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sábado, 20 de setembro de 2014

Cooptação, parceria ou... ignorância

      Corre nas redes sociais um depoimento da presidente Dilma Rousseff no mínimo preocupante. Mais uma vez, teria se atrapalhado na comunicação, caso não seja pior. Na imprensa a presidente é conhecida pela primária capacidade argumentativa e desastrado poder de comunicação. Em pronunciamento recente teria dito que é preciso reforçar "o compromisso com os que desviam verbas públicas."
                                         (Imagem: amigosdepelotos.com)  
  Está em causa uma confissão de que apoia atos ilícitos, de corrupção, o que motiva investigação urgente. Não estamos diante das costumeiras desastradas opiniões, nem dos disparatados e esquartejados anacolutos incompreensíveis, mas de uma provável ratificação de que a chefe suprema participa de ilícitos. Mas seria isso mesmo, ou a presidente atrapalhou-se mais uma vez no português, desta vez no despreparo no uso de meras preposições. Fragoroso despreparo, sintoma de outras incompetências na condução da economia, da política externa, no combate à corrupção na Petrobrás e no controle da estabilidade financeira. Caso a sua excelência queira ter dito que é necessário reforçar o combate aos que desviam verbas públicas, devia ter usado a preposição contra, deveria ter dito :..."reforçar o compromisso contra os que desviam verbas públicas". As preposições  com e contra modificam radicalmente o enunciado. Reforçar o compromisso com os que desviam dinheiro público indicia parceria, participação, apoio, o que não se espera de um ou uma presidente da república. Simples assim. Qualquer estudante do ensino fundamental sabe disso.

sábado, 13 de setembro de 2014

Fátima Maldonado

Livro do mês:

 Lava de espera.
        Os Açores constituem território português além do continente europeu, a caminho para a América, pela rota do oceano Atlântico. Em denominação mais consentânea à realidade sócio-geográfica das ilhas, o Arquipélago de Açores, cuja história articula-se estreitamente à tradição da caça à baleia, engloba ilhas rochosas e vulcânicas em pleno Atlântico.

Em Lava de espera, Fátima Maldonado, poeta portuguesa revelada nos anos 80, reconhecida pela densidade de uma produção marcada por uma dicção visceral, empreende um mergulho poético e seletivo na cultura dos Açores. Diante de um portal em ruínas, a última frase de “A lagoa do Caiado”, um dos capítulos do livro, tem uma aura profética: “Mas sente-se que atravessá-la seria início, conhecimento ou pacto”. Estas reações prestam-se também para caracterizar o legado da leitura deste livro. O gênero? À exceção de três poemas, os dez textos restantes podem ser rotulados de crônica, evocação poética ou literatura de viagem. Cada um escolha o que melhor lhe aprouver. Os atributos de que se valem envolvem o suporte da pesquisa, a linguagem refinada, o apuro estilístico, a escolha cuidadosa de termos (com acento no léxico regional), todo um sortilégio de babugem de lendas, repertório folclórico e de mistérios. Versam sobre o passado das ilhas, descrevem aldeias, largos, igrejas seculares, festas, bandas de música, imagens de santos e figuras lendárias. Para o senso comum, lugar vigiado por vulcão e onde medram árvores de incenso parece imensa e sinistra campa de náufragos, antessala do Purgatório.
As aventuras associadas aos antigos caçadores de baleia, com seu rol de perigos e lances heroicos, as erupções vulcânicas ao longo da história, os contratempos ligados à imigração, a herança dos primeiros colonizadores, as tradições de arte e gastronomia, as festas folclóricas formam a base da matéria tratada de forma peculiar e emotiva. A primeira referência evoca as “cúpulas da igreja virada a oceano”, reiterada no início do segundo texto: “Habituei-me a isto: dirijo-me primeiro à igreja, depois logo se vê”, privilegiando a atmosfera religiosa da imersão aos lugares e costumes ilhéus. Mais à frente, o motivo retorna: “Não resisto a espreitar a igreja, é quase um vício entrar nestes cubos de silêncio” (p.33). O tratamento literário à caça da baleia tem ilustre ascendência, radica em nomes da estatura de Hermann Melville (Moby Dick) e Vitorino Nemésio (Mau tempo no canal), renomados cultores da linguagem e do estilo, sem ruptura de qualidade na produção de Fátima Maldonado.  A mistura do passado com os novos ares do presente é repassada de uma nota melancólica, de quem se dá conta da onda devastadora que acompanha os processos ditos civilizatórios: “A caça da baleia fechou em 1987, a miséria foi-se extinguindo com o dinheiro emigrado e a mudança para a pesca do atum, a albacora. O Pico é uma reserva, recolhem-se preciosos vestígios de uma civilização a esfumar-se” (p.15).
Na evocação, o confronto presente/passado assume dimensão por vezes etnográfica, nem por isso menos cruel, diante da crescente invasão de mediocridade tecnológica: “As Bandas são ecos da antiga cultura, a televisão não oprimia ainda, aberta a despropósito em tudo que é farmácia, cozinha ou supermercado, agora até massacram nas salas de espera dos dentistas” (p.18).  Pequenos detalhes difusos flagram um olhar desejoso de compreender a dinâmica movimentação dos açorianos pelo América, “os ridículos fatos cheios de anúncios”, “os bonés americanos na cabeça”, “adolescentes de t-shirt que se riem nos intervalos”, “condutores com boné dos States”. Outra faceta da cultura açoriana, mais de uma vez referida, seriam as sandálias de couro, de origem romana, artesanais, ainda hoje em uso nas ilhas – as albarcas. Misto de primitivismo (as sandálias romanas) e disponibilidade à padronização moderna (os bonés americanos), a cultura açoriana sobrevive bravamente e como pode à fatalidade geográfica, entre a preservação de vestígios artesanais e a assimilação do excedente industrial, transplantado da América.  

