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sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Como me tornei presença assídua no Aeroclube

          Meu filho sempre sonhou em ser piloto de avião. Terminado o curso médio, fez vestibular para o curso de Ciências Aeronáuticas.  Após uns dois períodos de teoria geral, precisava cumprir as tais 40 horas iniciais de voo, para piloto privado. Munido de vários exames, coragem, documentos  (uma infinidade) e uma grana considerável, matriculou-se no curso de voo no Aeroclube. Muitas vezes acompanhei-o, dando azo a um espírito esportivo e aventureiro, de óculos escuros, para dar segurança, mostrar interesse e porque também desenvolvi gosto para as técnicas de piloto, curiosidade sobre aviões.


            Assim que ali chegávamos, observava profissionais uniformizados (calça preta, camisa branca, divisas no ombro e o brevet no peito) se movimentando no modesto galpão, situado próximo à cabeceira, batido pelo vento. Meu filho, cara de menino, fascinado por avião, despedia-se, encaminhava-se para o avião que aguardava os comandos para decolar. "É preciso ficar atento, ele diz: um olho no gato, outro no peixe. Quando se voa, é o que acontece. Você tem de atentar ao painel de comandos e no espaço de fora, o espaço prestes a ser trilhado pela aeronave". Continuamente na pista em frente levantam e descem pequenos aviões e helicópteros, esses fazendo um barulho infernal. Detenho-me, curioso, diante de um Cessna 152, que se aproxima em processo de aterrissagem: as rodas tocam o solo, reduzindo o ritmo e a velocidade, mas não era para pouso completo e sim um teste. Logo, em arremetida, o aparelho de aço intensifica o ritmo, em voo mais firme, ganhando novamente altitude. Determinado como um gavião, ajusta a pressão das asas, para voar mais alto e seguro. Lembro-me que, nas estâncias hidrominerais próximas de onde nasci, havia o que o pessoal denominava campo de aviação. Jamais imaginava que um dia teria um filho que iria se aventurar nessa área.



            De manhã, ao se dirigir à aeronave e dela se aproximar, sentiu que o vento forte fazia com que ela rebolasse a cauda. Amarrado em argola fixa no chão de cimento, o aparelho ensaiava uma fuga. Do outro lado da pista, a biruta dos ventos (em forma de cone ou gorro bojudo na abertura e estreito na ponta) agitava-se, aparentemente descontrolada. As aeronaves sempre decolam contra o vento, para que este tome a forma da asa, garantindo a ascensão. Parece que as aeronaves foram feitas para voar e desdenham o tempo em que ficam paradas, presas ao solo; sentem a sedução implacável da altura. Após a partida, o instrutor faz inúmeras operações no painel de instrumentos, uma luzinha acende debaixo da fuselagem. Após alinhar-se na pista, os motores roncam para garantir takeoff.

sábado, 12 de outubro de 2013

A Feira desastrada

      O Ministério da Cultura levou 70 escritores para a Feira Internacional do Livro, na Alemanha, numa demonstração de grandiosa presença cultural no velho mundo. Termina neste fim de semana. A escolha desses setenta notáveis gerou críticas e polêmicas, deixando visível a opção pelos quadros favoráveis ao status quo político.  Ou seja, quem não dança conforme a música ficou de fora. Isso ocorreu, com raras exceções de méritos indiscutíveis e que abrange uma dezena dos 70. Não me peçam a enumeração de nomes. Basta clicar na relação da comitiva e ficará evidente o mérito de uma dezena. Dos 70, conheço de ler a obra exatamente 30 autores. Além desses setenta, mais uns quarenta nomes, que se julgam merecedores de participar da homenagem literária ao Brasil, bateram às portas de agências e instituições para conseguir verbas e se mandaram para Frankfurt. Não sem antes sobrecarregar as redes sociais com textos autoelogiosos, promocionais e ridículos. Enfim, sic transit gloria mundi.



      Os dois mil escritores excluídos da lista da "comitiva oficial" espernearam. O maior escritor brasileiro vivo, (Paulo Coelho), no critério visibilidade mundial, apesar de convidado, escusou-se e criticou as panelinhas e igrejinhas do Ministério da Cultura. Segundo fontes futriqueiras e a Candinha, o autor de O Mago irritou-se por não ser o escolhido para discursar na cerimônia de abertura. Aí está o ipsilone. O discurso na festa de abertura, com toda a pompa e circunstância.  O autor escolhido, o mineiro Luiz Ruffato, fez um discurso realista e direto, criticando a desigualdade social, a violência contra os gays e em geral, a corrupção política, a miséria e todas as mazelas que o mundo informado está farto de saber a respeito do país. A alta cúpula do Ministério da Cultura desmoronou, afirmando não ser aquele o lugar para  "aula de sociologia". Preferiam loas e odes aos verdes mares e às maravilhas tropicais. Em geral os governos abominam a sociologia. No caso em questão, foge dos sociólogos como o diabo da cruz. Ruffato tem declarado que a reação ao seu discurso foi violenta, quase sofreu ataque físico. Compreensível, para quem mora no Brasil e conhece a temperatura e a veemência da (cada vez mais reduzida) militância do PT, partido do governo. Se o Planalto pretendia enganar a mídia, contando que os escritores se prestassem ao papel de moeda para referendar a sua política, se deu mal. Evento cultural é, sim, lugar para conscientizar as pessoas e mostrar o verdadeiro cotidiano do país.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Myriam Campello

   
Livro do mês: Jogo de damas

      A autora não é desconhecida, surgiu na década de 1970, numa geração destemida e obstinada, venceu certames importantes, como o Prêmio Fernando Chináglia, atribuído ao romance de estreia, Cerimônia da noite (1972). Nascida no Rio de Janeiro em 1940, firmou-se como ficcionista de talento, tendo publicado outros romances - Sortilegiu (1981)  São Sebastião blues (1983), Como esquecer (2003), este transformado em filme, - e um livro de contos, Sons e outros frutos (1988).


