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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Um poema de Lúcio Cardoso


      Receita de homem
Lúcio Cardoso





Depois deve ser alto,
sem lembrar o frio estilo da palmeira.
Moreno sem excesso para que se encontre
tons de sol de agosto em seus cabelos.
E nem louro demais para que, de repente
no olhar cintile algo da cigana pátria adormecida.
E que tenha mãos grandes, para demorados carinhos
e adeuses que se retardem ao peso do próprio gesto.
Pés grandes, também, porque não,
para que os regressos sejam breves
e haja resistência para as conjuntas caminhadas.
Os olhos falem, falem sempre, falem
de amor, de ciúme, de morte ou traição.
Mas que falem. Porque o homem sem a música dos olhos
é como sepultura exposta ao sol do meio-dia.
E que o riso relembre um pouco da infância,
para que se tenha, no fervor do beijo,
uma memória de pitanga e amora esmagadas
Ah, o corpo! Sucedam alvoradas ao longo do tórax gentil,
e escureça a penugem até o sexo velado.
(Mas não definitivamente.)
E o seu passo lembre a dança, mas com firmeza,
e o seu rastro fale de perfume, sem perfume
e escorram pausados rios em seus flancos hieráticos.
E que ele cante, sem cantar
por toda a sua humana contextura,
para que também em torno dele as coisas cantem,
quando, como o primeiro homem,
nu ele se erguer defronte ao mar.

Canto do Rio, 3/XII/55

CARDOSO, Lúcio. Poesia completa. Ed. crítica de Ésio Macedo Ribeiro. São Paulo: Edusp, 2011.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Centenário de Lúcio Cardoso

      2012 no fim, mas antes que termine, cabe lembrar o centenário de nascimento de Lúcio Cardoso - em Curvelo, MG, em 14 de agosto de 1912, falecido no Rio de Janeiro, a 24 de set. de 1968. Surgiu como escritor com Maleita, novela de traços regionalistas, em 1934, influenciado pelo neorrealismo, reconhecido por críticos e autores numa época em que a ficção de cunho social estava na moda. Em 1935 publica Salgueiro, novela sobre o morro homônimo do Rio, na mesma tendência. Com A luz do subsolo, romance de 1936, o autor adere à ficção intimista, de análise psicológica, na qual viria a se notabilizar, como o principal representante no Brasil. Nessa vertente, seu trabalho encontra parceiros em Octávio de Faria, Cornélio Pena, Josué Montello, Erico Verissimo, José Geraldo Vieira e Clarice Lispector. Com os dois primeiros passa a ser conhecido como o grupo de ficcionistas católicos, atormentados pela questões ligadas à dúvida religiosa, ao sentimento de culpa e à decadência. Em 1938, aparece Mãos vazias, novela impregnada de inquietação, angústia e sentimento de impotência. Em 1941, com a novela O desconhecido, Lúcio Cardoso retorna ao ambiente de Minas Gerais, ao empreender a análise de um indivíduo, cujo passado permanece ignorado, que se estabelece como trabalhador numa fazenda. As relações de José Roberto, o protagonista, com a velha proprietária, que tenta enredá-lo em sua teia dominadora, e com outros funcionários subalternos delineiam o pano de fundo da trama, cheia de peripécias, assassinato e fuga espetacular. Dias perdidos, o romance dado a lume em 1943, assinala em definitivo a consolidação do autor como romancista, desta vez operando com elementos autobiográficos. Em 1944, publica a novela Inácio, que prossegue em O enfeitiçado (escrito em 1947, lançado em 1954) e Baltazar, só publicada em 2000, formando a trilogia por ele denominada "Mundo sem Deus". O sentimento do ódio torna-se a temática básica de duas novelas, A profesora Hilda e O anfiteatro (1945). A consagração como romancista ocorre com Crônica da casa assassinada, de 1959, ponto alto em arquitetura narrativa, densidade dramática, escavação psicológica e espessura trágica, ao sugerir o debate em torno de paixões incontroláveis e do incesto. Como atividade paralela, simultânea à escrita dos romances, o autor dedicava-se à poesia, ao registro de um caudaloso diário, a roteiros cinematográficos e peças de teatro. Atingido em 1962 por um AVC, que lhe paralisou metade do corpo, encontrou nos últimos anos na pintura sua forma de expressão. 
      Extremamento habilidoso em descrever conflitos extremos, ocorridos em cenários toldados de fumaça e sombras, quartos de pensão ordinária, mesas de bar sórdidas, apartamentos sufocantes, bordéis do centro do Rio antigo, interiores de fazendas mineiras, Lúcio Cardoso construiu um universo ficcional único, habitado por personagens insatisfeitos, perversos, alucinados. 

