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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Adolfo Casais Monteiro

      Poeta e ensaísta português,  Adolfo Casais Monteiro (1908 -1972) participou ativamente do grupo literário Presença (ao lado de José Régio e João Gaspar Simões, na direção da revista de mesmo nome). Como poeta, publicou Poemas do tempo incerto (1934), Canto da nossa agonia (1942), Noite aberta aos quatro ventos (1943), Voo sem pássaro dentro (1954). Leitor especial e contemporâneo de Fernando Pessoa, foi o destinatário da famosa carta (de janeiro de 1935), em que o autor de Mensagem comenta a gênese dos heterônimos, base para o desenvolvimento das pioneiras análises da poética do fingimento. É autor de um único romance, Adolescentes (1945). Seu maior relevo, sem dúvida, decorre merecidamente da produção como ensaísta e crítico literário: De pés fincados na terra (1940), Estudos sobre a poesia de Fernando Pessoa (1958), Clareza e mistério da crítica (1961), Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias (1984).


      Diante das dificuldades que lhe são importas pelo regime salazarista, em 1954 aproveita o convite para participar de um Congresso em São Paulo para se fixar definitivamente no Brasil, onde lhe foi possível desenvolver uma atuação marcante no ensino superior, especialmente em Araraquara, como regente da disciplina Teoria da Literatura. Em nosso país desenvolveu notável contribuição à consolidação de um repertório crítico, atuando na grande imprensa e nos meandros das relações culturais luso-brasileiras. Ofereceu curso de férias na USP, na década de 70, de considerável alcance e recepção .

       No primeiro capítulo de Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias, intitulado  "A tradição platônica da estética ocidental e o conhecimento da Literatura", Casais Monteiro discute a origem da Teoria da Literatura como ciência. Após expressar sua estranheza diante da "ausência de um nexo evidente entre a maneira como na estética se tratava de problemas gerais referentes a todas as formas de criação estética, e o estudo dos problemas da literatura", afirma que o grande desafio da Literatura sempre foi conquistar sua independência diante de outros campos de saber. Desde o início ela se debate com a tarefa de sua indefinição. Já no prefácio adverte sobre esse problema: "Em nenhum setor das ciências humanas (...) o avanço do conhecimento se manifestou com tal luxo de desorientação" (Monteiro, 1984, 8). As diversas conexões a que a Literatura foi submetida ao longo dos séculos radicam na aproximação primeira com a Filosofia, efetuada pelos gregos (Aristóteles, Platão). Deriva, daí, uma conformação subalterna a outras áreas de saber, como a retórica, a estética, a poética. Posteriormente, sua sina seria confundir-se com a sociologia, a antropologia, a história e a psicologia. Não admira que ainda hoje a Literatura se apresente como saber flexível, de natureza um tanto esgarçada, na vizinhança com outras áreas de saber, como a Semiótica, a Análise do Discurso, a Linguística, os Estudos culturais.



     Os filósofos gregos desdenharam da Literatura uma vez que se preocupavam com a teorização em torno do Belo. A poesia era compreendida como uma das formas sob as quais se expressava o Belo. Aristóteles dedica-lhe um tratado, no qual ela é vista como física, e não como metafísica, argumenta Casais Monteiro, o que justifica o seu tratamento como retórica, conjunto de normas que definiam como devia se processar sua prática. A adesão da Literatura aos parâmetros da moral, filosofia ou religião acaba determinando um processo de controle de sua elaboração, de sua prática.  No século XVIII, no bojo da formulação do sistema filosófico de Hegel, a Literatura se vê absorvida pela Estética. A Literatura mais uma vez é vista como atividade secundária, uma forma de se expressar o Belo. Essa  intermitente postura da Teoria Literária a reboque dos grandes sistemas determina o intuito de se construírem formas de controle desse poderoso instrumental. A Teoria da Literatura foi-se construindo aos fragmentos, na medida da conveniência e dos interesses específicos dos vários sistemas filosóficos. 

      "Ao longo dos séculos, de Platão até ao iluminismo, e ainda depois, como veremos, as ideias sobre literatura foram sucessivamente deduzidas dos mais diversos campos do conhecimento humano. E pode dizer-se que só depois de esgotadas estas 'experiências' se tornou possível encarar a própria literatura para dirigir, a ela, a pergunta: Quem és tu?" (Monteiro, 1984, 17)

      Os confrontos e as aproximações da Literatura a outras manifestações culturais fazem parte de sua origem e fundamentam sua tradição.

MONTEIRO, Adolfo Casais. Estrutura e autenticidade na teoria e na crítica literárias. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1984.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Benito Barreto

Livro do mês:  Despojos, a festa da morte na corte

Este livro arremata a grandiosa tetralogia Saga do caminho novo, de Benito Barreto, referida abaixo. A aproximação e solidariedade do Alferes com o seu carrasco, o guarda-mor Capitania, é algo inusitado, a amizade entre os dois é elaborada em forma de paródia refinada, a ponto de suscitar analogia com o tratamento dispensado por Saramago à amizade entre Jesus e Judas, no Evangelho segundo Jesus Cristo. Tiradentes, preocupado com o sofrimento de Capitania, o carrasco encarregado de enforcá-lo, no episódio da raiz de dente inflamada, cura-o, moldando uma peça, para que pudesse mastigar e sorrir.

Também à Ilha das Cobras, não lhe trouxe a primavera flores, as quais, de resto, soem mui raro brotar das pedras, mas o mameluco Capitania voltou a rir, o que é, talvez, mais raro e difícil que minar a água, a flor nascer ou o verde, dos rochedos.
- Deus pague a Vosmicê, galé. Deus dê a Vosmicê, em anos de vida, o que me vai dar em dentes! – exclamava, vendo Tiradentes ajustar e polir o molde de sua arcada, para a dentadura que está a lhe fazer (Barreto, 2012, p.470).

Horas antes do martírio, Tiradentes pensa no sonho de uma pátria livre, árdua construção coletiva, através do trabalho dos mazombos, da luta dos rebeldes e do patrimônio dos artistas (escultura, artes plásticas, música, poesia). Em seu delírio, revive a dor de conviver com a opressão, vendo as riquezas da terra serem assaltadas, carreadas às pressas para os navios europeus. Exprime sua interpretação a respeito da extraordinária arte popular: produto de revolta e sofrimento –“... o Athayde só faltou ele pintar de vermelho as lágrimas, acho até que algumas delas fez com sangue! e, assim, aqueles nossos grandes músicos mestiços e os negros, no que compunham e tocavam, mais gemiam que cantavam” (Barreto, 2012, p.533).
Libertas quae será tamen, o verso extraído por Alvarenga Peixoto da lírica de Virgílio, é muito mais que a máxima do movimento, mas um projeto natural e universal. O anseio de liberdade é visto como inerente aos fenômenos da natureza, à privação da liberdade seguirá a privação da vida, este é um motivo recorrente ao longo dos capítulos, com o alcance de um refrão obsessivo e obstinado: “mesmo as potencialidades naturais e entre essas, muito principalmente, a água e os ventos tendem para o movimento e a liberdade dos quais, de resto, uma e outro necessitam e dependem” (Barreto, 2009, p.36). Modulado com as notas da indignação e da perplexidade, o motivo retorna: “Mesmo os rios e ribeirões de Minas, que em desde que gente, inda menino, vira correr e atravessava a cavalo ou pelos quais andava de canoa e os vadeava, arregaçando as calças, nos vaus de passagem, ao pé dos bambuais... se ousassem os Céus detê-los, o que não fariam! Ah, nem quer pensar!” (Barreto, 2009, p.117).


