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sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Colóquio-letras

      A revista portuguesa Colóquio-letras, da Fundação Calouste Gulbenkian,  segue em circulação, atualmente dirigida por Nuno Júdice. O alto patamar de qualidade na vertente ensaística e na roupagem gráfica tem-se mantido, juntamente com o foco especial nas literaturas produzidas em língua portuguesa. Em sua fundação, em 1959, a revista chamava-se Colóquio, revista de artes e letras; em 1971, o periódico dividiu-se em duas revistas, a Colóquio-artes e a Colóquio-letras, esta com periodicidade trimestral, depois bimestral, agora quadrimestral. Uma quarentona de sucesso. A associação de literatura com as artes plásticas vem de nascença, como se vê. Vários diretores alternaram-se na linha do tempo: Hernâni Cidade, Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira, Joana Varela.


      Os dois números editados neste anos, o 185 dedicado a Almada Negreiros e o 186 com instigante dossiê sobre a utopia, impõem-se, na sequência esperada, como espaço multifacetado de pesquisa, debate e crítica, com relevo para as resenhas de livros lançados recentemente.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Julio Cortázar

      Comemoram-se neste ano o centenário de nascimento e os trinta anos de morte do escritor argentino Julio Cortázar  (1914-1984), que viveu grande parte de sua vida na França, autor de clássicos da ficção, como Rayuela, 1966, em tradução brasileira O jogo da amarelinha. A literatura de Cortázar movimenta-se num universo atravessado continuamente por enigmas e fantasias insólitas. Por detrás de um cotidiano conhecido e previsível, esconde-se um mundo caótico, cheio de eventos obscuros e fugidios.  A confluência dos limites, entre o real e o fantástico, o banal e o mistério, constitui o eixo básico de seus relatos, que evoluem em ritmo obsessivo, através de insistência em alguns detalhes e associações inusitadas. Numa passagem de um de seus contos, escreve: "...nas primeiras horas talvez seja menos duro sentir irrevogavelmente a ausência do que suportar um tropel de abraços e de grinaldas verbais" ("Liliana chorando", em tradução de Gloria Rodriguez, do livro Octaedro). O conto "As babas do diabo" inspirou o filme Blow-up - depois daquele beijo, de Antonioni (1963), um cult das telas. Em O jogo da amarelinha, Cortázar atinge um altíssimo domínio técnico na narrativa e montagem de situações reveladoras da turbulência oculta na suposta ordem do mundo. O denso mergulho na condição humana jamais se desliga de uma profunda experimentação e debate sobre os recursos ficcionais. Dentre suas obsessões temáticas inscreve-se a atividade do escritor, com suas opções, limites e seu instrumento, a linguagem. Muitos preferem o romancista, outros (como Nélida Piñon) admiram o contista, mais adstrito às convenções do gênero.

                                       (Foto: contracapa de O jogo da amarelinha, 1971)

      Julio Cortázar exerceu grande fascínio nos anos 60 e 70, na América e na Europa, tendo influenciado muitos escritores. A seguinte passagem, transcrita de O Jogo da amarelinha, registra a sua consciência  da criação literária: "Contudo tão sequioso de absoluto como quando tinha vinte anos, mas a delicada crispação, a delícia ácida e mordente do ato criador ou da simples contemplação da beleza, não me parecem já um prêmio, um acesso a uma realidade absoluta e satisfatória. Só há uma beleza que ainda pode dar-me este acesso: a que é um fim e não um meio, e que o é porque seu criador identificou em si mesmo seu sentido da condição humana com seu sentido da condição de artista. Em troca o plano meramente estético parece-me isso: meramente. Não posso explicar-me melhor" (em tradução de Bella Josef). Outras obras: Os prêmios, 62 Modelo para armar,  romances; Bestiário, As armas secretas, Todos los fuegos el fuego, Final de jogo, livros de contos.


            (Capa da edição brasileira de 1971, pela editora Civilização Brasileira)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Francisco Azevedo

Livro do mês:

       Francisco Azevedo, nascido em 1951, no Rio de Janeiro, traz em seu currículo atividades como diplomata, poeta, roteirista de filmes, produtor de textos dramáticos e narrativos. Publicou dois romances, O arroz de Palma (2008) e Doce Gabito (2012), lançados pela Record. A prática de textos publicitários e roteiros de cinema teria contribuído para consolidar a formação de um escritor consistente, que tem o que dizer e não se perde em experimentações vazias e inócuas, nem em tramas insossas, desprovidas de interesse, como ocorre com alguns novos ficcionistas brasileiros, tediosos e medíocres.
            Em O arroz de Palma, o narrador Antônio, um idoso de 88 anos, envolvido nos preparativos da comemoração do centenário do casamento dos pais, relata a história da família. Um grande almoço, ao qual os irmãos também octogenários comparecem, será o centro da homenagem. O enredo, apresentado em forma de recordações, tem como eixo um punhado de arroz, tratado numa dimensão simbólica. Há cem anos, quando se casaram os pais, como era usual na tradição portuguesa, foram saudados com uma chuva de arroz. A irmã do noivo, Palma, recolhe os grãos e faz deles seu presente de casamento. Ao longo de várias gerações, o arroz acompanha os conflitos e conquistas do casal que, embalado por sonhos, transfere-se para o Brasil, fixando-se numa fazenda do estado do Rio de Janeiro. Sempre com a presença de Palma, ali instalam-se, criando filhos que lhe darão netos.
            Ainda que sujeita a dificuldades e contratempos, a família revela-se como núcleo agregador, responsável não apenas pela preservação da cultura mas capaz de processar mudanças e alterar conceitos. Vazado em linguagem coloquial, próxima da oralidade, em períodos curtos, com a insistência em alguns dados, como sucede em relato de velhos, o romance aproxima-se do estatuto do teatro, pela incorporação de ingredientes da motivação cênica.