      A extensa fortuna crítica sobre sua obra tem início na década de 30 do século passado (Agripino Grieco, Manuel Bandeira, Carlos Drummond) e acompanha o aparecimento de seus livros. À medida que os anos correm, denota maior concentração e verticalidade. Ao lado de elogios, há também apreciações comedidas, como a de Mário de Andrade. Na década de 40, Sérgio Milliet aborda alguns romances de Lúcio Cardoso, salientando o sopro de novidade que eles trazem. Nas décadas de 50 e 60, Álvaro Lins analisa os romances A luz do subsolo e O desconhecido, sem esconder interesse e admiração, chamando a atenção para o seu relevante trabalho ficcional. "Exatamente esse clima de pesadelo é que constitui toda a atmosfera dos romances de Lúcio Cardoso, em que figuras, acontecimentos, paixões transcendem desde o início para um plano de intensa dramaticidade. Já se disse, por isso, que eram falsos, irreais, mistificados. Por mim, acho-os verdadeiros, reais, sinceros" (LINS, l963, p.113). O mesmo Álvaro Lins, na sequência, lamenta o rebaixamento estético de duas novelas, A professora Hilda e O anfiteatro: "representam ideias que não se concretizam devidamente em matéria de ficção, paixões humanas que não se revelaram em episódios, nem se exprimiram em caracteres de personagens, de acordo com a técnica e a forma da novela" (LINS, 1963, p.116).

      Em 1972, é defendida uma dissertação de mestrado sobre o autor: Formas de evasão em LC, trabalho elaborado no curso de sociologia da USP, por Guilherme Ferreira Silva. É a primeira pesquisa de um total de 82 trabalhos acadêmicos existentes até hoje, entre monografias, dissertações e teses de doutorado.  Na década de 80, seduz grande número de pesquisadores: Mario Carelli publica a biografia, Corcel de fogo: vida e obra de Lúcio Cardoso (1988). Dez anos mais tarde, Ruth Silviano Brandão, na UFMG, ministra um curso de Pós-Graduação baseado em sua obra, comemorando os trinta anos de sua morte; daí, resulta a publicação de Lúcio Cardoso, a travessia da escrita (1998). Em 2006, Ésio Macedo Ribeiro publica O riso escuro ou o pavão de luto: um percurso pela poesia de Lúcio Cardoso. Em 2008, o Centro de Estudos Portugueses da UFMG dedica-lhe o número 39 de sua revista.  O ano de 2011 assinala a publicação da obra poética, organizada por Ésio Macedo Ribeiro, a monumental Poesia completa (Edusp)Deve-se ainda a este pesquisador a publicação do conjunto dos diários, lançado em 2012 (Diários- Lúcio Cardoso). Contos da ilha e do continente, coletânea de narrativas curtas publicadas na década de 40 e de 50, selecionadas e apresentadas por Valéria Lamego (Civilização brasileira), constitui outro marco importante, neste ano do centenário do escritor. 