Ao narrador resta captar as contradições internas da sociedade, as oscilações de ordens e comandos, as hesitações e o jogo variado de interesses, o registro de um contexto envolto em inequívoca teia de ambiguidade. Dentre os inconfidentes, seres feitos de barro e esperança, há os indecisos, os pusilânimes, os temerosos (Gonzaga, Cláudio Manoel), os que apoiam pela metade (o tenente coronel Paula Freire), os que aderem intelectualmente (Gonzaga, Cláudio, Alvarenga Peixoto, Ignácio Alvarenga), o que trai à causa para obter benefício (Silvério dos Reis), o insurgente destemido (o Alferes). À ganância, opressão e rigores da Corte, correspondem a rebeldia e conspiração dos mazombos. O doutor Cláudio, sexagenário de saúde frágil, jurista de renome e fazendeiro abastado, recebe, depois de Tiradentes, o olhar mais atento do narrador, que registra sua dupla e arbitrária condenação. A primeira ao ser assaltado em casa de madrugada, entre violência e brutalidade, ficando à mercê de um punhal, o pescoço sob as esporas de um militar, que lhe rouba as barras de ouro e lhe extermina a família, dias antes da prisão no vão de uma escada, até o fim trágico.  
Alguns incidentes são significativos no que diz respeito à ambiguidade e contradições sociais: lealdade inicial à coroa portuguesa, apoio à causa da Inconfidência (Irmão do Caraça, Gonzaga, Cláudio Manoel). A alternância entre o mito e a realidade aproxima alguns personagens (Gonzaga/Dirceu, amante de Marília, Gonzaga/Critilo, autor das Cartas Chilenas; Cláudio/ Doroteu, nas Cartas Chilenas; Maria Dorotéia de Seixas Brandão/ Marília, a amante fictícia de Dirceu, em Marília de Dirceu). Por circunstâncias profissionais, o jovem cientista Álvares Maciel torna-se hóspede e preceptor da esposa e dos filhos do Visconde de Barbacena, sem deixar de ser simpatizante da causa inconfidente. O conflito entre voto de castidade e sensualidade é um traço que identifica o Padre Rolim e o Padre Inácio. A personagem Perpétua, uma das amadas de Tiradentes, morre ao se lançar de um penhasco, em dupla fuga: à caçada do Vice-Rei, por ela seduzido;  ao Padre Inácio, que aumentava o cerco a seu redor. Esta relação de três ângulos, em que a mulher desempenha o papel de mediadora, admite o seguinte esquema:
                          
                           ---------     Vice-Rei (conquista, dominação)
Perpétua -------- Tiradentes (amor, companheirismo)
                           ---------      Padre Inácio (desejo, traição ao herói)

A ambiguidade de gênero envolve dois personagens: Izidora e João Costa. Izidora, a filha de Montanha, chefe de bando, é por ele dada de presente a Tiradentes como Isidro, um rapaz ajudante; em noite de lua, vendo-a dormir, Tiradentes descobre tratar-se de uma moça de belos seios. João Costa, chefe de tropeiros revoltados, em busca de informações sobre o Padre Rolim, traveste-se de mulher, para adentrar no convento feminino de Macaúbas, onde o religioso inconfidente, antes de fugir, internara sua companheira, Rita Quitéria, filha de sua irmã de criação, Chica da Silva. A sensualidade difusa de Bárbara Heliodora, bela e enigmática fazendeira que seduz a todos os homens da época, do Visconde de Barbacena ao esbirro sargento Parada, favorece o papel de mediação entre os dois modelos ideológicos.


Ao se aprofundar a descrever o sofrimento do Alferes na Ilha das Cobras, em prisão que mais se assemelha a uma cova, pelo ar rarefeito e mal cheiroso, o último volume, Despojos: a festa da morte na corte em vários passos compara Tiradentes a Cristo: “Uma sepultura singular, em que o condenado, conquanto já, de fato, enterrado, ainda se move e respira; ainda pode imaginar, lá fora, a vida e o mundo, mas já não participa daquela nem faz mais parte deste!” (Barreto, 2012, p.477). Identificado a elementos naturais, como o oceano, o preso exibe uma gargalheira no pescoço e grilhões nos pés: “Pesam e esfolam mais, a cada dia, os ferros da grilheta. As correntes doem sempre mais e a cada dia é mais difícil caminhar com elas, mesmo e apenas levantar-se e ficar de pé ou dar um passo” (Barreto, 2009, p.116). Esgotadas as possibilidades concretas de sucesso efetivo, a Conjuração perde sua força: os envolvidos são presos, o processo de condenação é instalado. Uma vez que Tiradentes advoga para si toda a culpa, os outros inconfidentes recebem pena menor – o degredo para a África. Tiradentes é o único condenado à morte. Paradoxalmente, ao proceder ao seu martírio, a Coroa portuguesa extermina um inimigo, mas cria um herói. Após sua morte, com a exposição das partes esquartejadas do seu corpo nos lugares onde em vida atuara contra a dominação lusa, fica estabelecido o seu retorno e permanência, doravante como despojo físico, material, que se desintegra e degrada naturalmente, semente de sua fixação perene, como palavra e exemplo. A história de um homem ali acabava. As raízes do mito estavam lançadas. Desta ambivalência entre realidade e mito nutre-se de forma inventiva a ficção de Benito Barreto.


Referências bibliográficas

BARRETO, Benito. Os idos de março. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2009.
           ______. Bardos e viúvas. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
          ______. Toque de silêncio em Vila Rica. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2010.
            ______. Despojos: a festa da morte na corte. Ilustrações de Sebastião Januário. Belo Horizonte: Casa de Minas, 2012.

      (Este texto, com pequenas alterações, é parte do ensaio "Ficção e retórica", publicado no livro de Rachel Barreto, Benito Barreto - 50 anos de literatura. A foto é alusiva ao lançamento recente deste livro).

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Benito Barreto: 50 anos de literatura

      Registro o evento que ocorrerá amanhã à noite, na sede da Academia Mineira de Letras, em homenagem ao autor da Saga do caminho novo. Nascido em 1929, em Guanhães, Minas Gerais, o escritor Benito Barreto, autor de uma dezena de livros, entre a ficção e a memória, comemora o jubileu de ouro de sua obra literária, com o lançamento de um livro de Rachel Barreto - Benito Barreto: 50 anos de literatura, e o relançamento de sua estreia na ficção, Plataforma vazia.




      Escritor inconformado com as mazelas sociais, seus romances refletem um constante esforço de apreensão crítica da realidade, com notável domínio dos recursos narrativos e arejado recorte da condição humana. Com um pé na tradição romântico-naturalista, sua estreia ficcional em 1962 revela-se como efetiva plataforma embrionária, de onde depois iam sair os homens e mulheres dos títulos subsequentes, Capela dos homens (1968), Mutirão para matar (1974) e Cafaia (1975). Conhecida como tetralogia dos Guaianãs, esses romances divulgaram o nome do autor para além das fronteiras mineiras e nacionais. A terceira edição, em dois volumes, saiu com o selo da editora Mercado Aberto, de Porto Alegre, em 1986; dois volumes foram publicados na União Soviética, em 1980, com tiragem de 100 mil exemplares. Vieram em seguida Vagagem (1978), apresentado como um livro de "viagens e memórias sem importância" e A última barricada (1993), uma ficção folhetinesca.

      Nos últimos anos, coroando uma obra consistente, dedicou-se Benito Barreto à produção de uma definitiva tetralogia, a monumental Saga do caminho novo, quatro romances sobre a Inconfidência Mineira, Os idos de maio (2009), Bardos & viúvas (2010), Toque de silêncio em Vila Rica (2011) e Despojos: a festa da morte na corte (2012). Recriação grandiosa dos fatos históricos ocorridos no final do século XVIII (1789) nos caminhos e trilhas da estrada real, à época do Brasil colônia, consegue retirar a poeira dos arquivos e dar vida a Tiradentes, Padre Rolim, Cláudio Manoel da Costa, Bárbara Heliodora, Alvarenga Peixoto, o Visconde de Barbacena, o Montanha, Álvares Maciel, o Irmão Lourenço, Thomaz  Gonzaga, Marília, Padre Inácio e tantas outras figuras inesquecíveis. Sobretudo, parodiando o que afirma o poeta Cláudio Manoel, no primeiro volume, o autor, nesses livros, logra "deixar Minas entrar e encher com o cheiro dos seus matos e suas terras, e salgar com o suor de sua gente, os espaços de sonho e vida".

sábado, 16 de novembro de 2013

Mensalão: o começo do fim

      Ontem, 12 dos 25 réus do Mensalão tiveram a prisão imediata decretada pelo presidente do STF (Supremo Tribunal Federal) e relator do processo, Joaquim Barbosa. Movimento inusitado na Polícia Federal de Belo Horizonte. Maior escândalo de corrupção na história do país nos dias que correm, o caso envolve operações e desvios de dinheiro público para a compra de apoio parlamentar ao primeiro Governo Lula. As penas começam a ser cumpridas.


