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quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vitorino Nemésio visita Minas Gerais


      Nascido nos Açores (Ilha Terceira) em 1901, o intelectual português Vitorino Nemésio morreu em 1978, Lisboa. Professor universitário, poeta, ensaísta, romancista, crítico literário, em todas as áreas com expressiva desenvoltura, foi também apresentador de televisão de sucesso, na televisão portuguesa nos anos de 1969, "Se bem me lembro".  Segundo David Mourão-Ferreira, "nasceu com um talento multiforme que daria, à vontade, para mais de dez autores, e todos eles de primeira água". Conviveu em Lisboa com José Régio, João Gaspar Simões, Natália Correa, Urbano Tavares Rodrigues, Paulo Quintela a partir da década de quarenta. Num de seus poemas, afirma: "Todas as tardes levo a minha sombra a beber/ como uma nuvem no mar de que saiu o meu ser".

      Visitou Minas Gerais em 1952, tendo proferido uma conferência na Faculdade de Letras (então Neolatinas), da Universidade de Minas Gerais, sediada no edifício Acaiaca, no centro de Belo Horizonte. O escritor Heitor Martins, na época estudante calouro, esteve presente nesse evento. Não era ainda conhecido o romancista, depois consagrado: Vitorino Nemésio foi apresentado como historiador literário, autor de A mocidade de Herculano, o único livro seu disponível na Biblioteca. Assim como, mais recentemente, o poeta António Franco Alexandre evoca, no livro Visitação, lugares do Brasil, após uma temporada no país, Nemésio também se encanta com as cidades históricas mineiras.  Escreve poemas e crônicas sobre Belo Horizonte, as cidades históricas (Ouro Preto, Sabará, Mariana), posteriormente descobre o Rio de Janeiro e a Bahia. A presença do Brasil é significativa em sua obra. Minas é vista por ele como um pedaço de Portugal no Brasil. 
      "...parece-nos que trepamos de um Rio magnífico, mas estrangulado em morros e brumas tropicais, a uma coisa de sonho, um acampamento etéreo de pastores de zebus fugidos, onde faíscam vidraças de palácios irreais. (...)" O nome primitivo do local chamava-se precisamente Curral del Rey.

      "Os sinos de Ouro Preto soam-me como timbre de menino, do outro lado da vida. (...) Estou em Minas Gerais, e é como se estivesse num Portugal caldeado de vilas do Norte e do Sul. A ponte, à Casa dos Contos, parece estender-se sobre o Tâmega e colocar-nos na vila de Amarante. A rua do Conde de Bobadela, que trepa ao Largo do Paço (Tiradentes), parece de Montemor-o-Novo, quando se vai para Évora. Não fora este ar de Calvário abolido e sentia-me no Minho ou no Alentejo".

      "Sabará é tão nobre como a Viseu dos corregedores".
      "Mariana parece-me uma espécie de nossa Lousã, a cavalo entre a serra e a baixada".

      Da vasta produção de Vitorino Nemésio, destacam-se: os romances Varanda de Pilatos (1926), a obra-prima Mau tempo no canal (1944); os livros de poemas  Eu comovido a oeste, Poemas brasileiros e O bicho harmonioso; os livros de ensaio Corsário das ilhas e O segredo de Ouro Preto (1954).


Cf. MARTINS, Heitor. Vitorino Nemésio, poeta em Belo Horizonte. Revista da Academia Mineira de Letras.  vol. XLIX, Belo Horizonte: Academia Mineira de Letras, 2008.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jorge de Sena

         O escritor português Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919; morreu em Santa Bárbara, Califórnia, a 4 de junho de 1978. Produziu poesia, ficção, teatro, ensaio, crítica (de cinema e literária), tradução. A importância como poeta e ficcionista é indiscutível, seu romance  Sinais de fogo é um dos pontos altos da novelística em língua portuguesa, no âmbito do século XX. Como pesquisador, renovou os estudos sobre Camões e Fernando Pessoa. Como professor de Teoria da Literatura, Literatura Portuguesa e Inglesa, conviveu entre nós, no Brasil, de 1959 a 1965, primeiramente (1959 a 1961)  na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, depois em Araraquara (de agosto de 1961 a outubro de 1965). Viajou para os Estados Unidos a 6 de outtubro de 1965, dando sequência ao exílio, para lecionar Literatura Portuguesa e Brasileira em Madison, na Universidade de Wisconsin, depois em Santa Bárbara, Califórnia, até falecer. Era formado em engenharia civil, mas dedicou toda a sua vida às letras.