LINS, Álvaro. Os mortos de sobrecasaca. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1963.
CARDOSO, Lúcio. Diários. Organização, apresentação e notas por Ésio Macedo Ribeiro. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2012.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Stella Maris Rezende

Livro do mês

      Os prêmios literários são manipulados e atendem a interesses pontuais, em especial os econômicos e políticos. Não é novidade para ninguém. O exemplo gritante dessas distorções tem sido o Jabuti dos últimos anos, à mercê de mudanças de regulamento, trapaças, polêmicas e atribuição disparatada de galardões. Na última edição, os quiprocós envolvendo o voto do jurado C com a consequente premiação de um estreante, o paranaense Oscar Nakasato, na categoria romance, respingaram na escolha do melhor livro de ficção do ano, uma novela juvenil, escrita por Stella Maris Rezende, A mocinha do mercado central. Parece ser uma retaliação ao que deveria ter sido o convencional resultado, não fora a estratégia do jurado, favorecendo sua preferência. A praxe tem sido o vencedor de melhor romance acumular o troféu de melhor livro de ficção. Os votantes da última hora, oriundos do comércio, não quiseram se submeter ao vencedor da categoria romance e optaram por um produto de área conexa. 



      Não é o caso de desmerecer o gênero juvenil. Simplesmente o livro escolhido como livro do ano de ficção é um produto de fatura estética mediana, atulhado de lugares comuns, desempenho linguístico raso, enredo desinteressante e insosso. A história acompanha as viagens e pretensas aventuras de uma garota pelo Brasil, do interior de Minas para Belo Horizonte, Brasília, São Paulo, São João del Rei e Rio de Janeiro. Herda de uma amiga o gosto pelo significado dos nomes próprios e sai pelo mundo mudando de nome, rotulando as pessoas com verbetes etimológicos, alguns bastante inusitados e de efeito hilário, quando deveria ser o contrário. Uma novela simples, despretensiosa, arrematada tolice ficcional, feita de  situações lacrimosas e descobertas edificantes e pitorescas. Munido de recursos peculiares dos relatos de formação e de uma ligeira reminiscência, o livro de Stella Maris explora um filão romanesco que teve no Brasil cultores ilustres e capacitados, como Érico Veríssimo (Clarissa), Garcia de Paiva (Esse menino Francisco), José Mauro de Vasconcelos (Meu pé de laranja lima) e o próprio Bartolomeu Campos Queirós. Alguns ingredientes característicos do folhetim (a busca da figura paterna, por exemplo) sustentam a trama, em meio a uma enfiada de atitudes politicamente corretas e de circunstâncias banais e afetadas. Os lugares visitados compõem um mosaico superficial do Brasil, descritos com uma empolgação de reportagem turística apressada, tudo selecionado pelo critério de se alcançar um resultado redondo, que inclui a modernidade de Brasília e o passado do Real Gabinete Português de Leitura, do Rio de Janeiro. A santa aparece, fala e se move num "modo comedido e elegante" (p.29). O ator Selton Melo é personagem, por quem a mocinha se apaixona, além de apresentar o livro com estampa e pequeno texto. O primado do lírico sobre o drama, o alvoroço de diminutivos, o registro coloquial enjoativo e o excesso de coisas delicadas geram monotonia e desandam o gosto do leitor. O projeto gráfico acolhe efeitos chamativos, como vinhetas de galhos floridos no canto das páginas, coloridas e ilustradas. As pérolas de linguagem apresentam frases desse naipe: 

      " Jairo, "aquele que foi iluminado", comentou" (p.109). 
      " Ajeitou o diadema no cabelo, mas não ajeitou o diadema no cabelo" (p.110).
      "...não rira nem caçoara da sua paixão docinha..." (p.87).
      " A franja espessa e lisa era jogada para trás, com agilidade e exibidência  (p.44)"
      " Diante de uma mesa lindinha". "- Vamos conversar um mucadinho? (p.85)
      " A confeitaria era mesmo um primor".
      "- Nasceu pra sonhar, mocinha? Eu prefiro a prática.
      - O sonho também é uma boa prática (p.25)". 