      Em abril de 2006, o procurador geral da República, Antônio Fernando de Souza, apresentou denúncia ao STF contra 40 acusados, envolvidos no esquema, que já circulava em notícias da imprensa. O procurador referia-se claramente a uma quadrilha que dilapidava os cofres públicos. Ontem, sete anos após a denúncia, os principais condenados foram presos. Graças à imprensa e ao redobrado esforço do relator, o processo encaminha-se para seu desfecho, não sem antes enfrentar tentativas de postergação dentro e fora do STF. Em Belo Horizonte, onde se concentram os condenados ligados ao empresário Marcos Valério, conhecido como operador do esquema, e ao grupo financeiro que deu suporte às transações, a movimentação na sede da Polícia Federal foi grande: sete sentenciados se entregaram. Hoje à tarde um jato da Polícia Federal, trazendo de São Paulo dois condenados (José Dirceu, ex-Chefe da Casa Civil do governo Lula, e José Genoino, ex-presidente do PT) aterrou no aeroporto da Pampulha, recolheu os sete de Minas e rumou para Brasília.  Na capital, passarão pelo Instituto Médico Legal, antes de serem conduzidos para a Penitenciária da Papuda (regime fechado) ou o Presídio Feminino. O julgamento continua no próximo ano, discutindo o crime de quadrilha e outros embargos. Dos 12 condenados com mandados de prisão imediata, um deles, Henrique Pizzolato, ex-diretor de marketing do Banco do Brasil, apenado em regime fechado, fugiu para a Itália: possui dupla cidadania.
      A prisão dos condenados no dia da República é emblemática. A sociedade reconhece o empenho do presidente do STF e espera que as penas sejam cumpridas com rigor. Os jornais mineiros registram a reação do professor Valerí Dornas, que, de moto, em frente à sede da PF, parabenizou a Justiça e a polícia, num megafone: "Eu achava que ia morrer sem ver político indo para a cadeia". Mas precisa ficar claro: são políticos presos, não presos políticos. Aproveitaram-se do poder para roubar dinheiro público, são bandidos, corruptos de  colarinho branco.  Outros, igualmente envolvidos, precisam  ser presos.


terça-feira, 12 de novembro de 2013

Mário Garcia de Paiva

Livro do mês:

      A literatura distingue-se de outras artes, por sua própria natureza; lida com palavras (patrimônio coletivo), mas lida também com a vivência humana: expressa emoção, descreve comportamentos e ações. Ao representar a condição humana, dilata sua importância excepcionalmente. O objetivo de registrar a aventura humana no planeta, em determinado contexto, bastaria para torná-la uma atividade de inestimável lastro histórico.
      Alguns escritores ultrapassam a média de seus pares, quando avaliados sob uma lupa distanciada. Mário Garcia de Paiva (1920) é um deles. Surgido na década de 60, despertou o interesse da crítica ao conquistar em 1970 o grande prêmio em concurso nacional de contos do Paraná. O conto "Parábola", um dos premiados, tornou-se cult, pela refinada elaboração de um evento tangido para se repetir indefinidamente . Antes disso, no entanto, já se revelara um ficcionista de sofisticados recursos, em romances de sondagem psicológica, como  Um minuto na adolescência (1947), Luana (1962) Ontem (1966), Esse menino, Francisco (publicado em 1971, apesar de pronto desde 1965); reeditado mais tarde duas vezes.  Publicou depois três livros de contos marcantes: Festa (1970), Dois cavalos num fuscazul  (1976), Os agricultores arrancam paralelepípedos; e um livro instigante, meio "science-fiction" e atmosfera gótica, Os planelúpedes (1975), com personagens híbridos, numa estranha dimensão, metade animais, metade seres humanos, exauridos e tensos em sua atribulada existência.


     Os últimos livros assinalam uma radical evolução, na obra de Garcia de Paiva, atravessada agora por uma concepção arejada e crítica de literatura. Destaco  em especial o título Dois cavalos num fuscazul. "Pantomima" recria um ambiente especular de violência, desta vez com participação do enunciador. O sentido social, para o qual se abre sua ficção, se não é novidade, alia-se a uma vigorosa pesquisa formal, expressiva de um rumo novo, um compromisso responsável que passa a incorporar a denúncia.  Reinventa a proposta, atribuía a Maiakóvski, de que só existe arte revolucionária quando a forma é revolucionária. A linguagem deixa de ser o veículo, o meio de fixar um quadro, para se tornar um suporte significante de ousado projeto ficcional, ajustado para captar a errância, a desumanização e o desmoronamento de valores universais. Através de inovações linguísticas que provocam estranhamento, pelo que representam de ruptura em relação ao código tradicional, as cenas descritas (ou expostas, se damos ênfase aos expedientes cinematográficos) denunciam a dolorosa condição em que os humanos se viram lançados. Algumas palavras mostram-se desvirtuadas em sua grafia, mutiladas e fragmentadas, carregadas de sentido:


"Iam caminhando e conversaram entre si no silêncio, de máscara a máscara. Tinham alguma coisa de cavalos-marinhos.
      (...)
      Passaram por um omem caído na calçada.
      "É o quinto em quinze minutos".
      "Falou alguma coisa, você ouviu ?"
      "Ouvi, lonje e muito débil. Ele pede também, como os outros. Vou socorrer este"
      Aproximou-se do omem caído e atarraxou na máscara dele um tubo do seu depósito de oxijênio: logo se reanimou, moendo os braços". ("Gaivotas")

 "Dois cavalos atravessaram a praça e entraram um fuscazul.
     (...)
      O cavalo magro bateu no casco um cigarro por acender,
      Não gosto de ver cadáver-
      Esta é a oitava que eu revelo e ainda não me acostumei. Será que chamam as crianças de fotos porque são fotografadas ? -"  ("Dois cavalos num fuscazul")

      As cenas realistas, contundentes, vazadas numa forma insólita, flagram situações violentas, desumanas, chocantes, para as quais a linguagem convencional mostra-se precária e impotente.

PAIVA, Garcia de. dois cavalos num fuscazul. Ilustrações e capa de Weis. Belo Horizonte: Comunicação, 1976.


sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Como me tornei presença assídua no Aeroclube

          Meu filho sempre sonhou em ser piloto de avião. Terminado o curso médio, fez vestibular para o curso de Ciências Aeronáuticas.  Após uns dois períodos de teoria geral, precisava cumprir as tais 40 horas iniciais de voo, para piloto privado. Munido de vários exames, coragem, documentos  (uma infinidade) e uma grana considerável, matriculou-se no curso de voo no Aeroclube. Muitas vezes acompanhei-o, dando azo a um espírito esportivo e aventureiro, de óculos escuros, para dar segurança, mostrar interesse e porque também desenvolvi gosto para as técnicas de piloto, curiosidade sobre aviões.


            Assim que ali chegávamos, observava profissionais uniformizados (calça preta, camisa branca, divisas no ombro e o brevet no peito) se movimentando no modesto galpão, situado próximo à cabeceira, batido pelo vento. Meu filho, cara de menino, fascinado por avião, despedia-se, encaminhava-se para o avião que aguardava os comandos para decolar. "É preciso ficar atento, ele diz: um olho no gato, outro no peixe. Quando se voa, é o que acontece. Você tem de atentar ao painel de comandos e no espaço de fora, o espaço prestes a ser trilhado pela aeronave". Continuamente na pista em frente levantam e descem pequenos aviões e helicópteros, esses fazendo um barulho infernal. Detenho-me, curioso, diante de um Cessna 152, que se aproxima em processo de aterrissagem: as rodas tocam o solo, reduzindo o ritmo e a velocidade, mas não era para pouso completo e sim um teste. Logo, em arremetida, o aparelho de aço intensifica o ritmo, em voo mais firme, ganhando novamente altitude. Determinado como um gavião, ajusta a pressão das asas, para voar mais alto e seguro. Lembro-me que, nas estâncias hidrominerais próximas de onde nasci, havia o que o pessoal denominava campo de aviação. Jamais imaginava que um dia teria um filho que iria se aventurar nessa área.



            De manhã, ao se dirigir à aeronave e dela se aproximar, sentiu que o vento forte fazia com que ela rebolasse a cauda. Amarrado em argola fixa no chão de cimento, o aparelho ensaiava uma fuga. Do outro lado da pista, a biruta dos ventos (em forma de cone ou gorro bojudo na abertura e estreito na ponta) agitava-se, aparentemente descontrolada. As aeronaves sempre decolam contra o vento, para que este tome a forma da asa, garantindo a ascensão. Parece que as aeronaves foram feitas para voar e desdenham o tempo em que ficam paradas, presas ao solo; sentem a sedução implacável da altura. Após a partida, o instrutor faz inúmeras operações no painel de instrumentos, uma luzinha acende debaixo da fuselagem. Após alinhar-se na pista, os motores roncam para garantir takeoff.

sábado, 12 de outubro de 2013

A Feira desastrada

      O Ministério da Cultura levou 70 escritores para a Feira Internacional do Livro, na Alemanha, numa demonstração de grandiosa presença cultural no velho mundo. Termina neste fim de semana. A escolha desses setenta notáveis gerou críticas e polêmicas, deixando visível a opção pelos quadros favoráveis ao status quo político.  Ou seja, quem não dança conforme a música ficou de fora. Isso ocorreu, com raras exceções de méritos indiscutíveis e que abrange uma dezena dos 70. Não me peçam a enumeração de nomes. Basta clicar na relação da comitiva e ficará evidente o mérito de uma dezena. Dos 70, conheço de ler a obra exatamente 30 autores. Além desses setenta, mais uns quarenta nomes, que se julgam merecedores de participar da homenagem literária ao Brasil, bateram às portas de agências e instituições para conseguir verbas e se mandaram para Frankfurt. Não sem antes sobrecarregar as redes sociais com textos autoelogiosos, promocionais e ridículos. Enfim, sic transit gloria mundi.



