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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um poema de Lúcio Cardoso


      Receita de homem
Lúcio Cardoso





Depois deve ser alto,
sem lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso para que se encontre
tons de sol de agosto em seus cabelos.
E nem louro demais para que, de repente
no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes, também, porque não,
para que os regressos sejam breves
e haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem, falem sempre, falem
de amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso relembre um pouco da infância,
para que se tenha, no fervor do beijo,
uma memória de pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante, sem cantar
por toda a sua humana contextura,
para que também em torno dele as coisas cantem,
quando, como o primeiro homem,
nu ele se erguer defronte ao mar.

Canto do Rio, 3/XII/55

CARDOSO, Lúcio. Poesia completa. Ed. crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo: Edusp, 2011.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Centenário de Lúcio Cardoso

      2012 no fim, mas antes que termine, cabe lembrar o centenário de nascimento de Lúcio Cardoso - em Curvelo, MG, em 14 de agosto de 1912, falecido no Rio de Janeiro, a 24 de set. de 1968. Surgiu como escritor com Maleita, novela de traços regionalistas, em 1934, influenciado pelo neorrealismo, reconhecido por críticos e autores numa época em que a ficção de cunho social estava na moda. Em 1935 publica Salgueiro, novela sobre o morro homônimo do Rio, na mesma tendência. Com A luz do subsolo, romance de 1936, o autor adere à ficção intimista, de análise psicológica, na qual viria a se notabilizar, como o principal representante no Brasil. Nessa vertente, seu trabalho encontra parceiros em Octávio de Faria, Cornélio Pena, Josué Montello, Erico Verissimo, José Geraldo Vieira e Clarice Lispector. Com os dois primeiros passa a ser conhecido como o grupo de ficcionistas católicos, atormentados pela questões ligadas à dúvida religiosa, ao sentimento de culpa e à decadência. Em 1938, aparece Mãos vazias, novela impregnada de inquietação, angústia e sentimento de impotência. Em 1941, com a novela O desconhecido, Lúcio Cardoso retorna ao ambiente de Minas Gerais, ao empreender a análise de um indivíduo, cujo passado permanece ignorado, que se estabelece como trabalhador numa fazenda. As relações de José Roberto, o protagonista, com a velha proprietária, que tenta enredá-lo em sua teia dominadora, e com outros funcionários subalternos delineiam o pano de fundo da trama, cheia de peripécias, assassinato e fuga espetacular. Dias perdidos, o romance dado a lume em 1943, assinala em definitivo a consolidação do autor como romancista, desta vez operando com elementos autobiográficos. Em 1944, publica a novela Inácio, que prossegue em O enfeitiçado (escrito em 1947, lançado em 1954) e Baltazar, só publicada em 2000, formando a trilogia por ele denominada "Mundo sem Deus". O sentimento do ódio torna-se a temática básica de duas novelas, A profesora Hilda e O anfiteatro (1945). A consagração como romancista ocorre com Crônica da casa assassinada, de 1959, ponto alto em arquitetura narrativa, densidade dramática, escavação psicológica e espessura trágica, ao sugerir o debate em torno de paixões incontroláveis e do incesto. Como atividade paralela, simultânea à escrita dos romances, o autor dedicava-se à poesia, ao registro de um caudaloso diário, a roteiros cinematográficos e peças de teatro. Atingido em 1962 por um AVC, que lhe paralisou metade do corpo, encontrou nos últimos anos na pintura sua forma de expressão. 
      Extremamento habilidoso em descrever conflitos extremos, ocorridos em cenários toldados de fumaça e sombras, quartos de pensão ordinária, mesas de bar sórdidas, apartamentos sufocantes, bordéis do centro do Rio antigo, interiores de fazendas mineiras, Lúcio Cardoso construiu um universo ficcional único, habitado por personagens insatisfeitos, perversos, alucinados. 

      A extensa fortuna crítica sobre sua obra tem início na década de 30 do século passado (Agripino Grieco, Manuel Bandeira, Carlos Drummond) e acompanha o aparecimento de seus livros. À medida que os anos correm, denota maior concentração e verticalidade. Ao lado de elogios, há também apreciações comedidas, como a de Mário de Andrade. Na década de 40, Sérgio Milliet aborda alguns romances de Lúcio Cardoso, salientando o sopro de novidade que eles trazem. Nas décadas de 50 e 60, Álvaro Lins analisa os romances A luz do subsolo e O desconhecido, sem esconder interesse e admiração, chamando a atenção para o seu relevante trabalho ficcional. "Exatamente esse clima de pesadelo é que constitui toda a atmosfera dos romances de Lúcio Cardoso, em que figuras, acontecimentos, paixões transcendem desde o início para um plano de intensa dramaticidade. Já se disse, por isso, que eram falsos, irreais, mistificados. Por mim, acho-os verdadeiros, reais, sinceros" (LINS, l963, p.113). O mesmo Álvaro Lins, na sequência, lamenta o rebaixamento estético de duas novelas, A professora Hilda e O anfiteatro: "representam ideias que não se concretizam devidamente em matéria de ficção, paixões humanas que não se revelaram em episódios, nem se exprimiram em caracteres de personagens, de acordo com a técnica e a forma da novela" (LINS, 1963, p.116).

