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quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Lucas, o evangelista

      "Naqueles dias, o imperador Augusto publicou um decreto, ordenando o recenseamento em todo o império. Esse primeiro recenseamento foi feito quando Quirino era governador da Síria. Todos iam registrar-se, cada um na sua cidade natal. José era da família e descendência de Davi. Subiu da cidade de Nazaré, na Galileia, até à cidade de Davi, chamada Belém, na Judeia, para registrar-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Enquanto estavam em Belém, se completaram os dias para o parto, e Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou, e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles dentro da casa.

                                        (Imagem: site.ucdb.br)

      Naquela região havia pastores, que passavam a noite nos campos, tomando conta do rebanho. Um anjo do Senhor apareceu aos pastores; a glória do Senhor os envolveu em luz, e eles ficaram com muito medo. Mas o anjo disse aos pastores: "Não tenham medo! Eu anuncio para vocês a Boa Notícia, que será uma grande alegria para todo o povo: hoje, na cidade de Davi, nasceu para vocês um Salvador, que é o Messias, o Senhor."

      Lucas, 2,1-11. (Bíblia Sagrada. Edição Pastoral. São Paulo: Paulus, 2002)


      Desejo a todos um feliz Natal, com a perspectiva de melhores dias, construídos na esperança com os valores do saber, solidariedade e do trabalho honesto.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

José Guilherme Merquior

Livro do mês:

       Procura-se cada vez mais profissional competente no Brasil. Dentre eles, procura-se também um historiador de literatura. Ao invés de me deter no livro de José Guilherme Merquior (1941-1991), um dos mais brilhantes ensaístas de seu tempo, optei por discretear a respeito de sua temática - a história da literatura brasileira, além de apresentar uma bibliografia sucinta sobre o assunto. Para situar o contexto, não custa referir que Merquior sofreu forte patrulha, por ter denunciado em público que a filósofa Marilena Chauí teria plagiado o filósofo francês Claude Lefort.

                                                   (Imagem: estadao.com.br)

O Brasil pode se considerar privilegiado pelo competente elenco de historiadores da literatura revelados entre o final do século dezenove e os anos setenta do século vinte. O terreno é um tanto espinhoso, tentemos desbastar o que for possível para uma visão mais nítida. De lá para cá, o cenário foi se esvaziando, em amplitude e densidade analítica. Os exercícios mais provectos foram efetivados por Inocêncio Francisco da Silva (Dicionário bibliográfico português, publicado entre 1858 e 1923, em Lisboa) e Ronald de Carvalho (Pequena história da literatura brasileira, de 1919). Curiosamente, Inocêncio Francisco da Silva (1810-1876) nem era brasileiro e deixou registradas queixas a respeito da dificuldade em obter informações e livros de autores brasileiros em Portugal; mesmo assim, a ele se deve o grandioso projeto por ele iniciado. Na sequência desses  pioneiros, dois autores, nascidos no século dezenove, dominam nesta área até meados do século XX: Sílvio Romero (1851-1914) e José Veríssimo (1857-1916). 
        Não seria exagero afirmar que com eles tem início a sistematização crítica da produção literária brasileira como um todo, em visão abrangente. Com suas idiossincrasias e preferências discutíveis, pouco importa. A História da literatura brasileira de Sílvio Romero data de 1888, (5ª. edição em 1953). Influenciado pelo cientificismo, Sílvio Romero tropeça em alguns momentos (considera Tobias Barreto superior como poeta a Castro Alves, subestima Machado de Assis). A respeito desta obra, argumenta José Guilherme Merquior:

“... os juízos estéticos de Sílvio Romero são às vezes claudicantes, às vezes insustentáveis (...); contudo, o estilo ágil e combativo facilita a leitura, e o patriotismo sem ufanismo faz desse colosso historiográfico, ao qual se deve a fixação definitiva (em termos globais) do nosso corpus literário, um depoimento fundamental sobre o itinerário da cultura brasileira” (MERQUIOR, 1977, p.112).

Sem o instrumental teórico proclamado por Romero, José Veríssimo produz uma obra equilibrada e lúcida, valoriza Machado de Assis e se pauta por critérios literários. Afeiçoado à poesia romântica, mostra-se pouco receptivo à poesia simbolista, que não compreende e mais condescendente em relação à poesia parnasiana. Sua História da literatura brasileira foi publicada no ano de sua morte, 1916. Depois surgiram, dentre outras, a obra de Otto Maria Carpeaux (Pequena bibliografia crítica da literatura brasileira, lançada em 1949), e a de Nelson Werneck Sodré (História da literatura brasileira - seus fundamentos econômicos, de 1938). A partir de então, as diversificam-se os objetivos e começam a surgir obras concebidas como recortes regionais (literatura mineira, riograndense, etc.) ou centradas em movimentos, sejam temáticos ou de gêneros específicos (os panoramas de poesia de vários estilos, estudos específicos e globais de contos, romances ou poesia). Nem sempre nas perspectivas e enfoques regionais se alcança um rigor analítico vertical, apesar do acerto de inúmeras sínteses e a riqueza de visões panorâmicas, quando não se restringe a mera enumeração de nomes (como ocorre por vezes na História da literatura mineira, de Martins de Oliveira). Nestas coleções temáticas ou de fixação num determinado período, esfuma-se o açodamento em torno do ideal nacionalista, visível na maioria dos historiadores literários, à exceção de José Veríssimo, sobressaindo o gosto de descobrir talentos (na antologia Poesia simbolista, de 1965, Péricles Eugênio da Silva Ramos acolhe o poeta Pedro Kilkerry, até então desconhecido) e a pesquisa interessada em parâmetros textuais e estilísticos. Na década de cinquenta, Afrânio Coutinho organiza a monumental coleção A literatura no Brasil, à frente de um selecionado rol de especialistas (publicada então – 1956-1959 - em três, hoje em seis volumes). No início dos anos noventa, foi lançada a Enciclopédia da literatura brasileira, dirigida por Afrânio Coutinho e J. Galante de Sousa, posteriormente atualizada sob a coordenação de duas pesquisadoras, Rita Moutinho e Graça Coutinho.
      Dentre os manuais mais recentes, nem todos disponíveis, em que o escopo didático se alia ao rigor analítico, citam-se os trabalhos de José Guilherme Merquior, Antônio Soares Amora, Antonio Candido, José Aderaldo Castelo, Massaud Moisés e Alfredo Bosi. Nos planos de Merquior, previa-se um segundo volume, de Euclides da Cunha em diante, infelizmente interceptado pela morte precoce do autor. Suas leituras correspondem a mergulhos interpretativos lúcidos e desafiadores, aparelhados por enfoques altamente eruditos. Como todo trabalho dessa envergadura, porém, apresenta algumas lacunas e omissões, tais como o altivo desinteresse pela obra de Lima Barreto e certa miopia em relação a Afonso Arinos, em contrapartida ao destaque dado à obra ficcional e ensaística de Graça Aranha.


O país avançou em muitos aspectos, a população triplicou, os escritores também, numa sociedade cada vez mais dinâmica e complexa. Há vagas para historiadores da literatura, no Brasil.


AMORA, Antônio Soares. História da literatura brasileira. São Paulo: Saraiva, 1960.
BOSI, Alfredo. História concisa da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix, 1970.
CANDIDO, Antônio. Formação da literatura brasileira. São Paulo: Martins, 1959. 2 v.
CANDIDO, Antônio; CASTELO, José Aderaldo. Presença da literatura brasileira. 3ª. ed. São Paulo: Difusão Européia do livro, 1968. 3 v.
CASTELO, José Aderaldo. A literatura brasileira. A era colonial. São Paulo: Cultrix, 1965, v.1.
CÉSAR, Guilhermino. História da literatura do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Globo, 1956.
COUTINHO, Afrânio et al. (Org.). A literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Sul Americana, 1956-1959. 3 v.
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. 2ª. ed. rev., ampl., atual. sob a coord. de Graça Coutinho e Rita Moutinho. São Paulo: Global; Rio de Janeiro: Fund. Biblioteca Naional.; Academia Bras. de Letras, 2001.
LIMA, Ébion de. Lições de literatura brasileira. 3ª. ed. rev. e atual. por Dino Del Pino. São Paulo: Salesiana, 1965.
LUCAS, Fábio. Poesia e prosa no Brasil. Belo Horizonte: Interlivros, 1976.
MARQUES, Oswaldino. Ensaios escolhidos. (Teoria e crítica literária). Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1968.
MARTINS, Wilson. História da inteligência brasileira. São Paulo: Cultrix, 1978. 7 v.
MERQUIOR, José Guilherme. De Anchieta a Euclides. Breve história da literatura brasileira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1977.
MOISÉS, Massaud. A literatura brasileira através de textos. São Paulo: Cultrix, 1971. 21ª. ed., 1998.
MOISÉS, Massaud. O simbolismo (1893-1902), São Paulo: Cultrix, 1966. 4ª. ed. 1973.
MOISÉS, Massaud. História da literatura brasileira. São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1983. 4ª. ed. 1997.
MURICI, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. Brasília: INL, 1973. 2 v.
OLIVEIRA, Martins de. História da literatura mineira. Belo Horizonte: Itatiaia, 1958.
         PEIXOTO, Sérgio Alves. A consciência criadora na poesia brasileira. São Paulo: Annablume, 1999.
PORTELA, Eduardo. Dimensões. Crítica literária. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1958-1965. 3 v.
RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Comp., introdução e notas). Poesia simbolista. São Paulo: Melhoramentos, 1965.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da literatura brasileira; seus fundamentos econômicos. São Paulo: Cultura brasileira, 1938. 6ª. ed. Civ. Brasileira, 1976.

