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sábado, 18 de outubro de 2014

Nuno Júdice

Livro do mês: Navegação de acaso

Revelado há mais de quarenta anos, Nuno Júdice vem construindo uma obra poética extensa e multifacetada, que ultrapassa a marca de vinte e cinco títulos. Desde o início identificado como voz dissonante em relação à tendência formalista e fragmentária da década anterior, assume um registro discursivo, sem, contudo, abolir por inteiro a obsessão em debater a especificidade da poesia, intuito sugerido no título de estreia, A noção de poema, (1972). Outros autores surgem também à altura, como João Miguel Fernandes Jorge, com Sob sobre voz (1971) e Joaquim Manuel Magalhães, com Consequência do lugar (1974). O surgimento desses três autores motiva o conhecido comentário de Eduardo Prado Coelho: “São estes os acontecimentos decisivos para podermos assinalar uma linha de viragem na poesia portuguesa dos anos 70” (COELHO, A noite do mundo. Lisboa: 1988, 128). A enumeração poderia acolher outro poeta, de fluxo subjetivo, associações inesperadas e áspera sintaxe, António Franco Alexandre, de Sem palavras nem coisas, (1974).



No caso de Nuno Júdice, alguns vetores impõem-se para configurar a postura de um vidente, concepção de raiz romântica e rimbaudiana, em que o poeta é visto como portador de parte da sabedoria do universo, imerso numa rede de códigos fundamentais e referências literárias esotéricas. A sedução de um léxico fortemente contaminado pela prática romântica, retomado posteriormente pelos poetas simbolistas, sedimenta uma escrita caudatária de um desenvolvimento lírico matizado por uma nova perspectiva diante do sujeito, percebido como instância do discurso. Construção de linguagem e espaço de reflexão teórica, a poesia retoma as convenções da tradição lírica, sem ignorar o tom artificial, a modulação erudita do repertório vocabular, o sentido ambíguo e a atmosfera fluida, nebulosa. Navegação de acaso, livro em que os poemas se mostram como “errantes navegações verbais” (p.11), último volume publicado pelo autor (2013), merecedor do galardão Prêmio Rainha Sofia de poesia ibero-americana, partilha desse entendimento prévio de que o universo poético instaura-se radicalmente num território circunscrito pela conotação, do qual a denotação se encontra de todo alijada: “Em vez de correr contra o tempo,/ separo de entre esses ramos de imagens aquelas que/ me ditaram os versos mais obscuros, a luz/ de acaso que deles surgia, em cintilações de sílaba,/ e um reflexo de madrugada na face liberta/ de uma lenta sombra”, como se lê em “A manhã do poema”. A vidência, na linha de Rimbaud, autor de decisiva influência em Júdice, (cf. “Alquimia” e “Cântico do fogo”) supõe ainda o mergulho no inconsciente, a disponibilidade para acolher as imagens obscuras do sujeito, vedadas aos outros homens. Embora não seja a tônica do livro, esta faceta não está ausente, como se percebe em “Fecundação” e outros dois textos, em que as imagens beiram as sugestões de camadas psíquicas: “Derramo o esperma do sol sobre as éguas inseguras/ do ocidente; emprenho-as com a vaga humidade de um relinchar de abismo; (...)". A peculiaridade do discurso de Nuno Júdice subentende o fato de não mergulhar no próprio percurso, no itinerário pessoal, na prática da confidência. Frágil, tênue, por vezes tomada de um fôlego elevado, a voz lírica não se compraz na autocontemplação: a meta é compreender o encantamento em face do amor, da beleza, a extraordinária magia que cerca os gestos simples, as razões pelas quais as pessoas se emocionam, mas também as notas disfóricas diante de ruínas e mazelas sociais.
