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sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Sob um céu estrelado

      Este espaço, voltado às questões literárias, não abdica por vezes do comentário sobre o cotidiano, em que todos tomamos pé, e seus desdobramentos políticos. Ainda mais quando nuvens de chumbo e escuras nos ameaçam, e nem se tratam de iminentes aguaceiros.
      Em ano de eleição presidencial, os votos são caçados de forma implacável. Ações impensáveis noutra época, algumas beirando o patético, tornam-se rotineiras, no intuito de espalhar uma fumaça enganosa e conquistar a simpatia do eleitorado. O governo e seus tentáculos tentam a todo custo emplacar a reeleição da atual presidente, num cenário árido de realizações efetivas. Como se não bastasse a política assistencialista do Bolsa Família, que em outro ciclo pelo menos manteve uma contrapartida educacional (o Bolsa Escola), multiplicam-se as diligências publicitárias com o fito de uma elite envolvida com a corrupção e incompetência se perpetuar no poder.
      O estado de Minas Gerais, merecedor de um abandono arrogante do atual governo, com prejuízos incalculáveis em infraestrutura, mobilidade social e educação, transforma-se em palco de pirotecnias políticas e fanfarras. Caravanas e comitivas estreladas, portando consabidas caras de bonecos sanguessugas do dinheiro público engravatados, correm o estado de norte a sul. À falta de obras de impacto para inaugurar, como o seriam a reduplicação da 381 (na direção B.Horizonte- Vitória) ou o prometido metrô da capital, assistimos a uma exposição inócua e interesseira de última hora de uma presidente que (segundo consta) teria nascido nestas paragens. Presidente da República participando de formatura de Escola Técnica, sem respaldo de um projeto educacional consistente, e doando retroescavadeira para prefeituras carentes é um espetáculo no mínimo popularesco e risível. 

                                            Imagem drd.com.br

      Como profissional da área da educação e para recompor proventos, durante oito anos fui usuário da Rodovia da Morte, onde pude testemunhar, com dor, o resultado de incúria e descaso dos órgãos federais. Presenciei acidentes e mortes de colegas e alunos, numa estrada perigosa, cheia de curvas em região de grande riqueza mineral, monumentos e significado histórico, além de reservas ecológicas deslumbrantes. Sem referir o peso estratégico e a força da atividade mineradora. Consideram-nos um gado alienado e desprovido de senso crítico. Em melancólico fim de ciclo, sem obras importantes realizadas, a não ser em Cuba e algumas tiranias africanas, com a inflação retornando para assombrar a classe média, na sequência de erros sucessivos na economia, está na hora dessa gente retornar aos sindicatos, de onde nem deveria ter saído.


quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Stuart Hall (1932-2014)

      Morreu na semana passada Stuart Hall, o pesquisador jamaicano que vivenciou dramaticamente as contradições contemporâneas e se destacou na área da sociologia. Originário de uma família negra de Kingston, capital da Jamaica, mudou-se nos anos de 1950 para a Inglaterra, com uma bolsa de estudos para a Universidade de Oxford, fugindo à herança colonial e aos problemas raciais. Na Inglaterra, sentindo-se deslocado, convive com imigrantes e intelectuais de esquerda, interessados em debater questões pós-colonialistas e o lugar do sujeito na nova ordem mundial. Questionam alguns dogmas do marxismo ortodoxo, um deles era ver a cultura como subproduto da economia.

                   Imagem: Stuart Hall Project/divulgação do documentário

      De 1979 a 1999, foi professor da Open University, destacando-se como um dos pioneiros nas pesquisas do sistema ou núcleo do pensamento conhecido como “estudos culturais”, com sólidos subsídios aos estudos sobre cultura popular, raça, identidade e gênero. Participa ativamente, junto com outros autores, como Raymond Williams, na fundação e consolidação do Center for Contemporary Cultural Studies, na Universidade de Birmingham, onde o grupo propõe uma nova vertente científica, cujo interesse seria a interdisciplinaridade entre todas as áreas de saber e representação cultural.



      Para Stuart Hall, a criação cultural envolve a disputa pelo poder, a significação social e a produção de sentidos. Entende a cultura não mais como conjunto de referências históricas ou estéticas de determinado contexto, mas como “ponto crítico de ação e intervenção social, no qual relações de poder são estabelecidas e potencialmente desestabilizadas”. Em sua produção teórica, enraizada em paradigmas do materialismo dialético,  são discutidos e enfatizados os conceitos de ideologia, hibridismo, articulação, fronteira, pertencimento, identidade descentrada, subcultura. Dois de seus livros estão traduzidos no Brasil e influenciam em larga escala as investigações em ciências humanas: A identidade cultural na pós-modernidade (DP&A Editora) e Da diáspora - identidades e mediações culturais (Ed. UFMG).