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segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

José Agostinho Baptista

     Livro do mês
       Nascido em Funchal, Madeira, em 1948, José Agostinho Baptista vai ainda jovem para Lisboa, estreia como poeta no final dos anos 70, mas só alcança visibilidade efetiva no princípio dos anos 80, com a coletânea O último romântico (1981). Publicou duas dezenas de livros de poesia, dentre os quais: Morrer no sul (1983), O centro do universo (1989), Canções da terra distante (1994), Agora e na hora da nossa morte (1998), Biografia (2000), Anjos Caídos (2003, Prêmio PEN de Poesia), Esta voz é quase o vento (2004, Grande Prêmio APE/CTT de Poesia), Quatro luas (2006), Filho pródigo (2008) e Caminharei pelo vale da sombra (2011), sobre o qual me detenho, na tentativa de um esboço. Tem desenvolvido em todos esses anos uma obra consistente e de reconhecida unidade, em sua quase totalidade caudatária de vertentes e expedientes próprios do Romantismo, com especial relevo ao estatuto da canção. O motivo da viagem, a projeção narcísica, a exaltação do feminino, o senso do mistério, a cisão interior/exterior, o retorno ao passado, a noturnidade, o apelo à natureza, um ou outro sinal esotérico, a melancolia finissecular formam uma constelação de recorrências e tópicos de extração neorromântica, presentes em estilos posteriores (Simbolismo e o Surrealismo) que se mostram bastante produtivos em sua poética.

Como em outros momentos, também neste Caminharei pelo vale das sombras, extenso e laborioso poema com mais de duzentas páginas, um sujeito mergulha por inteiro no passado, em versos longos, espraiados e emotivos, de ritmo intenso e vertiginoso:
Como procurar-te agora, na eternidade das cinzas,
entre as raízes que ainda sangram.
Como ver-te,
como ver-te, uma vez mais,
reencarnada em jovem noiva traída pelo mar, junto
às mulheres de luto  (p. 9).

O título, num livro em que a memória desempenha um papel importante, enuncia não uma atividade mental, contemplativa, mas um investimento numa instância deambulatória, nômade e dinâmica (caminharei), a ser cumprida num espaço obscuro, de esgarçada nitidez (vale da sombra). O suposto futuro revela-se uma fraude, visto que o objeto do investimento, a busca das origens, da dimensão futura apenas resguarda o tom de profecia, de que se reveste a amarga e desiludida voz poética: “Para quê forçar o cadeado,/ se os portões não se abrem?,/ se há um mistério sem fim em toda a matéria opaca./ E se encontrar a chave não encontrarei a verdade,/ pois esse é o destino que me aguarda:/ anotações,/ epitáfios, bolor, utensílios mortais,/ sobre um sarcófago” (p. 80). Sentindo-se dividido num tempo presente inóspito, pelo que representa de ruptura com uma experiência anterior, num plano temporal distante, o sujeito recolhe vestígios, resíduos de uma época idealizada, a que não são estranhas as ressonâncias bíblicas: “Contorces-te, quando me aproximo,/ e benditos sãos os frutos do teu ventre, no oásis onde/ amadurecem” (p.134).  Processo universal de recuperação do vivido, a memória presta-se, no caso, à partilha desesperada de um universo subjetivo, em que a figura materna, confluência do rol interminável de evocações, síntese maior de todas as perdas, delineia-se como eixo do conhecimento primordial do mundo:
 Minha mãe,
é contigo que falo,
depois de ponderadas as distâncias que vão de um
berço a uma lápide,
depois de ouvir os pássaros,
chamando por mim,
                                             (p. 10).


BAPTISTA, José Agostinho. Caminharei pelo vale das sombras. Lisboa: Assírio & Alvim, 2011.
          

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Novo livro de Osvaldo André de Mello

      Parece que foi ontem. Mas já passaram 45 anos da ruidosa estreia do talentoso e jovem poeta, com A palavra inicial, em 1969. Osvaldo André de Melo lança o sétimo título, Lua nova, motivo de regozijo para os leitores de poesia. O autor tem o privilégio de colecionar elogios de importantes nomes da literatura, tais como Carlos Drummond de Andrade, Bueno de Rivera, Henriqueta Lisboa, Osman Lins, entre outros, a par do reconhecimento crítico de Alba Valéria N. Silva, Angelo Oswaldo de Araújo, Antonio Carlos Sechin, José Afrânio Moreira Duarte, Laís Corrêa de Araújo, Melânia Silva de Aguiar, Stella Leonardos. Dentre as peculiaridades de seu trabalho poético, destacam-se o refinado uso do ritmo, a densidade das sensações, o interesse pelo monumento histórico, a intensidade do voo lírico, a sutileza na expressão da ambiguidade sexual, o equilíbrio entre os parâmetros da tradição e os da modernidade.


terça-feira, 25 de novembro de 2014

Massacre no monitor

      Londres é uma cidade reconhecidamente violenta. O romance policial parece-me um fenômeno típico de sociedades violentas. Não por acaso, consolidou-se como gênero literário respeitável na capital britânica.


      Escrevo ao arrepio de turbulências ocasionadas pela presença de vírus no computador. Deixo claro que sou aprendiz em aparelhos eletrônicos e similares. O desagrado atingiu o ápice com o recrudecimento da lentidão, marketing exacerbado, jogos clandestinos. Comprei um kit antivírus, um MacAfee devastador. De pronto foram identificados 8 vírus. Determinei que fossem eliminados com urgência. O computador voltou a funcionar, novo em folha. Naveguei na web em contentamento de lua-de-mel. No dia seguinte decidi instalar outro dispositivo, que viera acoplado ao kit. Pra quê? O micro ficou pesado, bloqueou a porta da internet. Fiquei possesso. Depois de tentativas frustradas de resolver o problema, resolvi consultar um amigo entendido na área. Explicou que eu teria instalado o segundo dispositivo (um Fireweellonix qualquer) no momento errado, prontificou-se a acompanhar in loco as reações estratégicas. Seria necessário desinstalar o antivírus e proceder a alguns ajustes específicos cujos desdobramentos ignoro. Eliminar os invasores da rede. Não basta localizar os vírus, cabe exterminá-los. Parecia estar na iminência de uma operação bélica, tal a sutileza de golpes e a dinâmica de movimentos. Diante da complexidade da trama e da possibilidade de reações adversas, solicitei um copo de suco de maracujá, na preliminar dos lances. Petrificado, lá estava eu, diante da luz baça do monitor. Eis quando, da lateral direita da tela, vi surgir, como um fantasma gráfico (aparentava ser uma bandeira branca, trêmula, que acendia-apagava), algo querendo instalar-se nos meus arquivos. Meu amigo o expulsava, ele voltava. O embate inglório repetiu-se três vezes, com a aplicação dos mais baixos golpes digitais que os dois lados dispunham. Sem falar no aspeto oneroso para o bolso. Era, porém, gratificante fortalecer meu defensor, incitá-lo a desferir bons sopapos no invasor de meus domínios. Na sequência de inúmeras tentativas, o monitor começou a dar indícios de que a situação caminhava para o desfecho positivo para o nosso lado (meu amigo passou a se envolver efetivamente na operação). Surgiu, como banner escandaloso, uma mensagem prometendo rastrear o invasor. Não parecia ser combatente de meia tigela. Pedi licença para desferir o golpe fatal. Cliquei, irritado, na iminência de esganá-lo. De imediato um mapa múndi chapado ocupou toda a tela, uma seta moveu-se para o território compreendido pelo Reino Unido. Ali ficou, piscando e apagando. Só então me dei conta do imbróglio e liguei os fatos. Há três meses fora abordado por um suposto tradutor inglês, interessado em me lançar no mercado editorial britânico, um súdito da rainha, vidrado pela minha combalida produção literária. Safado, pilantra. Conseguira infiltrar-se no computador, estava prestes a piratear todo o meu labor no campo das letras. Poderia, depois, traduzir meus contos, romances e publicá-los numa editora laranja na ilha do norte, na desdenhosa e gélida Albion. Do lado de cá, espoliado, tonto, desfalecido, mais um escritor brasileiro sucumbia, após tentar, em vão, espantar moscas tropicais, zoando ao redor da taça de caipirinha. Sem ver a cor dos direitos autorais. Mas se dera mal, bradei, ao cabo, após presenciar o golpe certeiro que o decepou e esquartejou, sob meu olhar vingador.

      Após uns copos de cerveja, o amigo disparou: Jamais abra arquivo terminado em .exe.

sábado, 15 de novembro de 2014

Ricardo Piglia

Livro do mês: 

      O romance Respiração artificial, do argentino Ricardo Piglia, empreende um mergulho no substrato cultural do Ocidente, numa escala de tempo que abrange o final do século XIX e o século XX. Tendo como base um incidente familiar – a aproximação de um sobrinho em relação a um tio – desenrola-se a trama, impulsionada por um rol de informações sobre um clã e um acervo de cartas. O gênero epistolar mostra-se mais uma vez produtivo no sentido de possibilitar a montagem de um grande painel, representativo de aspirações, tradições, acervos, legados ideológicos e confrontos de ideias. “... Gênero perverso: tem necessidade de distância e de ausência para prosperar” (p.29). 