A mistura de realidade e fantasia, a associação entre o plano real e o do sonho revela-se num tecido verbal de conformação estética, num sistema de trocas entre um sentido referencial e um outro assimilado, de natureza retórica: “E descubro-te no fundo desta imagem, envolta/ no veludo de ausência em que os meus dedos/ sentem a tua pele, e tiram de dentro do nada/ o calor das palavras com que o amor é esculpido/ na pedra do poema”, (versos finais de “O amor”). Na tentativa de ouvir/decifrar o poema, em “Pedaço de real”, o poeta refere o uso de recursos de linguagem (“o único recurso de que disponho são as próprias palavras”), como ferramentas capazes de criar o efeito diáfano e volátil do vivo arrebatamento, “algo que nasce/ de dentro do verso, e corre à minha frente”.
Os lugares privilegiados nesta poesia, sabidamente as paragens estilizadas pela imaginação ou vidência, ancoram-se numa emblemática paisagem retórica, revisitada através da metáfora, da citação ou do labor artístico. A instância estética, de que dão sinais as associações à memória e a reiteração de alguns feixes semânticos (ligados à “tinta”, “quadro”, “cores”, “pintor”, “desenho”, “luz”, “palavra”), precede a realidade e assenta-se na concepção de arte como esforço artesanal e busca de perfeição: “(...) o poema, ou/ esse objecto artesanal que sai/ perfeito das mãos do oleiro, é/ afiado pela consciência de/ que só o que é exacto sobrevive/ no ouvido e canta” (“Proposta”). O cotidiano será sempre um pretexto para encetar um périplo nos códigos eruditos da arte e da cultura, limiar de um espaço autônomo propiciado pela tradição. No primeiro poema, “Cantar rústico”, acompanhamos o interesse do sujeito em se purificar, para recepcionar a natureza: “Limpo de tédio os meus olhos para te receber,/ ó primavera, e um dilúvio de miosótis faz-me regressar/ à estação das chuvas, ouvindo o correr das águas/ numa impaciência de estuário”, ao mesmo tempo em que registra o movimento em direção à inefável pastora, integrado numa atmosfera de leveza e artificialidade, na sequência de um ritual que se vai desenhando em detalhes, no qual o sujeito lírico a despe “da sua túnica de écloga, para que o seu corpo beba/ um licor de pétalas adormecidas”.
Ao longo do livro, alternam-se duas séries que se distinguem e se complementam: a série da epifania, com o encantamento diante da primavera, as visões femininas deslumbrantes e a possibilidade de compreender o mundo pela via artística. A série da devastação, de outro lado, mostra-se atravessada por “nevoeiros”, “marés de sangue”, “naufrágios”, ruínas e miséria: “Mas era na terceira classe que eu encontrava/ os pobres que se sentavam sobre cestos carregados de legumes/ e de carnes secas” (“Infância”). No poema “Terra prometida”, o lugar de fartura e felicidade não existe, a não ser “desertos”, “pântanos e “campo de serpentes”: para além do “nevoeiro”, os inimigos só encontrarão “abutres”, que “os esperam para limpar o que resta de carne/ nos seus corpos dizimados pela febre”.
Ainda que sejam mínimos os vestígios escuros da realidade, as alucinadas imagens de destruição e ruína proliferam, “náufragos aproximam-se da costa, trazendo notícias/ do abismo com a voz entrecortada por um soluço/ de anémonas azuis”.  No poema “Regresso de Orfeu”, o sujeito poético, ao constatar a sensação de exílio - “nenhuma/ paisagem me é familiar”, insinua a definitiva impossibilidade de qualquer regresso, além do inexorável desaparecimento da amada, num mundo adverso e hostil ao seu ofício. 

