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segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Benito Barreto: 50 anos de literatura

      Registro o evento que ocorrerá amanhã à noite, na sede da Academia Mineira de Letras, em homenagem ao autor da Saga do caminho novo. Nascido em 1929, em Guanhães, Minas Gerais, o escritor Benito Barreto, autor de uma dezena de livros, entre a ficção e a memória, comemora o jubileu de ouro de sua obra literária, com o lançamento de um livro de Rachel Barreto - Benito Barreto: 50 anos de literatura, e o relançamento de sua estreia na ficção, Plataforma vazia.




      Escritor inconformado com as mazelas sociais, seus romances refletem um constante esforço de apreensão crítica da realidade, com notável domínio dos recursos narrativos e arejado recorte da condição humana. Com um pé na tradição romântico-naturalista, sua estreia ficcional em 1962 revela-se como efetiva plataforma embrionária, de onde depois iam sair os homens e mulheres dos títulos subsequentes, Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975). Conhecida como tetralogia dos Guaianãs, esses romances divulgaram o nome do autor para além das fronteiras mineiras e nacionais. A terceira edição, em dois volumes, saiu com o selo da editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1986; dois volumes foram publicados na União Soviética, em 1980, com tiragem de 100 mil exemplares. Vieram em seguida Vagagem (1978), apresentado como um livro de "viagens e memórias sem importância" e A última barricada (1993), uma ficção folhetinesca.

      Nos últimos anos, coroando uma obra consistente, dedicou-se Benito Barreto à produção de uma definitiva tetralogia, a monumental Saga do caminho novo, quatro romances sobre a Inconfidência Mineira, Os idos de maio (2009), Bardos & viúvas (2010), Toque de silêncio em Vila Rica (2011) e Despojos: a festa da morte na corte (2012). Recriação grandiosa dos fatos históricos ocorridos no final do século XVIII (1789) nos caminhos e trilhas da estrada real, à época do Brasil colônia, consegue retirar a poeira dos arquivos e dar vida a Tiradentes, Padre Rolim, Cláudio Manoel da Costa, Bárbara Heliodora, Alvarenga Peixoto, o Visconde de Barbacena, o Montanha, Álvares Maciel, o Irmão Lourenço, Thomaz  Gonzaga, Marília, Padre Inácio e tantas outras figuras inesquecíveis. Sobretudo, parodiando o que afirma o poeta Cláudio Manoel, no primeiro volume, o autor, nesses livros, logra "deixar Minas entrar e encher com o cheiro dos seus matos e suas terras, e salgar com o suor de sua gente, os espaços de sonho e vida".

sábado, 16 de novembro de 2013

Mensalão: o começo do fim

      Ontem, 12 dos 25 réus do Mensalão tiveram a prisão imediata decretada pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e relator do processo, Joaquim Barbosa. Movimento inusitado na Polícia Federal de Belo Horizonte. Maior escândalo de corrupção na história do país nos dias que correm, o caso envolve operações e desvios de dinheiro público para a compra de apoio parlamentar ao primeiro Governo Lula. As penas começam a ser cumpridas.


      Em abril de 2006, o procurador geral da República, Antônio Fernando de Souza, apresentou denúncia ao STF contra 40 acusados, envolvidos no esquema, que já circulava em notícias da imprensa. O procurador referia-se claramente a uma quadrilha que dilapidava os cofres públicos. Ontem, sete anos após a denúncia, os principais condenados foram presos. Graças à imprensa e ao redobrado esforço do relator, o processo encaminha-se para seu desfecho, não sem antes enfrentar tentativas de postergação dentro e fora do STF. Em Belo Horizonte, onde se concentram os condenados ligados ao empresário Marcos Valério, conhecido como operador do esquema, e ao grupo financeiro que deu suporte às transações, a movimentação na sede da Polícia Federal foi grande: sete sentenciados se entregaram. Hoje à tarde um jato da Polícia Federal, trazendo de São Paulo dois condenados (José Dirceu, ex-Chefe da Casa Civil do governo Lula, e José Genoino, ex-presidente do PT) aterrou no aeroporto da Pampulha, recolheu os sete de Minas e rumou para Brasília.  Na capital, passarão pelo Instituto Médico Legal, antes de serem conduzidos para a Penitenciária da Papuda (regime fechado) ou o Presídio Feminino. O julgamento continua no próximo ano, discutindo o crime de quadrilha e outros embargos. Dos 12 condenados com mandados de prisão imediata, um deles, Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, apenado em regime fechado, fugiu para a Itália: possui dupla cidadania.
      A prisão dos condenados no dia da República é emblemática. A sociedade reconhece o empenho do presidente do STF e espera que as penas sejam cumpridas com rigor. Os jornais mineiros registram a reação do professor Valerí Dornas, que, de moto, em frente à sede da PF, parabenizou a Justiça e a polícia, num megafone: "Eu achava que ia morrer sem ver político indo para a cadeia". Mas precisa ficar claro: são políticos presos, não presos políticos. Aproveitaram-se do poder para roubar dinheiro público, são bandidos, corruptos de  colarinho branco.  Outros, igualmente envolvidos, precisam  ser presos.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mário Garcia de Paiva