      Os dois mil escritores excluídos da lista da "comitiva oficial" espernearam. O maior escritor brasileiro vivo, (Paulo Coelho), no critério visibilidade mundial, apesar de convidado, escusou-se e criticou as panelinhas e igrejinhas do Ministério da Cultura. Segundo fontes futriqueiras e a Candinha, o autor de O Mago irritou-se por não ser o escolhido para discursar na cerimônia de abertura. Aí está o ipsilone. O discurso na festa de abertura, com toda a pompa e circunstância.  O autor escolhido, o mineiro Luiz Ruffato, fez um discurso realista e direto, criticando a desigualdade social, a violência contra os gays e em geral, a corrupção política, a miséria e todas as mazelas que o mundo informado está farto de saber a respeito do país. A alta cúpula do Ministério da Cultura desmoronou, afirmando não ser aquele o lugar para  "aula de sociologia". Preferiam loas e odes aos verdes mares e às maravilhas tropicais. Em geral os governos abominam a sociologia. No caso em questão, foge dos sociólogos como o diabo da cruz. Ruffato tem declarado que a reação ao seu discurso foi violenta, quase sofreu ataque físico. Compreensível, para quem mora no Brasil e conhece a temperatura e a veemência da (cada vez mais reduzida) militância do PT, partido do governo. Se o Planalto pretendia enganar a mídia, contando que os escritores se prestassem ao papel de moeda para referendar a sua política, se deu mal. Evento cultural é, sim, lugar para conscientizar as pessoas e mostrar o verdadeiro cotidiano do país.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Myriam Campello

   
Livro do mês: Jogo de damas

      A autora não é desconhecida, surgiu na década de 1970, numa geração destemida e obstinada, venceu certames importantes, como o Prêmio Fernando Chináglia, atribuído ao romance de estreia, Cerimônia da noite (1972). Nascida no Rio de Janeiro em 1940, firmou-se como ficcionista de talento, tendo publicado outros romances - Sortilegiu (1981)  São Sebastião blues (1983), Como esquecer (2003), este transformado em filme, - e um livro de contos, Sons e outros frutos (1988).


      Jogo de damas é um romance policial de maturidade, de refinado acabamento, no qual inexistem experiências desordenadas ou caóticas. A passagem do tempo é marcada por meio de uma data, afixada no início dos capítulos. Três núcleos narrativos, correspondentes ao comportamento de três mulheres, interseccionam-se. Num ritmo nervoso, o suspense é trabalhado a cada página, através de imagens duras e impactantes, capazes de arrepiar, criando uma atmosfera de contínua expectativa e terror. Detalhes ameaçadores povoam os relatos, tais como: "...o frio desabando como um machado" (p.19); "uma saraivada de gritos de Mercedes sacudiu os alicerces da casa" (p.103); "...as marretadas do tempo" (p.87);  "uma aranha venenosa" (p.89); "dormia como um martelo" (143). Após a filha de quatro anos ser estraçalhada por um pit-bull, a protagonista norteia seus dias pelo compasso da vingança. As imagens reforçam e ampliam a exasperação, de mistura a um mórbido desfile de mau agouro e presságios. Transtornada pela revolta, uma personagem envereda por trilhas inesperadas e insidiosas, a ponto de amortecer a consciência crítica. Em consonância com as sugestões do título, sem que se perceba, os riscos vão se ajuntando à trama, numa sequência extenuante de fracassos e supostas conquistas. A ambiguidade das ações e o abismo da armadilha revelam-se ao final de forma brusca e trágica. Duca, um agente policial, ex-alcoólatra e viciado em castanha, retoma as rédeas da operação, quando tudo prevê o contrário. A construção do suspense, neste caso, não resulta de peripécias eletrizantes, mas de lances sóbrios e milimetricamente avaliados. 



      Os lances sucedem-se com tal intensidade no interior da protagonista que o leitor aposta em sua capacidade de, no momento certo, aplicar a jogada de mestre, o xeque-mate. Quem será ludibriado? De onde virá a tacada decisiva? Mais nada deve ser dito, sob pena de interferir no elemento surpresa. A autora inscreve-se, em grande estilo, na tradição do melhor romance policial brasileiro, que se enriquece com a sutileza de uma mirada feminina. Papel de qualidade, bem produzida e de bom gosto, a edição.

CAMPELLO, Myriam. O jogo de damas. Rio de Janeiro: Língua geral, 2010.

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

Ivana Arruda Leite

       Participei do Sempre um papo com a escritora paulista Ivana Arruda Leite, no último dia 30, no teatro João Ceschiatti, no Palácio das Artes, aqui em Belo Horizonte. Isso raramente acontece. Não o evento, agora no âmbito do projeto Nova literatura brasileira. Eu sair de casa. Bastante comunicativa e simpática, a autora explicou muitas situações ligadas à construção do romance Alameda Santos (Iluminuras, 2009). O local é acolhedor, com isolamento acústico, excelente iluminação, favorece o intimismo. Pequeno, mas atento, o público interagiu com a autora, que trouxe à tona experiências de seu trabalho literário e breves notícias da cena literária paulista. Nascida em 1951, revelada no bojo da geração noventa, publicou três livros de contos e dois romances; o outro é Hotel novo mundo. 




      Estou lendo Alameda Santos, livro composto a partir de fitas gravadas por uma mulher balzaqueana, após a separação do marido e se embebedar, entre o Natal e o ano Novo de 1984. O mesmo se repete ao fim de outros anos, até 1992. E tome falação feminina, no registro mais coloquial e fonético possível. Os anos loucos em São Paulo da década de 80 são retratados sem retoques sob a ótica de uma dublê de escritora liberal e dona de casa abandonada pelo marido. Confidências de alcova misturam-se a relatos de agitos, amizades gays, traições amorosas, pirações, bebedeiras, boemia, drogas, experiências esotéricas e o escambau. Duas amostras do estilo da narradora, a seguir.



         "Hoje é dia 28 de dezembro de 1986, domingo, 2 e meia da tarde. Eu tô tomando café no sofá da minha casa e gravando essa fita depois de comer uma deliciosa picanha com fritas no Bar das Putas. Finalmente eu tô numa casa só minha com plantas, panelas, frutas, verduras. Ambiente totalmente familiar. Eu e a Gabi voltamos a morar sozinhas". (p. 51)



      "Tinha noite que o Charles me enchia tanto o saco que eu pegava o carro e saía rodando pela cidade pra esfriar a cabeça. Uma vez eu parei no Largo do Arouche, entrei num bar, pedi uma cerveja e só então eu me dei conta de onde eu tava, às três da manhã: num lugar que só tinha puta e marginal. Eu comecei a rir. E o mais engraçado é que não senti um pingo de medo. Pelo contrário, me senti superbem e segura entre aquelas pessoas. Parecia que eu tinha vindo de um lugar muito pior do que aquele". (p.81)



      O livro é divertido, com relatos um tanto desbocados e malucos. A orelha adverte, certeira: "Suas mulheres são patéticas, ridículas, carentes, solitárias mas sem um pingo de autopiedade. Sabem rir de si próprias, perdoarem-se e seguir em frente". Por trás dos dramas individuais, descortina-se o mundo grande do país lutando para se livrar da ditadura, enterrar Tancredo e mergulhar de cabeça no período difícil da era Sarney.

LEITE, Ivana Arruda. Alameda Santos. São Paulo: Iluminuras, 2009.
(As fotos foram tiradas pelo amigo Júlio.)


terça-feira, 10 de setembro de 2013

Encontro com escritores: Murilo Rubião


      No início dos anos 1980, das vezes em que fui à sede do Suplemento literário do Minas Gerais, no prédio da Imprensa Oficial, Avenida Augusto de Lima, em Belo Horizonte, em algumas delas percebi a presença discreta de Murilo Rubião (1916-1991) noutra sala, compenetrado em sua mesa de trabalho. Era um homem alto, calvo, olhos vivos atrás de óculos de aro escuro, bigode aparado, mantinha sempre a elegância de um aristocrata, vestido a rigor, em terno e gravata. Na sua aparência de homem resoluto e erudito, vagava um ar cerimonioso e um temperamento grave. Circulava por vezes na sala da redação, onde era alvo de deferência e admirado por todos, uma legenda, não apenas pela importância de seus contos, mas por ter convivido com Juscelino e ter sido amigo de Mário de Andrade. Não seria inexato afirmar que nossa relação era oblíqua, ele sabia que eu frequentava o jornal.  Habituei-me a vê-lo ocupado em tarefas difusas ou atendendo a escritores vindos de diversas regiões do estado, do país e do exterior. Em face do respeito que lhe devotava, um dos maiores escritores mineiros, de renome internacional, não me aventurava a aproximar-me, para um contato direto, observando o costume mineiro de não importunar ou ocupar-lhe o tempo com futilidade. Só o fazia quando necessário. Como sabia que ele era natural de Carmo de Minas, cidade situada no sul de Minas próxima de Jesuânia, minha terra natal, acalentava o desejo de um dia abordá-lo, para conversar. 