                                          (Foto: cosasquehemosvisto.wordpress.com)

       A literatura evolui de tio para sobrinho, este mote esclarece uma parte das ideias desenvolvidas pelo autor, na medida em que o sobrinho torna-se detentor de farto material histórico acumulado pelo parente, por sinal, um professor de história isolado na província. Não é demais ter em conta que a máxima é apropriada também à produção literária em outra parte do continente americano, com a notável contribuição do chileno Jorge Edwards, em especial no livro O inútil da família. Ao acervo familiar acresce o legado de imigrantes fugidos da Europa para a Argentina desde o final do século dezenove a meados do séc. XX, a maioria da última leva de forma clandestina, em disparada fuga da perseguição étnica levado a cabo pelo nazismo, enriquecendo bastante o contexto cultural latinoamericano. Inclui-se, nesse núcleo, a personagens Tardewski, um filósofo polonês, ex-aluno de Wittgenstein em Cambridge, antes de se exilar na Argentina, secundado por outros expatriados, como Groussac, no fim do século dezenove, e posteriormente por Maier e o conde Tokray. Groussac “pudera desempenhar aquele papel de árbitro, juiz e verdadeiro ditador cultural. Aquele crítico implacável, a cuja autoridade todos se submetiam, era irrefutável porque era europeu” (p.114).

      De um lado, o narrador produz extensa digressão sobre o perfil da literatura argentina contemporânea, evidenciando sobretudo os trabalhos de Roberto Arlt e Jorge Luís Borges, nas suas contradições e diferenças. Destaca-se o debate em torno da ideia de nacionalismo na arte, no sentido de a literatura assumir e depurar traços da linguagem gauchesca, como forma de “preservar e defender a pureza da língua nacional diante da mistura, da confusão, da desagregação produzida pelos imigrantes” (p.123). No outro lado da balança, flagra-se a especificidade da literatura argentina, ainda que permeável à influência europeia. O pano de fundo do enredo tem por moldura a formação literária do narrador, Emílio Renzi, e sua relação com o tio, o historiador Marcelo Maggi. Os saraus tornam-se lugares de trocas de informações na dinâmica da cultura, nos quais as notas culturais e as idiossincrasias dos grandes autores são debatidas. Algumas hesitações e tropeços estruturais pulverizam-se, mercê da habilidade narrativa. O jogo de influência entre contemporâneos e autores do passado fermenta densamente tais encontros entre escritores e intelectuais. O confronto básico instaura-se entre a literatura (concebida como espaço livre de representação interpretada da realidade) e a política (vista como espaço de manipulação de ideias e intolerância).




PIGLIA, Ricardo. Respiração artificial. São Paulo: MEDIAfashion, 2012. (Coleção Folha. Literatura ibero-americana)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Literatura latinoamericana debatida em Portugal

 
      A Casa da América Latina, de Lisboa, vem se consolidando como importante referência  da cultura latinoamericana na Europa. Dentre os eventos programados para novembro, destaca-se o II Encontro de Literaturas Ibero-Americanas. Organizado em parceria com a Faculdade de Letras do Porto, onde serão realizadas as atividades, o evento comemora o centenário de quatro escritores da língua espanhola do século XX:  Adolfo Bioy Casares, Júlio Cortázar, Nicanor Parra e Octavio Paz. O encontro promove exibição de filmes, conferências, concerto, conversa de tradutores e palestras.
      No próximo dia 7, estão previstas duas apresentações, articuladas à literatura brasileira, sob moderação de Arnaldo Saraiva:
1.  "Desde Transblancos até Um tal Lucas: As frutíferas amizades interamericanas de Haroldo de Campos", por Jasmin Wrobel.
2. "Julio Cortázar e Lygia Fagundes Telles nas encruzilhadas de seus duplos", por Fernando de Moraes Gebra.

sábado, 1 de novembro de 2014

Outsider, of course

Alguns conhecidos, no âmbito das recentes eleições presidenciais, verbalizaram o interesse em conhecer o real motivo de me envolver na campanha do candidato Aécio Neves, do PSDB. Vamos lá.
Após um período de namoro com o PT, no final dos anos 1990, tendo votado em Lula na eleição de 2002, fui me desencantando com as práticas políticas desse partido, três anos depois. Fiquei decepcionado com os sucessivos escândalos de corrupção, o aparelhamento do estado brasileiro em proveito de um grupo de políticos e empresários e o uso da máquina pública na consolidação de uma liderança populista. Mas até aí, nada de pessoal. Em maio de 2006, o então governador de Minas Gerais, Aécio Neves, convidou-me para o evento de lançamento do programa Minas Leitora, (criação de 1000 bibliotecas em todo o estado) ocorrido no Palácio da Liberdade. Bartolomeu Campos Queiroz, autor de minha admiração e amizade, já falecido, representou em clave brilhante os escritores nesse evento, como orador. Em setembro de 2009, num rasgo de aventura e bizaarria, criei este blog, desde o início identificado ao ofício das letras e às ocorrências do cotidiano. Passei a divulgar resenhas, ensaios, artigos, notas de vida literária, crônicas e poemas.

                              (Imagem: Casa da América Latina, em Lisboa)

O trato com o cotidiano presta-se a conviver com variadas expressões e palavras chave, à escolha do freguês. Sem incorrer no intento de exauri-las, avento a possibilidade de referir algumas, tendo como base o alfabeto. E teríamos, então: abuso, alvíssaras, aparelhamento, azáfama; bazófia, bisbilhotice, boato, burrada; catástrofe, correio, corrupção, corriola; devastação, diatribe, dívida, doação; economia, embuste, empulhação, encosto; farra, farsa, fraude, favorecimento; gaiatice, galhofa, gargalo, gestão; honra, herança, honestidade, horror; ilícito, indignação, intriga, Itaipu. Paremos por aqui, antes de ser tentado a referir, na sequência, quadrilha, Petrobrás, propina, ressentimento, etc.
Como cidadão minimamente informado, diante de condutas corruptas por parte de agentes públicos, expressei indignação, divulgando comentários de especialistas ou externando posicionamento. Paralelo ao trabalho no campo da literatura, atuei por vezes como eventual observador da dinâmica da política. Nem são muitas as intervenções na área. Acredito na importância do debate democrático de ideias. Admiro os homens públicos de trajetória honesta. Neste ano, com a possibilidade de publicar um livro em Portugal, percebi que era o momento adequado para uma viagem internacional com a família. De acordo com o editor, o lançamento seria na Embaixada do Brasil, em Lisboa, na sequência de uma prática usual, como fizera com outros autores brasileiros. Um mês antes, o editor avisa que a Embaixada brasileira havia, de forma peremptória, suspendido a autorização para o lançamento, anulando expediente anterior. A desculpa é que o prédio estaria em obras de pintura. Foi possível contatar a tempo a Casa da América Latina, de Lisboa, espaço também de prestígio, que acolheu o evento.

Fica o depoimento de alguém que não pactuou com atos ilícitos de poderosos. Se precisar do Ministério da Cultura, estou lascado de novo, por no mínimo mais quatro anos. Este é o prazo também para desbravar outras paisagens em férias: o cerrado goiano, as doces ondulações dos pampas, as praias do norte paulista e de Floripa, as estâncias hidrominerais do sul de Minas, sem falar nas escapadas para o exterior.

sábado, 18 de outubro de 2014

Nuno Júdice

Livro do mês: Navegação de acaso

Revelado há mais de quarenta anos, Nuno Júdice vem construindo uma obra poética extensa e multifacetada, que ultrapassa a marca de vinte e cinco títulos. Desde o início identificado como voz dissonante em relação à tendência formalista e fragmentária da década anterior, assume um registro discursivo, sem, contudo, abolir por inteiro a obsessão em debater a especificidade da poesia, intuito sugerido no título de estreia, A noção de poema, (1972). Outros autores surgem também à altura, como João Miguel Fernandes Jorge, com Sob sobre voz (1971) e Joaquim Manuel Magalhães, com Consequência do lugar (1974). O surgimento desses três autores motiva o conhecido comentário de Eduardo Prado Coelho: “São estes os acontecimentos decisivos para podermos assinalar uma linha de viragem na poesia portuguesa dos anos 70” (COELHO, A noite do mundo. Lisboa: 1988, 128). A enumeração poderia acolher outro poeta, de fluxo subjetivo, associações inesperadas e áspera sintaxe, António Franco Alexandre, de Sem palavras nem coisas, (1974).