Livro do mês:

      A literatura distingue-se de outras artes, por sua própria natureza; lida com palavras (patrimônio coletivo), mas lida também com a vivência humana: expressa emoção, descreve comportamentos e ações. Ao representar a condição humana, dilata sua importância excepcionalmente. O objetivo de registrar a aventura humana no planeta, em determinado contexto, bastaria para torná-la uma atividade de inestimável lastro histórico.
      Alguns escritores ultrapassam a média de seus pares, quando avaliados sob uma lupa distanciada. Mário Garcia de Paiva (1920) é um deles. Surgido na década de 60, despertou o interesse da crítica ao conquistar em 1970 o grande prêmio em concurso nacional de contos do Paraná. O conto "Parábola", um dos premiados, tornou-se cult, pela refinada elaboração de um evento tangido para se repetir indefinidamente . Antes disso, no entanto, já se revelara um ficcionista de sofisticados recursos, em romances de sondagem psicológica, como  Um minuto na adolescência (1947), Luana (1962) Ontem (1966), Esse menino, Francisco (publicado em 1971, apesar de pronto desde 1965); reeditado mais tarde duas vezes.  Publicou depois três livros de contos marcantes: Festa (1970), Dois cavalos num fuscazul  (1976), Os agricultores arrancam paralelepípedos; e um livro instigante, meio "science-fiction" e atmosfera gótica, Os planelúpedes (1975), com personagens híbridos, numa estranha dimensão, metade animais, metade seres humanos, exauridos e tensos em sua atribulada existência.


     Os últimos livros assinalam uma radical evolução, na obra de Garcia de Paiva, atravessada agora por uma concepção arejada e crítica de literatura. Destaco  em especial o título Dois cavalos num fuscazul. "Pantomima" recria um ambiente especular de violência, desta vez com participação do enunciador. O sentido social, para o qual se abre sua ficção, se não é novidade, alia-se a uma vigorosa pesquisa formal, expressiva de um rumo novo, um compromisso responsável que passa a incorporar a denúncia.  Reinventa a proposta, atribuía a Maiakóvski, de que só existe arte revolucionária quando a forma é revolucionária. A linguagem deixa de ser o veículo, o meio de fixar um quadro, para se tornar um suporte significante de ousado projeto ficcional, ajustado para captar a errância, a desumanização e o desmoronamento de valores universais. Através de inovações linguísticas que provocam estranhamento, pelo que representam de ruptura em relação ao código tradicional, as cenas descritas (ou expostas, se damos ênfase aos expedientes cinematográficos) denunciam a dolorosa condição em que os humanos se viram lançados. Algumas palavras mostram-se desvirtuadas em sua grafia, mutiladas e fragmentadas, carregadas de sentido:


"Iam caminhando e conversaram entre si no silêncio, de máscara a máscara. Tinham alguma coisa de cavalos-marinhos.
      (...)
      Passaram por um omem caído na calçada.
      "É o quinto em quinze minutos".
      "Falou alguma coisa, você ouviu ?"
      "Ouvi, lonje e muito débil. Ele pede também, como os outros. Vou socorrer este"
      Aproximou-se do omem caído e atarraxou na máscara dele um tubo do seu depósito de oxijênio: logo se reanimou, moendo os braços". ("Gaivotas")

 "Dois cavalos atravessaram a praça e entraram um fuscazul.
     (...)
      O cavalo magro bateu no casco um cigarro por acender,
      Não gosto de ver cadáver-
      Esta é a oitava que eu revelo e ainda não me acostumei. Será que chamam as crianças de fotos porque são fotografadas ? -"  ("Dois cavalos num fuscazul")

      As cenas realistas, contundentes, vazadas numa forma insólita, flagram situações violentas, desumanas, chocantes, para as quais a linguagem convencional mostra-se precária e impotente.

PAIVA, Garcia de. dois cavalos num fuscazul. Ilustrações e capa de Weis. Belo Horizonte: Comunicação, 1976.