      O motivo da vinda de Jorge de Sena para o Brasil, em 1959, está ligado à sua posição política e a seu envolvimento em falhado golpe de Estado, contra a ditadura de Salazar. Obrigado a sair de Portugal, aproveitou o convite para o IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado pela Universidade da Bahia, para se exilar voluntariamente no Brasil. A família, de oito filhos, viria depois. Toda a movimentação teria se dado, graças à atuação de amigos influentes. Paralelo ao magistério, desenvolveu longa colaboração no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, fez grandes amizades no meio intelectual e deu continuidade à produção de sua obra. Após desvencilhar-se de inúmeras dificuldades burocráticas, conseguiu defender tese de livre-docência, versando sobre os sonetos de Camões, na Faculdade de Araraquara, em 1964. Seus principais livros: Perseguição, Coroa da terra, As evidências, Post-scriptum, Fiudelidade, Metamorfoses, Arte da música, Peregrinatio ad loca infecta, Conheço o sal (poesia);   O fisico prodigioso, Os grão-capitães, Sinais de fogo  (ficção); A estrutura de Os Lusíadas e outros estudos camonianos, Dialécticas da Literatura, Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular (ensaio)correspondência com autores (Eduardo Lourenço, Virgílio Ferreira, Dante Moreira Leite).         

      Entre os lugares que Jorge de Sena teria escolhido, para trabalhar no Brasil, antes de ser acolhido pela Faculdade de Assis, estava Belo Horizonte. O que se sabe, como motivo do impedimento para que tal se concretizasse, teriam sido entraves burocráticos, questões de documentos. Pergunta-se: como exigir documentação impecável, completa, a quem era considerado persona non grata em seu país, de onde saiu fugido? Esse assunto por vezes me inquieta. Tenciono descobrir alguma coisa, consultando registros institucionais, para descobrir quem teria sido a pedra no meio do caminho de Sena para Belo Horizonte. Sem querer patrulhar quem quer que seja, nem dar azo às conjeturas sobre o que poderia ter sido a presença de  Jorge de Sena na Universidade Federal de Minas Gerais, uma certeza existe: foram questões menores, burocráticas. Para dizer o mínimo, sabe-se que a máquina burocrática pode ser usada, quando de interesse, pelas eminências pardas, como recurso para o expurgo ideológico. E são acionadas picuinhas, como faltam um carimbo aqui, uma assinatura acolá, um brasão e uma rubrica ali. Formalidades estéreis e inócuas. Sua obra teria sido outra?  Melhor, impossível.
      Desde que a revista portuguesa O tempo e o modo, em 1968, dedicou um número exclusivo a Jorge de Sena, o culto ao poeta não mais parou. Na década de 80, surgiram as primeiras dissertações e teses; os estudos foram se multiplicando. Vários nomes se destacam, entre os pioneiros na divulgação de sua obra: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Eduardo Lourenço, Eugênio Lisboa, Luciana Stegagno Picchio, Eduardo Prado Coelho, Joaquim Manuel Magalhães, Luís Adriano Carlos, Fernando Guimarães, George Monteiro, Carlo Vitorio Cattaneo, Ángel Crespo, Frederick Williams, Fernando J. B. Martinho, Jorge Fazenda Lourenço, Ana Maria Gottardi Leal, Gilda da Conceição Santos, Márcia Valéria Z. Gobbi, Márcia Vieira Maia (as quatro últimas brasileiras). A seguir, fragmentos do conhecido poema "Em Creta, com o Minotauro".


Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.

Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço parte e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria
que este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de
tudo, espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.

É aí que quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria.

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não seja o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

SENA, Jorge de. Poesia III. 3ª ed. Lisboa: Ed. 70, 1989. (PLI)

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Osvaldo André de Mello

Livro do mês:

As mesmas palavras



       Osvaldo André de Mello retorna às livrarias e ao público, ao lançar sua sexta coletânea, As mesmas palavras, que dialoga, intencionalmente, com a totalidade de sua produção poética até agora e, como se fechasse um círculo, com o volume de estreia, A palavra inicial. No intervalo, foram publicados: Revelação do acontecimento (1974), apresentado por Henriqueta Lisboa; Cantos para flauta e pássaro (1983), com prefácio de Stella Leonardos; Ilustrações (1998) traz apresentação de Angelo Oswaldo de Araújo; Meditação da carne (2002) com homenagem a Dante Milano. Num registro lírico, de intensa concentração, recortado por esgarçados fragmentos narrativos, o novo livro presta-se, à luz do título e de traços periféricos da capa, a ser considerado sob dois enfoques: o empréstimo de fragmentos de Onestaldo de Pennafort, configurando uma vertente neosimbolista; a reedição de poemas extraídos de livros anteriores, agrupados em linhas temáticas recorrentes. Estes dois índices resultam ampliados e refinados, quando se refere a precoce e madura estreia, em 1969, à época saudada numa frase por Carlos Drummond: “A palavra inicial abre de maneira expressiva sua caminhada na poesia”. O poeta contava dezenove anos.
      Composto por seis partes, das quais cinco são constituídas de poemas inéditos, o livro revela uma presença sólida no contexto da produção poética brasileira nos dias que correm, além de abarcar uma peculiar trajetória, construída sem alarde, um tanto identificada à “sombra das montanhas”, através da postura de encantamento e crítica diante da paisagem e história mineiras. Esta imagem, inscrita no pórtico, além de referir um aspecto da mineiridade, pode sinalizar também a projeção restrita da produção do autor, se comparada à ostensiva visibilidade da obra de Adélia Prado, companheira de geração. O compromisso com o patrimônio histórico motivou uma leitura crítica abrangente da prefaciadora, Alba Valéria Niza Silva, em dissertação de mestrado (PUC Minas, 2008).
      De aparente simplicidade, o conjunto indicia amadurecimento, busca de síntese, riqueza de citações culturais, adensamento na percepção, interesse metalinguístico, controle do impulso erótico, mergulho no legado da tradição. Poemas curtos, densos de experiência, vazados em linguagem clara e imagens fulgurantes, alternam-se ao lado de outros mais elaborados, sempre discretos, num discurso despojado, em tom de quem partilha um segredo, embora sem concessão à confidência íntima.
     O pendor reflexivo, subjacente à homenagem a Onestaldo de Pennafort, além de referendar uma chancela, um recorte expressivo, combina-se a vários recursos, suficientes para instaurar uma obstinada atmosfera simbolista: a ênfase na sugestão, o uso de ritmo e metro ajustados à musicalidade, a revitalização das maiúsculas, a ideia de realidade toldada por névoas e sombras, incursões no inefável e nas trilhas do projeto alquímico. Esta disponibilidade ao código das correspondências entre o concreto e o abstrato, a confluência entre poesia e loucura, a rarefação de limites entre o real e a fantasia, o sonho e a vigília, constituem substratos caros à linguagem poética em geral, requisitados de forma sistemática nas tendências de mais forte impregnação subjetiva, hermética e esotérica – observadas no Barroco, Romantismo, Simbolismo e no Modernismo de feição espiritualista. Em alguns poemas, elementos ligados aos rituais de iniciação, à busca da essência e aos mecanismos secretos da percepção são decisivos, como se observa em “O Mistério”: “Aura de Arcano,/ sob o vasto manto da noite/ diante dos olhos da Veneração acesos// O Mistério sorri/ e nada diz.// A Prudência se refugia/ no silêncio cauteloso”. Mas este caminho pelas sendas do nebuloso, desconhecido e enigmático também acolhe notas coloridas, leves e suaves, como em “Surpreendi a Manhã”:

Surpreendi a Manhã
caminhando indecisa
sobre o silêncio e a imobilidade
que a Noite esquecera para trás
com seu cobertor de brumas.
(...)
Surpreendi a vegetação molhada
e ali o Sol depositava a custo
raios de luz crescente.

                  (Da esquerda para a direita, Paulo Bernardo, Osvaldo André e eu, no dia 12 de maio, na Livraria Quixote, Savassi, Belo Horizonte)

      Trata-se, então, de um recuo aos expedientes simbolistas? Não, detrás dos processos, restaura-se o interesse em recusar a expressão direta e racional, ressurge a forma aprofundada e alargada de ver e dizer as coisas, e assim tornar a linguagem maleável, como a água absorvida pela esponja, para captar a realidade fugidia: “Vem da água da Terra/ - O poeta é uma esponja - / o corpo sutil do texto” (“Poética”). O trabalho do poeta consiste em depurar a visão para “ver  o que  se não vê”, capacitar-se para alcançar o lado oculto da realidade (“A visão preparada”). Está em causa não mais olhar de forma passiva as coisas, mas tentar compreender o movimento do mundo: “Há uma força perigosa no tempo/ e tece a inédita coroa de trovões./ É um sinal. Todos/ Viram. Alguém leu?” (“O Sinal”). A leitura atenta da matéria e do contingente descortina relações invisíveis e escondidas, numa irradiação tendente ao infinito.
      Com base em teoria de base idealista, elaborada pelo místico sueco Swedenborg, que pressupunha a toda matéria uma correspondência espiritual, abstrata, divina, os simbolistas opuseram a correspondência circunscrita aos limites da natureza. Cabe ao homem desenvolver a integração plena com as realidades terrenas que o rodeiam, consciente de que todas as coisas, quando providas de sentido, passam a agregar uma outra realidade, ainda que volátil e sensível, doada não pela razão, mas pelos sentidos. Aplicada à relação amorosa, a correspondência sensorial é capaz de dar um sentido de purificação (ou de perfeição) à própria sensação de perda, na lírica de Osvaldo André:

Uma pessoa vira pensamento, por tempo.
De beleza atordoante, nem um grão de areia.
Nem a lembrança do cheiro restou perdida
pelos caminhos da rotina abandonada.
Há uma ideia e uma lâmpada votiva.
Incansavelmente e sempre, uma ideia
e uma lâmpada votiva acesas,
que o alquimista espera ver um dia
transformar-se em corpo e alma, de ouro.
(“De ouro”)

       A divulgação de alguns poemas de livros anteriores não deve substituir a edição da poesia selecionada, em futuro próximo. Sem o agrupamento por temas, uma vez que eles se entrelaçam. “A poesia dos muros”, título da última parte, recolhe exercícios intertextuais e celebra a noção de arte como espaço do verossímil e da intensidade. Se a linguagem poética “ganhou sangue” (“Vamos e venhamos, camaradas!”), com Walt Whitman, poeta libertário e turbulento, com os versos de As mesmas palavras, ela se renova por dentro, enfeita-se com a luz do suor que arde em todo verão.


MELLO, Osvaldo André de. As mesmas palavras. Belo Horizonte: Veredas e cenários, 2012. 128 páginas