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Lúcio Cardoso

Livro do mês:   O desconhecido 


      Incluo-me, com honra, no seleto e ilustre clube dos admiradores de Lúcio Cardoso, autor mineiro, introdutor do romance psicológico na moderna ficção brasileira, cultuado por Clarice Lispector, Walmir Ayala, Octavio de Faria, autores com os quais conviveu na cidade do Rio de Janeiro dos anos quarenta a sessenta. Nos dias que correm, sua obra tornou-se objeto de estudo por parte de Valéria Lamego, Ésio Macedo Ribeiro, André Seffrin, Mario Carelli, Andréa Vilela, José Américo Miranda, Marília Rothier, Antonio Arnoni Prado e Ruth Silviano Brandão, dentre outros.
Algumas avaliações críticas, produzidas ao longo dos anos, passaram a cristalizar-se com estatuto canônico. O esforço de análise das modulações interiores das personagens, a sondagem subjetiva, constituem traço inarredável e intenso de sua ficção. Não há como negar seu pioneirismo, em nossas letras, na tentativa envolvente de perscrutar o curso do pensamento e das emoções das personagens, enredadas em circunstâncias fortemente carregadas de reações e devaneios. O que nem sempre se releva resulta na sofisticada dimensão estética, a intricada contaminação poética de que se reveste a ficção do criador de A luz no subsolo (1936), Mãos vazias (1938), O desconhecido (1940), Dias perdidos (1943), Inácio (1944), O enfeitiçado (1954), Crônica da casa assassinada (1959). O escopo narrativo, longe de se erigir em objetivo primeiro, apresenta-se em geral associado a amplo e arejado mergulho na atmosfera subjetiva.  Tal processo denomina-se percepção poética do universo interior das personagens.


Dentre os críticos da primeira hora, Álvaro Lins foi certeiro ao perceber nele “um romancista de análise e de introspecção”, “um escritor que nenhum preconceito e nenhum escrúpulo perturbam no seu propósito de revelar, em profundidade, as forças íntimas e mais desconhecidas que movimentam os homens, os seus sentimentos, os seus atos” (LINS, 1963, p. 109). Prossegue, à frente: “Os recursos do Sr. Lúcio Cardoso voltam-se todos para as lutas de sentimentos, para as paixões que destroem e aniquilam, para as revoltas que sufocam e transbordam, para os amores, os ódios, as invejas, os ciúmes que parecem captar e contêm a essência mesma da vida” (LINS, 1963, p.113).
O desconhecido ratifica a importância do legado ficcional do autor. Por vezes altivamente preterido, por críticos de renome, o legado ficcional de Lúcio Cardoso permanece como um dos pontos elevados da nossa literatura. Logo no início do romance destaca-se o motivo do pai ausente, exaustivamente explorado. O protagonista, imerso em recordações do passado, detém-se na imagem do pai indiferente às lidas domésticas, aquele que “partia como uma sombra, como o tardio fantasma que sempre fora” (CARDOSO, 2000, p.33). A ausência do pai atormenta o protagonista: “Quantas vezes o fitava com olhos úmidos, ansioso para que uma palavra mais carinhosa levantasse a porta do véu misterioso” (CARDOSO, 2000, p. 32-33).

                                                     
                                                     (Imagem: geneall.net.)

         Novela centrada numa única personagem, O desconhecido estrutura-se em torno do esboço de seus sentimentos, caráter e paixões. Um peão, cujo passado permanece incógnito, decide estabelecer-se numa fazenda interiorana, em que se movimentam pessoas estranhas. Nada de especial ocorre, aparentemente, a não ser o interesse da proprietária da fazenda pelo novo empregado. Dominada pela obsessão da posse, Aurélia tenta transformá-lo em amante. José Roberto torna-se amigo de Elisa, uma criada, e de Paulo, outro empregado humilde que almeja uma vida melhor, longe dali. Numa precipitação descontrolada, o protagonista mata Paulo, refugiando-se em seguida numa pensão, onde é flagrado no primeiro e último capítulo. A cena do crime, praticado em vertigem descontrolada, tem sido reiteradamente elogiada.
“Lúcio Cardoso evidencia notavelmente até onde pode chegar a densidade dramática das paixões incontroladas, mostrando a miserável realidade de certos sentimentos fundamentais no coração humano. E o que faz aumentar a dramaticidade da novela é o princípio de indeterminação, que a atravessa como uma onda. A surpresa parece ser o único instrumento com que conta o romancista para levantar e desdobrar as situações. Os próprios personagens nada sabem a respeito do seu destino e o que lhes acontece torna-se para eles uma surpresa como fora para os leitores. E nenhum personagem consegue fugir ou evadir-se do destino sempre trágico que o espera” (MAIA, 1970, p.130-131).
O ritmo dos acontecimentos, delineados sob a chancela de rigorosa análise, revela que o autor não tem pressa em relação ao andamento da intriga. Em narrativa lenta, os episódios que envolvem a temporada de José Roberto na fazenda dos Cata-Ventos evoluem de forma indecisa, vagarosa. Qualquer detalhe, ruído, mudança de clima ou de comportamento motiva um comentário ou reflexão do narrador, sempre vigilante e atento.

CARDOSO, Lúcio. O desconhecido. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2000.
LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.
MAIA, Pedro Américo (Org.). Dicionário crítico do moderno romance brasileiro. Belo Horizonte: São Vicente, 1970. Grupo Gente Nova.


sábado, 10 de outubro de 2015

Será o Bené?

 Nos últimos meses, as notícias negativas envolvendo Fernando Pimentel (PT), governador de Minas Gerais, sucedem-se, insistentes e desabonadoras, na imprensa. Além das contas de campanha em processo de investigação, com suspeita de manipulação de dados e irregularidades, pesam sobre ele fortes indícios de tráfico de influência, em favor do empresário, misto de lobista e padrinho de casamento, Benedito Rodrigues de Oliveira, conhecido como Bené.

À época da campanha, fins de 2014, foi flagrado em Brasília um avião em que viajavam executivos, identificados como agentes da campanha de Pimentel, entre os quais o empresário Benedito R. O., portando R$ 113.000,00 em espécie. Segundo os jornais, Bené teria sido o coordenador da campanha de Fernando Pimentel para governador. A proximidade entre políticos e empresários de conduta ilícita tem se prestado a compor cenários propícios à contaminação viciosa da administração e ao assalto dos cofres públicos. O antigo ditado “diga-me com quem andas e te direi quem és” mantém-se ainda convincente.


      (Imagem: Palácio da Liberdade, sede do governo de Minas Gerais www.guiabh.com.br)

            As suspeitas vêm lá de trás, antes da campanha eleitoral, do período em que Fernando Pimentel foi Ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio. De acordo com a revista Época, a Polícia Federal comprovou que portarias então exaradas pelo MDIC teriam favorecido com vantagens fiscais a montadora de veículos Caoa. De janeiro de 2011 a fevereiro de 2014, período em que Pimentel esteve no posto de Ministro, e na gestão de seu substituto na Pasta, Mauro Borges, no âmbito do Programa Inovar-Auto, criado pelos dois ministros, a Caoa foi favorecida com benefícios fiscais. A ponte entre a montadora e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, seria o empresário Benedito Rodrigues de Oliveira. Como pagamento pela ingerência nos meandros da administração federal, o empresário amigo de Pimentel recebeu R$2, 1 milhões da referida montadora, segundo documentos apreendidos pela Polícia Federal. Com a eleição de Pimentel para governador de Minas, Mauro Borges foi nomeado Presidente da poderosa Cemig, empresa de energia, controlada pelo governo do Estado.
            Mas a atuação do empresário nas diligências em favor de determinadas empresas não se limitou ao Ministério do Comércio, Indústria e Comércio, alastrou-se para outras áreas, como O Ministério da Cultura e o Ministério da Saúde, nos quais conseguiu emplacar diversos contratos para a Gráfica e Editora Brasil, propriedade de seus familiares. O jornal O Estado de S. Paulo, de acordo com O Tempo, teve acesso a Relatório da Operação Acrônimo, no qual se confirma que o empresário amigo de Fernando Pimentel teria, através de fraudes em licitações, obtido contratos superfaturados no governo federal, estimados em 200 milhões.
            Diante de claros indícios de tráfico de influência, causa, no mínimo, indignação o modo arrogante como os advogados do governador mineiro assobiam para o lado, como se os fatos se dessem nas ilhas Maldivas. Não se sabe até quando.