      Não se trata de um livro qualquer. Foi escolhido como o principal livro de ficção do ano. Livros excessivamente elogiados - e uma premiação tradicional é um somatório deles - devem desenvolver couraça para receber críticas. Após as luzes do anúncio do prêmio, vem a travessia para a recepção crítica e avaliações. Neste caso, fica difícil escamotear a decepção e a evidência amarga de que o Jabuti está decadente, não é mais aquele de décadas atrás.

REZENDE, Stella Maris. A mocinha do mercado central. ilustrações Laurent Cardon. São Paulo: Globo, 2012.


sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Alcione Araújo (1945-2012)

      Morreu na madrugada da última quinta-feira, aos 67 anos, o dramaturgo, roteirista, diretor de teatro e romancista Alcione Araújo. Nascido em Januária, norte de Minas, desde 1978 residia no Rio de Janeiro, mas estava hospedado em hotel de Belo Horizonte com família quando sofreu um infarto.

                                                     (Foto de jornal, O Globo)
      O autor, um crítico e refinado intérprete dos costumes e situações humanas, além de peças de teatro, também escreveu crônicas e romances. Nos anos 70 surpreendeu os palcos do país com marcantes textos que foram encenados por importantes atores. Foi com a montagem inicial, em Belo Horizonte (1976), de Bentes altas, licença para dois, dirigida por Aderbal Freire e interpretada por José Meyer e Antônio Grassi que os dois atores, em início de carreira, partiram para o Rio de Janeiro.  Dirigida por Amir Haddad, Há vagas para moças de fino trato, foi interpretada por Glória Menezes, Yoná Magalhães e Renata Sorrah, em São Paulo. Sua peça de maior sucesso foi  Doce deleite, encenada por Marco Nanini e Marília Pêra, que esteve em cartaz durante dois anos (1981-1982), percorrendo diversas cidades brasileiras. A produção teatral completa do autor, em treze títulos, foi publicada em 1999, em 3 volumes, pela Civilização Brasileira. Na orelha do vol. 2, o diretor Aderbal Freire Filho define-o como um "artista brasileiro inspirado e profundo". Yan Michalski, em análise a Sob neblina use luz, destaca o seu engajamento político:

      "Os personagens de Alcione Araújo vivem afastados de qualquer tipo de questionamento acerca das estruturas sociais e políticas que condicionam suas pobres existências.Cada um deles funciona, um tanto lamurienta e covardemente, mas na verdade o melhor que pode, dentro da pequena perspectiva estanque delimitada pelas fronteiras do seu respectivo cotidiano. E, no entanto, as medíocres histórias que compõem esse cotidiano estão mergulhadas, como que sem querer, na História".

       Foi premiado no cinema com o roteiro de Nunca fomos tão felizes (1984), do diretor Murilo Salles  nos festivais de Gramado e Brasília. Assinou ainda os roteiros dos filmes Jorge, um brasileiro e Policarpo Quaresma, do diretor Paulo Thiago. O livro de crônicas Urgente é a vida (2004) foi agraciado com o prêmio Jabuti.  Publicou os romances Nem mesmo todo o oceano (1998), Pássaros de voo curto (2008) e Ventania (2012). Nos três observa-se o interesse por construções audaciosas, complexas e abrangentes, na tentativa de empreender um verdadeiro mergulho na história brasileira.  Em Pássaros de voo curto, os infortúnios e sonhos de Diva, uma cantora lírica que percorre o país, num veículo adaptado pelo motorista Zé Bolero, acompanhada pelo pianista americano Ralph Conway, para quem "a luz tropical fere como uma agulhada", são pano de fundo para o registro de inúmeras passagens da nossa história.


terça-feira, 6 de novembro de 2012

Carlos Ávila

Livro do mês:

      Intervenções poéticas tutelares são fenômenos que ultrapassam a linha do tempo. Fundam raízes, provocam resposta, abrem janelas. Este preâmbulo é adequado ao livro Bissexto sentido,de Carlos Ávila, dado a lume na prestigiosa coleção Signos, dirigida por Haroldo de Campos, da editora Perspectiva. Abarca três livros, em ordem que baralha o critério cronológico, pela disposição do mais recente ao mais antigo: Ásperos (1997), Sinal de menos (1989), Aqui & agora (1981). 


