Total de visualizações de página

Pesquisar este blog

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Adolfo Casais Monteiro

      Poeta e ensaísta português,  Adolfo Casais Monteiro (1908 -1972) participou ativamente do grupo literário Presença (ao lado de José Régio e João Gaspar Simões, na direção da revista de mesmo nome). Como poeta, publicou Poemas do tempo incerto (1934), Canto da nossa agonia (1942), Noite aberta aos quatro ventos (1943), Voo sem pássaro dentro (1954). Leitor especial e contemporâneo de Fernando Pessoa, foi o destinatário da famosa carta (de janeiro de 1935), em que o autor de Mensagem comenta a gênese dos heterônimos, base para o desenvolvimento das pioneiras análises da poética do fingimento. É autor de um único romance, Adolescentes (1945). Seu maior relevo, sem dúvida, decorre merecidamente da produção como ensaísta e crítico literário: De pés fincados na terra (1940), Estudos sobre a poesia de Fernando Pessoa (1958), Clareza e mistério da crítica (1961), Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias (1984).


      Diante das dificuldades que lhe são importas pelo regime salazarista, em 1954 aproveita o convite para participar de um Congresso em São Paulo para se fixar definitivamente no Brasil, onde lhe foi possível desenvolver uma atuação marcante no ensino superior, especialmente em Araraquara, como regente da disciplina Teoria da Literatura. Em nosso país desenvolveu notável contribuição à consolidação de um repertório crítico, atuando na grande imprensa e nos meandros das relações culturais luso-brasileiras. Ofereceu curso de férias na USP, na década de 70, de considerável alcance e recepção .

       No primeiro capítulo de Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias, intitulado  "A tradição platônica da estética ocidental e o conhecimento da Literatura", Casais Monteiro discute a origem da Teoria da Literatura como ciência. Após expressar sua estranheza diante da "ausência de um nexo evidente entre a maneira como na estética se tratava de problemas gerais referentes a todas as formas de criação estética, e o estudo dos problemas da literatura", afirma que o grande desafio da Literatura sempre foi conquistar sua independência diante de outros campos de saber. Desde o início ela se debate com a tarefa de sua indefinição. Já no prefácio adverte sobre esse problema: "Em nenhum setor das ciências humanas (...) o avanço do conhecimento se manifestou com tal luxo de desorientação" (Monteiro, 1984, 8). As diversas conexões a que a Literatura foi submetida ao longo dos séculos radicam na aproximação primeira com a Filosofia, efetuada pelos gregos (Aristóteles, Platão). Deriva, daí, uma conformação subalterna a outras áreas de saber, como a retórica, a estética, a poética. Posteriormente, sua sina seria confundir-se com a sociologia, a antropologia, a história e a psicologia. Não admira que ainda hoje a Literatura se apresente como saber flexível, de natureza um tanto esgarçada, na vizinhança com outras áreas de saber, como a Semiótica, a Análise do Discurso, a Linguística, os Estudos culturais.



     Os filósofos gregos desdenharam da Literatura uma vez que se preocupavam com a teorização em torno do Belo. A poesia era compreendida como uma das formas sob as quais se expressava o Belo. Aristóteles dedica-lhe um tratado, no qual ela é vista como física, e não como metafísica, argumenta Casais Monteiro, o que justifica o seu tratamento como retórica, conjunto de normas que definiam como devia se processar sua prática. A adesão da Literatura aos parâmetros da moral, filosofia ou religião acaba determinando um processo de controle de sua elaboração, de sua prática.  No século XVIII, no bojo da formulação do sistema filosófico de Hegel, a Literatura se vê absorvida pela Estética. A Literatura mais uma vez é vista como atividade secundária, uma forma de se expressar o Belo. Essa  intermitente postura da Teoria Literária a reboque dos grandes sistemas determina o intuito de se construírem formas de controle desse poderoso instrumental. A Teoria da Literatura foi-se construindo aos fragmentos, na medida da conveniência e dos interesses específicos dos vários sistemas filosóficos. 

      "Ao longo dos séculos, de Platão até ao iluminismo, e ainda depois, como veremos, as ideias sobre literatura foram sucessivamente deduzidas dos mais diversos campos do conhecimento humano. E pode dizer-se que só depois de esgotadas estas 'experiências' se tornou possível encarar a própria literatura para dirigir, a ela, a pergunta: Quem és tu?" (Monteiro, 1984, 17)

      Os confrontos e as aproximações da Literatura a outras manifestações culturais fazem parte de sua origem e fundamentam sua tradição.