      Em 1972, é defendida uma dissertação de mestrado sobre o autor: Formas de evasão em LC, trabalho elaborado no curso de sociologia da USP, por Guilherme Ferreira Silva. É a primeira pesquisa de um total de 82 trabalhos acadêmicos existentes até hoje, entre monografias, dissertações e teses de doutorado.  Na década de 80, seduz grande número de pesquisadores: Mario Carelli publica a biografia, Corcel de fogo: vida e obra de Lúcio Cardoso (1988). Dez anos mais tarde, Ruth Silviano Brandão, na UFMG, ministra um curso de Pós-Graduação baseado em sua obra, comemorando os trinta anos de sua morte; daí, resulta a publicação de Lúcio Cardoso, a travessia da escrita (1998). Em 2006, Ésio Macedo Ribeiro publica O riso escuro ou o pavão de luto: um percurso pela poesia de Lúcio Cardoso. Em 2008, o Centro de Estudos Portugueses da UFMG dedica-lhe o número 39 de sua revista.  O ano de 2011 assinala a publicação da obra poética, organizada por Ésio Macedo Ribeiro, a monumental Poesia completa (Edusp)Deve-se ainda a este pesquisador a publicação do conjunto dos diários, lançado em 2012 (Diários- Lúcio Cardoso). Contos da ilha e do continente, coletânea de narrativas curtas publicadas na década de 40 e de 50, selecionadas e apresentadas por Valéria Lamego (Civilização brasileira), constitui outro marco importante, neste ano do centenário do escritor. 


LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.
CARDOSO, Lúcio. Diários. Organização, apresentação e notas por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Stella Maris Rezende

Livro do mês

      Os prêmios literários são manipulados e atendem a interesses pontuais, em especial os econômicos e políticos. Não é novidade para ninguém. O exemplo gritante dessas distorções tem sido o Jabuti dos últimos anos, à mercê de mudanças de regulamento, trapaças, polêmicas e atribuição disparatada de galardões. Na última edição, os quiprocós envolvendo o voto do jurado C com a consequente premiação de um estreante, o paranaense Oscar Nakasato, na categoria romance, respingaram na escolha do melhor livro de ficção do ano, uma novela juvenil, escrita por Stella Maris Rezende, A mocinha do mercado central. Parece ser uma retaliação ao que deveria ter sido o convencional resultado, não fora a estratégia do jurado, favorecendo sua preferência. A praxe tem sido o vencedor de melhor romance acumular o troféu de melhor livro de ficção. Os votantes da última hora, oriundos do comércio, não quiseram se submeter ao vencedor da categoria romance e optaram por um produto de área conexa. 



      Não é o caso de desmerecer o gênero juvenil. Simplesmente o livro escolhido como livro do ano de ficção é um produto de fatura estética mediana, atulhado de lugares comuns, desempenho linguístico raso, enredo desinteressante e insosso. A história acompanha as viagens e pretensas aventuras de uma garota pelo Brasil, do interior de Minas para Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, São João del Rei e Rio de Janeiro. Herda de uma amiga o gosto pelo significado dos nomes próprios e sai pelo mundo mudando de nome, rotulando as pessoas com verbetes etimológicos, alguns bastante inusitados e de efeito hilário, quando deveria ser o contrário. Uma novela simples, despretensiosa, arrematada tolice ficcional, feita de  situações lacrimosas e descobertas edificantes e pitorescas. Munido de recursos peculiares dos relatos de formação e de uma ligeira reminiscência, o livro de Stella Maris explora um filão romanesco que teve no Brasil cultores ilustres e capacitados, como Érico Veríssimo (Clarissa), Garcia de Paiva (Esse menino Francisco), José Mauro de Vasconcelos (Meu pé de laranja lima) e o próprio Bartolomeu Campos Queirós. Alguns ingredientes característicos do folhetim (a busca da figura paterna, por exemplo) sustentam a trama, em meio a uma enfiada de atitudes politicamente corretas e de circunstâncias banais e afetadas. Os lugares visitados compõem um mosaico superficial do Brasil, descritos com uma empolgação de reportagem turística apressada, tudo selecionado pelo critério de se alcançar um resultado redondo, que inclui a modernidade de Brasília e o passado do Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. A santa aparece, fala e se move num "modo comedido e elegante" (p.29). O ator Selton Melo é personagem, por quem a mocinha se apaixona, além de apresentar o livro com estampa e pequeno texto. O primado do lírico sobre o drama, o alvoroço de diminutivos, o registro coloquial enjoativo e o excesso de coisas delicadas geram monotonia e desandam o gosto do leitor. O projeto gráfico acolhe efeitos chamativos, como vinhetas de galhos floridos no canto das páginas, coloridas e ilustradas. As pérolas de linguagem apresentam frases desse naipe: 

      " Jairo, "aquele que foi iluminado", comentou" (p.109). 
      " Ajeitou o diadema no cabelo, mas não ajeitou o diadema no cabelo" (p.110).
      "...não rira nem caçoara da sua paixão docinha..." (p.87).
      " A franja espessa e lisa era jogada para trás, com agilidade e exibidência  (p.44)"
      " Diante de uma mesa lindinha". "- Vamos conversar um mucadinho? (p.85)
      " A confeitaria era mesmo um primor".
      "- Nasceu pra sonhar, mocinha? Eu prefiro a prática.
      - O sonho também é uma boa prática (p.25)". 

      Não se trata de um livro qualquer. Foi escolhido como o principal livro de ficção do ano. Livros excessivamente elogiados - e uma premiação tradicional é um somatório deles - devem desenvolver couraça para receber críticas. Após as luzes do anúncio do prêmio, vem a travessia para a recepção crítica e avaliações. Neste caso, fica difícil escamotear a decepção e a evidência amarga de que o Jabuti está decadente, não é mais aquele de décadas atrás.

REZENDE, Stella Maris. A mocinha do mercado central. ilustrações Laurent Cardon. São Paulo: Globo, 2012.