                                                          (Foto do Estado de Minas)
      A poesia elaborada pelos poetas brasileiros surgidos nos anos setenta em diante mostra-se caudatária de duas tendências antagônicas: de um lado, seguidores fiéis do concretismo, numa pulsação epigônica; de outro, os praticantes de uma escrita poética discursiva, com liames no surrealismo europeu ou na lírica beat americana. A citação de nomes é complexa e demorada, correndo o risco de se revelar parcial, em função de diversificados formatos de estreia e permanência. Régis Bonvicino, Ronald Polito, Sebastião Nunes, Leminski, Antônio Cícero, Arnaldo Antunes, Carlos Ávila, entre outros, compõem o grupo de formação neoconcreta. No extremo oposto, (nem tão oposto assim, visto que muitos de cá transitam também do lado de lá e vice-versa), alinham-se Ana Cristina César, Márcio Almeida, Osvaldo André de Mello, Yacir Anderson, Paulo Henriques Brito, Waly Salomão, Adão Ventura, Geraldo Reis, Adélia Prado, Geraldo Carneiro, Mário Alex Rosa, Antônio Carlos Sechin, Chico Alvim, Armando Freitas Filho, com acento numa subjetividade às vezes rebelde e excessiva, na sequência de contribuição efetuada por Roberto Piva, Cacaso e Hilda Hilst  desde os anos sessenta.
     Tendo inspirado no berço um poema de Carlos Drummond de Andrade, descendente de um clã de poetas inovadores (Laís Correia de Araújo e Affonso Ávila), Carlos Ávila não se intimida em inscrever gestos inventivos radicais, seja ao rasurar num poema o parentesco (sem som/sombra/sobrenome), seja ao inscrever sua indiferença "contra a chamada literatura brasileira/ uma grande piada sem graça". Artesão refinado, imprime em seu trabalho poético uma reelaboração irônica de clichês, uma interlocução com uma dezena de poetas críticos e uma apurada concentração lírica, a despeito da filiação aos parâmetros concretistas. O poema "Noite" é fundamental nessa visada, na media em que o desenlace engloba as articulações anteriores entre estrelas e janelas que se apagam para concluir: "a noite cai/ (como um sussurro)/ dura de doer". 


      A poesia concreta de Carlos Ávila, como bem percebeu José Paulo Paes, consegue "fugir às armadilhas do epigonismo", através de modos que se contrapõem a diretrizes orgânicas do "Plano piloto". A retomada da subjetividade, ainda que desprovida de confessionalismo e direcionada à construção de uma identidade poética (o percurso de eu a Orfeu), bem como traços tênues de narratividade, como se pode observar em "Um lance", "Baudelaire sob o sol", "Neighbours" e "Narcisus poeticus" apresentam eixos dessa virada.  As alusões a outros poetas (Verlaine,  Emily, Kilkerry, Torquato Neto, Rimbaud, Mallarmé, Apollinaire, Sá-Carneiro, Ronaldo Bastos) configuram a poética da citação, praticada pelos poetas mais recentes. Outro dado, este ligado à escrita marginal, nas dobras do "retorno do autor ao texto", de que fala Barthes, a propósito dos anos 80, vem a ser a ênfase no autoral, através de traços personalizados (foto, assinatura), revitalizando a moldura dos astros pop. A assinatura se dá numa caligrafia, uma grafia da cal, o que remete a Lacan, falando dos mestres japoneses: a caligrafia é o ponto onde a letra se faz litoral, mas não sabemos de que ponto ela arranca, nem o lugar em que ela se detém. 
    A intertextualidade com Rimbaud destaca a vidência como forma de penetrar no espaço do desconhecido, a ideia de poeta como ladrão de fogo: "sou o farelo do pão/ ladrão de palavras/ no vão/ do ão", no poema "Rima pobre". Resvala, com certa insistência, no sentido do verso, ameaçadora, a sensação de que a literatura sobrevive, articulada inexoravelmente à ideia de finitude - o livro é "natimorto", "O cheiro da morte" é título de um poema. Um dos pontos altos da coletânea abre-se ao conceito de partilha, à "direção múltipla de leituras":

