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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O lugar da literatura

    
                Imagem do blog.criticanarede.com

  Tem sido uma constante entre os especialistas da área o comentário ressentido diante do lugar secundário ocupado pela literatura na sociedade. Há exatos trinta anos a literatura começou a perder prestígio, levando consigo a crítica. A prova mais evidente e caudal disto ocorreu no dia 2 de fevereiro de 1997, quando morreram o músico e cantor Chico Science e o polêmico intelectual e romancista Paulo Francis: a notícia alusiva ao primeiro ocupou páginas inteiras dos grandes jornais, enquanto a morte do autor de Cabeça de papel e Cabeça de negro aparecia espremida em coluna de cinco linhas. É provável que o desinteresse pela crítica tenha ocorrido em primeiro lugar, com o desaparecimento dos cadernos de literatura dos grandes jornais. O poder sedutor da literatura decresceu, mas sem desaparecer de todo. O discurso de auto-desconsideração encontrou entre os iniciados das letras verdadeiros coveiros da literatura. A situação por vezes mostrava-se engraçada, mais do que patética. No  Brasil, país onde o hábito de leitura não recebe o adequado incentivo, a situação revela-se com maior intensidade. Muitos jovens, a princípio atraídos para a poesia, acabaram se decidindo pela área do espetáculo ou da música, diante de retorno mais seguro. O caminho da literatura, além de árduo, exige séria capacitação e trabalho.
      Em setembro de 2004, o poeta e tradutor Ivan Junqueira, à altura presidente da Academia Brasileira de Letras, posicionou-se sobre o tema, em entrevista ao Suplemento Literário de Minas Gerais e afirmou que a situação "não é tão mundial assim quanto se pensa. The New Iork Times, dos Estados Unidos, e El País, de Madri, (...) continuam a publicar opulentos suplementos literários. E o mesmo ocorre  em Portugal, na Inglaterra, na França, na Itália e na Alemanha. É uma pena - e até mesmo uma estupidez - o que acontece no Brasil, sobretudo num momento em que cresceu de forma extraordinária a nossa produção editorial e melhorou muitíssimo a qualidade gráfica do livro brasileiro. (...) O declínio e o amesquinhamento de nossos suplementos literários conspiram contra o autor, o leitor, o editor e a literatura como um todo. As elites dirigentes brasileiras odeiam a literatura e têm da cultura nacional uma visão autoritária, simplória, indigente e quase cavernícola" (JUNQUEIRA, 2004,7). 
      Há uma semana,  o professor João César de Castro Rocha, em artigo para o jornal o Globo, desenvolve oportuna reflexão, sob o título de "Desdramatizando a crise da crítica". Reconhece o crescente interesse pela literatura, observado nas inúmeras feiras literárias que ocorrem no país. Apresenta uma evolução histórica das críticas ao livro, propondo uma revisão de posições nostálgicas e ressentidas. "Deixemos de lado elitismos que de tão previsíveis chegam a ser caricatos. (...) ...consideração alguma acerca da prosa atual terá validade se o crítico não esclarecer seus critérios, oferecendo estudos de casos que apoiem sua interpretação. (...) A atual tarefa da crítica é realizar uma arqueologia de formas do presente, a fim de descrever os movimentos novos esboçados na prosa, na poesia, no ensaio e na interlocução crescente com os meios audiovisuais e digitais. O único modo de fazê-lo é dedicar-se à leitura atenta da produção contemporânea, em lugar de proferir sentenças magistrais com base na hermenêutica mediúnica dos profissionais do obituário alheio" (ROCHA, 2012).

JUNQUEIRA, Ivan. Entrevista a João Pombo Barile. Suplemento Literário de Minas Gerais, Belo Horizonte, nº 1273, out. 2004, p.3-7.
ROCHA, João César de Castro. Desdramatizando a crise da crítica. O Globo, Prosa e versoRio de Janeiro,11 fev.2012.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

Wando (1944-2012)

      

