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quarta-feira, 21 de março de 2012

Revisão geral

      Rodados quinze mil quilômetros, precisava levar o carro para revisão e troca de óleo. Nenhum sonho de consumo, um modelo próximo do popular. Procurou ser pontual e, no horário marcado, estacionava o carro na rampa de entrada da Concessionária. O primeiro atendente levanta a cancela e indica onde deve levar o carro, perto daquela moça no telefone. Ali o recebe tratando-o pelo nome o segundo atendente, educado e devidamente uniformizado. Para salientar o cuidado pela organização, observa com alguma surpresa num quadro em frente afixado o seu nome, numa coluna, entre outros prováveis clientes.
      “O senhor pode retirar os pertences pessoais. Preciso apenas do manual”.
      Após carimbar alguns formulários e pedir que os assinasse, o funcionário informa o preço da revisão, anota o número do telefone e esclarece que, se houver necessidade de substituir alguma peça será comunicado. Serão revistos 32 itens. Em seguida, encaminha-o para outro atendente, que o acolhe gentil e com uma brincadeira:
      “Seu pneu está com um furo”.
      Olha os quatro pneus, estão fixos no chão. “Não deveria estar arriado?”
      “Estou brincando. Colocamos um parafuso só para identificação. Quando falo isso para uma mulher, ela faz um escândalo”.
      “O senhor tem cara de professor de matemática, ou de física”, fala o outro funcionário, mais descontraído e desenvolto que o primeiro. Enganado na certa pela roupa displicente, a calva e uns restos de cabelos grisalhos e desalinhados.
      “De literatura”, confirma.
      “Por favor, venha cá”, conduziu-o para o outro lado do carro. “Não quero ser ouvido por eles. Vou fazer uma prova de concurso federal daqui a dez dias. O que é redação oficial?”, pergunta.
      “Redação oficial vem a ser a produção de um texto dentro da norma culta da língua, seguindo as normas gramaticais, observando a concordância verbal entre o verbo e o sujeito, a regência verbal empregada corretamente, a ortografia correta, os sinais de pontuação usados adequadamente”, ele discorre. Afinal, professor de literatura deve saber essas coisas.
      “Ah, então redação oficial é isso?”
      “De modo grosseiro, em síntese é isso, além de desenvolver o tema com coesão e coerência, sem usar gírias”.
      “Vou prestar atenção nesses tópicos”.
      “Faz cursinho?”
      “Sim”, menciona o nome da instituição.
      “Precisa estudar. Muita gente se prepara anos com seriedade. Boa sorte”.
      “Obrigado. Assim que ficar pronto, eles entram em contato. A revisão do carro”.
      “Tchau e bom dia”. Arruma alguma coisa dentro da pasta e se despede, dirigindo-se ao ponto de ônibus mais próximo.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Domingos Carvalho da Silva

     

      Nascido em Vila Nova de Gaia, em Portugal, Domingos Carvalho da Silva (1915-2004) vem com nove anos para o Brasil. Muito jovem passa a atuar em movimentos culturais, cria revistas e publica poemas. Forma-se em direito pela USP (1934), traduz Neruda e participa ativamente de congressos e comissões de literatura. Seus principais livros de poesia: Rosa extinta (1945), Praia oculta (1949), Girassol de outono (1952), Vida prática (1976). Pertence à geração de 45 da poesia brasileira, rótulo por ele criado, junto com Péricles Eugênio da Silva Ramos, Geir Campos, Ledo Ivo, Mauro Motta, Afonso Félix de Sousa, Deolindo Tavares, Bueno de Rivera, Darci Damasceno. Foi agraciado com o Prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras (1950) e com o Jabuti, pelo livro Vida prática (1977).

      Em Rosa extinta, sua poesia revela preocupação social, evidente no poema “Autobiografia”:

           (...)
      Sangue do povo me fala
      nas veias aburguesadas:
      é a voz de cem gerações
      com o arado sobre a terra.
            (...)
      Antes ele havia escrito:
      Sou filho do povo obscuro
      seixo perdido no mar,
      por isso sentiu desde cedo:

      ...a galope sobre o mundo
      os corcéis da iniquidade
      e compreendeu que apesar de
      seu diploma era irmão de
      todos os homens que lutam
      pela sua libertação.