No caso de Nuno Júdice, alguns vetores impõem-se para configurar a postura de um vidente, concepção de raiz romântica e rimbaudiana, em que o poeta é visto como portador de parte da sabedoria do universo, imerso numa rede de códigos fundamentais e referências literárias esotéricas. A sedução de um léxico fortemente contaminado pela prática romântica, retomado posteriormente pelos poetas simbolistas, sedimenta uma escrita caudatária de um desenvolvimento lírico matizado por uma nova perspectiva diante do sujeito, percebido como instância do discurso. Construção de linguagem e espaço de reflexão teórica, a poesia retoma as convenções da tradição lírica, sem ignorar o tom artificial, a modulação erudita do repertório vocabular, o sentido ambíguo e a atmosfera fluida, nebulosa. Navegação de acaso, livro em que os poemas se mostram como “errantes navegações verbais” (p.11), último volume publicado pelo autor (2013), merecedor do galardão Prêmio Rainha Sofia de poesia ibero-americana, partilha desse entendimento prévio de que o universo poético instaura-se radicalmente num território circunscrito pela conotação, do qual a denotação se encontra de todo alijada: “Em vez de correr contra o tempo,/ separo de entre esses ramos de imagens aquelas que/ me ditaram os versos mais obscuros, a luz/ de acaso que deles surgia, em cintilações de sílaba,/ e um reflexo de madrugada na face liberta/ de uma lenta sombra”, como se lê em “A manhã do poema”. A vidência, na linha de Rimbaud, autor de decisiva influência em Júdice, (cf. “Alquimia” e “Cântico do fogo”) supõe ainda o mergulho no inconsciente, a disponibilidade para acolher as imagens obscuras do sujeito, vedadas aos outros homens. Embora não seja a tônica do livro, esta faceta não está ausente, como se percebe em “Fecundação” e outros dois textos, em que as imagens beiram as sugestões de camadas psíquicas: “Derramo o esperma do sol sobre as éguas inseguras/ do ocidente; emprenho-as com a vaga humidade de um relinchar de abismo; (...)". A peculiaridade do discurso de Nuno Júdice subentende o fato de não mergulhar no próprio percurso, no itinerário pessoal, na prática da confidência. Frágil, tênue, por vezes tomada de um fôlego elevado, a voz lírica não se compraz na autocontemplação: a meta é compreender o encantamento em face do amor, da beleza, a extraordinária magia que cerca os gestos simples, as razões pelas quais as pessoas se emocionam, mas também as notas disfóricas diante de ruínas e mazelas sociais.
A mistura de realidade e fantasia, a associação entre o plano real e o do sonho revela-se num tecido verbal de conformação estética, num sistema de trocas entre um sentido referencial e um outro assimilado, de natureza retórica: “E descubro-te no fundo desta imagem, envolta/ no veludo de ausência em que os meus dedos/ sentem a tua pele, e tiram de dentro do nada/ o calor das palavras com que o amor é esculpido/ na pedra do poema”, (versos finais de “O amor”). Na tentativa de ouvir/decifrar o poema, em “Pedaço de real”, o poeta refere o uso de recursos de linguagem (“o único recurso de que disponho são as próprias palavras”), como ferramentas capazes de criar o efeito diáfano e volátil do vivo arrebatamento, “algo que nasce/ de dentro do verso, e corre à minha frente”.
Os lugares privilegiados nesta poesia, sabidamente as paragens estilizadas pela imaginação ou vidência, ancoram-se numa emblemática paisagem retórica, revisitada através da metáfora, da citação ou do labor artístico. A instância estética, de que dão sinais as associações à memória e a reiteração de alguns feixes semânticos (ligados à “tinta”, “quadro”, “cores”, “pintor”, “desenho”, “luz”, “palavra”), precede a realidade e assenta-se na concepção de arte como esforço artesanal e busca de perfeição: “(...) o poema, ou/ esse objecto artesanal que sai/ perfeito das mãos do oleiro, é/ afiado pela consciência de/ que só o que é exacto sobrevive/ no ouvido e canta” (“Proposta”). O cotidiano será sempre um pretexto para encetar um périplo nos códigos eruditos da arte e da cultura, limiar de um espaço autônomo propiciado pela tradição. No primeiro poema, “Cantar rústico”, acompanhamos o interesse do sujeito em se purificar, para recepcionar a natureza: “Limpo de tédio os meus olhos para te receber,/ ó primavera, e um dilúvio de miosótis faz-me regressar/ à estação das chuvas, ouvindo o correr das águas/ numa impaciência de estuário”, ao mesmo tempo em que registra o movimento em direção à inefável pastora, integrado numa atmosfera de leveza e artificialidade, na sequência de um ritual que se vai desenhando em detalhes, no qual o sujeito lírico a despe “da sua túnica de écloga, para que o seu corpo beba/ um licor de pétalas adormecidas”.
Ao longo do livro, alternam-se duas séries que se distinguem e se complementam: a série da epifania, com o encantamento diante da primavera, as visões femininas deslumbrantes e a possibilidade de compreender o mundo pela via artística. A série da devastação, de outro lado, mostra-se atravessada por “nevoeiros”, “marés de sangue”, “naufrágios”, ruínas e miséria: “Mas era na terceira classe que eu encontrava/ os pobres que se sentavam sobre cestos carregados de legumes/ e de carnes secas” (“Infância”). No poema “Terra prometida”, o lugar de fartura e felicidade não existe, a não ser “desertos”, “pântanos e “campo de serpentes”: para além do “nevoeiro”, os inimigos só encontrarão “abutres”, que “os esperam para limpar o que resta de carne/ nos seus corpos dizimados pela febre”.
Ainda que sejam mínimos os vestígios escuros da realidade, as alucinadas imagens de destruição e ruína proliferam, “náufragos aproximam-se da costa, trazendo notícias/ do abismo com a voz entrecortada por um soluço/ de anémonas azuis”.  No poema “Regresso de Orfeu”, o sujeito poético, ao constatar a sensação de exílio - “nenhuma/ paisagem me é familiar”, insinua a definitiva impossibilidade de qualquer regresso, além do inexorável desaparecimento da amada, num mundo adverso e hostil ao seu ofício. 

JÚDICE, Nuno. Navegação de acaso. Lisboa: Dom Quixote, 2013

                                                                                                          

domingo, 12 de outubro de 2014

Correção em dados é o mínimo que se espera

      Além de pactuarem com a corrupção, muitos políticos apresentam estatísticas incorretas, o que corrobora para que a população os veja com incredulidade. Miriam Leitão (na imagem), jornalista especializada na área econômica, várias vezes premiada, comenta, na coluna de hoje, a postura diante da economia dos maiores partidos nas últimas décadas. E contribui para desfazer alguns equívocos, que a campanha petista insiste em divulgar. Pinço fragmentos de seu artigo.
      "Não haveria política social que funcionasse sem a vitória sobre a hiperinflação, e ela foi derrotada pelos economistas que são do PSDB ou se identificam com ele. O salário mínimo começou a se recuperar a partir da estabilização; os programas de transferência de renda foram possíveis por causa do real. As políticas sociais do PT têm méritos, mas o debate eleitoral criou uma dicotomia inexistente."


      Afirmar que o governo de Fernando Henrique Cardoso se submeteu ao FMI é uma das ideias distorcidas que a campanha petista insiste em divulgar. Volto ao artigo de Míriam Leitão:
      "O dólar disparou, o juro subiu, a inflação se elevou e o governo FHC tomou junto ao FMI um empréstimo que teve 80% de seu valor sacado no mandato de Lula, criando um colchão de reservas sem o qual teria sido muito difícil o início do novo governo.
      Esta foi a história que eu vi se desenrolar no dia a dia da cobertura da economia. Sei que foi assim não por ouvir dizer, mas por ter acompanhado."
      Na sequência, Míriam Leitão se detém na estatística a respeito da redução de pobres no país. Antes, porém, refere a prática nociva de maquilar os dados.
      "A irracionalidade do debate, e as manipulações dos números e fatos, exasperam quem acompanha a economia brasileira há tantos anos e sabe o contexto de cada dado e momento." E, após referir que, se de um lado, o desemprego baixo é "uma excelente notícia", alerta que as bases do desemprego "vêm sendo corroídas pelos desajustes fiscais e monetários que este governo permitiu. O emprego na indústria já está em queda há cinco meses, mostrou o IBGE na sexta-feira."
       O Plano real, com a estabilização econômica, produziu, segundo Míriam Leitão, a primeira forte queda do percentual de pobreza no país, de 45% para 34%. Se as políticas do PT foram positivas, produziram outra queda do percentual de pobreza, de 34% para 15,09%. Portanto, não condiz com a verdade afirmar que o governo do PSDB deixou um percentual em torno de 54% de pobres. Com a palavra mais uma vez Míriam Leitão:
      "O recuo do percentual de pobres e miseráveis é outra excelente notícia. Mas de que maneira a queda poderia ter sido construída num país com a hiperinflação que o PSDB domou? A propósito, o ministro Aloízio Mercadante mostrou os bons números da redução da pobreza em entrevista ao jornal Valor Econômico de sexta-feira. Disse que o percentual de pobres caiu de 34% para 15,09%. Maravilhoso. Mas cabem dois adendos. No resuminho de programa que a presidente Dilma divulgou, por determinação do TSE, está dito - e a candidata repetiu em entrevistas - que ao fim do governo FHC eram 54% os pobres. O dado certo é o de Mercadante. o mesmo do IPEAdata. O segundo detalhe ocultado é que a estabilização, em 1994, produziu a primeira forte queda, de 45% para 34%."

      O povo não gosta de ser enganado.

LEITÃO, Míriam. "Ofensa sem sentido". O tempo. Belo Horizonte, 12 out. 2014, p. 13.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Paulo Merçon (1971-2014)

      "Morre jovem o que os Deuses amam, é um preceito da sabedoria antiga. E por certo a imaginação, que figura novos mundos, e a arte, que em obras os finge, são os sinais notáveis desse amor divino. Não concedem os Deuses esses dons para que sejamos felizes, senão para que sejamos seus pares". Com estas palavras inicia Fernando Pessoa o artigo em que lamenta a morte trágica de seu amigo poeta, Mário de Sá-Carneiro.