      A comoção popular revelada na morte de Wando, cantor popular, no último dia 8 de fevereiro,  é sintomática do papel e função da arte. De imediato, elimine-se a fronteira odiosa entre arte erudita e popular. Milhares de fãs interromperam a rotina cotidiana para homenagear o seu ídolo. A imprensa viu-se diante de um tema atraente, um ídolo popular, cuja fama teria sido construída em torno de acordes românticos, apelos eróticos e calcinhas femininas. O fato é que Wando se impôs na cena musical brasileira numa época de grandes talentos, imprimindo um estilo pessoal e timbre inconfundível a banais canções amorosas. O conjunto de sua obra não esconde uma linha irregular, com altos e baixos, fenômeno típico de todo compositor. 
      Entre suas canções, uma ficará, sem dúvida, pela feliz combinação de simplicidade e originalidade, "Fogo e paixão", em que se destacam os versos: "Você é luz, raio, estrela e luar/ manhã de sol, meu iaiá meu ioiô".  Esses versos e sua melodia envolventes, confesso, sempre tiveram o condão de me acompanhar, às vezes de forma excessiva. Causava-me, a princípio, estranheza e repulsa o desvio da forma gramatical, "meu iaiá". Aos poucos me dei conta de que era um verso admirável: após enumerar várias sugestões de luminosidade, o poeta escorrega intencionalmente na gramática, antecipando a orgia amorosa, referida a seguir, com referência aos amantes se beijando na boca e rolando no chão. Como estamos no terreno da criação poética,  não há mal afastar-se do rigor gramatical, desde que uma função expressiva se justifique. A busca de linguagem coloquial, por outro lado, atenua a ruptura com os padrões cultos. É raro perceber no cancioneiro popular, ainda mais nos dias que correm, tamanha habilidade no uso de efeitos expressivos. O que poderia ser visto como gratuidade viciosa na verdade é uma refinada construção poética. O povo reconhece e retribui, de forma generosa.   

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Minas, Cuba e corrupção

     
       A foto de Havana é de Pedro Serra.
     O noticiário político não é prioridade nossa. Intromete-se às vezes, por contingência do cotidiano, em forma de comentário. A recente viagem da presidente Dilma a Cuba, com o aporte de mais de 600 milhões para as obras do porto de Mariel, gerou opiniões abonadoras e contrárias. Todas devem circular, por conta da democracia. Não é pequena a indignação de parte dos brasileiros, acrescida quando ficam evidentes os sinais de carência e penúria dos serviços de saúde e segurança oferecidos no solo da pátria "mãe gentil". (O risco de usar esta expressão é a rima, interposta, que a acompanha, a tiracolo). Na última semana, morreu um recém-nascido em Itabirito, cidade próxima à capital mineira, por falta de leitos em UTI. Seria ocioso enumerar outros casos.
      Mais uma vez vigorou o interesse ideológico em ajudar um regime totalitário que se arrasta por 53 anos, no caso uma ditadura que substituiu outra através de uma revolução sanguinária, divulgada à época por um viés charmoso e romântico, mas que não resistiu ao imobilismo e incompetência. Naufragou à deriva, após o colapso da Rússia, perdeu o rumo da História. O mundo não esquece os milhares de perseguidos e mortos, em especial os intelectuais e gays cubanos, entre 1959 e 1970. O Itamarati, de notável atuação no passado e respeitado por posicionamentos calcados em autonomia e solidariedade, mostra-se combalido, ao se prestar ao intento de cimentar mais uma liderança de alcance internacional. Faltam aqui hospitais decentes, a segurança pública é uma fraude, os ministérios são inócuas organizações de apoio fisiológico ao governo, a despeito de generalizada corrupção e o sentido de federação ter sido extirpado por interesses escusos. Na última semana caiu o sétimo ministro por denúncia de atos ilícitos, ainda há casos a serem apurados. Mais uma vez o imposto pago pelo brasileiro tem uma destinação política, para embrulhar uma patuscada ridícula de firulas diplomáticas. Seria o modelo Tiririca se alastrando?  Já vimos à saturação esse filme.
     E Minas, o que tem a ver com isso? A discriminação a projetos de desenvolvimento e proteção contra enchentes em Minas é a contrapartida do governo aos milhões de votos que decidiram a eleição da presidente que afirma ter nascido em solo mineiro... As verbas para estradas em Alagoas ultrapassam em muito as destinadas a Minas, território mais extenso e habitado. Tudo isso acontece à luz do dia, às barbas de uma oposição desfibrada, quase complacente. Não se ignoram as conquistas no plano social e econômico, elas devem prosseguir. Que muitos perderam o sentido da probidade com a coisa pública, não há dúvida e haja verniz para lustrar a carraspana.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Helder Moura Pereira

Livro do mês:


         A relação entre poesia e desconstrução da subjetividade é um dos parâmetros da literatura moderna, naquilo que ela possui de mais avançado. Minar a soberania do eu, destruir os pressupostos da personalidade poética (fidelidade, sinceridade, coerência), jogar suspeição sobre o espaço subjetivo, tudo isso, no âmbito literário, provém da conhecida assertiva rimbaudiana de que o eu é um outro. Sem abolir o seu caráter visceralmente individual, a lírica, entretanto, não tem a presunção de negar a mediação do universal: o individual é mediado pelo universal e vice-versa, segundo brilhante e conhecida argumentação de Adorno em “Lírica e sociedade”. A ideia de subjetividade, porém, passa a comportar nos dias atuais outras nuanças, algumas até pouco tempo contraditórias, tais como a abertura para a alteridade, a pluralidade e a diferença, moldando-a aparentemente no contrário daquilo que ela se sabe. A flexibilidade do pensamento (e das pulsões) à diversidade sexual, étnica e cultural é transformada em mais-valia poética, impelindo para um estágio humano de interrelações e intercâmbios produtivos. As mutações da subjetividade na poesia contemporânea delineiam menos o interesse em decifrá-la do que reinventá-la, nem que seja para, na esteira de Blanchot, aceitá-la como o outro em mim, com a intromissão da exterioridade e a interface dos novos fluxos e conexões do contexto urbano.
         A poesia de Helder Moura Pereira (n.1949), em Mútuo consentimento, do outro lado do atlântico, segue nessa direção, em especial o poema “Em que língua gritas tu, meu pesadelo”: “Um assobio, uma pequena linha de seiva/ e os dois com falta de paciência, leva-me,/ poesia, na escada do desacerto e faz/ de mim um lavador de pés, um menino/ moldavo a limpar vidros nos semáforos”. Tomando-se a si próprio como objeto de reflexão, cabe ao poeta desenvolver um saber de si e do mundo; o sujeito poético de Mútuo consentimento assume uma postura niilista como forma de resistência, afirmando sem rodeios no poema “Alimento um do outro, conversas”: “eu sou um cantor de vazio”. A ênfase dada à metalinguagem, a reiterada alusão ao trabalho poético, (a nomeação obsessiva de um emblemático livro “de poesia”) acabam criando um jogo especular, outorgando à literatura um papel de resistência diante da opressão dos objetos e do estreito mundo do consumo. Segundo a formulação de Adorno, ao distanciar-se da sociedade, a lírica acentua o que nela existe de frio e hostil:

Seu distanciamento da mera existência torna-se a medida do que há nesta de errado e de ruim. Em protesto contra ela o poema enuncia o sonho de um mundo em que seria diferente. A idiossincrasia do espírito lírico contra a prepotência das coisas é uma forma de reação à coisificação do mundo, à dominação de mercadorias sobre homens que se difundiu desde o começo da idade moderna e que deste a revolução industrial se desdobrou em poder dominante da vida. (Benjamin et al, 1983, p.141)