            MALDONADO, Fátima. Lava de espera. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2014. 54 p.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Tsunâmi de corrupção (outro) e sombras conservadoras

       Os rumos e tendências revelados nas últimas pesquisas eleitorais são capazes de deixar perplexo qualquer cidadão acima de 45 anos. Após a tragédia que matou o presidenciável Eduardo Campos, do PSB, Marina Silva que o substituiu tem conquistado um grande número de eleitores. Pesquisas recentes creditam a onda pró-Marina a duas vertentes: os evangélicos e os jovens de metrópoles.


      Seria aconselhável que os educadores - logo eles, tão mal remunerados - esclarecessem os jovens sobre os perigos do retorno da inflação, que já assusta as famílias e, como barriga de mulher grávida, não para de crescer. Amor à Bíblia e interesse ecológico não capacitam ninguém para o exercício da presidência da república. Só atraem ingênuos e conservadores empedernidos.
      O único plano econômico - dos muitos lançados nas décadas de 70 e 80 - que deu certo e trouxe estabilidade financeira foi o Plano Real, implantado por Fernando Henrique Cardoso, a quem o país também deve a lei da Responsabilidade fiscal. Os jovens, na sua maioria, continuam reféns de boquirrotos corruptos e moralistas. É hora de ouvir os notáveis, como Roberto Damata, de quem reproduzo um parágrafo de sua coluna no Estadão, publicada na semana passada:

      "Marina Silva representa a proposta de juntar carisma com ideologia na base de acertos pessoais afiançados por uma tragédia ao lado de uma biografia impecável. Seu programa financeiro é muito próximo ao de Aécio Neves. A diferença é que Aécio não tem a aura de santidade e carrega os compromissos do PSDB: a obrigação de governar administrando. Não se pode esquecer que foi essa atitude que deu ao Brasil o respeito e a estabilidade monetária."

      Quanto à outra candidata, com altíssimo índice de rejeição, nem merecia ocupar a cadeira que ocupa. O seu governo foi o mais corrupto, incompetente e temeroso de toda a história, agora manchado de novo pelo segundo mensalão, como atestam as negociatas e desvios de muita grana na Petrobrás.