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quarta-feira, 6 de março de 2013

Bruno Tolentino

Livro do mês: A imitação do amanhecer


      Duas palavras sobre o autor: Bruno Tolentino (1940-2007). Sua vida trepidante daria um roteiro de filme cult. Descende de Conselheiros do Império, como fazia questão de referir: nasceu em família aristocrata no Rio de Janeiro, foi educado com esmero, teve preceptores que lhe ensinaram inglês e francês na infância. Acumulou uma vasta cultura humanística, a que se adicionou o refinamento de trinta anos vivendo na Europa, onde atuou em centros de excelência cultural, lecionou literatura em Oxford, Bristol e Essex, conheceu intelectuais famosos, como Elisabeth Bishop, de quem se tornara amigo no Brasil e que, mais tarde, o apresentou a W.H. Auden, Samuel Becket e outros. Teve filhos com mulheres descendentes de Bertrand Russel e do poeta Rainer Maria Rilke. Desenvolveu uma carreira brilhante de poeta nos círculos europeus: em França publicou Le vrai le vain (O verdadeiro o vão, 1971) e Au coloque des monstres (1973); na Inglaterra, About the hunt (A respeito de caçada, 1973). Dirigiu a Oxford Poetry Now em 1973. Foi preso no estrangeiro por porte de drogas. De volta ao Brasil, brigou com meio mundo, criticou os poetas concretos, polemizou com Caetano Veloso, desancou a crítica literária brasileira, os tradutores, os novos poetas. Habituado ao rigor da cultura europeia, não admitia misturar arte com cultura pop, letra de música não se confunde com poesia, música popular catalogava como entretenimento. Em entrevista à revista Veja, em 1996,  arremessou para todos os lados, embora admirasse Bandeira, João Cabral, Drummond e Adélia Prado. Sobre Paulo Leminski e sua geração, afirma, entre outras coisas: "cultura de almanaque, berimbau de barbante,  ethos de radialista, estética de violeiro, filosofia de publicitário, ritmos de mingau, versalhada instantânea  e rimas de muleta"; autor de "dois livrecos de versos murchos e jocosos numa desastrada gramática de boteco". Os últimos anos, viveu recolhido no convento de Nossa Sra. da Piedade, convertido ou reconciliado ao catolicismo. No Brasil, publicou Anulação e outros reparos, As horas de Katharina (1994), Os deuses de hoje (2006), Os sapos de ontem (2006), O mundo como ideia (2003), agraciado com o prêmio Jabuti, Imitação do amanhecer (2006).


      Imitação do amanhecer, escrito entre 1979 e 2004, com seus seiscentos sonetos, é o maior poema lírico da literatura brasileira, rara demonstração de transbordamento poético, construção grandiosa, desmedida. Na realidade, pouco conhecido mesmo entre os que se julgam cultos. Estrutura-se em três partes: As epifanias (andante spianato), As antífonas ( largo con variazioni), Os noturnos (adagio molto mosso). Inspira-se livremente em episódio biográfico do romancista inglês E. M. Foster, ao visitar Alexandria durante a primeira guerra mundial. O intelectual inglês teve na cidade dois encontros decisivos: com o poeta Konstantinos Kaváfis, de quem se tornou grande admirador, e com o jovem condutor de elétricos, Mohammed el-Ade, por quem se apaixonou. Kafávis, hoje um nome cultuado, transportava o passado para a sua época, enamorado de efebos idealizados em sua poesia. O motorista tinha dezessete anos quando conheceu Foster e morreu tuberculoso, logo após a guerra. Para Foster, Alexandria tornou-se uma cidade íntima e produtiva em sua obra, lembrança e invenção transfigurada pela dor. O núcleo obsidiante do livro, além da forte presença da cidade de Alexandria e seus sortilégios, delineia-se em torno desse encontro amoroso. Somos levados a caminhar por uma cidade de esquinas e prédios milenares, ruínas seculares em quadriláteros encantados, alcovas de sonhos. Mas não é o único assunto, o poeta é também um filósofo obsequioso e delirante, mergulhado na sondagem do tempo, nas investidas desesperadas sobre a efemeridade da beleza, na busca incansável de conhecimento, na ânsia de captar as nuances e o sentido das coisas, na tentativa cega de compreender a morte. Entre o deserto da alma e o sobressalto do prazer, entre o hedonismo e o êxtase.