            Pimentel ajudou Bené, diz PF. O tempo. Belo Horizonte, p. 6, 10 out. 2015.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Jorge Edwards

Livro do mês:

            Caudalosa, exuberante, feérica, ousada, erudita, sofisticada, cosmopolita, inovadora, de excessivas peripécias, recetiva aos sentidos, colorida como as mantas tecidas nas altitudes andinas, a ficção de Jorge Edwards, em O inútil da família, não se intimida caso seja comparada à dos festejados autores fantásticos da literatura latinoamericana dos anos de 1970. Embaixador chileno, com passagem por Havana, Madri, Paris, Prêmio Cervantes, dentre outras premiações, Jorge Edwards apresenta, neste romance, um refinado contador de histórias, dotado de invulgares recursos, conhecimento de cultura e dos bastidores do mundo do dinheiro e da arte. O rótulo de memórias não condiz inteiramente ao resultado alcançado, embora as lembranças pessoais se misturem aos incidentes da saga do famoso tio-avô, cruzando os dois destinos. O romance engloba traços textuais heterogêneos: biografia, ensaio literário e novela de costumes alternam-se numa arejada carpintaria. O objetivo inicial seria biografar uma figura lendária das letras chilenas, o parente, Joaquín Edwards Bello, agraciado em 1943 com o Prêmio Nacional de Literatura do Chile. O primeiro parágrafo esclarece: “Como é sabido por toda a gente no Chile, Joaquín Edwards Bello teve existência real. Nasceu em Valparaíso em 1887 e morreu em Santiago no início de 1968” (p.8). A pesquisa efetuada sobre o escritor, que no círculo familiar é visto como marginal, um fantasma a ser evitado, descobre uma vida tumultuada transcorrida em palácios, mansões, tabernas, cassinos e teatros da América e da Europa. “Agradava-me, sempre me agradou, a sensação de navegar entre papéis, de escarafunchar, de me submergir no tempo” (p.403).


            O retrato final resulta excessivamente contaminado pela presença de eventos históricos e culturais dos dois continentes, num grande painel em que desfilam atores da mais variada extração: multimilionários, políticos inescrupulosos, espiões, artistas plásticos, contrabandistas, nobres de títulos insólitos, aventureiros, estrelas dos palcos, religiosos, intelectuais de nomeada, obstinados príncipes russos, pálidos poetas. (...) Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Borges, Edgar Allan Poe, Amiel, Apollinaire, Baudelaire, Neruda, Álvaro Guerra, Ezra Pound, Vicente Huidobro, Tristan Tzara integram o diversificado rol de referências literárias, alguns atuando como personagens em situações pontuais. Os romances folhetinescos do escritor biografado são uma fonte rica de conexões e tiradas reflexivas. Os traços associados ao efeito de caricatura e do grotesco são especialmente produtivos na elaboração da intriga. Personagens que emergem do plano ficcional confundem-se com pessoas reais ou figuras supostamente extraídas da História, num emaranhado de ações e relatos habilmente entrelaçados. “A ficção parece estabelecer um desenho mais claro e menos caótico da realidade. A ficção reduz a proliferação confusa dos fatos. Em certo sentido, simplifica, introduz no caos dos acontecimentos algo a que se poderá chamar coerência” (p.317).
            Circunstâncias e bizarrias associadas ao lendário parente, amante do jogo e de corridas de cavalo, ilustram uma concepção de arte como fusão de realidade e fantasia. O narrador elabora instâncias de ambiguidade e espelhos, delineando um jogo entre a nitidez de contornos e a difusa silhueta na configuração de personagens. Em alguns momentos questiona-se o limite tênue entre realidade e fantasia, ou realidade e invenção, vistas como instâncias complementares no processo romanesco. A equivalência entre o relato verdadeiro e o imaginado é uma questão que não abala a credulidade dos leitores. Dirá o escriba, pelas tantas: “Por muito que se ponha ao serviço das notícias, um escritor pode permitir-se certas liberdades, certos luxos” (p.280). Observa-se por vezes uma troca de foco narrativo: o narrador externo (em terceira pessoa) delega a um narrador interno (em segunda pessoa) a condução do enredo. Tal expediente será intensificado nos últimos capítulos, quando são referidas as diligências esclarecedoras da aproximação à memória e efemérides do laureado homem de letras. As reviravoltas da engenhosa transação (a posse do revólver com que o protagonista se matou e extensa tralha de documentos e anotações) ampliam a faceta de jogo e trapaça. O diálogo com a literatura do tio-avô, que escreveu o romance El inútil, desdobra-se no título do livro de Edwards, El inútil de la família. Aos poucos, o narrador percebe os pontos de contato entre sua vida e a do parente evocado, suspeita assinalada desde o início: “A história que narro neste livro, por conseguinte, é a de um heroi trágico, alguém que sempre fui seguindo com os olhos abertos, com uma atenção apaixonada e não raras vezes abismada. É, em certa medida, a minha própria história, mas senti por mais de uma vez, embora só agora me atreva a reconhecer isso, que o sacrifício de Joaquín contribuiu de algum modo, de forma indireta e em certo sentido misteriosa, para tornar mais fácil o meu próprio caminho” (p.9-10).
            A ideia de duplo, facilmente sacada no recorte da relação sobrinho/tio-avô, presta-se também para captar o envolvimento e a reverência do sobrinho por outra personagem, uma parenta, grande cultora das artes, leitora voraz de autores ingleses. No segundo capítulo, portanto, no início de uma sequência de trinta e sete, seu perfil merece um esboço, revelador do conceito de literatura praticada pelos dois autores: “Mas não era bem medo: a tia Elisa, com o seu nariz de pássaro das selvas tropicais, gostava de histórias, de segredos, de intrigas. Não seria escritora, ela também? Andava sempre metida em efabulações, em enredos, propondo algo de que podia depender, segundo ela e no mínimo, a vida e a morte” (p.32). O interesse ficcional pela enigmática senhora insinua-se como eixo de convergência entre aquele que narra e o protagonista, que a ela também dedica atenção nos seus livros: “Encontrei duas páginas e meia dedicadas à tia Elisa. Falavam da sua estatura baixa e do seu nariz de tucano de uma maneira que não deixava qualquer dúvida quanto à referência” (p.33). Instalado num quarto, no Chile, munido de jornais, revistas e notícias de rádio, o protagonista transforma-se em correspondente da guerra civil espanhola, sem perder a capacidade de convencimento. Após o episódio do escritor transformado em correspondente de guerra, num esconderijo andino, narra-se outra incidência de duplicidade: o jornalista Joseph Pla, enviado de Barcelona ao Chile para cobrir o terremoto de janeiro de 1939, ocorrido no sul, teria produzido matérias provando vinhos em Santiago, tendo por base informes de terceiros.
            Para quem espera a apologia da arte, o risco de engano se impõe: “Ao invés, fora da ficção, os irmãos, os primos, os amigos, os inimigos, até mesmo os animais, proliferam. Os nomes de pessoas, coisas e lugares multiplicam-se. A não-ficção é caótica e superabundante, excessiva. Tudo cresce nela como erva daninha. A imaginação criadora, pelo contrário, limpa, desenha, corta” (p.188). Para além das peripécias do enredo, num contexto temporal que se distende por quase um século, a escrita ficcional revela-se por vezes vocacionada a acolher reflexões de natureza teórica, focalizando a própria e paradoxal impossibilidade de dar conta da inescapável densidade dos fenômenos, a pequenez da invenção criativa em face da existência.
A tradução portuguesa, a cargo de Helder Moura Pereira, premiada em 2009, no âmbito da Casa da América Latina/Banif, de Lisboa, mantém o colorido e a vivacidade do original em espanhol.