A subjetividade dilacerada (o dilaceramento é uma constante dos niilistas) não se constrange em tocar o limiar do poço ou mesmo vislumbrar a fatalidade do próprio naufrágio, promovendo a aliança entre a dor e o sonho, (a lírica compreendida como a voz em que dor e sonho se acasalam, no entender de Adorno): “Sem amor a gente anda por aqui/ a gemer de dor por dentro, é a verdade/ pura e simples e o resto é conversa”, desabafa a voz lírica em “A morte afinal não custa nada, diz-me”. Noutro poema, a desenvoltura como o sujeito passa do universal para o individual surpreende: “Chegado a uma árvore, dessas árvores/ rectilíneas a que tiraram folhas breves/ para fazer chá contra as enxaquecas/ e os males dos joelhos, penso (é um frouxo/ pensamento, mas é um pensamento)/ que a vida passou e, sem amor, nada é”. Não menos surpreendente a fusão entre o sujeito, isento de resíduo de qualquer matéria, e a linguagem : “Nos teus braços estou quieto, canto baixo/ e adormeço. Sei que o amor, afinal, vem disto:/ não esperar de ninguém nada de nada”.
Joaquim Manuel Magalhães, referindo-se a Moura Pereira, afirma: “Devemos agradecer ao quotidiano e à mágoa verbalmente ordenada deste poeta que seja um dos poucos que nos lembram a necessidade de a poesia escapar aos lugares-comuns do tempo” (Magalhães,1981, p.274). As glosas críticas podem tornar-se matéria de poesia, configurando um processo de releitura do próprio percurso textual, como se infere nos seguintes versos: “Com cinco letrinhas apenas/ se escreve a palavra morte e se bem que/ a palavra morte ocorra vezes sem conta/ há uma outra palavra que não deixa/ de apertar o coração. Também cinco/ letrinhas apenas e é a palavra corpo”.
Em “Agora é só esvaziar a pasta dos itens”, são ainda feitas articulações entre amor/ mágoa, morte/corpo, universos sintagmáticos privilegiados na obra do autor, signatário de um verso paradigmático da atmosfera saturnina e melancólica de muita poesia européia contemporânea: “A mágoa é um vício, a ele volto/ pelas madeiras desta casa” (Pereira, 1990,196) – agora retomado: “Se calhar vais dizer que a seguir/ vem a palavra mágoa e um regresso/ aos primeiros tempos. Não vem nada”.
        Helder M. Pereira é um poeta ligado, desde a estreia coletiva, em 1976 aos poemas amassados de Cartucho, ao lado de Joaquim Manuel Magalhães, António Franco Alexandre e João Miguel F. Jorge, a uma escrita discursiva, marcada pela reabilitação da subjetividade, ambiguidade sexual, recusa da ênfase e uma linguagem límpida e rasa. Estes são nomes fundamentais da poesia portuguesa contemporânea, com uma produção diversificada e influência em vários poetas mais novos. A opção pelo verso discursivo e por um erotismo minoritário (mais ou menos visível em cada caso), a que o contexto luso dos anos 70 acrescentou tons libertários (a recusa à fragmentação e à ocultação do sujeito praticadas pelo grupo poesia 61, o aflorar de movimentos gays), transforma Cartucho num divisor de águas, a despeito da negação dos próprios autores. O título em análise é o vigésimo quarto de uma intensa produção, na qual se destacam Entre o deserto e a vertigem (1979), Sedução pelo inimigo (1982), Gestos de miradoiro (1984), Romance (1987), Carta de rumos (1989), Um raio de sol (2000), Lágrima (2002), Segredos do reino animal (2007).
        O traço inventariante desta poesia aponta para um enquadramento densamente reflexivo, em que pesem as reiteradas alusões ao duplo, as referências culturais, as querelas identitárias, as questões urbanas, a ambiguidade sexual e os jogos intertextuais, elaborados com notas de ironia e comedida expansão. Somem-se a este receituário o gosto em ultrapassar fronteiras, a vizinhança ostensiva do cotidiano, o distanciamento corrosivo, o desequilíbrio entre o excesso de explicações e a lucidez da escrita, como se lê em “Toda a gente sabe o número da praia”: (...) “porque/ ao escrever amigo é mesmo amigo e nunca/ aconteceram confusões de ciúme/ entre amizade sem sexo e sexo/ sem amizade”. A multiplicidade de explicações redunda inócua, tornando-se parte da própria confusão. Com o ritmo veloz, na apreensão da mobilidade urbana, o verso presta-se a desenvolver um movimento pendular, ora carregado de ressonâncias sugestivas, ora ajustado a um intento narrativo:

              “Vestido à jovem rico dos torneios
de tênis, a raiva terna e tensa
dos seus olhos outros olhos encontrou.
Era o som da bola no chão ou o coração?
(...)

O jogo fora interrompido por causa
da chuva, molhados, pregados à cadeira,
sem nenhuma gente nas filas, hesitavam
na aflição do primeiro passo. Mas,
como eram ambos do mesmo gênero,
ali ficaram a ensopar os sapatos
com as pernas a tremer, o coração
já normal, a trovoada a passar”.

        Se a narratividade já não surpreende tanto na poesia contemporânea, uma vez que as grandes narrativas atingiram o estágio da exaustão, a demanda amorosa permanece atuante e produtiva, talvez hesitante em espaços exteriores atravessados por fenômenos naturais ou contrafeita em situações acanastradas, porém cada vez mais ávida de claridade e mútua celebração.

PEREIRA, Helder Moura. Mútuo consentimento. Lisboa: Assírio & Alvim, 2005.

Referência bibliográfica:
BENJAMIN, Walter et alii. Textos escolhidos. São Paulo: Abril Cultural, 1983. Col. Os Pensadores.
MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Os dois crepúsculos. Lisboa: A Regra do Jogo, 1981.
PEREIRA, Edgard. Portugal, poetas do fim do milênio. Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999.
PEREIRA, Hélder Moura. De novo as sombras e as calmas. Lisboa: Contexto, 1990. (Este livro engloba a produção do autor de 1979 a 1990)
______. Um raio de sol. Lisboa: Assírio & Alvim, 2000.
______. Lágrima. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.
______. Segredos do reino animal. Lisboa: Assírio & Alvim, 2007.
RIMBAUD, Arthur. Oeuvres complètes. Paris: Bibl. de la Pléiade, 1954.
(Uma versão deste texto foi publicada em Revista do centro de estudos portugueses. Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, n.36, ju.-dez.2006, p.325-328.)