      "voltar a cabeça, a página
      perder o texto em vida
      em dias
      voltar a cabeça a página
      ganhar em vida o texto
      direção múltipla de leituras
      invenção de espaços
      brancos
      (...) (ÁVILA, 1999, 131)

      Depois de visitarem a cidade, na companhia de Baudelaire, os poetas acercaram-se da linguagem para tentar descrevê-la e conhecer os seus limites - "ganhar em vida o texto" O poema embaralha os conceitos de escrever e viver, ao apelar para o antitético (camoniano,drummondiano) jogo de perder/ganhar, construindo um jogo de reflexos apto a fazer circular eixos fundamentais da produção poética: espaço branco, máquina (do mundo), (claro) enigma, página, a que não faltam as noções de risco bíblico, de voltar/revoltar a cabeça, recomeçando sempre o nunca terminado. 

ÁVILA, Carlos. Bissexto sentido. São Paulo: Perspectiva, 1999.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

O jurado trapalhão do prêmio Jabuti

      Foi manchete  nos cadernos culturais, gerou controvérsias, condenações e depoimentos favoráveis. Em resumo: no último dia 24, A Folha de São Paulo revelou que um dos jurados do Jabuti, denominado jurado C, da categoria romance, teria atribuído nota zero a livros de autores consagrados, que anteriormente ele mesmo avaliara com notas altas. Os livros prejudicados eram, entre outros, Mano, a noite está velha, livro póstumo de Wilson Bueno, e Infâmia, de Ana Maria Machado. A intenção teria sido impor à premiação o romance Nihonjin, do iniciante Oscar Nakasato.  Estava criado o circo: editoras, autores e críticos apresentaram opiniões contrárias, alguns condenando, considerando ter havido fraude; outros inocentando o jurando, no entendimento de que teria agido amparado pelos critérios do certame, que previam notas numa escala de zero a dez. Editores da Objetiva e da LeYa fizeram juz ao direito de espernear. A direção do Jabuti, mais uma vez arranhado, afirmou que tal não mais poderia acontecer. Ou seja, os critérios devem sofrer mudança.


      O que salta aos olhos é a estreita cumplicidade entre a imprensa e os interesses de mercado embutidos no Jabuti. Trata-se de um prêmio tradicional, subsidiado pela Câmara Brasileira do Livro, cujos parâmetros estão arraigados no fator venda. Se cabe tomar um partido, decido apoiar o jurado trapalhão: se quis impor seu voto, agiu de acordo com os critérios do concurso. Seu voto serviu para democratizar a frustração. Por que sempre são preteridos os iniciantes? O fato de veteranos assinarem um livro seria determinante de boa fatura literária? Tenho minhas dúvidas, aliás, sempre fico com um pé atrás em caso de concursos literários. Ou prefiro aceitar que muitas vezes os livros em segundo lugar é que são os grandes livros. Para tanto, basta lembrar os casos de concursos em que Eça de Queirós (com A Relíquia) e Fernando Pessoa (com Mensagem) ficaram em segundo lugar. Alguém se lembra dos livros que nesses casos ficaram em primeiro lugar?