      Só recentemente fiquei sabendo da morte de Paulo Merçon, ocorrida há uns seis meses. Vimo-nos três vezes, o suficiente para aquilatar sua vitalidade, altivez física e rara sensibilidade. Quando me procurou para prefaciar seu livro Abreviaturas do invisível, em fins de 2008, já era um poeta maduro e de grandes recursos. Juiz do trabalho, cursava mestrado, em brilhante carreira jurídica. Márcio Almeida e Nonato Gurgel também reconheceram em textos críticos a qualidade de seus versos. Transcrevo, como homenagem, um dos poemas de seu livro.

      Fábula notívaga

No formato de uma lâmpada que acende
aflita e perplexa
às vezes uma ave.

A escuridão é essa gaiola
ao se abrir, a fuga
da cor e da forma, um voo
pausado e mudo
nos corredores do pensamento

que pela trilha das horas
galopando em
musculoso silêncio
desfralde talvez

o esplêndido cavalo da insônia.

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

Aécio Neves, para a reconquista da estabilidade econômica

      Como Aécio Neves não pode contar com o "dedo forte dos Correios", vai o frágil apoio de um escritor e professor honrado. E sem rabo preso.  A expressão "dedo forte dos Correios" foi usada pelo expedito parlamentar estafeta do PT, Sr. Durval Ângelo, para expressar a ajudazinha da empresa estatal à campanha de Dilma Rousseff. Como metáfora de verbas milionárias é bastante expressiva. Pelo menos assim não contribuo para a continuidade da corrupção no país e aceno para a reconquista da estabilidade econômica, porque a inflação volta com força. Assim pacifico também minha consciência e lembro evento cultural do governo de Aécio em Minas, o programa Minas leitora, a inauguração de mais de mil bibliotecas no estado.
      Se o companheiro me considera pálido na foto, pudera, isso foi na sequência de uma cirurgia de safena. A foto foi tirada no dia 24/05/2006.  Apesar da insistência de Regina, não quis levar o blazer. Cardíacos gostam de sentir o vento no peito aberto. E depois, (tendo em vista a atual campanha à presidência) as conquistas difíceis são mais emocionantes.


sábado, 20 de setembro de 2014

Cooptação, parceria ou... ignorância

      Corre nas redes sociais um depoimento da presidente Dilma Rousseff no mínimo preocupante. Mais uma vez, teria se atrapalhado na comunicação, caso não seja pior. Na imprensa a presidente é conhecida pela primária capacidade argumentativa e desastrado poder de comunicação. Em pronunciamento recente teria dito que é preciso reforçar "o compromisso com os que desviam verbas públicas."
                                         (Imagem: amigosdepelotos.com)  
  Está em causa uma confissão de que apoia atos ilícitos, de corrupção, o que motiva investigação urgente. Não estamos diante das costumeiras desastradas opiniões, nem dos disparatados e esquartejados anacolutos incompreensíveis, mas de uma provável ratificação de que a chefe suprema participa de ilícitos. Mas seria isso mesmo, ou a presidente atrapalhou-se mais uma vez no português, desta vez no despreparo no uso de meras preposições. Fragoroso despreparo, sintoma de outras incompetências na condução da economia, da política externa, no combate à corrupção na Petrobrás e no controle da estabilidade financeira. Caso a sua excelência queira ter dito que é necessário reforçar o combate aos que desviam verbas públicas, devia ter usado a preposição contra, deveria ter dito :..."reforçar o compromisso contra os que desviam verbas públicas". As preposições  com e contra modificam radicalmente o enunciado. Reforçar o compromisso com os que desviam dinheiro público indicia parceria, participação, apoio, o que não se espera de um ou uma presidente da república. Simples assim. Qualquer estudante do ensino fundamental sabe disso.

sábado, 13 de setembro de 2014

Fátima Maldonado

Livro do mês:

 Lava de espera.
        Os Açores constituem território português além do continente europeu, a caminho para a América, pela rota do oceano Atlântico. Em denominação mais consentânea à realidade sócio-geográfica das ilhas, o Arquipélago de Açores, cuja história articula-se estreitamente à tradição da caça à baleia, engloba ilhas rochosas e vulcânicas em pleno Atlântico.

Em Lava de espera, Fátima Maldonado, poeta portuguesa revelada nos anos 80, reconhecida pela densidade de uma produção marcada por uma dicção visceral, empreende um mergulho poético e seletivo na cultura dos Açores. Diante de um portal em ruínas, a última frase de “A lagoa do Caiado”, um dos capítulos do livro, tem uma aura profética: “Mas sente-se que atravessá-la seria início, conhecimento ou pacto”. Estas reações prestam-se também para caracterizar o legado da leitura deste livro. O gênero? À exceção de três poemas, os dez textos restantes podem ser rotulados de crônica, evocação poética ou literatura de viagem. Cada um escolha o que melhor lhe aprouver. Os atributos de que se valem envolvem o suporte da pesquisa, a linguagem refinada, o apuro estilístico, a escolha cuidadosa de termos (com acento no léxico regional), todo um sortilégio de babugem de lendas, repertório folclórico e de mistérios. Versam sobre o passado das ilhas, descrevem aldeias, largos, igrejas seculares, festas, bandas de música, imagens de santos e figuras lendárias. Para o senso comum, lugar vigiado por vulcão e onde medram árvores de incenso parece imensa e sinistra campa de náufragos, antessala do Purgatório.
As aventuras associadas aos antigos caçadores de baleia, com seu rol de perigos e lances heroicos, as erupções vulcânicas ao longo da história, os contratempos ligados à imigração, a herança dos primeiros colonizadores, as tradições de arte e gastronomia, as festas folclóricas formam a base da matéria tratada de forma peculiar e emotiva. A primeira referência evoca as “cúpulas da igreja virada a oceano”, reiterada no início do segundo texto: “Habituei-me a isto: dirijo-me primeiro à igreja, depois logo se vê”, privilegiando a atmosfera religiosa da imersão aos lugares e costumes ilhéus. Mais à frente, o motivo retorna: “Não resisto a espreitar a igreja, é quase um vício entrar nestes cubos de silêncio” (p.33). O tratamento literário à caça da baleia tem ilustre ascendência, radica em nomes da estatura de Hermann Melville (Moby Dick) e Vitorino Nemésio (Mau tempo no canal), renomados cultores da linguagem e do estilo, sem ruptura de qualidade na produção de Fátima Maldonado.  A mistura do passado com os novos ares do presente é repassada de uma nota melancólica, de quem se dá conta da onda devastadora que acompanha os processos ditos civilizatórios: “A caça da baleia fechou em 1987, a miséria foi-se extinguindo com o dinheiro emigrado e a mudança para a pesca do atum, a albacora. O Pico é uma reserva, recolhem-se preciosos vestígios de uma civilização a esfumar-se” (p.15).
Na evocação, o confronto presente/passado assume dimensão por vezes etnográfica, nem por isso menos cruel, diante da crescente invasão de mediocridade tecnológica: “As Bandas são ecos da antiga cultura, a televisão não oprimia ainda, aberta a despropósito em tudo que é farmácia, cozinha ou supermercado, agora até massacram nas salas de espera dos dentistas” (p.18).  Pequenos detalhes difusos flagram um olhar desejoso de compreender a dinâmica movimentação dos açorianos pelo América, “os ridículos fatos cheios de anúncios”, “os bonés americanos na cabeça”, “adolescentes de t-shirt que se riem nos intervalos”, “condutores com boné dos States”. Outra faceta da cultura açoriana, mais de uma vez referida, seriam as sandálias de couro, de origem romana, artesanais, ainda hoje em uso nas ilhas – as albarcas. Misto de primitivismo (as sandálias romanas) e disponibilidade à padronização moderna (os bonés americanos), a cultura açoriana sobrevive bravamente e como pode à fatalidade geográfica, entre a preservação de vestígios artesanais e a assimilação do excedente industrial, transplantado da América.  

            MALDONADO, Fátima. Lava de espera. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2014. 54 p.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Tsunâmi de corrupção (outro) e sombras conservadoras

       Os rumos e tendências revelados nas últimas pesquisas eleitorais são capazes de deixar perplexo qualquer cidadão acima de 45 anos. Após a tragédia que matou o presidenciável Eduardo Campos, do PSB, Marina Silva que o substituiu tem conquistado um grande número de eleitores. Pesquisas recentes creditam a onda pró-Marina a duas vertentes: os evangélicos e os jovens de metrópoles.


      Seria aconselhável que os educadores - logo eles, tão mal remunerados - esclarecessem os jovens sobre os perigos do retorno da inflação, que já assusta as famílias e, como barriga de mulher grávida, não para de crescer. Amor à Bíblia e interesse ecológico não capacitam ninguém para o exercício da presidência da república. Só atraem ingênuos e conservadores empedernidos.
      O único plano econômico - dos muitos lançados nas décadas de 70 e 80 - que deu certo e trouxe estabilidade financeira foi o Plano Real, implantado por Fernando Henrique Cardoso, a quem o país também deve a lei da Responsabilidade fiscal. Os jovens, na sua maioria, continuam reféns de boquirrotos corruptos e moralistas. É hora de ouvir os notáveis, como Roberto Damata, de quem reproduzo um parágrafo de sua coluna no Estadão, publicada na semana passada:

      "Marina Silva representa a proposta de juntar carisma com ideologia na base de acertos pessoais afiançados por uma tragédia ao lado de uma biografia impecável. Seu programa financeiro é muito próximo ao de Aécio Neves. A diferença é que Aécio não tem a aura de santidade e carrega os compromissos do PSDB: a obrigação de governar administrando. Não se pode esquecer que foi essa atitude que deu ao Brasil o respeito e a estabilidade monetária."

