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domingo, 26 de janeiro de 2014

Tempo de reler

      A partir dos cinquenta anos (ou antes) começamos a sentir o desejo de reler alguns livros marcantes. Não necessariamente os clássicos da literatura, mas aqueles livros que para nós foram fundamentais, portadores de grandes descobertas, revelações arrebatadoras, dignas de tomar nota. Chega-se ao tempo de reler, aqueles volumes que líamos devagar, temendo que acabassem.
      Para evitar o movimento dispersivo, fiquemos no universo da ficção.  Esse desencanto diante de novos textos nos invade na sequência de sucessivas decepções. Aqui uma insuportável fragilidade de estrutura, mediocridade na condução da trama, digressões insossas, ausência total de interesse e emoção, lances previsíveis, desenvolvimento ralo e inexpressivo do plot, ali uma linguagem descuidada e frouxa, uma simplicidade afetada, excesso de referentes literários desenxabidos, descosidos, na frente ninharias pretensamente inovadoras, inadequação no desenho da condição humana, um rosto postiço e desfigurado, um gosto artificial de vida.


      Fechamo-nos diante do novo. Não estou sozinho, mas em ilustre companhia. No Livro de areia, Jorge Luís Borges assevera que "não é importante ler, mas reler". Dentre os traços a si atribuídos, menciona ser "professor de letras inglesas e norte-americanas e escritor de contos fantásticos". Impossível melhor parceria. Com o risco de ser mal interpretado, enfim.
      No trato despretensioso do assunto, alguns prognósticos teriam vez. Interessar-se menos por livros atuais seria um sintoma de envelhecimento, ou falta de apreço pela produção literária recente? Não tenho resposta conclusiva, apenas sou capaz de perceber alguns sinais, relacionados em igual proporção a um e outro argumento. E o melhor, no caso, seria evitar toda e qualquer manifestação maniqueísta, rotular algum vetor como bom ou mau, certo ou errado.
      Que fazer, se algo deixa de nos motivar? Um aspecto saudável logo ressalta: a relação com o novo não determina por si só aprovação absoluta. Ou: não reagimos positivamente a uma situação ou produto apenas porque se trata de algo novo, inédito. Decorre daí que por essa porta enveredamos nas trilhas do conservadorismo, uma vez que não reagimos de imediato em adesão à novidade? Cada coisa em seu lugar. O que a princípio parecia uma postura própria da idade madura é realimentada pelo quesito qualidade, a dificuldade de o novo adequar-se a padrões testados de competência, engenho e arte.

domingo, 12 de janeiro de 2014

Fábio Lucas

      Expressei recentemente a minha admiração por Fábio Lucas, pelo trabalho desenvolvido desde os anos 60 como crítico literário atuante (o adjetivo militante insinua-se, redundante e pernóstico, no caso). Esse olhar atento a várias gerações, poucos críticos o desenvolveram com igual inteligência e capacidade. O reconhecimento do trabalho de um crítico literário decorre da aprovação de uma parcela exigente - o leitor crítico, ele próprio candidato ao exercício do cargo. Uma ou outra rasura em avaliações panorâmicas (e seus ignotos subentendidos) não prejudica o mérito do conjunto da obra. Nesse aspecto, talvez, o débito maior derive daquele título mais pretensioso, ainda que toldado por inaceitável miopia diante da produção sobre questões de gênero e do recorte do corpus, a se observar o privilegiado contexto: refiro-me ao livro O caráter social da ficção do Brasil, de 1985. Alguns aventam a ousadia vigiada, a falta de coragem para fugir ou se antecipar ao cânone estabelecido. São circunstâncias históricas que terão, a seu tempo, o devido escrutínio.


      Não seria descabido, dada a importância de que se reveste, pretender a reedição dos livros de crítica de Fábio Lucas. Mesmo vivendo em Belo Horizonte, cidade onde mais demoradamente produziu, não consegui ainda reunir todos os seus títulos. Em voo de pássaro, a recente leitura de Horizontes da crítica (1965) descobre um profissional em pleno domínio de suas faculdades. Na apresentação, ao matizar suas "considerações literárias" (palavra valise que engloba "curtas referências", "opiniões datadas", "impressões antigas e novas", "expressões polêmicas e celebrações necessárias"), afirma o autor que "a crítica não dogmática flutua entre níveis de apreciação em que as circunstâncias chegam a ser quase determinantes". Uma passagem do prefácio, num discurso cioso de convicções nunca abaladas, revela um pequeno descuido. O final do primeiro parágrafo da página 6 soa falso e contradiz em certo aspecto a página anterior, na qual se afirma que a "explicação de textos e obras não pode nunca supor a própria eternidade, o que pareceria pretensioso e soaria falso".
      O conjunto, com capa de Mário Silésio, apresenta estudos longos e notas breves sobre diversos autores, muitos em abordagem preliminar, sobre os quais o crítico viria a se debruçar mais detalhadamente depois, (como Graciliano, Drummond, Henriqueta Lisboa, Murilo Mendes, Clarice Lispector), em comentários ainda pertinentes e lúcidos. "Quer-nos parecer que a ficção brasileira caminha a esmo, ao impulso espontâneo de algumas experiências de grande envergadura", assegura, certeiro.  Em especial, a literatura mineira mobiliza uma atenção redobrada:



      " (...) Rui Mourão, que vem numa luta diária tentando a fixação de uma linguagem capaz de exprimir certas reações coletivas; (...) Wander Piroli, na procura de uma ficção sem ramagens, a pôr em evidência os dados essenciais dos conflitos humanos, numa linha de despojamento que se acentua dia a dia; Ivan Ângelo, a exercitar-se na investigação dos valores plásticos do estilo; Mário Garcia de Paiva, que já provou sua capacidade no conduzir histórias bem urdidas, tentar o estudo das situações dramáticas, passando do enredo dinâmico ao tema estático; Silvano Santiago a explorar a ficção de atmosfera, etc." (p.196)

LUCAS, Fábio. Horizontes da crítica. Belo Horizonte: Movimento Perspectiva, 1965.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Antenor Pimenta

Livro do mês: A estrada de Salamanca

      O autor de ficção depara-se com a tarefa complexa de solucionar inúmeras questões básicas, as convenções de estrutura, temáticas, técnicas, de enredo, criação de eventos e personagens, a incidência de tempo e espaço, o foco narrativo, as imagens do mundo, as conexões sociais, as colorações nacionalistas (se for o caso). Alguns permitem-se o requinte de elaborar concepções estéticas, digressões sobre múltiplos assuntos (filosóficos, políticos, metafísicos, etc. ou de metalinguagem),  inovações narrativas ou estruturais, em obras de maior densidade. Neste último perfil enquadra-se o romance A estrada de Salamanca, de Antenor Pimenta. Ao leitor cabe acolher o pacto romanesco, com a aceitação tácita do cabedal de escolhas realizadas pelo autor.
          O início da carreira de Antenor Pimenta radica nos prêmios recebidos na primeira metade dos anos 80, na Revista literária da UFMG e alcança dimensão nacional com a publicação deste romance, em 1995, ao qual seguiram-se mais dois títulos, O último Aurélio ou o discurso adiado (1998)  e Réquiem para Monalisa (2000), todos pela  editora Rocco.


      Os eixos em torno dos quais giram as histórias neste livro envolvem tesouros enterrados, envolvimentos amorosos de prelados hedonistas com mulheres fatais, cobranças decisivas de dívidas sob afiadas adagas, ermitões vivendo em grutas, muralhas fantásticas construídas pelo demônio, cursos de água que aparecem e desaparecem,o suspense bem trabalhado, o erotismo aflorado, promessas ajustadas sob juras e punhal, o exotismo dos costumes castelhanos.  Na base, a matéria original firma-se na amizade de dois jovens, Juan e Fernando, ambos apaixonados por Isabel, moça de extraordinária beleza. No desenrolar da trama, o autor revela-se mestre em costurar situações envolventes, emolduradas no cenário pitoresco das aldeias, rios, montanhas e cidades de Espanha. Os sentimentos universais de prazer, medo, ódio, amor, ciúme, perpassam, multifacetados, numa intriga de efeitos surpreendentes. O autor impõe-se literariamente pelo apuro de linguagem, a vigilância contra o lugar comum e o uso de um estilo refinado, colorido e sugestivo, com forte dimensão poética.

      "Dom Carlos sempre surpreendia a esposa, Dona Conchita, com seus doces saborosos, naquelas tardes em que o casal apaixonado dividia a sede inconclusa, a melancolia implícita e a saudade antecipada" (PIMENTA, 1995, 239).

      "Os fatos desta história, que se sucederam numa carreira enlouquecida, arrastaram-nos de roldão, como um crocodilo a rodopiar a cauda, como um polvo levantando espumas nas águas do mar.  A velocidade dos expressos quase, quase, nos traía. As palavras, de um momento para outro, começaram a se precipitar com a espetacular celeridade da carruagem desgovernada na planície às margens do abismo. Quando isso acontece, ao cocheiro-escritor sobrevém a necessidade e a responsabilidade de acionar o breque, de aquietar a pena no tinteiro", (PIMENTA, 1995, 287).


PIMENTA, Antenor. A estrada de Salamanca. Rio de Janeiro: Rocco, 1995.