EDWARDS, Jorge. O inútil da família. Trad. Helder Moura Pereira. Lisboa: Assírio & Alvim, 2008. Os números de páginas citados entre parênteses remetem a esta edição.

      Uma versão completa deste artigo, sob o título de "Destinos cruzados", foi publicada no Suplemento literário de Minas Gerais (Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura, n. 1 358, jan./fev. 2015, p. 18-19.)

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Notas de viagem: Campinas

      Estive recentemente em Campinas, por dois dias, em companhia a familiar, submetido a exaustivos exames clínicos para a ANAC. Acirradas disputas políticas impediam a instalação de clínicas similares em solo mineiro, com prejuízos na ponta da corda ao cidadão, como sempre acontece. Mais uma vez muitas pessoas eram vítimas de política mal direcionada, encarada não como prática de promoção de autonomia do cidadão, mas como forma de manutenção de poder a qualquer custo. Enfim, deixa pra lá.


Uma hora de vôo Belo Horizonte/Campinas. A cidade estende-se aparentemente plana e surpreende pelo tamanho, metrópole que ultrapassa a escala de um milhão e duzentos mil habitantes, com os ingredientes da categoria – trânsito intenso, prédios arrojados, centro histórico deteriorado. As buzinas e urros de motores dos carros sufocam o ruflar das andorinhas que não existem mais. Um prêmio para quem se lembra do autor de texto antológico sobre as andorinhas de Campinas. Espremidas, deslocadas a meio de desenfreada selva de pedra, muitas construções antigas resistem imponentes. 



A estação ferroviária, que avisto em frente ao hotel em que me hospedo, é uma delas que, com sua arquitetura vitoriana, nos transporta para a desdenhosa Inglaterra do século dezenove. À altura dos anos 60, infelizmente, o nosso país desativou de forma irresponsável o transporte ferroviário. Com estilosa torre pontiaguda e extensa gare abandonada, a antiga estação ferroviária de Campinas é um cartão postal, fartamente iluminado à noite.



            Na breve incursão ao núcleo do centro, no encalço de lanchonete confiável, cruzo com uma escultura em granito picotado numa esquina de amplas conexões, bares e comércio variado. Ao pesquisar, descobri que a estátua, construída pelo escultor Yolando Malozzi, representa o político Campos Salles (1841-1913), rodeado de imagens e alegorias da República. Quarto presidente do país, no período entre 1898 a 1902, o seu nome batiza a avenida, projetada numa descida disfarçada, de que só nos damos conta na volta, quando sentimos o peso de uma subida.


       O Largo do Rosário, em reforma, pouco tem a mostrar, a não ser moradores de rua e canteiros de obra. A caminho da UNICAMP, em ônibus urbano, atravesso rápido o que uma placa diz ser a Praça Carlos Gomes, em homenagem ao grande músico: merecia uma visita mais detalhada, ficou para outra oportunidade. Enquanto esta não chega, uma boa pedida é ler o romance O selvagem da ópera, de Rubem Fonseca. A cidade universitária, apesar de planejada, condiz com o nome, enorme, um labirinto a ser explorado com paciência de um lado, boa vontade do outro (lavador de carros, funcionários subalternos). Quanto mais humildes, mais prestativas e solidárias são as pessoas nesse país. Não conheci quase nada da cidade, mas o suficiente para perceber sua vitalidade, dinamismo, importância cultural e enigmática densidade humana.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Agarrar uma ideia no ar

Elas vagam indeléveis no espaço, acima, ao lado e abaixo de nossos olhos. Supõe-se que para obter seus favores ou deles se fazer merecedor é razoável ter uma imaginação fértil, ou pelo menos incentivada ou um pouco desenvolvida. Invisíveis, indeléveis, intocáveis e imprevisíveis, elas vagam no espaço, à espreita de quem dê por elas com algum interesse. Imprevisíveis, elas tanto podem obrar para o bem como para o mal, semi entidades trêmulas, estentóreas e explosivas.
Pensar uma ideia nova é uma coisa, registrar é outra bem diferente. Pensar é uma operação descompromissada, deixar-se levar por associações reflexivas sem limites, sem contorno preciso – viajar mentalmente. Registrar o fluxo do pensamento é uma operação sistemática, consiste em dar forma linguística ao resultado do processo. O registro demanda submissão às prerrogativas, nem sempre claras, da escrita.

                                 (Imagem: alguimiaeflorais.blogspot.com)
            O que vem na sequência resulta de uma dessas súbitas iluminações, nem sempre completas ou definitivas. A propósito, urge que se registre que, debaixo do sol, nada é definitivo. Na origem, importa referendar que houve um reencontro com os contos de Pelo sertão, do mineiro Afonso Arinos (1968-1916). Fiquei tardiamente surpreso, com a sensação de ali estava um grande livro, o que não ocorrera há quarenta anos atrás. Um universo ficcional riquíssimo e pouco explorado. Em geral as antologias e manuais encarecem como ponto alto três contos (“Assombramento”, “Pedro Barqueiro” e “Joaquim Mironga”). E então, como explicar? Só agora estava maduro para apreciar? Não, simplesmente só agora estava em condições de, antes de me entregar à leitura, situar o livro nas convenções de sua época. Quando somos jovens, não temos esse interesse ou cuidado. Começamos a ler e, se não somos fisgados nas vinte primeiras páginas, largamos de imediato o volume de lado. A dificuldade para fruir o livro de Afonso Arinos reside no vocabulário, um tanto classicizante, precioso e erudito. Algumas mostras, colhidas por alto: albarda, macho lunanco, cabritozinho mitrado, nutando no ar, albornozes, gorjal, uropígio, fulares, adestro, taful. Vencida a barreira do léxico, com a ajuda de um bom dicionário, somos capazes de apreender a grandeza estética ali presente, inclusive as insuspeitas conexões com a literatura de Guimarães Rosa, em especial Grande sertão: veredas. Farto material para estudos comparados. Do autor, preciso conhecer por inteiro Histórias e paisagens, de que só li “À garupa”, de arrepiar, pela atmosfera gótica, sombria (“uma verdadeira obra-prima”, segundo Herman Lima).
            Por enquanto, dedilhei apenas acordes sabidos. Como se revela ainda custosa de se tornar clarividente, a ideia nova, convém tentar transferi-la assim mesmo, meio informe e incompleta. Quando jovens, somos presas incautas daquilo que o cânone apresenta como o máximo, top de linha. Sem querer, escalonamos os autores numa grade ascendente e nos dedicamos com fervor a cultuar os mais elogiados ou consagrados. Nem sempre acertamos.

ARINOS, Affonso. Pelo sertão. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, s.d.


ARINOS, Afonso. Prosa. Apresentação e notas, Herman Lima. Rio de Janeiro: Agir, 1971. Nossos clássicos.

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

José Eduardo Agualusa

Livro do mês:      

       A obra de arte tem o condão espicaçar de forma irônica o jugo dos poderosos. E como nunca, os recursos evidenciados pela pós-modernidade tem se prestado a dar conta das sutis filigranas ideológicas que bordejam as franjas do poder. O romance Nação crioula, do angolano José Eduardo Agualusa, posiciona-se estrategicamente, com resultados produtivos, entre as criações ficcionais que, em fins do século XX, tiveram inspiração em obras de Eça de Queirós. A lista que se segue, focada em autores portugueses, por certo não é conclusiva: As batalhas do Caia, de Mário Cláudio, A visão de Túndalo por Eça de Queiroz, por Miguel Real, Os esquemas de Fradique, de Fernando Venâncio.


                                                    (Foto: portalivros.wordpress.com)

José Eduardo Agualusa sequestra o protagonista da obra tardia de Eça de Queirós, Fradique Mendes, aquele em que o autor de Os maias de maneira emblemática quis encenar facetas de sua personalidade, como intelectual cosmopolita e sedutor, atuante em vários quadrantes das conexões atlânticas, Portugal, África e Brasil. Ao dialogar com o romance A correspondência de Fradique Mendes, José Eduardo Agualusa retoma e faz circular de novo as ideias de multiculturalismo, de relações interraciais ali esboçadas por Eça de Queirós.
A vocação universal da intervenção de Eça de Queirós articula-se ao intento de projetar na personagem Fradique uma espécie de porta-voz do autor, dando visibilidade à ambiguidade das fronteiras entre palavra/vida, ficção/realidade. A mesma ambiguidade que envolve as atividades dos contrabandistas de escravos, na ótica de partidários da escravatura, postura explicitada numa das cartas escritas por Arcênio de Carpo: “Ao comprar um escravo estou a salvar-lhe a vida. Em sua opinião o tráfico negreiro é uma forma de filantropia. Ele, como o pai, ama os negros e só por isso os vende para o Brasil” (Agualusa, 1998, 63). A visão do tráfico de escravos como uma forma de filantropia, uma caridade disfarçada, acaba por igualar as pessoas, do abolicionista José do Patrocínio ao mais desumano traficante de negros. A convivência entre diferentes funciona como postura razoável de sobrevivência. O primeiro marido da ex-escrava Ana Olímpia, o comerciante baiano Victorino Vaz de Caminha, morto em naufrágio, batiza seus navios negreiros usando nomes denotativos de solidariedade universal: Liberdade, Igualdade, Fraternidade, designação abonada pelos ideais iluministas da Revolução Francesa. Numa sociedade marcada por desigualdades, exclusões e misérias, o tráfico de negros avulta como uma atividade comercial rendosa para alguns empresários negros, à mercê de intrigas, disputas e ambiguidade ideológica.