(Na foto, pertencente ao Acervo de escritores mineiros, da UFMG, da esquerda para a direita, o escritor Murilo Rubião e o presidente Juscelino Kubitscheck)

      Lembro-me de me deparar ali com Murilo Mendes, Emílio Moura, Ildeu Brandão, Francisco Iglésias, Rui Mourão, Luís Vilela, Sérgio Santana, Affonso Ávila, Laís Correa de Araújo, Roberto Drumond, Wander Piroli. Por lá passaram também Ana Hatherly, Tzvetan Todorov, Curt Lange, Roman Jakobson, Clarice Lispector, entre outros. Dentre os mais jovens, contavam-se Libério Neves, Adão Ventura, Márcio Sampaio, Carlos Roberto Pelegrini, Jaime Prado Gouvêa, Duílio Gomes, Humberto Werneck, funcionários da redação em épocas variadas, escolhidos a dedo. Murilo Rubião fundou o Suplemento literário em fins dos anos 1960, o local era o prolongamento de sua casa: dava mostras de sentir gosto em conviver com os jovens escritores e ilustradores. Eu lecionava em cursos pré-vestibulares, tinha publicado em 1971 resenhas no Suplemento literário do Estadão, ainda não fizera concurso para a UFMG, o que iria ocorrer em 1982. Colaborava no jornal com alguma ficção e resenhas, algumas encomendadas. A colaboração rendia um pro-labore nada desprezível, como incentivo para o trabalho das letras.
      Murilo Rubião era um escritor reconhecido internacionalmente, objeto de homenagens e artigos escritos por intelectuais do porte de Álvaro Lins, Fausto Cunha, Antonio Candido, Otto Maria Carpeaux, Fábio Lucas e Jorge Schwartz. Os livros principais estavam publicados. O renome como autor fantástico ultrapassava fronteiras nacionais, corria mundo. Todos sabiam de suas relações com Cortazar, os irmãos Campos, Décio Pignatari, Clarice Lispector, Carlos Drummond de Andrade, Boris Schnaiderman. Era um nome definitivamente canônico. Quando foi indicado no vestibular da PUC o livro O Pirotécnico Zacarias, os professores de literatura do Colégio Pitágoras Pitágoras fizemos-lhe uma visita. Acolheu-nos atencioso em seu apartamento e foi no meu livro que ele assinalou algumas passagens da nota biográfica e deu autógrafo, nomeando todos os presentes: Para Graça, Wilma, Edgard, Marly, Paulo, Hélio, Delson, Ângela e Lucy.
      Além da literatura, o local de origem também nos aproximava. Uma única vez o procurei, para conversar sobre o sul de Minas, certo de que o assunto fosse de seu agrado. Não era, mencionou vagamente uns parentes feiosos, de olhos arregalados, referiu-se por alto à cidade de São Lourenço e o papo não prosperou.  Devo-lhe o empenho na publicação de um conto ousado, “Hoje é noite de rock”, no Suplemento literário MG. Segundo me confidenciou um membro do conselho editorial, o poeta Pascoal Motta, o conto só foi publicado porque Murilo Rubião foi-lhe favorável. Os outros avaliadores teriam votado contra, tendo em vista a ambiguidade sexual explorada na trama.


terça-feira, 3 de setembro de 2013

Gastão Cruz

         
Livro do mês:

       Como é sabido, Gastão Cruz fez parte de poesia 61, a publicação coletiva que reuniu, além dele, Fiama H. Pais Brandão, Casimiro de Brito, Maria Teresa Horta e Luiza Neto Jorge em torno de um projeto polêmico de valorização da fragmentação sintática e de distanciamento do sujeito na poesia. O poema buscava em si mesmo uma densidade significativa, cujos suportes se firmavam ora numa estrutura rígida de auto-referência, ora numa rede de ressonâncias contextuais. Uma das heranças dessa aprendizagem estética consistiu precisamente no desenvolvimento de uma forte lucidez crítica diante dos excessos confessionais. Se em Campânula (1978) o compromisso metalinguístico é entranhado, gerando uma notável reflexão sobre os limites o os modos de organização da linguagem poética, a partir de Órgão de luzes (1981), desenvolve um percurso temático revelador de um certo afastamento do espaço público ou teórico, desaguando no domínio do próprio sujeito, com ênfase e acento nos desdobramentos da alteridade e da sexualidade. Autor de mais de 18 livros de poesia, um dos mais importantes poetas em atividade em Portugal, com uma trajetória fundada na coerência e no rigor, Gastão Cruz é também um competente crítico de literatura, tendo publicado em 1973 uma obra fundamental para o estudo da poesia portuguesa contemporânea – A poesia portuguesa hoje.

Com As pedras negras, estamos diante de uma poética extremamente sofisticada e contida, em que a perturbadora obscuridade se torna um constante desafio. Não temo afirmar ser este um dos mais belos livros de poesia que li nos últimos vinte anos. A brevidade dos poemas, a simplicidade dos títulos, em muitos casos retomando o diálogo cultural, não conseguem camuflar um sentido cada vez mais fugidio e disperso.  Práticas poéticas como esta elegem seus leitores preferenciais – aqueles que a elas se entregam na perspectiva consciente de um entendimento facultado ao fim de um longo processo de concentração: “a idade lerá/ sobre um longo silêncio a palavra” (p.17). Uma visão de conjunto perceberá uma vasta constelação de motivos ou núcleos (embora não haja subdivisões explícitas) que se repetem de três a cinco vezes, de forma alternada e intensa: a série da cidade, geradora de amplas irradiações, inicia-se no segundo poema, de forma quase programática: “Ah, o olhar viaja/ nessas câmaras frágeis/ que interrogam o brilho das cidades” (p. 10), disseminando-se em mais cinco poemas: “Outubro”, no qual lemos o fragmento há pouco citado; seguido de “Sons”, em que os vetores urbanos adquirem um contorno vago: “Os sons passam ao longe/ no seu interior como noutra cidade”. O cenário urbano prossegue ainda em outros textos, desenhando o amplo espectro da representação - sejam as “Grandes cidades afogadas em fumo...”, mencionadas em “Cidades” ou o ceticismo insinuado no poema "Nosso tempo": “Não se pode escolher para o silêncio/ uma cidade ouvida quando os dias/ como estranhas fachadas se separam”, retornando um pouco adiante, em “After long silence”: “A cidade// voltará a chamar-me...”.


Sucedem-se outras séries, entre elas, a da poesia, a da casa, a do mar, a do tempo, a do espelho, a das margens, mas, sobretudo e de forma celebratória ou ritualística, a da morte com suas “estrelas de sombra”, seus corpos enevoados e em chamas: “em chamas/ era o corpo da tarde celebrado” (p.23); “não me detenhas/ enquanto o corpo eterno / arde na tarde” (p.24). O trabalho de luto (a dedicatória “à memória do Carlos Fernando”, a tarja e os signos negros da capa) retorna com uma intensidade de prece ou de escrita desesperada diante das oxidações operadas pelo tempo, as diversas formas de erosão com que somos obrigados a conviver: “Mas o/ rosto sem luz vence-te/ como se a vida visses com os olhos/ da face enevoada” (p.56). Os poemas elegíacos atingem uma altitude e intensidade emotiva raras vezes alcançada na literatura contemporânea, configurando a ideia desconcertante da permanência da fantasia colorida do sonho e da criação, mesmo em face da corrosão, do ar calcinado dos motores e da inevitável oxidação gelada das células, como no belíssimo poema “No mar”, um dos mais longos do livro:

Quereriam ouvir-te respirar,
mundo mudado, os que no mar excêntrico
soltam braços, lembrados de que
o ar
não  os pode salvar Mas é idêntico
ao ar o mar sem
centro, figura

que fulgura fora do teu
corpo de mármore, lavrado
pelo tempo, mundo a
que não pertencem os náufragos
amados e um dia perdidos
nesse líquido frio
indivisível Se pudessem ouvir

o teu sopro, seriam
devolvidos aos veios do visível
divisível? As estrelas de
sombra desfazendo
um céu sem falhas deixariam
cair sobre eles
de novo a sua cinza   (p.36)

O que se perde em forma ganha-se em tempo, concebido como eternidade: o corpo perdido torna-se único e definitivo através da morte, esta talvez seja outra possibilidade sugerida pela ausência de pontuação e imediata intersecção de planos sintagmáticos, anulando espaços entre o “líquido frio indivisível” da palavra e “os veios do visível divisível” da emoção. Paralela à extensa reflexão sobre o tempo e a morte, a escrita poética de Gastão Cruz instala mais a hesitação e a alternativa do que a pergunta e a dúvida, estabelecendo contiguidade entre os poemas, forçando a flutuação e contaminação dos sentidos.
Como se tratasse de uma estrutura explodindo sobre si mesma, retomando traços expressivos de poesia 61, o sujeito de enunciação, entretanto, reaparece, ainda que deixando uma suspeição a respeito da poesia como confidência: “Nada nos desconhece como a arte/ o que nos dizem sobre os sentimentos/ essas frases?” (p.25).  Ao longo de todo o livro, sucedem-se, estilhaçadas, as alusões e imagens sobre a incoerência do sistema em que se assenta a ordem das coisas, o camoniano desconcerto do mundo, percebido por um olhar cético, hesitante entre a escuridão do mundo individual e o brilho enganador das cidades que engendra a elaboração salvadora de quimeras: “... A cidade// voltará a chamar-me” (p.17). Ainda que nos espaços calcinados permaneça o brado desconcertante: “Estamos vivos e já não temos tempo” (p. 37).