      Quanto à outra candidata, com altíssimo índice de rejeição, nem merecia ocupar a cadeira que ocupa. O seu governo foi o mais corrupto, incompetente e temeroso de toda a história, agora manchado de novo pelo segundo mensalão, como atestam as negociatas e desvios de muita grana na Petrobrás.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Colóquio-letras

      A revista portuguesa Colóquio-letras, da Fundação Calouste Gulbenkian,  segue em circulação, atualmente dirigida por Nuno Júdice. O alto patamar de qualidade na vertente ensaística e na roupagem gráfica tem-se mantido, juntamente com o foco especial nas literaturas produzidas em língua portuguesa. Em sua fundação, em 1959, a revista chamava-se Colóquio, revista de artes e letras; em 1971, o periódico dividiu-se em duas revistas, a Colóquio-artes e a Colóquio-letras, esta com periodicidade trimestral, depois bimestral, agora quadrimestral. Uma quarentona de sucesso. A associação de literatura com as artes plásticas vem de nascença, como se vê. Vários diretores alternaram-se na linha do tempo: Hernâni Cidade, Jacinto do Prado Coelho, David Mourão-Ferreira, Joana Varela.


      Os dois números editados neste anos, o 185 dedicado a Almada Negreiros e o 186 com instigante dossiê sobre a utopia, impõem-se, na sequência esperada, como espaço multifacetado de pesquisa, debate e crítica, com relevo para as resenhas de livros lançados recentemente.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Julio Cortázar

      Comemoram-se neste ano o centenário de nascimento e os trinta anos de morte do escritor argentino Julio Cortázar  (1914-1984), que viveu grande parte de sua vida na França, autor de clássicos da ficção, como Rayuela, 1966, em tradução brasileira O jogo da amarelinha. A literatura de Cortázar movimenta-se num universo atravessado continuamente por enigmas e fantasias insólitas. Por detrás de um cotidiano conhecido e previsível, esconde-se um mundo caótico, cheio de eventos obscuros e fugidios.  A confluência dos limites, entre o real e o fantástico, o banal e o mistério, constitui o eixo básico de seus relatos, que evoluem em ritmo obsessivo, através de insistência em alguns detalhes e associações inusitadas. Numa passagem de um de seus contos, escreve: "...nas primeiras horas talvez seja menos duro sentir irrevogavelmente a ausência do que suportar um tropel de abraços e de grinaldas verbais" ("Liliana chorando", em tradução de Gloria Rodriguez, do livro Octaedro). O conto "As babas do diabo" inspirou o filme Blow-up - depois daquele beijo, de Antonioni (1963), um cult das telas. Em O jogo da amarelinha, Cortázar atinge um altíssimo domínio técnico na narrativa e montagem de situações reveladoras da turbulência oculta na suposta ordem do mundo. O denso mergulho na condição humana jamais se desliga de uma profunda experimentação e debate sobre os recursos ficcionais. Dentre suas obsessões temáticas inscreve-se a atividade do escritor, com suas opções, limites e seu instrumento, a linguagem. Muitos preferem o romancista, outros (como Nélida Piñon) admiram o contista, mais adstrito às convenções do gênero.

                                       (Foto: contracapa de O jogo da amarelinha, 1971)

      Julio Cortázar exerceu grande fascínio nos anos 60 e 70, na América e na Europa, tendo influenciado muitos escritores. A seguinte passagem, transcrita de O Jogo da amarelinha, registra a sua consciência  da criação literária: "Contudo tão sequioso de absoluto como quando tinha vinte anos, mas a delicada crispação, a delícia ácida e mordente do ato criador ou da simples contemplação da beleza, não me parecem já um prêmio, um acesso a uma realidade absoluta e satisfatória. Só há uma beleza que ainda pode dar-me este acesso: a que é um fim e não um meio, e que o é porque seu criador identificou em si mesmo seu sentido da condição humana com seu sentido da condição de artista. Em troca o plano meramente estético parece-me isso: meramente. Não posso explicar-me melhor" (em tradução de Bella Josef). Outras obras: Os prêmios, 62 Modelo para armar,  romances; Bestiário, As armas secretas, Todos los fuegos el fuego, Final de jogo, livros de contos.


            (Capa da edição brasileira de 1971, pela editora Civilização Brasileira)

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Francisco Azevedo

Livro do mês:

       Francisco Azevedo, nascido em 1951, no Rio de Janeiro, traz em seu currículo atividades como diplomata, poeta, roteirista de filmes, produtor de textos dramáticos e narrativos. Publicou dois romances, O arroz de Palma (2008) e Doce Gabito (2012), lançados pela Record. A prática de textos publicitários e roteiros de cinema teria contribuído para consolidar a formação de um escritor consistente, que tem o que dizer e não se perde em experimentações vazias e inócuas, nem em tramas insossas, desprovidas de interesse, como ocorre com alguns novos ficcionistas brasileiros, tediosos e medíocres.
            Em O arroz de Palma, o narrador Antônio, um idoso de 88 anos, envolvido nos preparativos da comemoração do centenário do casamento dos pais, relata a história da família. Um grande almoço, ao qual os irmãos também octogenários comparecem, será o centro da homenagem. O enredo, apresentado em forma de recordações, tem como eixo um punhado de arroz, tratado numa dimensão simbólica. Há cem anos, quando se casaram os pais, como era usual na tradição portuguesa, foram saudados com uma chuva de arroz. A irmã do noivo, Palma, recolhe os grãos e faz deles seu presente de casamento. Ao longo de várias gerações, o arroz acompanha os conflitos e conquistas do casal que, embalado por sonhos, transfere-se para o Brasil, fixando-se numa fazenda do estado do Rio de Janeiro. Sempre com a presença de Palma, ali instalam-se, criando filhos que lhe darão netos.
            Ainda que sujeita a dificuldades e contratempos, a família revela-se como núcleo agregador, responsável não apenas pela preservação da cultura mas capaz de processar mudanças e alterar conceitos. Vazado em linguagem coloquial, próxima da oralidade, em períodos curtos, com a insistência em alguns dados, como sucede em relato de velhos, o romance aproxima-se do estatuto do teatro, pela incorporação de ingredientes da motivação cênica.



      “No universo, o belo e o feio, o alegre e o triste, o limpo e o sujo, o saudável e o doente e toda a lista de adjetivos que completam os times do Bem e do Mal, tudo faz parte de um grande espetáculo e das infinitas cenas que o compõem. As pessoas todas formando um só elenco desde que o mundo é mundo. Tem que ter mocinho, tem que ter vilão. Se não, qual a graça? Elenco somos todos. Por isso, este tamanho entra e sai, esta gente toda no palco, esta constante troca de atores, de figurinos, de cenários, séculos a fio” (p.312).

      A interpretação caprichosa dos fatos, um excesso de devaneios e certezas, a exatidão da lembrança descortinam uma certa idealização deturpadora da realidade, evidenciada em algumas frases de efeito e no registro voluntarioso de efemérides familiares. "Família é mesmo prato delicadíssimo, difícil de preparar" (p.252) A leveza de tom de que se reveste a voz do narrador, um incorrigível otimista, acaba por refletir uma visão superficial dos conflitos e uma rasa abordagem do contexto. A despeito da abertura à expansão afetiva e sexual calcada na diferença, o resultado geral evidencia mediana densidade estética como escrita romanesca. Dois ou três episódios, mais elaborados e sugestivos (ou cenas, para manter a convenção) conseguem libertar-se do discurso complacente, linear e homogêneo do narrador, uma mistura de contrarregra e chefe de cerimônia.

AZEVEDO, Francisco. O arroz de Palma. 9ª. ed. Rio de Janeiro: Record, 1913.


quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Eduardo Campos (1965-2014)

      Morreu ontem em acidente aéreo em Santos, SP, o jovem e dinâmico politico Eduardo Campos, candidato pelo PSB à presidência da república. Neto de Miguel Arraes, referência histórica na luta pela democracia e contra a ditadura, Eduardo Campos era ex-governador de Pernambuco, estado onde contava grande aprovação. Num país carente de boas lideranças políticas, como o Brasil, o seu idealismo contagiante fará falta.

(Foto: renatojogoabertoblogspot.com.br)

Além do presidenciável, morreram outras seis pessoas, dois pilotos e quatro assessores da campanha. O país, em estado de choque, lamenta e tenta entender a fatalidade.

sábado, 9 de agosto de 2014

Miriam Leitão

      Como outros profissionais dissidentes que têm vivenciado e relatam perseguições e boicotes, os jornalistas Miriam Leitão e Carlos Alberto Sandenberg foram alvos da fúria do aparelhamento estatal promovido pelo petismo. Os dois jornalistas tiveram os perfis no Wikipedia, enciclopédia colaborativa da internet, alterados com informações negativas, falsas, que, agora, se descobriu terem sido postadas de computadores do Palácio do Planalto. Em linguagem direta: de máquinas instaladas no endereço da Presidência da República. O fato reveste-se de gravidade por configurar uso do aparelho estatal contra cidadãos, por suposto delito de opinião. O nome disso é autoritarismo político, ingerência espúria contra a liberdade.

