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terça-feira, 29 de maio de 2012

Rua Augusta, São Paulo, 2001

      O hábito de escrever em folhas soltas exige uma faxina esporádica, sob pena de se acumular monte de papel. Vale tudo, desde prospecto de banco a guardanapo de restaurante. As folhas fixas, presas em sequência, parecem um lugar excessivamente canônico e solene. Assim, sem compromisso de forma ou assunto, costumo registrar viagens, ideias, casos interessantes. Recupero um desses relatos incompletos e fragmentados. Uma viagem a São Paulo, no dia 11 de abril de 2001. Antes, faz-se necessária uma certa contextualização.
      Participei, em fins dos anos 2000, do IV Festival de Literatura, promovido pela parceria entre a revista Livro Aberto e a Xerox do Brasil. O objetivo era premiar e publicar os cinco melhores trabalhos nas categorias Conto, Novela, Poesia, Tradução e Ensaio. Inscrevi a novela Outono atordoado, que ficou entre as vencedoras, foi impressa em papel reciclável e recebi convite para lançá-la em São Paulo, no âmbito da premiação.  Conheci vários escritores, alguns amigos até hoje, como Alfredo Albuquerque, Terezinha Pereira, Leopoldo Comitti e Pedro Sussekind.
      Após fazer o checking, na sala de espera, minha mulher identifica o ator de novelas Jonas Bloch, o qual viajou silencioso a meu lado, no assento 7A. Em conversa ao celular, fico sabendo que voltava de Lavras Novas, uma cidade de turismo rústico no alto de um morro perto de Ouro Preto.  O voo num Boeing 737 da Gol, que iniciara a operar com tarifa reduzida três meses antes, saiu da Pampulha às 8:35, com destino a São Paulo. Um dos motivos da redução do custo talvez seja a simplificação do lanche, chocolate de mercearia, refrigerante e água, pensei. Não imaginava que esse expediente seria uma prática rotineira dez anos mais tarde.  Em menos de uma hora o avião aterrava em Congonhas. O táxi  que me levou ao hotel na rua Augusta, 1 255, um robusto Gol GT 1.8, cobrou R$23,00. Construção tipica dos anos sessenta, o hotel era um três estrelas modesto, um prédio velho, quarto com duas camas de solteiro, banheiro decorado com negrito verde Ubatuba (aquele que parece preto, de brilho intenso). Uma obstinada atmosfera de decadência pairava nos cômodos escuros, atulhado com móveis antigos. Quem dividiu o quarto comigo foi o tradutor Pedro Sussekind, visto apenas uma vez na área, reencontrado à noite na livraria Cultura, na hora do lançamento dos livros, com uma moça belíssima pendurada ao seu pescoço. 


      Conhecia São Paulo desde o final dos anos sessenta, levado por um tio, na boleia de seu caminhão, eu um frangote saído do internato, no primeiro ano de Letras na UFMG. Ficava na região do Pari e em Santana, onde meus primos tinham um apartamento. Voltei no início dos anos setenta, interessado em conhecer o centro da cidade, onde funcionava o jornal O Estadão, cujo Suplemento literário publicara três resenhas de minha autoria. São Paulo é uma cidade grande que impressiona e intimida alguns visitantes, nascidos no interior de Minas. Comigo não foi diferente, mas administrei de forma razoável o impacto. Desde pequeno armazenava relatos de parentes ou conhecidos sobre morar e trabalhar na cidade. Tão logo me instalei no hotel, tomei um banho de chuveiro e fui bater pernas, não tinha sentido ficar de bobeira. A rua Augusta fazia parte das canções e baladas da música popular, comprei jornal numa banca, caminhei por vários quarteirões, pessoas distribuíam folhetos, em meio a fumaça de ônibus e gazes de carbono exalados pelos carros, lojas de informática e de decoração, lanchonetes, motéis, farmácias, academias, restaurantes de comida italiana, de comida chinesa, escritórios de advocacia, livrarias e imobiliárias. Ocioso dizer que a partir do meio da tarde o lugar se transforma em ponto de pegação para as mais diversas opções sexuais. O metrô me fazia lembrar capitais da Europa, limpo e eficiente. A dois passos da Av. Paulista, entrei num restaurante, de comida a kilo, muito boa, por sinal. Sempre que comentava essa viagem, dizia que visitar São Paulo equivalia a fazer uma reciclagem em civilização.

domingo, 6 de maio de 2012

Julián Fuks

Livro do mês

      
      Em Histórias de literatura e cegueira, Julián Fuks dispõe-se a contar cegueiras, a impossibilidade de ver folhas caindo ao chão. Não a cegueira em geral, os cegos anônimos. Mas, sim, as histórias relacionadas a três escritores que ficaram cegos: o argentino Jorge Luís Borges, o brasileiro João Cabral de Melo Neto, o irlandês James Joyce. No "Prólogo necessário", peça de inegável feição borgeana, adverte que não se intimida diante de recursos típicos de pirataria literária: "convém que prescindamos um pouco do caráter absoluto das autorias, e que possamos dar algum valor, por menor que seja, ao autor-plagiador". E ainda complementa: "falo daquele que - nos entremeios das histórias que reconstitui, adapta ou inventa - adota as soluções daqueles que admira, pois sabe que sua narrativa imprecisa e cambaleante jamais as encontraria".
      Exercício de biografia fragmentada, o trabalho resulta em densa reflexão sobre os mistérios da arte, as fronteiras da duplicidade, as margens invisíveis dos domínios do eu e do outro, os planos de intersecção entre realidade e ficção. Ainda que inteiriços e autônomos, os relatos comportam a possibilidade de duas leituras entrelaçadas: a do leitor comum e a do leitor crítico. A este último, não ficam despercebidos os diálogos e envios intertextuais, subjacentes na elaboração das narrativas. Nos dois casos, leituras proveitosas e agradáveis, como se o livro se assemelhasse às bonecas russas, aquelas que trazem  uma réplica no seu interior. Além do conhecimento da obra do autores, acrescido da fidelidade ao estilo e motivos abordados, o resultado final denota leitura e análise de seus biógrafos e glosadores, atenta e detalhadamente referidos, em postura ética nem sempre observada. Ainda que sensível à diversidade e liberdade do enfoque ensaístico, a opção pelo enquadramento ficcional se faz com expressiva desenvoltura, nos três recortes.
       Alguns detalhes do cotidiano têm o condão de iluminar aspectos da obra, como pode ocorrer também o inverso. A dimensão fantástica, a ideia de circularidade, a criação de um universo alternativo que aposta na duplicidade ressurgem na recriação dos últimos dias de Borges, num hotel de Genebra. O diálogo de João Cabral com a cultura espanhola será decisivo para a compreensão do impacto pungente da cegueira vivenciada nos últimos sete anos do poeta, atento ao elemento concreto e visual e que desdenhava o excesso de abstração da cultura nacional. Para o poeta que afirma que "poema é coisa de ver", a cegueira é uma devastação definitiva - "não ver mais o "verde ácido das plantas de cana". O que poderia ser metáfora da falta de conexão plena com a realidade, a redução da visão, decorrente de cirurgias de olho a que Joyce se submete, acaba por desenvolver um efeito inesperado, num discurso erudito, caprichoso e delirante, capaz de captar "as mil complexidades da mente" e o sentido dos gestos triviais.

FUKS, Julián. Histórias de literatura e cegueira. Rio de Janeiro: Record, 2007.