      Sobre Rosa extinta escreveu Sérgio Milliet em 1946, com propriedade e visão prospectiva:
      “Domingos Carvalho da Silva é um desses poetas novos que se apresentam já depurados, resolvendo seu problema poético pela verticalidade da penetração e pela decantação do ritmo. Ao mesmo tempo que se insurge contra o barroco formal do modernismo de 22, Carvalho da Silva tenta renovar a temática atacando sem receio a expressão das emoções cotidianas e se imiscuindo na vida coletiva. Esse belo entusiasmo jovem pela poesia social, essa fé na comunhão, essa aspiração à comunicabilidade, talvez se percam com o amadurecimento, e o poeta, tal qual Cecília Meireles, se compenetre afinal da inexorável solidão em que terá de viver. Mas a experiência atual dará sem dúvida maior densidade à sua expressão futura” (MILLIET, 1981, p.173).
     
      Do livro seguinte de Domingos Carvalho da Silva, Praia oculta, marcado pela riqueza de imagens e sutileza de ritmos, transcrevo, seduzido pelas subalternas pontes, fragmentos do “Poema explicativo”:

      Inúteis são os voos. Inúteis são os pássaros.
      Silenciosas sombras tudo extinguem.
      Como vagas de um mar longínquo e frio
      são de inúteis palavras estes versos
      pois o calado tempo esmaga tudo.

      Moro num rio inútil que caminha
      entre margens de musgo e subalternas
      pontes e águas que refletem
      estrelas, luminárias, desencanto.

      Os peixes não obstante já não dormem
      são inúteis os sonhos e as amarras
      que nos prendem ao cais...

CUNHA, Fausto. Aproximações estéticas do onírico. Rio de Janeiro: Orfeu, 1967.
MILLIET, Sérgio. Diário crítico IV. 2 ª ed. São Paulo: Martins, 1981. (1946)



segunda-feira, 5 de março de 2012

Antonio Olinto

Livro do mês: Sangue na floresta

       Poeta, crítico literário e romancista, Antônio Olinto nasceu em Ubá, Minas Gerais, em 1919 e morreu no Rio de Janeiro em 2009.  Manteve durante vinte e cinco anos a coluna "Porta de livraria", de crítica literária, no jornal O Globo. Ocupou a cadeira 8 na Academia Brasileira de Letras. Criou na década de 60 do século passado o Prêmio Nacional Walmap, que revelou talentos como Oswaldo França Júnior, Assis Brasil, Alina Paim, Benito Barreto, Garcia de Paiva, Aguinaldo Silva, Gerardo Melo Mourão, Myrtes Campelo. Conforme revelou, deve aos estudos em seminário católico (Campos, Belo Horizonte), quando pretendia ser padre, o amor pelas palavras e a "sensação de nunca mais poder desejar algo maior". Em seu currículo consta ainda a diversificada carreira como conferencista internacional (Estados Unidos, França, Suécia, Portugal e vários países de África), tendo proferido em torno de 150 conferências e a atuação como adido cultural em embaixadas brasileiras (na Nigéria e na Inglaterra).  O conhecimento da terra e dos costumes do povo africano foi a base para a elaboração de seu primeiro e mais importante romance, A casa da água, lançado em 1969, acolhido com boa fortuna crítica, traduzido para o francês, inglês, italiano, búlgaro, sueco e polonês, que o projetou como um dos grandes ficcionistas brasileiros. Movimentando mais de cem personagens, a intriga estende-se por dois continentes, focada na saga de uma família de negros nascidos em Minas que vai em busca de suas origens africanas. Sua produção ficcional engloba em torno de dez títulos, entre os quais O rei de Keto, O trono de vidroCopacabana, Os móveis da bailarina, Tempo de palhaço. De sua atividade como crítico literário ficaram dois livros marcantes, Cadernos de crítica (1959) e A verdade da ficção (1966). Foi um dos derradeiros críticos de rodapé, acompanhando no calor dos lançamentos a efervescência cultural de quase três décadas, em comentários obstinados, veementes, às vezes corrosivos, mas densos em informação literária e fundamentação filosófica. Egresso de severa formação tomista, não se intimidava diante de nomes consagrados, dando corda a um ou outro argumento afoito: lamenta, ao apreciar a liderança católica de Alceu Amoroso Lima, a "maneira encastelada" do autor de Idade, sexo e tempo, pouco envolvido com o cotidiano dos homens.  