(Foto: evento "Sempre um papo", lançamento do romance Tempos extremos, em Belo Horizonte, 5 ago.)

      Miriam Leitão é uma brilhante jornalista da área de economia, cuja história de vida é um exemplo de luta pela democracia e direito de se expressar. Presa à época da ditadura, "grávida de quatro meses" do primeiro filho, nos piores três meses vividos, por não poder ler, como afirmou em lançamento recente, conseguiu afirmar-se como profissional independente, reconhecida pela isenção, competência e seriedade. Em 2012, seu livro Saga brasileira foi agraciado com o Prêmio Jabuti, de jornalismo. A partir de livros ditos infantis e do romance Tempos extremos, saído do prelo, a partir de agora, é uma escritora consumada, sem nenhum favor. Vale a pena ler a sua coluna publicada hoje, em alguns jornais do país, sob o título de "À margem da lei". Recentemente, o Banco Santander, sob pressão, demitiu funcionários que publicaram nota alertando a respeito dos riscos para a economia, caso o atual governo se reeleja. Só mesmo os ingênuos não percebem os riscos para a democracia.

      A seguir, fragmentos do artigo de Miriam Leitão.

      "Há, em qualquer democracia, um debate público, e eu gosto de de estar nele. Mas postaram mentiras, e isso pertence ao capítulo da calúnia e difamação.
      Tenho 40 anos de vida profissional e um currículo do qual me orgulho por ter lutado por ele, minuto a minuto. (...)
      O Planalto afirma que não tem como saber quem foi. É ingenuidade acreditar que uma pessoa isolada, enlouquecida, resolveu, do IP da sede do governo, achincalhar jornalistas. (...) Este governo desde o princípio não soube lidar com as críticas, não entende e não gosta da imprensa independente."

LEITÃO, Miriam. "À  margem da lei". O tempo, Belo Horizonte, Economia, 9 ago. 2014, p. 12.
   

terça-feira, 29 de julho de 2014

Francisca Vilas Boas

            Livro do mês:

            Francisca Vilas Boas compôs o notável quarteto pioneiro na criação e divulgação do miniconto no Brasil, ao lado de Elias José, Sebastião Resende e Marco Antonio Oliveira. As publicações aconteceram no final dos anos 60, em Guaxupé, Minas Gerais, sob o título de Cadernos 20 e Poleiro de urus (1969). Este é um marco histórico do gênero narrativo no país, de indiscutível contestação, consolidado em inúmeros comentários e documentos, a despeito de posições contemporâneas totalmente mal informadas e disparatadas. A circunstância de ter ocorrido numa cidade interiorana e o teor experimental das duas coletâneas podem atenuar a pequena visibilidade, embora tenham merecido franco reconhecimento crítico, na época. O resgate incisivo, veemente e um tanto ressentido do trabalho do grupo, deve-se a dois recentes títulos de Márcio Almeida, - o livro A minificção do Brasil, em defesa dos frascos & dos comprimidos (2010) e o opúsculo Pioneiros do Miniconto no Brasil – resgate histórico-literário (2012), este último com reprodução de artigos, fotos, documentos e capas.
            Wilson Martins refere-se ao livro A mal amada, de Elias José, em artigo no Suplemento literário de O Estado de São Paulo (18 de março de 1971), nestes termos: “Cedendo a uma terminologia que, se não é literária, é, pelo menos, sintomática, o autor distingue as suas produções em minicontos, contos e maxicontos. (...) É pela extensão, como se vê, que ele delimita espécies literárias, critério, no fundo, tão bom quanto qualquer outro.” Márcio Almeida apresenta outras manifestações de autores consignando a relação entre Elias José e o miniconto: dentre eles, Temístocles Linhares, em 22 diálogos sobre o conto brasileiro atual (1973), José J. Veiga (1971), Nelly Novais Coelho, em O ensino da literatura (1973, p. 138-140).
            Francisca Vilas Boas publicou depois O sabor do humano (1971) e Roteiro de sustos (1972), com repercussão positiva entre críticos. Euclides Marques Andrade, em artigo publicado no Jornal de letras, (1969), assinala: “O ritmo da prosa de Francisca Vilas Boas, as palavras que ela inventa e reinventa, a força de comunicação e a solidariedade que transmite, colocam-na entre os melhores escritores mineiros da atual geração jovem. Como consegue em apenas onze linhas trazer tanta emoção e sugerir tanta coisa!” José Afrânio Moreira Duarte a ela se refere como “possuidora de uma linguagem não apenas segura, firme, como também extraordinariamente bela”, no jornal Estado de Minas (1973). Laís Corrêa de Araújo, em em ofício dirigido à Imprensa Oficial de Minas Gerais (em 1970), editora pela qual os dois livros se publicaram, registra, a respeito de O sabor do humano: “Trata-se de uma coletânea de estórias curtas que se inserem no estilo que se convencionou chamar de realismo mágico, onde o mistério do onírico serve à captação de largas e profundas inquietações do espírito humano. Segundo a escola de um Murilo Rubião ou abeirando-se do novo barroco dos modernos ficcionistas latinoamericanos, Francisca Vilas Boas consegue dar aos seus contos também uma significação telúrica e uma contextura poética. As suas narrativas, breves de modo geral, se assinalam pela penetrante exploração da vida interior, em expressão que é comunicativa. É um livro com unidade de linguagem e de temas, com bom ritmo narrativo, harmonicamente estruturado, que merece parecer favorável para publicação.” Assis Brasil, Stela Leonardos, Menotti Del Pichia e Duílio Gomes também reconheceram méritos nos livros da jovem autora.


            Decorridos mais de quarenta anos, Francisca Vilas Boas retorna com Das ilusões e da morte, conjunto de 21 contos, corroborando as qualidades referidas. Também nestas ficções estão presentes o efeito de suspensão da realidade, os nexos entre o cotidiano e o fantástico, acrescidos, agora, de uma nesga de terror, a elaboração da linguagem, as notas sobre os animais. O universo tenso de personagens imersos em obsessões ou que não se enquadram nas convenções sociais, os mundos paralelos que se frustram na inútil busca de equilíbrio, o distanciamento da norma a que se jogam os indivíduos na tentativa de realizar sua trajetória, a importância dos sonhos, vistos como instâncias ligadas às tentativas de risco e libertação, como contraponto à imobilidade e ao niilismo, a crítica sutil às proibições indiscriminadas, compõem o perfil de uma escrita visceralmente conectada aos anseios humanos. Sem querer apresentar soluções, a autora parece contentar-se em sugerir hesitação e gerenciar a dúvida.

                                                   (Foto: Casa de Cultura de Guaxupé)

            “dentro de um barco à vela, em mar de sobras e sonhos, irei por outras viagens, esse mar sonhado me aguarda sob céus azuis, com Marcelo e seu oboé a me escoltar. atravessarei as pontes. sempre. deixando rastros suaves com meus pés recém-colocados no espaço... feito asas” (p.29). “Na tarde, um rol de sonhos”, conto de que se extraiu a citação, é um dos textos em que a radicalidade linguística mais se observa.
Tangidos por epígrafes, os relatos correspondem por vezes a um desvio da rotina, propiciado por surpresa ou imprevisto, ou a improváveis devaneios capazes de operar uma flutuação não controlada da experiência, quebrada por uma ou outra referência fatual. Tem-se por vezes a impressão de se estar à deriva, ou à beira de um labirinto ou precipício, no interior do qual seria lançada uma ou outra senha para se retomar o controle da meada. Os arquétipos imemoriais (a margem, o portal, o caminho, a ponte, a pedra, a ave) desdobram-se em aparentes atalhos que simultaneamente oferecem e escondem súbitas iluminações. A simplicidade, a solidariedade, a sábia aceitação dos mistérios, a possibilidade de harmonia entre os opostos são algumas paragens dessa travessia, através das ilusões e da morte.

ALMEIDA, Márcio. A minificção do Brasil, em defesa dos frascos & dos comprimidos. Oliveira, MG: Edição do autor, 2010.


VILAS BOAS, Francisca. Das ilusões e da morte. São Paulo: Scortecci, 2014.

sexta-feira, 18 de julho de 2014

João Ubaldo Ribeiro (1941-2014)

      O escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, um dos maiores romancistas do país, morreu esta madrugada no Rio de Janeiro. Dia triste para a nossa literatura e todos aqueles que o admiram como contador de histórias e cronista. Deixa como legado obras importantes, dentre elas, alguns verdadeiros clássicos da ficção contemporânea, como Sargento Getúlio (1971), Viva o povo brasileiro (1984), O sorriso do lagarto (1989), A casa dos Budas ditosos (1999), O albatroz azul (2009). Prêmio Camões em 2008, o maior em Língua Portuguesa, membro da Academia Brasileira de Letras desde 1994, foi alvo de homenagem aqui, como livro do mês em 2 de dezembro de 2009.