CRUZ, Gastão. As pedras negras. Lisboa: Relógio d’água, 1995.


terça-feira, 20 de agosto de 2013

A Bravo! já era

      A revista Bravo! fechou. Parou de circular. Como aconteceu com o Jornal do Brasil, recentemente, como há mais tempo aconteceu com O Pasquim, Opinião, Movimento, Afinal, Bondinho.  Se voltamos no tempo, seria o caso de lamentarmos o desaparecimento de O Cruzeiro, Manchete, Senhor, revistas que também fizeram sucesso há mais de 4 décadas.


      Bravo! era uma revista de cultura, cobria artes e espetáculos, contava com uma seleção de colaboradores excepcionais. O escritor Marcelo Rubens Paiva externa seu desacordo com a decisão da editora Abril: "O fechamento da Bravo é a prova de que alimentar o cérebro não está mais entre as prioridades. A reestruturação da maior editora dá sinais de que o brasileiro quer viver mais sem se preocupar em saber menos", escreve no seu blog do Estadão. Continuam as publicações que priorizam o cuidado com a saúde e o corpo, como Boa Forma, Men's Health, Viva mais, Máxima, Estilo, Manequim.
      A Bravo! era a menina dos olhos de Roberto Civita, morto em maio. A alegação da editora é que a revista estava, sempre fora deficitária. Teria 20 mil assinantes e 8 mil compradores em banca, o que era pouco para a manutenção de uma equipe de alto nível, formato de luxo, papel de qualidade. Para piorar, poucos anúncios. Os publicitários acreditam que anunciar em revista de alta cultura traz pouco retorno aos grandes anunciantes, visto que os leitores desse gênero são críticos e exigentes. Lamentável. 

domingo, 18 de agosto de 2013

Basta um click

... pressentia que há muito que ver na vida, ainda que fosse através da televisão, aparelho forçosamente integrado ao correr das horas, nem que fosse para esquecer logo em seguida, na tela acompanhava uma banda desbundada, volume altíssimo, zoeira delirante,  luzes e cores fortes, o guitarrista exercita acordes psicodélicos, roupa extravagante, na plateia pessoas balançam o  corpo e a cabeça em ritmo alucinado, a letra fala em estrelas, naves turbinadas, loucas viagens siderais;

                                                  (Protestos no Egito, Foto Reuters)
... gladiadores contemporâneos se estapeiam e agridem, lutadores musculosos em shorts compressores caem no tatame atracados, grudados se esbofeteiam e distribuem socos para todos os lados, rostos sangram, o mais esperto consegue imobilizar o adversário, subjugado quase a ponto de perder o fôlego;

...zapeava programas, de forma aleatória, no mundial de atletismo focava a corrida dos 200 metros para mulheres, o uniforme das jamaicanas parecia com o uniforme das brasileiras, mas não havia brasileiras, mulheres musculosas, corpo de homens, as jamaicanas em uniforme verde a amarelo, as atletas corriam como foguetes disparados;
... difícil ficar indiferente às imagens, tela grande, noutro canal uma atriz americana era entrevistada, externava sua experiência em figurar em filmes de ação, o interesse em estrelar ao lado de tom cruise, ser dirigida por profissionais daquele quilate;
...em noticiário da bbc arrolavam as últimas manifestações na praça ramsés, no cairo, mais de sessenta mortos, rostos sangrando, tiros e bombas explodindo, na verdade estaria mais satisfeito seguindo uma partida de futebol entre clubes brasileiros, a catimba na posse de bola, os dribles geniais, a explosão da torcida no grito de goooool.
 

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Vianna Moog

Livro do mês:

      Acabo de ler um romance difícil: nas primeiras páginas, tentei abandonar, entre outras coisas, por estar vazado em linguagem excessivamente clássica e purista. Sem falar nos torneios frasais um tanto pomposos, alguma colocação pronominal próxima da sintaxe lusa, uma afinação estreita aos parâmetros realistas. A descoberta de um grande escritor, com domínio de amplas descrições e o tom polêmico da trama acabaram me dobrando. Trata-se de Um rio imita o Reno, romance publicado em 1938 por Vianna Moog (1906-1988), intelectual gaúcho versado em sociologia, filosofia e literatura, merecidamente elogiado pelo estudo Bandeirantes e pioneiros (1954) e por um clássico ensaio, Eça de Queirós e o século XIX, (1938). Membro da Academia Brasileira de Letras, o autor desempenhou funções diplomáticas em Nova York e no México, tendo escrito mais dois romances, Uma jangada para Ulisses (1959) e Tóia (1962).


     As quatro estações estruturam o enredo que acompanha a malograda trajetória afetiva de um engenheiro amazonense, contratado para construir uma represa, no intuito de solucionar o problema da água potável numa cidade do Rio Grande do Sul, a fictícia Brumental, identificada com São Leopoldo, banhada pelo rio dos Sinos. Geraldo Torres, brasileiro de origem indígena, apaixona-se por Lore Wolff descendente de alemães, orgulhosos de sua ascendência germânica e superioridade racial. Com o namoro interditado pela família da moça, as sanções contra o engenheiro acabam em perseguição política, gerando o seu afastamento da cidade e a suspensão do projeto de saneamento básico. Na sequência, a moça adoece gravemente de febre tifóide, da qual se livra custosamente. A família acalenta o sonho de casá-la com um primo alemão, médico famoso que, ao final, em visita à colônia, traz informes negativos a respeito da Alemanha real. O máximo da decepção fica por conta da descoberta oficial de que os Wolffs têm sangue judeu. O depoimento de Otto sobre o nazismo é arrasador:
      "Ora! Isso é uma realidade de parada. A realidade cotidiana é negra: os campos de concentração... aperturas de toda sorte, perseguições, barbaridades, banimentos, assassínios..." (p.211)


      Apesar da moldura tradicional, o desenlace usa de forma ousada o recurso do corte e do suspense. Enquanto no Rio de Janeiro o engenheiro se esforça em reestruturar sua vida, ainda atormentado pela recordação de Lore, a milhares de quilômetros, no sul a moça "numa absurda e alvoroçada esperança", após uma tempestade de primavera, aparenta avistar na rua o vulto do amazonense que teria voltado. "Ele era moreno como o chão do pátio, como a casca dos pinheiros, tinha a poesia do vento, a força do sol. Era filho duma terra nova, duma raça adolescente, duma civilização diferente da europeia, duma civilização sem preconceitos absurdos, sem a obsessão do heroísmo e da guerra" (p.218). Em sua imaginação ele volta. O sobrinho, louro, de olhos azuis,  entrega-se a uma atividade sempre proibida: brinca na rua com moleques morenos.  

      A envolver uma história de amor contrariado, temos a reconstituição rigorosa dos costumes e do substrato ideológico e histórico da época da imigração alemã no sul do país. Num trabalho ficcional pautado pelo racionalismo, clareza e amplitude representativa, o cenário regional presta-se a um forte embate, em que culturas distintas mostram a nitidez de suas idiossincrasias. A difícil convivência entre brasileiros e descendentes de alemães, em contexto de acentuada expansão da ideologia da superioridade étnica ariana, motiva a que o narrador transforme o protagonista em porta voz de sua denúncia contra a intolerância e o obscurantismo. Vianna Moog condena o isolamento e a supremacia racial, como práticas nocivas na construção de uma sociedade cordial, que só teria vantagens em intensificar as relações étnicas. De forma enviesada, seu projeto ficcional  tem afinidades com o projeto nacionalista da ditadura de Vargas. A atualidade do livro pode ser constatada ainda pelos debates e temas abordados, como a revalidação do diploma médico para estrangeiros, as misturas raciais ocorridas no país, a importância da imigração para o desenvolvimento.  Bem estruturado, o romance desenvolve sem disfarces uma tese, sem deixar de ser uma construção ficcional inteiriça e envolvente, fruto de um engajamento nacionalista convincente e implacável.   