O romance de Agualusa sequestra ainda a técnica romanesca usada pelo romancista maior do realismo português – a estrutura epistolar, por sinal, a preferida por outros autores do Ocidente, preocupados em flagrar a intimidade das relações humanas, (Chardelos de Laclos, Ligações perigosas). Ser de papel, personagem criado nos interstícios da linguagem, Fradique carrega, desde o projeto embrionário, essa volátil configuração de um ser que se afirma nas cartas e cuja existência se esboça através do discurso. Delineia-se como um sujeito feito da frágil consistência de palavras e da inconsistência da imaginação. A falta de informe biográfico verdadeiro a respeito de Fradique favorece a invenção. Em determinado momento da derradeira carta de Ana Olímpia ao escritor Eça de Queirós, a correspondente afirma: “Pensava nos meus amigos como personagens de um livro que houvesse lido. Angola era uma doença íntima, uma dor vaga, indefinida, latejando num canto remoto da minha alma” (Agualusa, 1998, 158). O estatuto literário dos conflitos e da trama amarra os diferentes ingredientes presentes nas cartas. Mesmo quando tenta evidenciar a diferença entre vida e literatura, os argumentos condensam-se no intuito de desvelar a íntima conexão das duas realidades: “Não, não faço literatura. E também não tenciono, nem agora nem nunca, escrever memórias. Aquilo que de mais interessante aconteceu na minha vida foram as vidas das outras pessoas” (Agualusa, 1998, 122), escreve a personagem Fradique a Eça de Queirós. A forma epistolar funciona como ingrediente expressivo na criação de uma dimensão polifônica, abarcando diferentes vozes e contextos.
A correspondência entre o refinado intelectual luso, Carlos Fradique Mendes, e a abastada proprietária angolana, Ana Olímpia Vaz de Caminha, funciona como pano de fundo para narrar uma época de grandes polêmicas e propagação de ideais humanitários e filosóficos, a segunda metade do século dezenove. De permeio, o autor revisita as cartas que circularam entre Eça e o brasileiro Eduardo Prado, reveladoras de críticas ao vezo brasileiro de querer imitar a Europa. Ao final desenvolve-se uma rica alegoria da união de raças: a festa de batizado de Sophia, a filha do europeu e da angolana, nascida no Brasil, congrega inúmeros militantes da abolição (José do Patrocínio, Luís Gama, André Rebouças, Manuel Querino), numa celebração do “nascimento de um homem novo e de uma nova civilização” (Agualusa, 1998, 128).
 "Hoje galguei a pé o Monte do Recôncavo e fiquei a ver, lá de cima, a Baía de Todos-os-Santos, com as suas ilhas dormentes, as aves sonâmbulas, um espantoso mar que nunca se move. A eternidade não é o inesgotável somatório dos séculos. Há-de ser, ao contrário, esta ausência de tempo” (Agualusa, 1998, 84).

Esta nação de mestiços, prenunciada no nome do navio, o mesmo do romance, surge fadada a ser o lugar de um universal renascimento, um arremedo de paraíso. De que outra maneira rotular esta descrição de Fradique?


AGUALUSA, José Eduardo. Nação crioula. Rio de Janeiro: Gryphus, 1998.                                                                                                                                                                      

sábado, 22 de agosto de 2015

Tristão de Ataíde em São João del Rei

      Um amigo morador no Campo das Vertentes, após ler a postagem anterior, entra em contato comigo para dizer que minha opinião sobre São João del Rei agrega pontos de contato com uma visão mais antiga, de Alceu Amoroso Lima. E me indica a referência de um artigo escrito pelo líder católico, há 83 anos atrás, mais precisamente em 1932, após fazer uma conferência na cidade mineira. E os fios vão se desatando. O artigo de Alceu Amoroso Lima (1893-1983), intelectual conhecido também como Tristão de Athayde, data de 6 de junho de 1932. Dessa conferência, também dá notícia o ficcionista sãojoanense Otto Lara Resende (1922-1992), autor  dos admiráveis livros de contos O lado humano (1952), Boca do inferno (1956), As pompas do mundo (1975), do romance O braço direito (1971), que afirma tê-la ouvido, na certa entendendo muito pouco, por ter então dez anos.

                        (Foto: Oto Lara Resende, www.monitordasgerais.com)

      Fui ler o artigo. As semelhanças na avaliação geral me surpreendem, ainda que as separem mais de oitenta anos, pela satisfação de perceber que minha modesta percepção da cidade condensa analogias com a do notável pensador e crítico literário. A importância de Tristão de Ataíde no cenário cultural brasileiro é incontestável: convertido ao catolicismo na década de 20, por influência do Jackson de Figueiredo, participou efetivamente na cultura do país, tendo abraçado posições progressistas que o afastaram dos conservadores, ao adotar posturas liberais na Igreja e na política. Fortemente influenciado por Jacques Maritain, Emmanuel Mounier e Teilhard de Chardin, Alceu Amoroso Lima logrou conquistar uma avançada concepção humanista, segura e fundamentada em vários campos de saber. Publicou perto de uma centena de livros, dentre os quais,  Afonso Arinos (1929), os cinco volumes da série Estudos (1927 a 1933), No limiar da idade nova (1935), Voz de Minas (1945), Idade, sexo e tempo (1938), Mitos do nosso tempo (1943), A realidade americana (1954), Introdução à literatura brasileira (1956), Revolução, reação ou reforma (1966). Aprendi a admirá-lo na década de 60, acompanhando, no internato, suas colunas publicadas no Jornal do Brasil, onde colaborou a partir de 1958 até falecer. A seguir, trechos do artigo sobre São João del Rei.

                       (Foto: Alceu Amoroso Lima, www.mensagenscomamor.com)

      "(...) Contava encontrar uma cidade do passado, com a beleza histórica de Ouro Preto, o prestígio secular de Diamantina, o encanto silencioso de Sabará ou de Mariana.
      Encontrei uma cidade de hoje, em que o passado não pesa, ao contrário das cidades mortas, sobre as quais parece ele cair como um manto triste. 
      Há um encanto imenso nessas cidades melancólicas, em que a vida dos tempos idos enche o ar que se respira e alonga as perspectivas da imaginação. Cidades de repouso e recolhimento. Cidades de estudo e de meditação. 
      Não é esse o encanto de São João del Rei. Não é apenas o passado que ali se respira, e sim a vida mineira e brasileira bem viva e bem presente, bem ativa e bem consciente de sua força e do seu destino.As coisas do passado, ali, parecem ter apenas o lugar que devem ter em nossa vida, sem nenhum romantismo, sem nenhum saudosismo. São João del Rei não vive do seu passado. Vive com ele.



      A admirável igreja de S. Francisco, a mais bela joia arquitetônica de Minas, porventura, pela harmonia de linhas, pela posição a um tempo sobranceira e discreta, pela finura dos rendilhados esculturais, pela elegância dos terraços do adro, por tudo o que nela se respira de simples, de puro, de belo, não é uma peça de museu. Enquadra-se naturalmente, como joia que é, na montagem que a cidade lhe fornece. E o mesmo se dá com as velhas torres do Carmo ou com essas duas pontes, à romana, cruzando o Lenheiro, que atravessa a cidade, num canal amplo, de praias verdes, abrindo horizontes e lembrando Verona, a cidade de Romeu e Julieta". (...)