(Foto: revistabahia.com.br)

quinta-feira, 26 de junho de 2014

José Terra

Livro do mês

      A maioria dos poetas que conhecemos de longa data compõem um rol de autores que se enquadram em contextos sociais e culturais abrangentes, com seu arco de influência, atuação intensa ou discreta em determinado contexto.  Por mais isolada e solitária seja a atividade poética, sempre nos habituamos a pensar um poeta participando de um determinado movimento, publicação, ou grupo específico. Aqueles que conhecemos mais tarde acabam por pertencer a uma categoria obscura, por mais obstinada consideremos nossa busca investigativa – são os poetas raros, de meio expediente, de produção reduzida, à primeira vista. No Brasil, criada por Manuel Bandeira, vigora ainda a difusa designação de “poeta bissexto”, para rotular o autor de poucos poemas, algo assim como o poeta esporádico. 
      Não é esse o caso de José Terra, pseudônimo literário do português José Fernandes da Silva (1928 - 2014). Além de poeta, e editor de poesia, foi também professor universitário em França, ensaísta, historiador e tradutor (Camus, Mauriac, Georges Le Gentil, Giovanni Papini). Com o título de Une façon de dire adieu, traduziu a poesia de Ruy Belo, publicada com prefácio de Nuno Júdice, em 1996 (Éditions L'Escampette, Bordéus). Dele, a editora Modo de ler, do Porto, acaba de lançar a Obra poética, em bela edição, arejada e rigorosa. Além de compilar os livros do autor, apresenta um prefácio com exaustiva apresentação da obra, a produção inédita e dispersa, notas bibliográficas e uma “marginalia crítica resumida”.

 Trata-se, no meu caso, de uma grata descoberta, confirmada à medida em que fui lendo os poemas e tentando situar o autor. José Terra atuou decisivamente na década de 50, como co-fundador das lendárias revistas de poesia Árvore e Cassiopeia, tendo publicado quatro livros - Canto da ave prisioneira (1949), Para o poema da criação (1953), Canto submerso (1956) e Espelho do invisível (1959). O primeiro livro foi recolhido pela censura salazarista, em razão do conteúdo libertário; o terceiro recebeu o “Prêmio Teixeira de Pascoaes”, em júri formado por Sophia de Mello Breyner Andresen, Augusto Casimiro, Ilídio Sardoeira, João José Cochofel e Jorge de Sena; o último integrou a conceituada coleção “Círculo de Poesia”, (Livraria Morais Editora, Lisboa). Menciona-se ainda a participação de grandes artistas plásticos na confecção de capas: desenho de José Viana Dionísio no primeiro livro, colagem de Fernando Azevedo no terceiro. Seria de se esperar, do sofisticado acabamento da impressão, que se reproduzissem também as referidas capas. A perseguição política estaria na origem do autoexílio do poeta em França. Na editoria de a Árvore, contou com a parceria ilustre de António Luís Moita, António Ramos Rosa, Luís Amaro e Raul de Carvalho.


O tom sóbrio e solene, o ritmo grave, os motivos elevados, a atração pelos mitos marítimos, algum vocabulário de acentuada herança helênica são traços que contribuem para caracterizar a concepção de um poeta culto e refinado, garimpador de efeitos clássicos, segundo a concepção, atribuída a Valéry, de que o verdadeiro poeta é aquele que bebe nas fontes da linguagem.

“Áspera poesia/ quase sem palavras. (...) Que eu estou aqui/ entre o mar e a terra/ à espera do vento” (p.138).

A disciplina, o equilíbrio na construção do verso livre, os vestígios de uma estética de perfil romântico, na trilha do vate iluminado, confundem-se a um léxico de cariz simbolista, numa atmosfera tosca, de pedra necessitada de polimento: “Sereno resplendor por onde descem/ as minhas mãos raiadas de infinito./ Indivisível som onde intangível/ a escritura límpida de um nome// só os deuses conhecem” (p.163) O repertório léxico e as perífrases expressivas assinalam uma singular ordenação de códigos da retórica tradicional, numa gradação em busca de uma alargada ideia de modernidade: “gládio”, “sentinela”, “luar”, “cinza”, “crisântemo”, “noite irmã dos suplícios”, “pedra”, “rapariga de maio”, “cintura de ânfora”, “rio de sombra e silêncio”. A confluência de matrizes clássicas, românticas e simbolistas, num enquadramento formal de base renascentista – o soneto – revela uma rigorosa bagagem cultural: “Tropeço a cada instante em deuses. Enxames deles sugam-me a cabeça,/ por vezes comprimem-se num rosto/ e o seu perfil de gavião recorta-se// na fronteira, na fímbria do real” (p.168).


José Manuel da Costa Esteves, no prefácio, assinala, em relação ao último livro, Espelho do invisível: “O poeta lírico afronta os deuses, as forças hostis, os monstros que se opõem à busca humana de perfeição, de harmonia, de desenvolvimento de todas as capacidades criadoras” (p.16). Numa poética intensamente marcada pelo motivo do canto, ainda que de forma rarefeita, os seus sinais reverberam em muitas páginas: “Apoia, apoia a tua mão,/ deusa da noite, sobre o meu cansaço. / Morro de pé, farto de lidar/ com homens, deuses, o eterno e o efêmero” (p.180).


          TERRA, José. Obra poética. Porto: Modo de ler, 2014.

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Eduardo Pitta

Livro do mês: Um rapaz a arder

      Retirado de um poema de seu Archote glaciar, (quinta coletânea poética, de 1988), Um rapaz a arder nomeia um livro de memórias do escritor moçambicano Eduardo Pitta, recortando em dez capítulos o período incluso entre 1975 e 2001. Vale dizer: desde a saída de Lourenço Marques, aturdida e em chamas com as lutas da independência, para fixar-se em Lisboa, chacoalhada ainda pelos ares trepidantes da Revolução dos cravos.
      Inicia-se o livro com o relato das marchas e contratempos da luta anticolonial em África, termina com a destruição das torres gêmeas em Nova Iorque, o terror nos dois extremos. Imerso na rota dos confrontos, surge Eduardo Pitta como escritor em Moçambique, em 1974, um ano antes de abandonar o país: “Foi na ressaca dessa turbulência que saiu o meu primeiro livro, Sílaba a sílaba” (p.26). O primeiro capítulo, “Próspero & Caliban”, apresenta em síntese o movimento que redundou na independência do país africano. “Ao contrário de Angola, onde três partidos disputavam pelas armas o poder, a independência de Moçambique deu-se sem sobressalto de maior” (p.16). A ser verdadeira esta assertiva, é também exato que, após a independência, o caldo transborda e os confrontos violentos, a barbárie e a matança indiscriminada de opositores recrudescem.  Não confundir “sem sobressalto de maior” com manifestação pacífica e ordeira, alguns milhares já estavam mortos em junho de 1975, muitos em execuções sumárias.  Em 1990, dois anos antes do acordo de paz entre duas facções (a Frelimo e a Renamo), um milhão de pessoas foram dadas como mortas nos conflitos.
      O alcance cosmopolita e a veemência na expressão da identidade gay, evidentes desde a primeira nota de pé de página, revelam um registro histórico que não se contenta com a pintura confortável do quintal doméstico. Ao contrário, quem se debruça no tempo carrega o estigma de ter duas pátrias, ressentido pela proscrição de uma delas; traz ecos das mutilações e extermínios, perpetrados em nome de dominação e poder. Quando remexe no passado, funde a historia pessoal à do país em cujo sol nasceu e se formou, estabelece vínculos profundos entre a luta libertária de um povo à experiência pessoal, que também se pretende da mesma natureza, de emancipação do corpo. Como falar de nação, pátria, quando as circunstâncias inóspitas afugentam e amedrontam? As questões de gênero, um dos eixos fundamentais, tratadas mais sob a clave de Gore Vidal do que de Gide, priorizam aspectos da evolução e formas consuetudinárias da postura gay em detrimento de sua justificação e urgência. A irreverência, a ironia e a elegância pontuam o estilo ágil, direto, incisivo, por vezes insolente e esnobe.


