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terça-feira, 20 de agosto de 2013

A Bravo! já era

      A revista Bravo! fechou. Parou de circular. Como aconteceu com o Jornal do Brasil, recentemente, como há mais tempo aconteceu com O Pasquim, Opinião, Movimento, Afinal, Bondinho.  Se voltamos no tempo, seria o caso de lamentarmos o desaparecimento de O Cruzeiro, Manchete, Senhor, revistas que também fizeram sucesso há mais de 4 décadas.


      Bravo! era uma revista de cultura, cobria artes e espetáculos, contava com uma seleção de colaboradores excepcionais. O escritor Marcelo Rubens Paiva externa seu desacordo com a decisão da editora Abril: "O fechamento da Bravo é a prova de que alimentar o cérebro não está mais entre as prioridades. A reestruturação da maior editora dá sinais de que o brasileiro quer viver mais sem se preocupar em saber menos", escreve no seu blog do Estadão. Continuam as publicações que priorizam o cuidado com a saúde e o corpo, como Boa Forma, Men's Health, Viva mais, Máxima, Estilo, Manequim.
      A Bravo! era a menina dos olhos de Roberto Civita, morto em maio. A alegação da editora é que a revista estava, sempre fora deficitária. Teria 20 mil assinantes e 8 mil compradores em banca, o que era pouco para a manutenção de uma equipe de alto nível, formato de luxo, papel de qualidade. Para piorar, poucos anúncios. Os publicitários acreditam que anunciar em revista de alta cultura traz pouco retorno aos grandes anunciantes, visto que os leitores desse gênero são críticos e exigentes. Lamentável. 

domingo, 18 de agosto de 2013

Basta um click

... pressentia que há muito que ver na vida, ainda que fosse através da televisão, aparelho forçosamente integrado ao correr das horas, nem que fosse para esquecer logo em seguida, na tela acompanhava uma banda desbundada, volume altíssimo, zoeira delirante,  luzes e cores fortes, o guitarrista exercita acordes psicodélicos, roupa extravagante, na plateia pessoas balançam o  corpo e a cabeça em ritmo alucinado, a letra fala em estrelas, naves turbinadas, loucas viagens siderais;

                                                  (Protestos no Egito, Foto Reuters)
... gladiadores contemporâneos se estapeiam e agridem, lutadores musculosos em shorts compressores caem no tatame atracados, grudados se esbofeteiam e distribuem socos para todos os lados, rostos sangram, o mais esperto consegue imobilizar o adversário, subjugado quase a ponto de perder o fôlego;

...zapeava programas, de forma aleatória, no mundial de atletismo focava a corrida dos 200 metros para mulheres, o uniforme das jamaicanas parecia com o uniforme das brasileiras, mas não havia brasileiras, mulheres musculosas, corpo de homens, as jamaicanas em uniforme verde a amarelo, as atletas corriam como foguetes disparados;
... difícil ficar indiferente às imagens, tela grande, noutro canal uma atriz americana era entrevistada, externava sua experiência em figurar em filmes de ação, o interesse em estrelar ao lado de tom cruise, ser dirigida por profissionais daquele quilate;
...em noticiário da bbc arrolavam as últimas manifestações na praça ramsés, no cairo, mais de sessenta mortos, rostos sangrando, tiros e bombas explodindo, na verdade estaria mais satisfeito seguindo uma partida de futebol entre clubes brasileiros, a catimba na posse de bola, os dribles geniais, a explosão da torcida no grito de goooool.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Vianna Moog

Livro do mês:

      Acabo de ler um romance difícil: nas primeiras páginas, tentei abandonar, entre outras coisas, por estar vazado em linguagem excessivamente clássica e purista. Sem falar nos torneios frasais um tanto pomposos, alguma colocação pronominal próxima da sintaxe lusa, uma afinação estreita aos parâmetros realistas. A descoberta de um grande escritor, com domínio de amplas descrições e o tom polêmico da trama acabaram me dobrando. Trata-se de Um rio imita o Reno, romance publicado em 1938 por Vianna Moog (1906-1988), intelectual gaúcho versado em sociologia, filosofia e literatura, merecidamente elogiado pelo estudo Bandeirantes e pioneiros (1954) e por um clássico ensaio, Eça de Queirós e o século XIX, (1938). Membro da Academia Brasileira de Letras, o autor desempenhou funções diplomáticas em Nova York e no México, tendo escrito mais dois romances, Uma jangada para Ulisses (1959) e Tóia (1962).