LIMA, Alceu Amoroso. Lembrando as horas boas, de um dia de junho em Minas. Suplemento literário de Minas Gerais, Belo Horizonte, n. 899, 24/12/1983.
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terça-feira, 11 de agosto de 2015

A estátua desmontada



      O centro histórico de São João Del Rei conserva, com pouca alteração, o perfil de cidade setecentista: espraia-se num vale, onde corre um ribeirão canalizado, com pontes, uma projetada com arcos romanos, passarelas e ruas de comércio intenso. Por sinal, o que torna uma cidade viva e dinâmica é a efetiva circulação de ventos, carros, pessoas. Nada mais tedioso do que uma cidade fantasma, estática, parada no tempo, hierática em seus frios monumentos de pedra. Uma cidade em que ressoa em tudo a impressão de ruína intocada. São João Del Rei apresenta essa mistura de tempos e cores, o passado nos envolve em fortes piscadelas, um detalhe arquitetônico surpreende aqui, outro vestígio chega a inquietar, quase nos tira o fôlego, mas alguns poucos quarteirões à frente, retomamos a respiração; um cartaz, um nome de rua, uma garagem comum nos trazem de volta ao presente.
      Alguns sobrados coloniais impõem-se pela arquitetura imponente e solene, ao lado de outros mais modestos, mas igualmente autênticos representantes de um passado opulento. As igrejas barrocas são um espetáculo à parte, altares de beleza indescritível, com profusão de adereços dourados, em especial a de São Francisco (foto acima), a Basílica Nossa Senhora do Pilar e a de Nossa Senhora do Carmo.


                         
                                   (Imagem: saojoaodelreitransparente.com.br)

            Faltava visitar o museu. O Museu Regional fica num prédio de três andares, característico da arquitetura imperial brasileira, janelões de sacadas gradeadas. Tinha terminado a visitação, quando me dei conta de que não vira a réplica do profeta de Aleijadinho que faz parte do acervo. Indaguei a um dos guardas, aquele que me pareceu mais maduro dos três que estavam de plantão.
            “Como sabe do Profeta?”
            “Há referências em vários livros sobre esse Profeta. Num desses livros”.
            Diligente e gentil, o chefe dos guardas explicou que a Profeta fora retirado, encontrava-se na reserva técnica, para dar espaço à montagem de uma exposição temporária a ser aberta dali a dois dias.
            “Mostre-lhe onde está”, dirigiu-se ao companheiro de farda, mais novo mas igualmente gentil e atencioso, como foi possível apurar.
Fui, assim, conduzido à sala da reserva técnica do museu, enquanto meus familiares aguardavam nas imediações da saída do prédio. Retornamos à escada que dá acesso ao segundo pavimento, o guarda mais novo e eu, andamos à esquerda num corredor e sem mais estávamos diante de um cômodo fechado. O guarda, então mais identificado a um guia do museu, abriu uma porta centenária: uma sala escura e povoada de sombras foi-se clareando parcialmente. Adentrei apenas um passo, objetos espalhados no chão impediam adiantar mais. Numa estante comprida e larga, ou espalhadas no piso de madeira, quedavam-se várias peças antigas, entre elas – peanhas, oratórios, teares, liteiras, candeias, canastras.  Solícito e diligente, o guarda indicou onde estava a estátua do profeta, na verdade, as duas partes da estátua, uma vez que fora desmontada, não se sabe se antes ou depois de ser transportada até aquela sala. Controlei-me para não fazer perguntas inúteis. Dividida em dois blocos, a estátua do profeta Baruc, clonada do original existente no adro de uma igreja de Congonhas, postava-se bem à entrada da sala. Por ser moldada em gesso, pareceu-me exageradamente cinza, mas procurei explicar a mim mesmo que deveria ter recebido uma pátina de finíssima areia cinza, razão de coloração mais escura. O Baruc do adro de Congonhas pode contar com o espaço aberto, o horizonte de montanhas e enigmas. Exilados do local de exposição, os dois fragmentos do profeta restavam mudos, informes, destituídos de qualquer ideia de unidade e completude. Era incômodo vê-lo mutilado, despido de qualquer fantasia ou certeza identitária que pudesse ter. O ombro pousava na madeira do piso, deixando visível o ângulo direito do rosto, envolto numa fria expressão de imaterialidade, angustiada mas serena, a face macerada pela poeira do tempo. Vê-lo assim em pedaços, quando nem estava preparado para se visto, era burlar o seu direito ao isolamento, seu efêmero descanso. Meus olhos, que num primeiro instante sofreram a privação da imagem inteiriça e perfeita, ameaçavam devassá-la.
“Perdoe o incômodo”. O guarda, além de cortês e gentil, acabara por se mostrar risonho. Satisfeita a curiosidade, cumpria agradecer e reencontrar o meu grupo. 

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Nuvem cigana

Livro do mês:

          Acabo de ler, ou antes, folhear avidamente, meio nocauteado, o livro Nuvem cigana, organizado por Sergio Cohn. Um longo depoimento dos participantes do grupo, entremeado de ilustrações, poemas, capas de livro e fotos. Uma energia pura, a amizade desses jovens, reunidos em torno de poesia, droga, política, álcool e sexo no Rio de Janeiro agitado daquela década, como diz o sub título “Poesia & delírio no Rio dos anos 70”. Um deles se jogou de uma janela de arranha-céu, Guilherme Mandaro, no inverno de l979, alguns meses antes da poeta Ana Cristina César fazer o mesmo, ali perto. O diferencial, nos dois casos, é que produziram muito boa poesia, conhecida como poesia marginal ou geração mimeógrafo. Outro, Charles Peixoto, de nome completo Carlos Ronald Carvalho, é neto de Ronald de Carvalho, um dos fundadores da revista Orpheu, 1915, que fascinou e publicou Pessoa e Sá-Carneiro, na Lisboa do início do século vinte. De grupo que publicava em precárias edições artesanais, conhecido como Nuvem cigana, em razão da receptividade, o coletivo chegou a ter álbum (Navilouca) editado pela Phillips, a gravadora multinacional.


            Nuvem cigana é também o nome de uma música de Lô Borges e Ronaldo Bastos: “Se você quiser eu danço com você no pó da estrada/ pó, poeira, ventania”. Os integrantes tornaram-se profissionais em áreas conexas à poesia, como jornalismo, cinema, televisão, teatro, música, cenografia, editoria. Nos anos 70, eles faziam show de poesia, em Ipanema e Copacabana, lugares bastante exigentes no quesito qualidade, em se tratando de qualquer manifestação artística. Produziram uma poesia alegre, com alguma pitada coloquial, uma dose de humor, alguma prospecção reflexiva e um bocado de experiência lúdica. A temática urbana é assumida com certo desbunde, um tanto delinquente, focada em drogas, pirações psicodélicas, numa fatura de alta qualidade. Conforme diz Bernardo Vilhena: “Eu tinha uma estratégia muito clara na minha cabeça: para ser popular, ao menos naquele momento, você precisava ser romântico. Primeiro, era necessário conquistar um espaço: a política, a porrada, vinha depois” (p.135).
           
            Um poema característico das tendências do grupo, este de Ronaldo Santos:

            a morte em mim não mata nada
            a não ser o corpo
            ela de mim não leva nada
            a não ser o morto

          Em “Revanche”, Bernardo Vilhena, o mais prestigiado pelos produtores da música popular brasileira, revela o alcance de sua pegada pop:

            (...)
            a favela é a nova senzala
            correntes da velha tribo
            e a sala é a nova cela
            prisioneiros nas grades do vídeo
            e se o sol ainda nasce quadrado
            quem é que vai pagar por isso
            (...)

         Uma estrofe de “Desabutino”, do poeta Chacal, desbocado e como sempre fora do tom:          

(...)
quem quer saber de mim na cidade do arrepio
um poeta sem eira na beira dum calipso neurótico
um Orfeu fudido sem ficha nem ninguém pra ligar
num dos 527 orelhões dessa cidade vazia

Eis os integrantes: Bernardo Vilhena, Charles Peixoto, Chacal, Guilherme Mandaro, Ronaldo Santos e Ronaldo Bastos, este último letrista do Clube da esquina, movimento musical que reuniu poesia e música nos anos 70 em Minas Gerais (Mílton Nascimento, Beto Guedes, Lô Borges, Novelli, Nelson Ângelo, Wagner Tiso, entre outros) e no Rio de Janeiro (os poetas Ronaldo Bastos, Bernardo Vilhena, o capista Cafi). Bernardo Vilhena atuou intensamente nos anos 70 e 80 como parceiro de importantes músicos, como Ritchie, Lobão, Cazuza, compondo canções de sucesso (“Menina veneno”, “Revanche”). Três deles integram a antologia 26 poetas hoje, (1998) de Heloísa Buarque de Holanda: Chacal, Charles e Bernardo Vilhena. Ronaldo Santos teria declinado do convite para participar da antologia, inconformado com a conotação comercial do projeto.