      A princípio exilado em Portugal, Eduardo Pitta envolve-se por inteiro na vida cultural de Lisboa, vista no correr dos anos como cidade adotada para sempre: passa a colaborar na revista Colóquio-letras, mantém uma produtiva atuação na Ler, assina crítica literária em jornais, aos poucos vai moldando seu espaço no cenário da cultura portuguesa. “Oriundo de Moçambique, homossexual assumido, com amigos à esquerda e à direita – três óbices sérios nos anos 70 portugueses -, eu era uma avis rara (p.64) (p.64). A sina de "parvenu", atribuída por António Guerrreiro, decorre do perfil de provinciano deslumbrado, recém chegado de África, e da visão acrítica da realidade portuguesa, num primeiro instante mergulhada com euforia na Revolução dos Cravos, até se dar conta da insegurança de país pós-imperialista. Enquanto publica seus livros (poesia, ficção, crítica e diários), faz e consolida amizades, em especial na área jornalística e literária, António Osório, Fernando Assis Pacheco, Francisco José Viegas, Fernando Pinto do Amaral, João Miguel F. Jorge, Joaquim M. Magalhães, entre outros. Sobretudo, convive com grandes nomes da literatura e das artes plásticas dos últimos trinta anos. O testemunho acerca dos bastidores da cena literária revela um sagaz observador das relações sociais e do perfil humano de alguns escritores que se tornaram nomes incontornáveis da produção contemporânea. Algumas indiscrições vêm a calhar, a maioria talvez conhecida, outras nem tanto, exemplares do registro frívolo de crônica social que perpassa o grosso das memórias. O fenômeno de Portugal a se reencontrar com as fronteiras europeias, jogado no processo de descolonização, é visto pela ótica de um estrangeiro que acompanha, de relance, o movimento de redemocratização do país. Poupa-nos, por seu turno, de repisar questões sociológicas a respeito das mutações históricas, observadas nas últimas quatro décadas.  
      Para além do enfoque político, outras pautas são abordadas, das artes plásticas às viagens internacionais (Grécia, Nova Iorque, Rio de Janeiro, Holanda, Madrid e Paris), das boates gays aos restaurantes da moda. A estadia de três meses no Brasil nos anos oitenta, com a inflação na estratosfera, a ditadura militar agonizante e a seleção de futebol encantando o mundo com um futebol vistoso mas de resultados pífios, rende oito páginas de registro direto, com direito a óperas no Municipal, visita ao escritor Lêdo Ivo e tiradas irônicas que buscam condensar o feitio descontraído do carioca: “O encanto do Rio é a mistura de Il giardino dei Finzi-Contini com Deus e o diabo na Terra do Sol. Dito de outro modo, o Rio é glossy e cafajeste em doses iguais” (p.102). Alguns intelectuais merecem maior atenção, seja pela origem moçambicana (Rui Knopfli, Eugênio Lisboa, Alberto de Lacerda, Guilherme de Melo), partilha de interesses ou o sortilégio gratuito da amizade, noutros casos. Nos capítulos finais, são feitas revelações em torno do que seria o perfil arredio, conservador e vaidoso de Al Berto. Os supostos vínculos entre vida e arte nem sempre abonam conclusões definitivas. Num percurso de documentário, panorâmico, em que a miopia e a lupa se alternam, os incidentes ligados à morte de poetas sucedem-se, de entremeio a informações banais sobre gatos domésticos e o sucesso de Saramago: “A consagração planetária chegaria com as traduções em língua inglesa e os juízos enfáticos de Harold Bloom, George Steiner e James Wood. Nenhum escritor português, vivo ou morto, foi alvo de uma projeção com tal magnitude. Nem mesmo Pessoa” (p.166). 
      Ao revelar a convivência com os amigos, as palavras saem úmidas de cumplicidade. As páginas sobre efemérides, produção de obras, eventos e prêmios, o cotidiano em torno do que se chama vida literária, temperamento e idiossincrasias de um e outro escritor, descontado o gosto pela autoexibição, dão azo a que seja delineado, ainda que de forma aligeirada, um mosaico rico e variado de um período de ouro da literatura portuguesa, compreendido entre 1970 a 2000. Desta forma, terá por certo inegável sobrevida, como fonte de pesquisa por muito tempo.
      O esforço de expandir o relato e os  comentários pode  ser  observado no  cuidado com  que  as  notas bibliográficas suplementam o texto principal, adicionando detalhes e complementando os dados. Fartamente enriquecido de fotos, o livro traz índice onomástico e destaca-se ainda pelo apuro e qualidade do acabamento gráfico.  

PITTA, Eduardo. Um rapaz a arder. Lisboa: Quetzal, 2013. 240 p.
   

domingo, 4 de maio de 2014

Notas de viagem: Portugal

      Para qualquer brasileiro, conhecer Portugal representa a possibilidade de se deparar com as imemoriais raízes do passado de seu país. Apesar das idiossincrasias que marcam as duas culturas, a especificidade da contingência, não há como ignorar as amarras profundas que perpassam o percurso dos dois países. A consciência desse laço para muitos ultrapassa o mero legado comum e se converte em herança sanguínea e visceral (os Coelho, Castro, Nunes, Magalhães, Albuquerque, Silva, Pereira, Cabral, Costa, Nogueira, Passos, Barreto, Barreira, entre tantos outros). São por demais fundas as ressonâncias,  as marcas indeléveis de descendência e estirpe.

                         
                                    (Lisboa: Casa de Fernando Pessoa)

       Depois de dezesseis dias em Portugal, com a família, alinho alguns comentários apressados e soltos. Diferente da primeira vez em que visitei Portugal, há dezoito anos, desta vez encontrei o país plenamente integrado ao mercado comum europeu, com a habitual pujança turística, maiores sinais de cosmopolitismo e - o que nem sempre é positivo - exacerbada atmosfera capitalista. Enfim, as demandas andam estreitamente ligadas e as coisas têm sempre vários aspectos, para a exata compreensão.

                       
                                        Lisboa: Mosteiro dos Jerônimos.

      Portugal convive com o turismo, uma de suas maiores fontes de renda, de forma profissional e responsável. Cobra pela visitação a monumentos e museus, como meio de subsidiar a manutenção dos lugares de culto.  Seus edifícios remontam a épocas remotas, é comum a gente se deparar com placas indicando uma data muito antiga, como o bar e restaurante Martinho da Arcada, frequentado por Fernando Pessoa nas primeiras décadas do século XX, na Praça do Comércio, em Lisboa (fundado em 1782, em pleno funcionamento). Certos monumentos são verdadeiros prodígios de arquitetura e concepção artística, reconhecidos mundialmente. Nem visitei todos - seriam necessários alguns meses - mas penso no Mosteiro dos Jerônimos, o Convento da Batalha, o Palácio da Pena no topo de uma montanha em Sintra, o Teatro d. Maria II, o Castelo de São Jorge, o Palácio da Bolsa no Porto, para enumerar os mais conhecidos. Além da opulência artística, transmitem a dignidade e a solenidade outorgadas pelo tempo.

                                   
                                      Lisboa: Corredor interno do Mosteiro dos Jerônimos

      Alguns castelos remontam a épocas mais antigas, indiciam traços do século 12. As imponentes estátuas de reis e príncipes equestres multiplicam-se nas praças, surpreendem e encantam. A noção de tempo delineia-se fortemente contaminada pelo peso do passado grandioso.

                            
                                         Sintra: Palácio da Pena

      Hospedamo-nos, em Lisboa, em hotel situado próximo à Praça Marquês de Pombal, cujo nome é pronunciado de peito estufado pelos portugueses. Trata-se de uma das mais famosas da cidade, com metrô subterrâneo de início do século dezenove e enorme rotatória (ou "rotunda", como eles dizem). Assistimos de perto (o caçula e eu) à monumental comemoração da conquista do campeonato português pelo clube do Benfica, (onde joga o nosso conhecido Luisão, ex jogador do Cruzeiro). Até a estátua do famigerado Marquês recebeu a camisola encarnada da equipe; calcula-se que mais de cinquenta mil adeptos (como eles nomeiam os torcedores) participaram da festa. Na manhã seguinte a praça estava limpa, lavada a estátua, como se nada houvesse acontecido, sem vestígio algum da multidão ali presente na noite anterior. Por mais que os portugueses reclamem das medidas de austeridade adotadas pelo governo, (exigidas pela "troika"), nada pode ser dito que lhes desmereça a competência e determinação demonstradas na gestão do patrimônio público. Percebe-se a atuação de pessoas que trabalham de forma séria e compromissada.

                              
                                              Sintra: Palácio da Pena

      Um dos aspectos mais evidentes no cotidiano luso constitui a sensação de segurança. Não apenas a paisagem exterior (física, arquitetônica) impressiona, o elemento humano conta e muito na percepção global. E aqui incluímos o conceito amplo de cultura, como conjunto de valores, atitudes, gestos, serviços, costumes e hábitos. Como um funcionário avisá-lo que sua bolsa está meio aberta, ou um desconhecido lhe devolver algum objeto que porventura caiu de seu bolso. Em síntese tosca, os principais traços da sociedade portuguesa podem ser alistados: a harmonia entre passado heroico e o presente, reconhecimento da importância da cultura, eficiência do sistema de transporte público, segurança pública, respeito à dignidade das pessoas, eficiência dos aparatos de estado (polícia, serviços), limpeza urbana.

                             
                                         Lisboa: Cais das Colunas

      PS.Termino aqui. Mas antes, não consigo reprimir uma breve comparação com o nosso país. No Brasil o que se vê é uma classe política ávida em manter seus privilégios e garantias (os 20 mil empregos de altos salários, o loteamento das empresas públicas), sequiosa em dilapidar o patrimônio coletivo.

                                     
                                       Lisboa: Praça do Pombal, comemoração do Benfica

     Retornar ao Brasil, retomar a rotina dos dias e trabalhos deveria ser, de imediato, o coroamento de um prazer demoradamente acalentado. Isto não acontece, infelizmente, dadas as grosseiras lacunas estruturais da administração pública, entregue a grupos desprovidos de competência e senso ético. Um exemplo. Após 9 horas e meia de voo, os passageiros são obrigados a aguardar por mais uma hora e meia para a realização de comezinho desembarque e vistoria de alfândega. Em Lisboa, os mesmos serviços não duram mais que quinze minutos. Só então nos damos conta de que, enfim, chegamos a um país onde impera a incompetência e ineficiência.