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sábado, 6 de abril de 2013

Maria Adelaide Amaral

Livro do mês: Aos meus amigos

       Nascida em Portugal em 1942,  Maria Adelaide Amaral veio para o Brasil com doze anos, afirmando-se como escritora versátil e talentosa. Tendo iniciado como dramaturga, em l976, com a peça Bodas de papel, conquista com o primeiro romance, Luísa,o prêmio Jabuti em l986. Ingressa na Globo na década de 90, onde trabalha com vários parceiros (Sílvio de Abreu, Lauro César Muniz, Alcides Nogueira, Geraldo Carneiro), na produção de novelas e minisséries. Autora teatral de prestígio, terá peças dirigidas por renomados diretores, como Cecil Thiré, José Wilker, Paulo César Saraceni, Aderbal Freire. O romance em foco, talvez o seu ponto alto no gênero, mereceu adaptação televisiva, na primeira década deste século, sob o título de Queridos amigos.

                                                     (Imagem  blog dolixoaoluxo)
      A história recria o encontro de doze amigos, separados temporariamente por circunstâncias variadas, após o suicídio de Leo, publicitário e escritor voluntarioso, fracassado no casamento e com dificuldade de se afirmar como literato. O recorte histórico abarca o fim dos anos 80, em São Paulo, no âmbito de agudas influências (queda do muro de Berlim, guerra fria, fim do socialismo, expansão da AIDS, fortalecimento dos EUA, eclosão de movimentos de minorias, recrudescimento de temas ecológicos e étnicos). A trama decorre dos diálogos do participantes do grupo, alguns oriundos de atuação política nos anos apertados da ditadura militar, outros sobreviventes do refluxo da onda de liberação dos costumes dos anos 70. Os sucessos, infortúnios e apreensões dessa geração refletem, de forma intensa e concentrada, um contexto de lutas, afirmação de diferenças sexuais e utopias. Vivendo as agruras de uma grande metrópole, num ambiente de fortes pressões conservadoras, em meio à tensa afirmação de opções minoritárias (gays, negros) e de ondas pacifistas, os personagens equilibram-se entre a vertigem das drogas e sexualidade dissoluta. Aos meus amigos elabora um retrato, nem sempre repousante e sereno, de um grupo de amigos, cujo percurso existencial, de contorno multifacetado, esbarra no contexto opressor da ditadura. Este o maior mérito da autora: compor um amplo, consistente e ousado mosaico em que muitos de nós, que fomos jovens naquele período, nos vemos impiedosamente projetados. Dentre os personagens, movem-se jornalistas, editores, médicos, publicitários, modelos, escritores, empresários, professores, donas de casa, artistas plásticos e homens comuns, expostos à turbulência de grandes transformações sociais.



      'Éramos um bando de pretensiosos, um bando de bostas que se imaginavam geniais, pensou Lena. 'E afinal, quem somos nós na grande ordem das coisas? Nada, nem esses que se projetaram mais que os outros', Lena considerou amargamente. Pela primeira vez naquela tarde teve vontade de chorar. 'Se ao menos a gente se divertisse, se ao menos a gente vivesse num país com menos sobressaltos'. (Amaral,2009, 95)

      A quebra de paradigmas, a passagem do tempo, as devastadas relações sociais, a exacerbação do modelo capitalista, os novos formatos de relacionamentos são discutidos de forma viva e concreta. Esta escuta atenta do cotidiano revela-se como positiva herança do labor teatral, na árdua e vertiginosa expressão de situações dramáticas, à beira do abismo. A autora não se preocupa em eliminar os liames com o mundo real, são citados eventos, nomes de rua, programas de televisão, artistas e canções da época, na busca de atenuar os limites do real e do fictício. O livro estrutura-se através da justaposição de fragmentos de diálogos, outra marca do universo do teatro: o enfrentamento contínuo dos personagens, quase sempre em experiências-limite: drogas, homossexualidade, desagregação familiar, participação política, frustrações individuais e coletivas. As fronteiras do trágico esfumam-se, desde o início quando o suicídio é comunicado e se anuncia o encontro da geração.

" (...) Professava as teses do Partido, embora não fosse filiado, e não compreendia como alguém como Leo podia continuar niilista em tempos tão exaltados. 'Eu não estou com vocês, nem com a uísquerda, nem com os novos propedeutas da direita nem com nenhuma facção farisaica. Eu quero ter o direito de me entregar a todos os delírios estéticos sem o risco de ouvir um discurso sobre os perigos da alienação'."  (Amaral, 2009, 206)

      O romance de Maria Adelaide Amaral desnorteia qualquer aprendiz de crítica. Em decorrência de uma perversa tradição, os críticos profissionais economizam palavras diante de bons livros. Acusados muitas vezes de arrogância e omissão, carregam ainda o fardo de serem taxados de escritores frustrados. Para certa crítica tradicional, o fato de um autor escrever para televisão era motivo suficiente para lhe torcer o nariz. Está na hora de ser sincero e honesto: este é um romance notável. A autora é um dos grandes nomes da literatura contemporânea, de qualquer país, sem dever nada a ninguém. Seu retrato da geração dos anos 70 e 80 é preciso, cruel, incontornável e impecável.

AMARAL, Maria Adelaide. Aos meus amigos. São Paulo: Globo, 2009.

      

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Na praia

 
 
      Além de sexagenário, o homem era calvo e introspectivo. Com a mulher vinte anos mais nova, estava contente: conhecia uma capital do nordeste, comemorava bodas de prata. Cansados do passeio à costa do Conde, no dia anterior, concordaram em ficar por ali, mais ou menos perto do hotel. E folgavam debaixo de um guarda-sol alugado, em Cabo Branco. Calor intenso, água morna, vento refrescante. E o básico em praia tropical: água de coco, cerveja em lata, amendoim torrado, banhos. O filho mais velho concordou em dar um tempo na areia, rumaram para o mar.
     Ondas quebravam, às vezes traziam algas e tropeços. Dois garotos aproximaram-se, morenos e risonhos. 
      "Moça, encontrei um cavalo marinho". Disse a guria.
      "Onde?" A mulher era mais comunicativa.
      "Devolvi, pertence ao mar", falou, compenetrada, a guria.
   "Garota bonita", comentou o homem com a mulher, em tom aparentemente mais baixo. Afastou-se, para local mais fundo. Acuado, ouviu a menina dizer que o tio, com quem morava, era sargento de polícia. Mais acuado, lembrou do cartaz no hall do hotel: "Turismo sexual é crime". A mulher perguntou à guria: "Qual seu nome?"
      "Celma. Meu irmão é Tiago".
      "Quantos anos você tem?"
      "Ela tem doze, eu tenho dez", adiantou o irmãozinho.
      A mulher saiu do mar, os garotos aproximaram-se do homem.
      "Olha, ela não tem nem peitinho", gritou o menino, abraçando a menina pelas costas, os dois riam como se posassem para uma foto. O homem, interessado nas ondas, afastou-se outra vez, incomodado com o jeito buliçoso e insinuante da menina olhar para ele. Pegou uma onda mais forte, na volta quase esbarrou no menino, que o interpelou:" O senhor deu cinco reais para ela?"
      Afastou-se definitivamente dos pestinhas, tão ingênuos quanto espertos.