COHN, Sergio. Nuvem cigana - poesia e delírio no Rio dos anos 70. Rio de Janeiro: Azougue, 2007.

quinta-feira, 9 de julho de 2015

De livros e acervos

         Ter amor a livros é o resultado de décadas de leitura e de esforço continuado pelo conhecimento. O prazer de montar uma biblioteca, só experimentado no limiar da maturidade, constitui-se de pequenos cuidados e interesses. Na pena do escritor João Alphonsus, na biblioteca do Conselheiro, havia estantes “largas e compridas, em cujas prateleiras envidraçadas os livros se enfileiravam sem perplexidade alguma, todos encadernados em marroquim marrom, (...) com um certo cuidado para que não se lhes notasse a diferença de estatura, igualdade e fraternidade de numerosíssimas obras em que o espírito humano se tem debatido, contradito, construído, derruído, esperado, desesperado. (...) Existia uma estante especial, destacada num ângulo, com raridades de bibliômano” (Alphonsus, s.d.,246-247).
         Biblioteca, no caso, refere acervo de mais de cem livros. Ainda que os critérios de escolha sejam democráticos, não seria improcedente classificar os acervos, tendo em conta a quantidade, numa ordem gradativa: de 100 a 500 exemplares, acervo de baixo clero; de 500 a 1000 exemplares, acervo de clero médio; de 1000 exemplares em diante, de alto clero.

                                                 (Imagem:vidaorganizada.com)

A procedência de livros que formam um acervo quase sempre revela-se atabalhoada, demandada, fortuita ou bastarda. À exceção da última categoria, os livros costumam procurar abrigo em lugares em que são bem-vindos: em geral caem em mãos de pessoas que gostam de ler. Por analogia se dirá que as violas frequentam as casas de violeiros. A maioria dos livros que possuímos foram obtidos, em decorrência de escolha pessoal, motivada por variados fatores, que incluem desde a afinidade eletiva, a relevância do assunto, o enfoque abordado, a importância do autor. Outros foram trazidos ao espólio por conta de exigência escolar, ao serem adotados para tarefas dos filhos. Muitos passam a fazer parte de nosso acervo por doação de amigos, vizinhos, namoradas, editoras, parentes ou dos próprios autores. A propósito, desenvolve-se no Brasil uma tradição nefasta que consiste em esperar receber livro de graça de um autor conhecido. Trata-se de um produto de consumo como qualquer outro, sujeito a tributação e custo de produção.  Na grande maioria dos casos, o autor não tem autonomia ou direito sobre a edição, por conta de contrato editorial. A cota de exemplares para divulgação (resenhas em jornal, blogs) envolve processo complexo, participação de profissionais específicos. Assim como, no decorrer dos anos, vamos dando baixa em alguns títulos, - entre os que são emprestados e não voltam, os que desaparecem nas mudanças, os que são surrupiados engenhosamente, os que perdemos, - existem os exemplares que fazem questão de vir até nós, os livros bastardos.
Manusear livro por si só a nada nos conduz. Cabe ter sempre um olhar curioso e analítico, comparar uma edição recente com outra antiga, consultar uma citação na fonte onde foi colhida, apreciar o efeito gráfico presente no desenho de uma capa. O reencontro de uma banal dedicatória pode suscitar lembranças agradáveis, reavivando a circunstância e contexto em que se tornou possível. Um detalhe retorna, alguma reminiscência vem à tona. Além do prazer inerente à leitura de um texto fictício, - acompanhar a trajetória de uma personagem, expor-se à sensação provocada por um poema - o contato com os livros guarda surpresas e emoções. O mais, tomando de empréstimo uma expressão de João Alphonsus, do conto “A noite do Conselheiro”, são tretas de filósofos e literatos.


ALPHONSUS, João. A noite do Conselheiro. In: RAMOS, Graciliano. Seleção de contos Brasileiros - Leste. Rio de Janeiro: Ed. de Ouro, s.d.

sábado, 4 de julho de 2015

Geraldo Reis

Livro do mês:

       Galardoado com o Prêmio Cidade de Belo Horizonte, em 1981, o livro de poemas de Geraldo Reis, Pastoral de Minas, mantém-se atual e instigante. Muito mais que uma coletânea de versos, o leitor vê-se diante de uma estrutura verbal orgânica e significativa. O título arrasta consigo uma dupla inscrição, ao indiciar uma fértil ambigidade: de um lado aponta a vizinhança com os documentos episcopais, de natureza moral, enquanto de outro se mostrar como registro de digressões e notas a respeito de pastores. Enquanto aquela denota o zelo em apregoar a exortação moral, como tratado de condutas e modos de viver, esta alinha-se como rol de sabedoria de conhecimentos empíricos, relacionada a assuntos ligados à vida rústica e pastoril. Em ambas, o que sobeja diz respeito à manutenção de códigos, de intenções e alcance específicos, evidentes em resquícios, vestígios cartoriais e poéticos, com assertivas introdutórias pungentes: “Essa penumbra de proibição, destempero, alumbramento. Esse pelo, esse cavalo a galope tão primeiro, e derradeiro, e decadente, e parvo, o próprio peito. Esse pelo-sinal de pobreza, assessoria de miserê, parceria de ‘prevaricou’, ‘pecou’, ‘levou’.” (Reis, 1981, 23)

                                               (Imagem; poetageraldoreis.blogspot.com.br)

Não se nasce impunemente nas montanhas, Minas é muito mais que uma notação geográfica ou histórica – é silício, destino de farsa e desengano - “onde domar a trama / onde bulir o drama / onde cozer a farsa // onde cevar a faina / onde doer a fama / onde puir a praça” (Reis, 1981, 37). A segunda epígrafe, de Cecília Meireles, põe em relevo a crispada onda de sublevação, de fundas e sombrias memórias: “O país da Arcádia / súbito escurece / em nuvens de lágrimas. / Acabou-se a alegre / pastoral dourada: / pelas nuvens baixas, / a tormenta cresce”. A convenção árcade, desde então convocada, faz-se presente ao longo dos poemas, em traços que relevam a delicadeza da écloga, o viver nômade, a exaltação da sabedoria rústica. Tudo isso, sem desdenhar a bruta realidade, em que pontuam “aves de ag’ouro, encomendas / o couro negro das fadas // há penhas como quimeras / quimeras como pedradas” (Reis, 1981, 27). Em notações mais incisivas, pontuais: “caiam bênçãos de Deus / sobre o teu quepe // como uma faca viva / te decepe” (Reis, 1981, 40). A identificação do poeta ao pastor salienta um sentido de sabedoria intuitiva, segundo lição de Chevalier e Gheerbrant: “O pastor simboliza a vigília; sua função é um constante exercício de vigilância: este está desperto e vê. (...) Por causa das diferentes funções que exerce, o pastor aparece como um sábio, cuja ação deriva da contemplação e da visão interior”. (Chevalier; Gheerbrant, 1988, 691-692).

eu sei dos danos das minas
arando o ouro da intriga

também conheço o carinho
de devotadas marílias

se não me aprumo é por logro
das amadas concubinas

dou minhas barras de ouro
pelo coito das meninas
(...)
            (Reis, 1981, 64)

Ainda que voltada para formas populares, a escrita poética desta pastoral não se afasta da consciência da história. Nem dos torneios frasais típicos da fala da província, encaminhando o registro para a esfera da linguagem como legado: “meu coração não emenda coisa com coisa / pensamento ou fala / ou mesmo um fio / de memória amarga” (Reis, 1981, 70). O verso de Geraldo Reis guarda segredos e ecos imprevistos – “e era tudo um mau cheiro de mudo / arengando detrás da vidraça” (Reis, 1981, 33); “antes de tudo / o riacho / compondo rimas no vale// antes de tudo / o capacho / do que me corte ou retalhe” (Reis, 1981, 36). O livro termina cigano como começou, reavivando o nomadismo, no início, a viagem das tropas: “agora o touro / agora o ouro / agora o negro// as mulas de carga rara”; no final, referindo o cavalo “negro, baio e erradio”.  Bela e surpreendente fábula poética, de ressonâncias melódicas inusitadas, alguma incursão barroca, aguda percepção das modulações mínimas, sem medo de transitar pelos atalhos da história e da tradição, municiada das ferramentas da modernidade e da crítica.

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Trad. Vera da Costa e Silva et al. Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
REIS, Geraldo. Pastoral de Minas. Belo Horizonte: Comunicação, 1981.


quinta-feira, 25 de junho de 2015

Liberada carta de Mário de Andrade

      Demorou 70 anos para que uma carta de Mário de Andrade (1893-1945) a Manuel Bandeira (1886-1968) fosse aberta ao público. Nela o escritor paulista, autor de do romance Macunaíma, dos poemas de Paulicéia desvairada, de Contos novos, dos textos críticos de O empalhador de passarinhos, admite ao amigo sua homossexualidade.