MOOG, Vianna. Um rio imita o Reno. 11ª  ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2012.                                                            

domingo, 28 de julho de 2013

Inhotim, arte e natureza

      Esqueçamos por alguns instantes o lado cruel e violento da realidade, as notícias manchadas de corrupção, as previsões pessimistas de intelectuais sobre a decadência cultural do nosso temo. Para Vargas Llosa, o nosso é um tempo perdido, no qual só há espaço para a cultura do entretenimento. Diante da realidade brasileira, os informes são pouco animadores, o país parece naufragar em ondas de miséria e pouco interesse oficial em apresentar soluções concretas para as questões prementes de saúde, educação, segurança social e qualidade de vida. Os políticos continuam voando em jatos da FAB em viagens de lazer e para atender apadrinhados; embaixadas onerosas multiplicam-se em todos os quadrantes, mesmo em ilhotas caribenhas sem afinidades históricas e comerciais com o país; doações milionárias secretas são feitas a republiquetas tirânicas de África; os 39 ministérios (quarenta é número dos ladrões de Ali-Babá) continuam em atividade de rapinagem, troca de favores, incompetência e propaganda enganosa. 


      Falemos de arte e natureza. Falemos de experiências positivas e práticas exemplares como suporte para a produção, divulgação e reflexão sobre o trabalho artístico e cultural. Minas Gerais sempre teve um papel pioneiro, nesse tipo de empreitada voltada para a vanguarda e a experimentação. Localizado em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte, Inhotim é um complexo instituto de arte contemporânea, botânica e meio ambiente. O acervo artístico inclui mais de 500 obras, executadas por 97 artistas nacionais e estrangeiros, de 30 nacionalidades, com ênfase na produção desde os anos sessenta. São mais de 4 500 espécies de plantas nativas e exóticas, distribuídas no espaço de uma antiga fazenda no sertão do rio Paraopeba.


      Referência consolidada de arte contemporânea no país, o complexo abriga mostras permanentes e temporárias de renomados artistas nacionais e internacionais, espalhadas em galerias, pavilhões e jardins.


      A grande novidade é a bem sucedida relação entre a arquitetura, a paisagem e a atividade específica de um museu, qual seja a de abrigar e expor obras de arte. Além de ser um local onde o público tem acesso a importante acervo da arte contemporânea, com obras assinadas por nomes como Adriana Varejão, Tunga, Cildo Meireles, Cris Burden, Hélio Oiticica e Neville d'Almeida, Iran do Espírito Santo, Burle Marx, Ligia Pape, Amilcar de Castro, entre outros, Inhotim as integra em cenário natural ou em pavilhões específicos. 


      O visitante interage com algumas peças, conhece um acervo significativo e integra-se num cenário natural surpreendente, em que a natureza é não apenas preservada, mas enriquecida com intervenções lúdicas e provocantes. 

      (As fotos são de Gabriel Pereira Reis)

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Literatura e sociedade



     É conhecida a hegemonia que a atividade das letras gozava no Brasil colonial, que vigora mesmo depois da independência. Por vigência de uma tradição portuguesa, de desvalorização do trabalho manual e artesanal, esta tendência persiste desde o período colonial até meados do século XIX. Por força do ensino jesuítico, com ênfase no literário e retórico, a atividade intelectual confundia-se com os interesses da classe dominante, detentora de grandes propriedades rurais.
            Nesse contexto histórico, a atividade intelectual era encarada pela maioria dos literatos como treinamento para conquistar altos cargos, como observa Nelson Werneck Sodré, como forma de “suprir ilusoriamente a propriedade da terra e os privilégios de nascimento” (SODRÉ, 1974, 36). Como não podia deixar de ser, nesse paradigma de sociedade, o intelectual é visto como o natural intérprete dos interesses da classe dominante. Complementa Sodré: “Numa estrutura social como a existente no Brasil do início do século XIX, a camada intermediária, em que são recrutados os intelectuais, deveria depender da classe dominante, cujos padrões aceita e consagra” (SODRÉ, 1974, 35). Deriva dessa circunstância o “timbre aristocrático” que passa a caracterizar a atividade cultural no país.
            Desprovida de função pragmática, a incipiente elite intelectual passa a ser cooptada pela elite dominante, como porta-voz de suas aspirações e interesses. Distanciada dos empreendimentos produtivos, relacionados que fossem à análise da constituição geológica, a pesquisa científica específica inexiste. Afastada do povo, a elite, incrementada pelo regime escravocrata, incentiva a atividade intelectual, dando azo à disseminação do descaso pela atividade física e o trabalho mecânico.
            “A atividade intelectual, que chega demasiado tarde na colônia, apresenta-se, então, aos elementos da camada intermediária, como via de acesso social, e a cultura é apreciada tão-somente nesse sentido, cultivada para ser ostentada, exteriorizada, não para prazer próprio ou pela utilidade em si. (...) A cultura que tinha por finalidade não o saber, mas o diploma – que funcionava como título de enobrecimento - seria, consequentemente, literária e abstrata, transmitida por métodos que se baseavam, não sobre a ação e o concreto, mas sobre a leitura, o comentário e a especulação” (SODRÉ, 1974, 36).
            Esse posicionamento ilhado, neutro, do intelectual, em face dos efetivos e reais problemas da realidade satisfaz aos interesses da classe dominante, na medida em que sufoca a possibilidade de crítica e oposição. As vozes dissonantes contam-se nos dedos e, só para ficar no âmbito do Romantismo, poucos são os intelectuais com significativo engajamento nos movimentos sociais: Castro Alves e Tobias Barreto, envolvidos numa causa de forte apelo humanista. Isto não valida afirmar que os outros são alienados: produziram um soberbo painel do seu tempo. A adesão a qualquer forma de luta social não é um pressuposto essencial à literatura; o interesse em conhecer e registrar de forma consequente a dinâmica da existência humana, em sua constelada diversidade, constitui a melhor forma de engajamento, no caso do escritor.

           
      Talvez se possa referir um corte epistemológico, nesse estado de coisas, a partir de meados do século XIX. Desde a forçosa integração ao movimento internacional de acumulação capitalista, iniciada ainda no período colonial, o Brasil evolui, assimilando traços da civilização europeia, sem deixar de integrar costumes, tradições e valores forjados em rica miscigenação cultural. Desse perfil multifacetado e do esforço de compreendê-lo, surgem obras e tratados de análise, realizados por cientistas sociais (Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freire). Na outra ponta, não menos importante, os escritores de variadas tendências registram a formidável experiência de vida nos diversos quadrantes do território. Esta atividade individual requer uma complexa formação, além de uma disposição de compreender em profundidade o tempo que a cada um foi dado viver e conhecer.
            Alguns antagonismos revelam-se significativos na produção intelectual brasileira: o individual e o coletivo, a autonomia e a dependência, a utopia e o senso crítico. Desde meados do século XIX, estas e outras oposições, fortemente decalcadas por vetores da economia e de classes sociais, delineiam-se como filtros, cada vez mais aperfeiçoados, de uma representação alegórica ou panorâmica da realidade. Ao contrário da produção científica, por natureza associativa, e da cultura popular, que pressupõe continuidade nos fluxos de criação e consumo, a criação literária revela-se como síntese de intensa maturação subjetiva. Insere-se num processo coletivo que envolve outros atores, tais como mercado, tradição literária, editor, leitor. Roberto Schwarz, em Que horas são? (1987), discute tais questões, de forma extremamente lúcida. Após apresentar argumentos a favor da literatura como “um processo coletivo de produção”, assevera que esse entendimento pode contribuir para “o esquecimento desta outra dimensão extraordinária da literatura, em que munido de papel e tinta e de sua experiência, sem a intenção de completar o que disse fulano nem de ser completado mais adiante por beltrano, como seria o caso no trabalho científico, e sem considerações também de oportunidade política ou comercial, um homem tanta dizer aqui e agora o sentido da vida atual” (SCHWARZ, 1987, p.159-160).
            A relação escritor/sociedade é sempre uma relação dialética. Longe de ser esta uma assertiva marxista fortuita, tenta perceber os processos de mútua influência e cumplicidade entre as duas instâncias. A verdadeira inserção histórica de um escritor ocorre na medida em que se mostra receptivo à tarefa de registrar as práticas e contradições existenciais de seu tempo.

SODRÉ, Nelson Werneck. Síntese de história da cultura brasileira. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1974.