                                           (Oscar Nakasato, em foto de  Publishnews)
      O incidente revela os bastidores do poder literário. E a literatura deveria ser o espaço balizado pela postura libertária, de anti ou contrapoder. A premiação de um estreante causou incômodo ao status e atiçou o vespeiro. Nem se trata de um estreante qualquer, mas de alguém que foi publicado após vencer um outro concurso literário, de âmbito nacional. Quem convive no dia a dia com a exacerbação de egos e a vaidade de alguns nomes consagrados, imagina o que ocorre. Após anos seguidos premiando famosos em áreas conexas (Chico Buarque, Nuno Ramos), a direção do Jabuti julga inconcebível premiar um iniciante. O jurado C (que depois se revelou ser o editor e crítico Rodrigo Gurgel) prestou um grande serviço à literatura brasileira: ao usar as brechas legais do certame, para premiar um estreante, recompensou décadas de frustração a todo iniciante que teve seus originais recusados pelas editoras. Parabéns, Oscar Nakasato! Ainda não li o seu livro, mas terei gosto em fazê-lo em breve. Se em outras ocasiões, envolvendo prêmios, me posicionei em apoio à transparência e ao mérito, não seria desta vez que me calaria.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Viagem ao Caraça

      Na semana passada, aproveitando o feriadão, que ninguém é de ferro, fui com a família para a Serra do Caraça. Era antigo o desejo de conhecer o lugar, enfim chegou a oportunidade. Desde o fim dos anos sessenta, mais precisamente 23 de maio de l968, quando houve o grande incêndio que destruiu quase por inteiro a biblioteca e parte das dependências, ouvia falar e lia a respeito do Caraça. Um pouco de história não faz mal: em 1774, o lendário  Irmão Lourenço, um aventureiro português, segundo alguns um fugitivo de seu país, por ter praticado maus feitos, construiu no local uma capela e iniciou atividades religiosas e sociais. Deixou em testamento a propriedade para a Coroa Portuguesa. Em 1819, Dom João VI a doou para a Congregação da Missão, em nome de dois padres Lazaristas, que lá fundaram o Colégio do Caraça em 1820. Numa época em que eram escassos os estabelecimentos de ensino, o colégio prosperou,  graças à rigidez de seus princípios e  à competência dos padres mestres. Dois ex-presidentes ali estudaram, Arthur Bernardes e Afonso Pena. A partir da segunda década do século vinte, passa a funcionar apenas como seminário, cujas atividades também se encerram em 1968, com o incêndio. A partir da década de 80, toda a complexa infraestrutura e as Ruínas do Caraça, restauradas, passaram a abrigar um Centro de Peregrinação, Cultura e Turismo, de 11 233 hectares, enquadrado como Reserva Particular do Patrimônio Natural, reconhecido pelo IBAMA pela portaria 32/94.


      Ali funciona hoje um grande núcleo de visitação, com sólido e diversificado interesse turístico. Os hóspedes ou visitantes têm à disposição um cenário natural belíssimo, variada fauna e flora, jardim, uma igreja neogótica, Museu, Biblioteca com obras históricas raríssimas, capelas, trilhas, lagoas, cachoeiras, grutas, picos. Fica entre as cidades de Catas Altas e Santa Bárbara, a 120 quilômetros de Belo Horizonte: o acesso é feito através de estrada asfaltada. Observei a presença de colégios, (um do Rio, outro de Ponte Nova, em ônibus modernos), alguns turistas estrangeiros, como duas famílias inglesas e um casal de Provença (França), com o qual pude exercitar meu enferrujado francês. O grande patrimônio cultural do Caraça, no entanto, exposto na Igreja, é o monumental quadro A Santa Ceia, executado em 1828 (óleo sobre tela, 240 x 440 cm), por Manoel da Costa Ataíde (1760-1830), renomado pintor mineiro, contemporâneo de Aleijadinho.


      Atração única, também, é a chegada do lobo guará ao adro da igreja, à noite. O animal aparece para comer carne, diante das pessoas que o aguardam, atentas e com certo incômodo, em volta do adro. Arisco, elegante, imponente, o lobo, pelos dourados e patas negras, um tanto assustado, também, sobe as escadas de pedra, olha de um lado ao outro, aproxima-se da bandeja e abocanha banana e nacos de carne, na frente de todos. O maior carnívoro da América do Sul, o lobo do cerrado, ao vivo e a cores, a menos de dois metros de todos ali.  Não há quem não sinta um medo  repentino e momentâneo.