                                                   (Foto: Arquivo IEB)
          
       A revista Época (edição 889, 22 junho 2015) registra a árdua diligência para a liberação do documento, o que só ocorreu agora, em meados de junho. Trata-se de uma carta de Mário de Andrade ao poeta Manuel Bandeira, datada de abril de 1928. O espólio literário de Manuel Bandeira foi doado em 1978, por Maria de Lurdes, companheira do poeta, à Fundação Casa de Rui Barbosa. Plínio Doyle, então diretor da instituição, dez anos depois decide, assessorado por uma comissão, interditar o acesso de alguns documentos desse espólio, dentre os quais, a carta de Mário de Andrade, em razão de um conteúdo “sensível ou muito íntimo”. Esse conjunto ficaria lacrado até se passar meio século após a morte de Mário, portanto seria liberado em 1995. À altura, técnicos da Casa de Rui Barbosa opinaram peremptoriamente que a carta de Mário não poderia ser aberta. Condicionou-se, depois, dado o impasse e interesse de pesquisadores, o acesso a uma autorização expressa dos herdeiros. Com base na Lei de Acesso à Informação, a revista Época solicitou um pedido à Fundação, negado em duas instâncias. A revista recorre, por fim, à Controladoria Geral da União, que estabelece o acesso ao documento. A decisão é acatada pela Fundação para os outros documentos, mantendo o lacre à carta do modernista, com o argumento de que liberar poderia trazer “danos irreparáveis” à Instituição, anexando, inclusive, um parecer de um sobrinho de Mário, favorável à manutenção do sigilo, em respeito a "questões íntimas" do escritor. O recurso é derrubado pela CGU, com o entendimento de que “informações pessoais não podem ser protegidas quando necessárias à compreensão de fatos históricos de maior relevância”.
      Na carta, Mário de Andrade registra os revezes e discriminações que sofria em decorrência de sua fama de homossexual. Critica o interesse pelo assunto: “Mas em que podia ajuntar em grandeza ou milhoria para nós ambos, pra você, ou pra mim, comentarmos e elucidar você sobre a minha tão falada (pelos outros) homossexualidade? Em nada. Valia de alguma coisa eu mostrar um muito de exagero que há nessas contínuas conversas sociais? Não adiantava nada pra você, que não é indivíduo de intrigas sociais”. Noutro passo, expõe o assédio costumeiro de que era vítima: “Me porto com absoluta e elegante discrição social, tão absoluta que sou incapaz de convidar um companheiro daqui a sair sozinho comigo na rua (veja como eu tenho a minha vida mais regulada que máquina de pressão)”.
       O documento é curioso, numa concepção ousada de linguagem, com torneios coloquiais e de sintaxe peculiares ao estilo do autor. A matéria tem assinatura de Marcelo Bortoloti, (disponível em epoca.com.br).

BORTOLOTI, Marcelo. A correspondência secreta de Mário de Andrade. Época. São Paulo, n. 889, 22 junho 2015.


quarta-feira, 24 de junho de 2015

Feira de Livros em Belo Horizonte

      LIBRE, Liga Brasileira de Editores,  é a entidade que representa os editores independentes brasileiros, em defesa da bibliodiversidade. A entidade promove no Parque Municipal de Beagá, de 25 a 28 deste mês, uma feira de livros. Apesar de já estarmos no inverno, o nome da Feira é "Primavera da Libre 2015". A conotação festiva é bem vinda, em época de tantas más notícias, e a feira merece ser prestigiada. Muitos livros interessantes estarão à venda, com grandes descontos, espera-se. 

                                     
                                      (Imagem: Feira do livro de Porto Alegre, Wikipedia)

terça-feira, 2 de junho de 2015

Maria Lúcia Lepecki

Livro do mês:  

          Dentre as atividades que se tornam, por força de contingências variadas e complexas, rarefeitas, a leitura de ficção mantém-se, se não vigorosa, pelo menos altiva. Sempre haverá quem se interesse em ler um poema ou narrativa. Exercida em sua capacidade plena, compreende a leitura uma prática interativa, como uma espécie de via de mão dupla. A relação leitor/obra tem suscitado reflexões pertinentes, em todas as épocas, tributárias do legado cultural do contexto em que se desenvolveram.
            Não é apenas o texto que endereça perguntas, vivências, imagens, noções e impressões a quem lê. O leitor é também um espaço irradiador de reações, por ele transferidas ao texto. Nenhuma mente se apresenta diante de um texto completamente vazia, neutra, virgem. Uma bagagem de vivência e memória a acompanha. Quem lê também dialoga com o texto: faz-lhe perguntas, acrescenta-lhe dados.
            As reações suscitadas pelas palavras radicam em geral do contexto em que foram empregadas e do ofício laboral de quem as lê. A palavra tijolo por certo desencadeará reações distintas, se lida por um pedreiro ou um jornalista. Da mesma forma a palavra nuvem determina noções distintas, se lida por um metereologista ou um técnico em computação.  
            Distante de rasas assertivas de base sociológica, outras são as preocupações da teoria literária. Crítica literária brasileira, mineira de Araxá, professora de literatura portuguesa na UFMG, tendo influenciado uma geração, na qual me incluo, depois em Portugal, para onde se transferiu em definitivo em 1970, Maria Lúcia Lepecki (1940-2011) participou ativamente da vida cultural em Lisboa. Sua atuação acadêmica expandiu-se também em Cabo Verde. Autran dourado: uma leitura mítica, único título dedicado à literatura brasileira, ganhou o Prêmio Nacional de Crítica, no Brasil, em 1977. Em Portugal, foram publicados alguns títulos marcantes: Eça na ambiguidade (1974), Ideologia e imaginário: ensaio sobre José Cardoso Pires (1978), Meridianos do texto (1979), Romantismo e Realismo em Júlio Dinis (1980), Sobreimpressões, (1988), Ensaios de retórica e de interpretação (2004), a que a Associação Portuguesa de Escritores atribuiu o Grande Prêmio de Ensaio literário.


Na apresentação de Sobreimpressões, a autora empreende uma despretensiosa teoria da leitura: considera-a uma prática científica, mais do que um simples hábito ou costume. Como tal, a leitura apresenta-se como tentativa de investigar as coisas e o mundo, através de um método aparentemente simples, por ela denominado de processo de intertextualização, o diálogo mútuo entre leitor e texto. “A grande fonte de prazer de ler, e não menos das canseiras críticas, é o fato de nunca lermos fora da intertextualização. Vamos ouvindo o que o texto diz e simultaneamente o que nós mesmos dizemos, em correlações dificilmente controláveis” (p.14). Em busca de um método que “evocasse deslocações horizontais ou verticais”, amparada em conceitos da Biologia, como confessa, esboça um breve mas engenhoso discurso sobre a interpretação literária. O marco teórico assenta-se em Lewis Thomaz, de A medusa e o caracol. “Tentando fazer dos meus escritos uma proposta, expressão falível de pontos de vista eventualmente coxos, procuro inscrever neles um lugar para a contestação. Vou à cata de jeitos de relativizar, e um bom jeito que encontrei foi denunciar as intertextualizações” (p.15). E prossegue, na busca de elucidar o seu prazeroso corpo a corpo com os textos: “A denúncia das intertextualizações obedece também a outro desiderato. Quero apontar com ela o fato de a crítica ser, na sua mais íntima substância, um modo de imaginarmos sobre a imaginação alheia” (p.16). Ao comentar o desempenho de Miguel Torga como autor de diário, Lepecki comenta: “No discurso literário, toda ausência é recuperada positivamente. Os ‘espaços em branco’, onde o escritor criativo deixou de falar, são ‘reservados’ para a nossa fala: enriquecemos o texto com o que nele projetamos” (p.139). A crítica configura-se então como uma tentativa de compreensão partilhada com outrem, o resultado daquilo que teria origem no “compreender para si – gozar o texto entre a vigília e o devaneio” (p.20).
            O volume enfeixa ensaios e estudos que versam sobre um rol variado de autores de língua portuguesa. Além dos nomes de eleição, objeto de análises anteriores, como Camilo Castelo Branco, Augusto Abelaira, Virgílio Ferreira e Carlos de Oliveira, Maria Lúcia Lepecki esquadrinha também obras de Almeida Faria, José Gomes Ferreira, José Saramago, Lídia Jorge, Maria Gabriela Llansol, Mário Dionísio, Pedro Tamen, Luandino Vieira e Mia Couto.

LEPECKI, Maria Lúcia. Sobreimpressões – estudos de literatura portuguesa e africana. Lisboa: Caminho, 1988.