      Jogo de damas é um romance policial de maturidade, de refinado acabamento, no qual inexistem experiências desordenadas ou caóticas. A passagem do tempo é marcada por meio de uma data, afixada no início dos capítulos. Três núcleos narrativos, correspondentes ao comportamento de três mulheres, interseccionam-se. Num ritmo nervoso, o suspense é trabalhado a cada página, através de imagens duras e impactantes, capazes de arrepiar, criando uma atmosfera de contínua expectativa e terror. Detalhes ameaçadores povoam os relatos, tais como: "...o frio desabando como um machado" (p.19); "uma saraivada de gritos de Mercedes sacudiu os alicerces da casa" (p.103); "...as marretadas do tempo" (p.87);  "uma aranha venenosa" (p.89); "dormia como um martelo" (143). Após a filha de quatro anos ser estraçalhada por um pit-bull, a protagonista norteia seus dias pelo compasso da vingança. As imagens reforçam e ampliam a exasperação, de mistura a um mórbido desfile de mau agouro e presságios. Transtornada pela revolta, uma personagem envereda por trilhas inesperadas e insidiosas, a ponto de amortecer a consciência crítica. Em consonância com as sugestões do título, sem que se perceba, os riscos vão se ajuntando à trama, numa sequência extenuante de fracassos e supostas conquistas. A ambiguidade das ações e o abismo da armadilha revelam-se ao final de forma brusca e trágica. Duca, um agente policial, ex-alcoólatra e viciado em castanha, retoma as rédeas da operação, quando tudo prevê o contrário. A construção do suspense, neste caso, não resulta de peripécias eletrizantes, mas de lances sóbrios e milimetricamente avaliados. 



      Os lances sucedem-se com tal intensidade no interior da protagonista que o leitor aposta em sua capacidade de, no momento certo, aplicar a jogada de mestre, o xeque-mate. Quem será ludibriado? De onde virá a tacada decisiva? Mais nada deve ser dito, sob pena de interferir no elemento surpresa. A autora inscreve-se, em grande estilo, na tradição do melhor romance policial brasileiro, que se enriquece com a sutileza de uma mirada feminina. Papel de qualidade, bem produzida e de bom gosto, a edição.

CAMPELLO, Myriam. O jogo de damas. Rio de Janeiro: Língua geral, 2010.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ivana Arruda Leite

       Participei do Sempre um papo com a escritora paulista Ivana Arruda Leite, no último dia 30, no teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, aqui em Belo Horizonte. Isso raramente acontece. Não o evento, agora no âmbito do projeto Nova literatura brasileira. Eu sair de casa. Bastante comunicativa e simpática, a autora explicou muitas situações ligadas à construção do romance Alameda Santos (Iluminuras, 2009). O local é acolhedor, com isolamento acústico, excelente iluminação, favorece o intimismo. Pequeno, mas atento, o público interagiu com a autora, que trouxe à tona experiências de seu trabalho literário e breves notícias da cena literária paulista. Nascida em 1951, revelada no bojo da geração noventa, publicou três livros de contos e dois romances; o outro é Hotel novo mundo. 




      Estou lendo Alameda Santos, livro composto a partir de fitas gravadas por uma mulher balzaqueana, após a separação do marido e se embebedar, entre o Natal e o ano Novo de 1984. O mesmo se repete ao fim de outros anos, até 1992. E tome falação feminina, no registro mais coloquial e fonético possível. Os anos loucos em São Paulo da década de 80 são retratados sem retoques sob a ótica de uma dublê de escritora liberal e dona de casa abandonada pelo marido. Confidências de alcova misturam-se a relatos de agitos, amizades gays, traições amorosas, pirações, bebedeiras, boemia, drogas, experiências esotéricas e o escambau. Duas amostras do estilo da narradora, a seguir.



         "Hoje é dia 28 de dezembro de 1986, domingo, 2 e meia da tarde. Eu tô tomando café no sofá da minha casa e gravando essa fita depois de comer uma deliciosa picanha com fritas no Bar das Putas. Finalmente eu tô numa casa só minha com plantas, panelas, frutas, verduras. Ambiente totalmente familiar. Eu e a Gabi voltamos a morar sozinhas". (p. 51)



      "Tinha noite que o Charles me enchia tanto o saco que eu pegava o carro e saía rodando pela cidade pra esfriar a cabeça. Uma vez eu parei no Largo do Arouche, entrei num bar, pedi uma cerveja e só então eu me dei conta de onde eu tava, às três da manhã: num lugar que só tinha puta e marginal. Eu comecei a rir. E o mais engraçado é que não senti um pingo de medo. Pelo contrário, me senti superbem e segura entre aquelas pessoas. Parecia que eu tinha vindo de um lugar muito pior do que aquele". (p.81)



      O livro é divertido, com relatos um tanto desbocados e malucos. A orelha adverte, certeira: "Suas mulheres são patéticas, ridículas, carentes, solitárias mas sem um pingo de autopiedade. Sabem rir de si próprias, perdoarem-se e seguir em frente". Por trás dos dramas individuais, descortina-se o mundo grande do país lutando para se livrar da ditadura, enterrar Tancredo e mergulhar de cabeça no período difícil da era Sarney.

LEITE, Ivana Arruda. Alameda Santos. São Paulo: Iluminuras, 2009.
(As fotos foram tiradas pelo amigo Júlio.)