JÚDICE, Nuno. Navegação de acaso. Lisboa: Dom Quixote, 2013

                                                                                                          

domingo, 12 de outubro de 2014

Correção em dados é o mínimo que se espera

      Além de pactuarem com a corrupção, muitos políticos apresentam estatísticas incorretas, o que corrobora para que a população os veja com incredulidade. Miriam Leitão (na imagem), jornalista especializada na área econômica, várias vezes premiada, comenta, na coluna de hoje, a postura diante da economia dos maiores partidos nas últimas décadas. E contribui para desfazer alguns equívocos, que a campanha petista insiste em divulgar. Pinço fragmentos de seu artigo.
      "Não haveria política social que funcionasse sem a vitória sobre a hiperinflação, e ela foi derrotada pelos economistas que são do PSDB ou se identificam com ele. O salário mínimo começou a se recuperar a partir da estabilização; os programas de transferência de renda foram possíveis por causa do real. As políticas sociais do PT têm méritos, mas o debate eleitoral criou uma dicotomia inexistente."


      Afirmar que o governo de Fernando Henrique Cardoso se submeteu ao FMI é uma das ideias distorcidas que a campanha petista insiste em divulgar. Volto ao artigo de Míriam Leitão:
      "O dólar disparou, o juro subiu, a inflação se elevou e o governo FHC tomou junto ao FMI um empréstimo que teve 80% de seu valor sacado no mandato de Lula, criando um colchão de reservas sem o qual teria sido muito difícil o início do novo governo.
      Esta foi a história que eu vi se desenrolar no dia a dia da cobertura da economia. Sei que foi assim não por ouvir dizer, mas por ter acompanhado."
      Na sequência, Míriam Leitão se detém na estatística a respeito da redução de pobres no país. Antes, porém, refere a prática nociva de maquilar os dados.
      "A irracionalidade do debate, e as manipulações dos números e fatos, exasperam quem acompanha a economia brasileira há tantos anos e sabe o contexto de cada dado e momento." E, após referir que, se de um lado, o desemprego baixo é "uma excelente notícia", alerta que as bases do desemprego "vêm sendo corroídas pelos desajustes fiscais e monetários que este governo permitiu. O emprego na indústria já está em queda há cinco meses, mostrou o IBGE na sexta-feira."
       O Plano real, com a estabilização econômica, produziu, segundo Míriam Leitão, a primeira forte queda do percentual de pobreza no país, de 45% para 34%. Se as políticas do PT foram positivas, produziram outra queda do percentual de pobreza, de 34% para 15,09%. Portanto, não condiz com a verdade afirmar que o governo do PSDB deixou um percentual em torno de 54% de pobres. Com a palavra mais uma vez Míriam Leitão:
      "O recuo do percentual de pobres e miseráveis é outra excelente notícia. Mas de que maneira a queda poderia ter sido construída num país com a hiperinflação que o PSDB domou? A propósito, o ministro Aloízio Mercadante mostrou os bons números da redução da pobreza em entrevista ao jornal Valor Econômico de sexta-feira. Disse que o percentual de pobres caiu de 34% para 15,09%. Maravilhoso. Mas cabem dois adendos. No resuminho de programa que a presidente Dilma divulgou, por determinação do TSE, está dito - e a candidata repetiu em entrevistas - que ao fim do governo FHC eram 54% os pobres. O dado certo é o de Mercadante. o mesmo do IPEAdata. O segundo detalhe ocultado é que a estabilização, em 1994, produziu a primeira forte queda, de 45% para 34%."

      O povo não gosta de ser enganado.

LEITÃO, Míriam. "Ofensa sem sentido". O tempo. Belo Horizonte, 12 out. 2014, p. 13.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Paulo Merçon (1971-2014)

      "Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares". Com estas palavras inicia Fernando Pessoa o artigo em que lamenta a morte trágica de seu amigo poeta, Mário de Sá-Carneiro.


      Só recentemente fiquei sabendo da morte de Paulo Merçon, ocorrida há uns seis meses. Vimo-nos três vezes, o suficiente para aquilatar sua vitalidade, altivez física e rara sensibilidade. Quando me procurou para prefaciar seu livro Abreviaturas do invisível, em fins de 2008, já era um poeta maduro e de grandes recursos. Juiz do trabalho, cursava mestrado, em brilhante carreira jurídica. Márcio Almeida e Nonato Gurgel também reconheceram em textos críticos a qualidade de seus versos. Transcrevo, como homenagem, um dos poemas de seu livro.

      Fábula notívaga

No formato de uma lâmpada que acende
aflita e perplexa
às vezes uma ave.

A escuridão é essa gaiola
ao se abrir, a fuga
da cor e da forma, um voo
pausado e mudo
nos corredores do pensamento

que pela trilha das horas
galopando em
musculoso silêncio
desfralde talvez

o esplêndido cavalo da insônia.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Aécio Neves, para a reconquista da estabilidade econômica

      Como Aécio Neves não pode contar com o "dedo forte dos Correios", vai o frágil apoio de um escritor e professor honrado. E sem rabo preso.  A expressão "dedo forte dos Correios" foi usada pelo expedito parlamentar estafeta do PT, Sr. Durval Ângelo, para expressar a ajudazinha da empresa estatal à campanha de Dilma Rousseff. Como metáfora de verbas milionárias é bastante expressiva. Pelo menos assim não contribuo para a continuidade da corrupção no país e aceno para a reconquista da estabilidade econômica, porque a inflação volta com força. Assim pacifico também minha consciência e lembro evento cultural do governo de Aécio em Minas, o programa Minas leitora, a inauguração de mais de mil bibliotecas no estado.
      Se o companheiro me considera pálido na foto, pudera, isso foi na sequência de uma cirurgia de safena. A foto foi tirada no dia 24/05/2006.  Apesar da insistência de Regina, não quis levar o blazer. Cardíacos gostam de sentir o vento no peito aberto. E depois, (tendo em vista a atual campanha à presidência) as conquistas difíceis são mais emocionantes.