MONTEIRO, Adolfo Casais. Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Benito Barreto

Livro do mês:  Despojos, a festa da morte na corte

Este livro arremata a grandiosa tetralogia Saga do caminho novo, de Benito Barreto, referida abaixo. A aproximação e solidariedade do Alferes com o seu carrasco, o guarda-mor Capitania, é algo inusitado, a amizade entre os dois é elaborada em forma de paródia refinada, a ponto de suscitar analogia com o tratamento dispensado por Saramago à amizade entre Jesus e Judas, no Evangelho segundo Jesus Cristo. Tiradentes, preocupado com o sofrimento de Capitania, o carrasco encarregado de enforcá-lo, no episódio da raiz de dente inflamada, cura-o, moldando uma peça, para que pudesse mastigar e sorrir.

Também à Ilha das Cobras, não lhe trouxe a primavera flores, as quais, de resto, soem mui raro brotar das pedras, mas o mameluco Capitania voltou a rir, o que é, talvez, mais raro e difícil que minar a água, a flor nascer ou o verde, dos rochedos.
- Deus pague a Vosmicê, galé. Deus dê a Vosmicê, em anos de vida, o que me vai dar em dentes! – exclamava, vendo Tiradentes ajustar e polir o molde de sua arcada, para a dentadura que está a lhe fazer (Barreto, 2012, p.470).

Horas antes do martírio, Tiradentes pensa no sonho de uma pátria livre, árdua construção coletiva, através do trabalho dos mazombos, da luta dos rebeldes e do patrimônio dos artistas (escultura, artes plásticas, música, poesia). Em seu delírio, revive a dor de conviver com a opressão, vendo as riquezas da terra serem assaltadas, carreadas às pressas para os navios europeus. Exprime sua interpretação a respeito da extraordinária arte popular: produto de revolta e sofrimento –“... o Athayde só faltou ele pintar de vermelho as lágrimas, acho até que algumas delas fez com sangue! e, assim, aqueles nossos grandes músicos mestiços e os negros, no que compunham e tocavam, mais gemiam que cantavam” (Barreto, 2012, p.533).
Libertas quae será tamen, o verso extraído por Alvarenga Peixoto da lírica de Virgílio, é muito mais que a máxima do movimento, mas um projeto natural e universal. O anseio de liberdade é visto como inerente aos fenômenos da natureza, à privação da liberdade seguirá a privação da vida, este é um motivo recorrente ao longo dos capítulos, com o alcance de um refrão obsessivo e obstinado: “mesmo as potencialidades naturais e entre essas, muito principalmente, a água e os ventos tendem para o movimento e a liberdade dos quais, de resto, uma e outro necessitam e dependem” (Barreto, 2009, p.36). Modulado com as notas da indignação e da perplexidade, o motivo retorna: “Mesmo os rios e ribeirões de Minas, que em desde que gente, inda menino, vira correr e atravessava a cavalo ou pelos quais andava de canoa e os vadeava, arregaçando as calças, nos vaus de passagem, ao pé dos bambuais... se ousassem os Céus detê-los, o que não fariam! Ah, nem quer pensar!” (Barreto, 2009, p.117).


Ao narrador resta captar as contradições internas da sociedade, as oscilações de ordens e comandos, as hesitações e o jogo variado de interesses, o registro de um contexto envolto em inequívoca teia de ambiguidade. Dentre os inconfidentes, seres feitos de barro e esperança, há os indecisos, os pusilânimes, os temerosos (Gonzaga, Cláudio Manoel), os que apoiam pela metade (o tenente coronel Paula Freire), os que aderem intelectualmente (Gonzaga, Cláudio, Alvarenga Peixoto, Ignácio Alvarenga), o que trai à causa para obter benefício (Silvério dos Reis), o insurgente destemido (o Alferes). À ganância, opressão e rigores da Corte, correspondem a rebeldia e conspiração dos mazombos. O doutor Cláudio, sexagenário de saúde frágil, jurista de renome e fazendeiro abastado, recebe, depois de Tiradentes, o olhar mais atento do narrador, que registra sua dupla e arbitrária condenação. A primeira ao ser assaltado em casa de madrugada, entre violência e brutalidade, ficando à mercê de um punhal, o pescoço sob as esporas de um militar, que lhe rouba as barras de ouro e lhe extermina a família, dias antes da prisão no vão de uma escada, até o fim trágico.  
Alguns incidentes são significativos no que diz respeito à ambiguidade e contradições sociais: lealdade inicial à coroa portuguesa, apoio à causa da Inconfidência (Irmão do Caraça, Gonzaga, Cláudio Manoel). A alternância entre o mito e a realidade aproxima alguns personagens (Gonzaga/Dirceu, amante de Marília, Gonzaga/Critilo, autor das Cartas Chilenas; Cláudio/ Doroteu, nas Cartas Chilenas; Maria Dorotéia de Seixas Brandão/ Marília, a amante fictícia de Dirceu, em Marília de Dirceu). Por circunstâncias profissionais, o jovem cientista Álvares Maciel torna-se hóspede e preceptor da esposa e dos filhos do Visconde de Barbacena, sem deixar de ser simpatizante da causa inconfidente. O conflito entre voto de castidade e sensualidade é um traço que identifica o Padre Rolim e o Padre Inácio. A personagem Perpétua, uma das amadas de Tiradentes, morre ao se lançar de um penhasco, em dupla fuga: à caçada do Vice-Rei, por ela seduzido;  ao Padre Inácio, que aumentava o cerco a seu redor. Esta relação de três ângulos, em que a mulher desempenha o papel de mediadora, admite o seguinte esquema:
                          