      "A vida é toda assim, desastres que os poetas
      acumulam e levam anos e anos juntos,
      até que vêm a noite, a memória, as discretas
      fabulações da arte, e eis que um par de defuntos

      e uma cidade inteira transbordam das canetas,
      como as gotas da luz retornando aos assuntos..." (TOLENTINO, 2006, 98).

      As palavras atrevem-se a compor uma sinfonia crepuscular, enquanto os fios débeis da matéria amorosa misturam-se a reflexões, lances exaltados de luz, canto e cores, registrados numa cidade mágica, fonte de encanto e de espasmo, "órfã de Alexandre, a flor da ambiguidade":

      "Cidade-esfinge, cafetina de um cortejo
      de fantasmas no ar, tu, carícia da chama
      no lago elementar, criatura de escama
      e pluma, aberração, contusão no azulejo,  

      a cada vez que cerro os olhos te revejo,
      e a um jovem cisne na metade de um pijama,
      batendo os braços, deslizando pela cama
      como um reflexo trêmulo à procura de um beijo..." (TOLENTINO, 2006, 67).

      Não seria exagero afirmar ser este o mais elaborado, ousado, complexo e vigoroso livro de amor escrito no Brasil. Não é em vão que o drama envolve um tordo assassinado, cenários envoltos em guirlandas de violetas, o limiar da luz indecisa, o lume ensandecido. A comparação com a lírica de Camões não é despropositada, tendo-se em conta a revitalização do soneto, a sutileza conceitual e a espessura lírica projetada.

                                               (Foto Jorge Araújo/ Folha Imagem)

      "Mas que razão se tem de acreditar na vida
      senão que nos encante? (...)
      
      de que vale esse rito frio se o prazer
      de um artefato não encher uma avenida
      de encanto, de emoção? O canto, entardecer
      
      da alma deslumbrada e trêmula, é um infindo
      encantamento sem função - e, irradiante,
      o meu encanto deu-se assim: foi-se-me abrindo

      a rosa pasma da alegria desde o instante
      em que toquei seu corpo nu, muito mais lindo
      que todos os Davis, do Donatello em diante!" (TOLENTINO, 2006, 71).

       Apesar do excesso de luz, (dia, razão, encanto, brilho), apesar do apelo à claridade no título, e da sugestão de que escrever um poema de amor é renascer, este é um livro de vibrações sombrias e noturnas. Besouros, morcegos, corujas movimentam-se em rituais de fervor e febre, em espaços arrebatados de ônix, jade, marfim e ametistas. E além do mais, subscreve que o poema retoma o gosto do jogo conceitual e a tarefa da sutileza, entre a emoção física e a surpresa de vislumbrar o que a ultrapassa. "E se não grito/ é porque canto, canto e arranco ao infinito/ a imitação do amanhecer, a última ponte/ entre o desejo e a noite, entre a memória e o mito!" (TOLENTINO, 2006, 81).
      Bruno Tolentino erige o estatuto do poeta complacente diante da inconsequência da juventude e da experiência-limite. O uso do soneto é um pretexto para atualizar formas renascentistas e helenistas (Safo, Alceu), transpostas para a esfera do cotidiano. A recorrência do soneto indicia duas setas: uma aponta para o equilíbrio da tradição (a vigilância do transbordamento dos enunciados sem anular a intensidade subjetiva); a segunda assinala paradoxalmente o limite da vertente experimental. A primeira postura busca uma aproximação respeitosa aos recursos da prosódia poética (ritmo, rima, métrica) desdenhados há décadas. Mostram-se, as duas setas, entrelaçadas enquanto recusa em trilhar reiteradas receitas de vanguarda.  

TOLENTINO, Bruno. A imitação do amanhecer. São Paulo: Globo, 2006.