     As quatro estações estruturam o enredo que acompanha a malograda trajetória afetiva de um engenheiro amazonense, contratado para construir uma represa, no intuito de solucionar o problema da água potável numa cidade do Rio Grande do Sul, a fictícia Brumental, identificada com São Leopoldo, banhada pelo rio dos Sinos. Geraldo Torres, brasileiro de origem indígena, apaixona-se por Lore Wolff descendente de alemães, orgulhosos de sua ascendência germânica e superioridade racial. Com o namoro interditado pela família da moça, as sanções contra o engenheiro acabam em perseguição política, gerando o seu afastamento da cidade e a suspensão do projeto de saneamento básico. Na sequência, a moça adoece gravemente de febre tifóide, da qual se livra custosamente. A família acalenta o sonho de casá-la com um primo alemão, médico famoso que, ao final, em visita à colônia, traz informes negativos a respeito da Alemanha real. O máximo da decepção fica por conta da descoberta oficial de que os Wolffs têm sangue judeu. O depoimento de Otto sobre o nazismo é arrasador:
      "Ora! Isso é uma realidade de parada. A realidade cotidiana é negra: os campos de concentração... aperturas de toda sorte, perseguições, barbaridades, banimentos, assassínios..." (p.211)


      Apesar da moldura tradicional, o desenlace usa de forma ousada o recurso do corte e do suspense. Enquanto no Rio de Janeiro o engenheiro se esforça em reestruturar sua vida, ainda atormentado pela recordação de Lore, a milhares de quilômetros, no sul a moça "numa absurda e alvoroçada esperança", após uma tempestade de primavera, aparenta avistar na rua o vulto do amazonense que teria voltado. "Ele era moreno como o chão do pátio, como a casca dos pinheiros, tinha a poesia do vento, a força do sol. Era filho duma terra nova, duma raça adolescente, duma civilização diferente da europeia, duma civilização sem preconceitos absurdos, sem a obsessão do heroísmo e da guerra" (p.218). Em sua imaginação ele volta. O sobrinho, louro, de olhos azuis,  entrega-se a uma atividade sempre proibida: brinca na rua com moleques morenos.  

      A envolver uma história de amor contrariado, temos a reconstituição rigorosa dos costumes e do substrato ideológico e histórico da época da imigração alemã no sul do país. Num trabalho ficcional pautado pelo racionalismo, clareza e amplitude representativa, o cenário regional presta-se a um forte embate, em que culturas distintas mostram a nitidez de suas idiossincrasias. A difícil convivência entre brasileiros e descendentes de alemães, em contexto de acentuada expansão da ideologia da superioridade étnica ariana, motiva a que o narrador transforme o protagonista em porta voz de sua denúncia contra a intolerância e o obscurantismo. Vianna Moog condena o isolamento e a supremacia racial, como práticas nocivas na construção de uma sociedade cordial, que só teria vantagens em intensificar as relações étnicas. De forma enviesada, seu projeto ficcional  tem afinidades com o projeto nacionalista da ditadura de Vargas. A atualidade do livro pode ser constatada ainda pelos debates e temas abordados, como a revalidação do diploma médico para estrangeiros, as misturas raciais ocorridas no país, a importância da imigração para o desenvolvimento.  Bem estruturado, o romance desenvolve sem disfarces uma tese, sem deixar de ser uma construção ficcional inteiriça e envolvente, fruto de um engajamento nacionalista convincente e implacável.   

MOOG, Vianna. Um rio imita o Reno. 11ª  ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.