                           ---------     Vice-Rei (conquista, dominação)
Perpétua -------- Tiradentes (amor, companheirismo)
                           ---------      Padre Inácio (desejo, traição ao herói)

A ambiguidade de gênero envolve dois personagens: Izidora e João Costa. Izidora, a filha de Montanha, chefe de bando, é por ele dada de presente a Tiradentes como Isidro, um rapaz ajudante; em noite de lua, vendo-a dormir, Tiradentes descobre tratar-se de uma moça de belos seios. João Costa, chefe de tropeiros revoltados, em busca de informações sobre o Padre Rolim, traveste-se de mulher, para adentrar no convento feminino de Macaúbas, onde o religioso inconfidente, antes de fugir, internara sua companheira, Rita Quitéria, filha de sua irmã de criação, Chica da Silva. A sensualidade difusa de Bárbara Heliodora, bela e enigmática fazendeira que seduz a todos os homens da época, do Visconde de Barbacena ao esbirro sargento Parada, favorece o papel de mediação entre os dois modelos ideológicos.


Ao se aprofundar a descrever o sofrimento do Alferes na Ilha das Cobras, em prisão que mais se assemelha a uma cova, pelo ar rarefeito e mal cheiroso, o último volume, Despojos: a festa da morte na corte em vários passos compara Tiradentes a Cristo: “Uma sepultura singular, em que o condenado, conquanto já, de fato, enterrado, ainda se move e respira; ainda pode imaginar, lá fora, a vida e o mundo, mas já não participa daquela nem faz mais parte deste!” (Barreto, 2012, p.477). Identificado a elementos naturais, como o oceano, o preso exibe uma gargalheira no pescoço e grilhões nos pés: “Pesam e esfolam mais, a cada dia, os ferros da grilheta. As correntes doem sempre mais e a cada dia é mais difícil caminhar com elas, mesmo e apenas levantar-se e ficar de pé ou dar um passo” (Barreto, 2009, p.116). Esgotadas as possibilidades concretas de sucesso efetivo, a Conjuração perde sua força: os envolvidos são presos, o processo de condenação é instalado. Uma vez que Tiradentes advoga para si toda a culpa, os outros inconfidentes recebem pena menor – o degredo para a África. Tiradentes é o único condenado à morte. Paradoxalmente, ao proceder ao seu martírio, a Coroa portuguesa extermina um inimigo, mas cria um herói. Após sua morte, com a exposição das partes esquartejadas do seu corpo nos lugares onde em vida atuara contra a dominação lusa, fica estabelecido o seu retorno e permanência, doravante como despojo físico, material, que se desintegra e degrada naturalmente, semente de sua fixação perene, como palavra e exemplo. A história de um homem ali acabava. As raízes do mito estavam lançadas. Desta ambivalência entre realidade e mito nutre-se de forma inventiva a ficção de Benito Barreto.


Referências bibliográficas

BARRETO, Benito. Os idos de março. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2009.
           ______. Bardos e viúvas. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
          ______. Toque de silêncio em Vila Rica. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
            ______. Despojos: a festa da morte na corte. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2012.

      (Este texto, com pequenas alterações, é parte do ensaio "Ficção e retórica", publicado no livro de Rachel Barreto, Benito Barreto - 50 anos de literatura. A foto é alusiva ao lançamento recente deste livro).