SCHWARZ, Roberto. “Crise e literatura”. Que horas são? São Paulo: Companhia das letras, 1987, p.157-163. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Helder Moura Pereira

Livro do mês: Eu depois inventei o resto



      No primeiro semestre, registramos a presença de Helder Moura Pereira em dose dupla. O poeta português, que estreou em companhia de (hoje) importantes nomes da literatura de seu país, num singular e distante Cartucho (1976), uma sacola, lacrada a chumbinho e cordel, com poemas amassados dentro, reaparece em dois lançamentos quase simultâneos. Em coletânea de maior fôlego, na sequência de mais de 20 livros de poesia, foi lançado Pela parte que me toca, em selo da Assírio & Alvim. Desde o volume Um raio de sol (2000), esta tem sido a chancela dos livros de HMP. Em fôlego reduzido, mas de dimensão não menos significativa, surge Eu depois inventei o resto, edição limitadíssima, sob a chancela de Companhia das ilhas, dos Açores. Em outros momentos, o autor reabasteceu seu trabalho lírico através de pequenas edições, (Cf. Em cima do acontecimento, de 1995).


            O segundo título revela a disposição de mergulhar em trilhas que descortinam a tênue fronteira entre vida e poesia. Neste âmbito, de suposta ressonância autobiográfica, emergem subsídios de uma criação receptiva às variações de um real supostamente vivido. Em dezessete poemas, fragmentos ligeiros alcançam por vezes efeitos surpreendentes, capazes de iluminar zonas obscuras de um percurso intrigante, iniciado em voo solo, há quarenta anos, “entre o deserto e a vertigem”. Se procurarmos na história literária os ecos desse “resto” (mencionado no título), encontraremos inúmeros estilhaços; um deles, em célebre poema de Verlaine, finaliza uma arte poética: “e todo o resto é literatura”.  O livrinho fecha-se também nomeando esse resto, em cujo limiar, como antevéspera de uma aprendizagem, são delineadas situações aparentemente esdrúxulas, aprender a beber e a escrever, ainda que intimamente relacionadas pelos efeitos de mudança sugeridos:
           
            No meu tempo, ah, dizer no meu
            tempo é engraçado, havia pais
            que levavam os filhos às putas.
(...) O meu pai não
me levou a nenhuma coisa dessas,
mas deu-me o primeiro vinho a provar
e ensinou-me a escrever. Eu
depois inventei o resto.


Os índices ligados à sexualidade resultam sempre intrigantes, quando não indiciam um atalho escorregadio em direção à previsibilidade.  Apesar de certa ênfase na temática sexual, a postura de um observador outsider, paralisado em perplexidade insiste em provocar o garoto flagrado: “Abri a porta da casa de banho/ e vi rapazes e raparigas de rabo/ ao léu, tudo ao molho, a darem-se/ reguadas e aos risinhos./ Eu nunca tinha visto nada assim/ de muito sexual e fiquei intrigado”.
Nesta coletânea, o uso de um registro próximo da prosa e de uma sintaxe enrijecida surpreende num poeta de configuração fortemente marcada pela ambiguidade, leveza da léxico e sutileza de enquadramentos frasais. Só não lhe podemos exigir falta de unidade e ligadura. A descoberta da sexualidade impõe-se como tema.
 Os breves poemas, de estrutura simples e linear, contam pequenos episódios, revivendo jogos, traições, espantalhos, tarefas escolares, amizades, segredos, descobertas, búzios, - todo um percurso insuspeito de situações projetadas no universo fantasioso da infância. No bojo das recordações, uma ponta de mistério recobre um detalhe. Quase tudo se afirma, mas nem tudo se diz.  Apesar do apelo ao factual aparentemente ingênuo, alguma nota macula o paraíso; as coisas, por mais singelas e ingênuas, carregam também uma nesga de espanto e terror. Os despretensiosos episódios têm fim, ganham um ponto final no papel, mas permanecem como enigmas para quem os lê, pouco edificantes e repousantes. Vamos nos deter num poema:

            Eu ia para a bola com uma bandeirinha
            Na mão. Puxaram-me para um vão
            De escada e disseram vou fazer de ti
            Um homem. Foi rápido o tempo
            Que demorou a fazer de mim um homem.
            Quando cheguei ao campo dos arcos
            Ainda estava a dar a constituição das equipas.

(Antes de prosseguir, impõe-se um parêntese, para elucidar alguns problemas de monta. Os múltiplos caminhos que se oferecem ao profissional da literatura, aquele que se dedica à crítica e à pesquisa literária, encontram sua base mais moderna em formulações da linguística, da semântica e da semiótica. Caso queira este estudioso fugir do terreno da história da literatura, onde impera o que Eduardo Prado Coelho rotula de “caos habilmente dissimulado”, cristalizado numa fundamentação teórica em que vale quase tudo (biografia, sociologia, psicologismo, influências), deverá municiar-se dos métodos e pressupostos oriundos das três áreas de saber referidas há pouco. O que muda é o enfoque diante do texto, na busca de  perceber os índices de sua literariedade, termo usado pelos formalistas russos para determinar o conhecimento específico da ciência literária: os recursos de linguagem, (do ritmo à metonímia) e as formas literárias (a retórica, os gêneros literários). A contribuição dos formalistas russos fundamenta o movimento de fuga em relação aos métodos tradicionais da história literária.)
Mas voltemos ao livro de Moura Pereira. Passávamos em revista alguns poemas, nos quais se percebia a ênfase no referente da sexualidade e do desejo. A turbulência toma conta do garoto ao se dar conta de intensas mudanças: “E a primeira vez que me senti/ foi a pensar em ti. Foi tão bom”. De volta ao poema citado. Irônico, elíptico, o texto nada julga ou pondera. Enumera os vários lances de um episódio da infância, mas deixa subentendidos alguns sinais: “bandeirinha na mão”, jogo de bola, o “vão da escada”, para onde foi puxado e onde foi dito que iam fazer do garoto um homem. Estes elementos denotativos contam uma história, o enquadramento total parece incompleto. Se nos dispomos a juntar possíveis ilações (hermenêuticas), somos levados a considerar a possibilidade de um banal jogo de futebol na infância. O futebol tem lá suas regras (“bandeirinha” indicia um dos juízes?), seus processos e ritos (“a constituição das equipas”). No intervalo do jogo, a violência: “Puxaram-me para um vão/ de escada e disseram vou fazer de ti/ um homem.” Tudo à volta de um objetivo proclamado: alguém fazer de um garoto um homem, com tudo que isso possa representar, estas as realidades ditas pelo poema.
(Outro parêntese, direto. O grande risco da leitura literária é reduzir o texto a um único sentido, o que seria sufocá-lo. Qualquer sentido é sempre um ponto de partida, nunca o lugar de chegada definitiva. Um dos debates mais produtivos ocorridos na teoria literária nas últimas décadas diz respeito à natureza infinita do sentido de um texto. Não há um sentido único.)
Ora bolas, bandeirinha, jogo de bola e vão de escada. Talvez a infância seja/ não seja um paraíso justamente porque possibilita o mistério de abrigar essas coisas fluidas, pontuais, contraditórias, ambíguas.

PEREIRA, Helder Moura. Eu depois inventei o resto. Lajes do Pico: Companhia das ilhas, 2013. Col. Azulcobalto. 28p.
Cf. como fundamentação teórica:

COELHO, Eduardo Prado. A letra litoral. Lisboa: Moraes, 1979.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Léa Nilce Mesquita

      Não foi só o país que acordou e foi às ruas para expressar algum tipo de protesto. Alguns talentos, adormecidos há algum tempo, também foram chacoalhados pelos gritos das ruas. Tal se pode afirmar de Léa Nilse Mesquita (que era Nilce), poeta rigorosa e de muitos recursos, despertada por força da veemência das ruas. No bilhete em que autoriza a divulgação do poema, ela insiste que "repentista gosta de espalhar seu canto e folheto pelas praças".


No calor da hora

                17/6/13,
                noite  

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

Quero a viagem
sem cobranças,
portas sem trancas,
entradas sem catracas,
chutar o pau da barraca
com meu direito
de eleito (sem  pleito)
ao transporte,
ao esporte,
à escola,
à cola,
ao prato na mesa,
à meia,
paga pela inteira,
à terra, à bolsa-tudo,
à vida no outro mundo
possível, que inundo
da paz com a minha agressão,
do meu refrão...

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

Quero a vadiagem,
o oba-oba,
tirar a roupa
para o papa,
atirar empregada
contra patroa
e, numa boa,
gritar não
à repressão
da Cracolândia.
Quero a Banânia,
autoridades surdas
ao medo das ruas,
aos prédios em alarme,
mas que desarmem
o simples cidadão,
este perigo,
este inimigo
do meu refrão...

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

Quero a postagem
do meu torpedo
furando o bloqueio
dos olhos arregalados
do espanto calado
de antes
diante
da minha determinação
ao futuro da nação:
“Cumpra-se no ato,
é dever do Estado
tudo dar
ao menor de 30
e ao maior menor se sinta;
do resto, cobrar
a conta
de ponta a ponta,
eliminando-se os dispostos
a contrariar o imposto,
fora do cordão
do meu refrão...”

Faça-se
o passe
livre,
que obrigue
ao outro
o imposto
à minha passagem!

                                    Léa Nilse Mesquita