      “No universo, o belo e o feio, o alegre e o triste, o limpo e o sujo, o saudável e o doente e toda a lista de adjetivos que completam os times do Bem e do Mal, tudo faz parte de um grande espetáculo e das infinitas cenas que o compõem. As pessoas todas formando um só elenco desde que o mundo é mundo. Tem que ter mocinho, tem que ter vilão. Se não, qual a graça? Elenco somos todos. Por isso, este tamanho entra e sai, esta gente toda no palco, esta constante troca de atores, de figurinos, de cenários, séculos a fio” (p.312).

      A interpretação caprichosa dos fatos, um excesso de devaneios e certezas, a exatidão da lembrança descortinam uma certa idealização deturpadora da realidade, evidenciada em algumas frases de efeito e no registro voluntarioso de efemérides familiares. "Família é mesmo prato delicadíssimo, difícil de preparar" (p.252) A leveza de tom de que se reveste a voz do narrador, um incorrigível otimista, acaba por refletir uma visão superficial dos conflitos e uma rasa abordagem do contexto. A despeito da abertura à expansão afetiva e sexual calcada na diferença, o resultado geral evidencia mediana densidade estética como escrita romanesca. Dois ou três episódios, mais elaborados e sugestivos (ou cenas, para manter a convenção) conseguem libertar-se do discurso complacente, linear e homogêneo do narrador, uma mistura de contrarregra e chefe de cerimônia.

AZEVEDO, Francisco. O arroz de Palma. 9ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1913.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Eduardo Campos (1965-2014)

      Morreu ontem em acidente aéreo em Santos, SP, o jovem e dinâmico politico Eduardo Campos, candidato pelo PSB à presidência da república. Neto de Miguel Arraes, referência histórica na luta pela democracia e contra a ditadura, Eduardo Campos era ex-governador de Pernambuco, estado onde contava grande aprovação. Num país carente de boas lideranças políticas, como o Brasil, o seu idealismo contagiante fará falta.

(Foto: renatojogoabertoblogspot.com.br)

Além do presidenciável, morreram outras seis pessoas, dois pilotos e quatro assessores da campanha. O país, em estado de choque, lamenta e tenta entender a fatalidade.

sábado, 9 de agosto de 2014

Miriam Leitão

      Como outros profissionais dissidentes que têm vivenciado e relatam perseguições e boicotes, os jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sandenberg foram alvos da fúria do aparelhamento estatal promovido pelo petismo. Os dois jornalistas tiveram os perfis no Wikipedia, enciclopédia colaborativa da internet, alterados com informações negativas, falsas, que, agora, se descobriu terem sido postadas de computadores do Palácio do Planalto. Em linguagem direta: de máquinas instaladas no endereço da Presidência da República. O fato reveste-se de gravidade por configurar uso do aparelho estatal contra cidadãos, por suposto delito de opinião. O nome disso é autoritarismo político, ingerência espúria contra a liberdade.

(Foto: evento "Sempre um papo", lançamento do romance Tempos extremos, em Belo Horizonte, 5 ago.)

      Miriam Leitão é uma brilhante jornalista da área de economia, cuja história de vida é um exemplo de luta pela democracia e direito de se expressar. Presa à época da ditadura, "grávida de quatro meses" do primeiro filho, nos piores três meses vividos, por não poder ler, como afirmou em lançamento recente, conseguiu afirmar-se como profissional independente, reconhecida pela isenção, competência e seriedade. Em 2012, seu livro Saga brasileira foi agraciado com o Prêmio Jabuti, de jornalismo. A partir de livros ditos infantis e do romance Tempos extremos, saído do prelo, a partir de agora, é uma escritora consumada, sem nenhum favor. Vale a pena ler a sua coluna publicada hoje, em alguns jornais do país, sob o título de "À margem da lei". Recentemente, o Banco Santander, sob pressão, demitiu funcionários que publicaram nota alertando a respeito dos riscos para a economia, caso o atual governo se reeleja. Só mesmo os ingênuos não percebem os riscos para a democracia.

      A seguir, fragmentos do artigo de Miriam Leitão.

      "Há, em qualquer democracia, um debate público, e eu gosto de de estar nele. Mas postaram mentiras, e isso pertence ao capítulo da calúnia e difamação.
      Tenho 40 anos de vida profissional e um currículo do qual me orgulho por ter lutado por ele, minuto a minuto. (...)
      O Planalto afirma que não tem como saber quem foi. É ingenuidade acreditar que uma pessoa isolada, enlouquecida, resolveu, do IP da sede do governo, achincalhar jornalistas. (...) Este governo desde o princípio não soube lidar com as críticas, não entende e não gosta da imprensa independente."

LEITÃO, Miriam. "À  margem da lei". O tempo, Belo Horizonte, Economia, 9 ago. 2014, p. 12.