      Sangue na floresta, lançado em 1992, reflete o ambiente favorável à reflexão sobre os temas ligados à ecologia e a notoriedade da exploração do ouro em Serra Pelada. O pequeno leque de ações e o incontornável primarismo das relações humanas, aliados à natureza selvagem do norte do Brasil, assumem proporções míticas, recriando um cenário de dimensões bíblicas. A intenção alegórica voltada ao interior subdesenvolvido do país com sua miséria e problemas estruturais sobejamente conhecidos impõe-se de forma impactante. Em torno de padre Antônio, forma-se na floresta amazônica uma comunidade de pessoas simples, a Clareira, desprovida de ambição financeira, mas onde vigora forte sentimento de liberdade. A princípio formada por índios, garimpeiros, ex-prostitutas, estrangeiros e ex-guerrilheiros, a aldeia cresce, com a chegada de pessoas que desequilibram os princípios de solidariedade e harmonia. Antes pacífica, a aldeia passa a viver com homicídios e conflitos que atingem dimensão internacional. O desenlace da trama é previsível: do nada surge alguém que se proclama proprietário da terra (um grileiro), exigindo a desocupação da área. Os problemas acirram-se na medida em que os aparelhos repressivos do Estado se instalam na região. Esta a denúncia da obra: a devastação da natureza e dos direitos fundamentais ao ser humano, promovida pelo terror do Estado. O reduto mantém-se livre e à margem da corrupção até que um juiz distante e sem rosto determina a instalação em seu núcleo de uma delegacia policial, com aparato militar e repressivo.
      O reduto do padre Antônio passa a ser encarado como réplica da aldeia de outro fanático religioso, o Conselheiro, também Antônio, que chefiou a resistência de Canudos. As semelhanças são evidentes: o fanatismo religioso, a ideia e vivência de liberdade, o isolamento, a ausência do Estado. O padre muda o tom de sua fala: "Meus queridos irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo. Nossa comunidade passou a ter uma subdelegacia. E uma cadeia. Se isto nos transforma em povoado oficial, reconhecido pelas autoridades do país, o que em princípio seria bom, por outro lado perdemos nossa liberdade, que era total, de agir, de trabalhar, de pensar, de rezar. Somos agora uma população vigiada" (OLINTO, 1992, p.118).
       No caso, os aparelhos estatais carregam consigo o paradoxo do extermínio, vinculado à pretensão de organização totalitária. A ficção mais uma vez reinventa direitos e experiências perdidos pela instalação da opressão institucionalizada. Seu alcance ético não abandona sua autonomia temática, mesmo quando subentende analogias estruturantes. "A cor da terra mudava, as árvores diminuíam de tamanho, o sol enchia o mundo, de repente o grupo se deteve para ver um aglomerado colorido e irregualar de casas, letreiros, fachadas verdes, janelas amarelas, pneus velhos jogados no chão, crianças correndo, poças dágua no meio da rua, gritos, mulheres com latas na cabeça, uma jovem índia, calça mínima e um pano amarrado sobre os seios, berrava com três meninos, um homem de chapéu de couro tentava puxar um burro que parecia empacado, de um bar cheio de gente um rádio posto no tom mais alto dava notícias" (OLINTO, 1992, p.73). Em relato linear, ritmo rápido, linguagem simples e rasa, cresce a habilidade técnica em agrupar blocos narrativos que engendram o avanço determinado pelas circunstâncias e eventos. O presente mistura-se, na mente de Antônio, a imagens obsessivas do passado em que frequentava o Seminário de Campos, no estado do Rio de Janeiro. Além do contraponto com a tragédia de Canudos, alguns elementos autobiográficos insinuam-se, se convocamos a informação da "nota da Editora", José Olympio, ao livro Cadernos de crítica: Antônio Olinto escreveu, no decurso de 1933, um Diário do seminário, relato da vida da comunidade, feito cada ano por um aluno. O padre Antônio não foi ordenado segundo as normas da Igreja, mas consegue convencer os moradores da Clareira: numa celebração da Paixão de Cristo, deixa-se pregar nas mãos com pregos reais. Mais uma grande realização ficcional de Antônio Olinto. Se algum senão existe, corre por conta da persistência de um discurso excessivamente homogêneo na condução da trama, repetem-se ocorrências e lances que são retomados na igrejinha, através do posicionamento e reza do religioso.

OLINTO, Antonio. Cadernos de crítica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1959.
______. Sangue na floresta. Rio de Janeiro: Nórdica, 1992.