as inúmeras alusões aos "olhos de cigana oblíqua e dissimulada" de Capitu, reforçadas pelo símile famoso, "olhos de ressaca", com os quais ela parecia querer tragar o "nadador da manhã", no episódio do enterro de Escobar. Neste romance o autor construiu uma obra paradigmática, com a tinta da ambiguidade e as pinceladas do pessimismo e da ironia. O suposto adultério de Capitu tornou-se um motivo inesgotável de análise, jamais definitiva. Capitu traiu na verdade o marido Bento Santiago com o melhor amigo dele, Escobar? Para muitos, o delito teria se concretizado, e dele seria um argumento agudo o capítulo CXIII, "Embargos de Terceiros", com o relato do narrador de que, numa das poucas vezes em que fora sozinho ao teatro, teria encontrado o amigo no corredor de sua casa, ao retornar mais cedo, findo o primeiro ato. Para outros tantos, o delito não passa de um tormento do narrador, em razão de seu ciúme doentio. 
      A especificidade dos códigos, por sua vez, determina o acabamento do quadro. Quase impossível transpor todos os elementos do livro, notadamente as inúmeras digressões de caráter erudito. O grande mérito desta versão é a fidelidade à escrita machadiana, temos o próprio texto de Machado, acrescido de imagens. Eliminam-se apenas os dados desnecessários ao novo código. Vejamos. Escreve Machado no início do cap. III: "Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atrás da porta". Na versão em quadrinhos, a frase vem transcrita, eliminando-se a última informação ("escondi-me atrás da porta"). O desenho supre a informação, obviamente. Não há como ignorar o velho adágio - uma imagem vale por mil palavras, ainda que me pareça um tanto exagerado.
      A parceria entre Machado de Assis e a dupla Sberk e José Elias revela-se bastante afinada e criativa. Vale a pena conferir.

SBERK, Wellington; AGUIAR, José. Dom Casmurro de Machado de Assis. Belo Horizonte: Nemo, 2011.