                                                     (Foto de Gabriel P. Reis)

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Adriana Lisboa

Livro do mês:  Azul-corvo 


      Adriana Lisboa, carioca nascida em 1970, pertence à nova geração de ficcionistas brasileiros; detém, entre outros, os prêmios José Saramago e Moinho Santista. Doutora em literatura comparada pela UERJ, tradutora, publicou os romances Os fios da memória (1999), Sinfonia em branco (2001), considerado sua revelação, pelo qual ganhou o Prêmio Saramago, Um beijo de colombina (2003) e Rakushisha (2007). Tem livros editados em Portugal, França, Estados Unidos, Itália, México, Argentina e Suécia.
      Azul-corvo dá continuidade ao exercício de desconstrução dos modelos do romance naturalista, com ênfase na temática da violência, prática usual na ficção brasileira do século XX. A trama é construída  de forma multifacetada, numa mescla de discursos, em torno de Evangelina, a garota Vanja de treze anos, que resolve, após a morte da mãe, voltar para os EUA, onde nasceu, movida pelo interesse de conhecer o pai. Acolhida por Fernando, ex-marido de sua mãe, aproxima-se de um garoto salvadorenho, Carlos. De posse de informações colhidas na internet, empreendem os três uma viagem pela América, pretexto para novos contato e descobertas insólitas. Enquanto as pessoas resgatam lembranças, que envolvem lugares e relacionamentos, Fernando, o ex-guerrilheiro Chico, traz à tona o passado recente do Brasil, ao resgatar sua participação na guerrilha do Araguaia. Entrecruzam-se, no tecido ficcional, as memórias de sujeitos em busca da própria identidade e as memórias de lutas políticas, entremeadas de nomes trocados e violência, ainda que um tanto requentadas.
                                                     (Foto do blog Dedo de moça)

      "Quando penso em Fernando hoje, nove anos passados desde aquelas minhas primeiras semanas em Lakewood, me lembro dos braços dele. Era ali que devia morar o Fernando de fato, sua alma, sua personalidade. Os braços que eram somente uma força hipotética durante as horas diárias como segurança na biblioteca pública de Denver, unhas do gato dentro das patas do gato. Os braços que eu tantas vezes vi tirando as marcas dos vidros e o pó das superfícies e o lixo do chão alheio. Os braços que um dia se crisparam com o peso de uma arma - não sei qual o peso de uma arma, não sei qual o peso que se acrescenta a uma arma ou se subtrai dela dependendo do propósito com que ela se empunha. Os braços que eu sabia terem dado a volta no corpo da minha mãe, 360 graus (o amor, arma branca, arma que desarma) e, no corpo daquela outra mulher anterior à minha mãe e a Londres e ao Novo México e ao Colorado". (LISBOA, 2010, 98)


      Em termos ficcionais, são reelaborados ingredientes típicos do discurso da imigração, questões ligadas às trocas culturais, aos signos linguísticos, costumes e miscigenação. Ao decidir levar como acompanhante no périplo em busca de suas raízes o amigo Carlos, numa viagem que representa um mergulho na cultura hispânica no território americano, Vanja lhe possibilita repensar a construção da identidade, até certo ponto desprezada pelos pais do garoto, que viviam se babando pelos costumes ianques. O relato-valise, ao qual se agregam elementos díspares, como bagatelas relacionais e lutas políticas, revela-se um elástico mosaico pós-moderno, ao qual vão se colando, como fita adesiva, variados fragmentos. Procede daí, por vezes, um andamento de contínuas voltas ao passado e uma narrativa arrastada, incorporadora, desfibrada, multinacional, turística, cultural, sem deixar de ser orgânica, detalhista, engajada, que avança sem dificuldade, segundo a metáfora do "smooth sailing, e se revela melancólica, instrutiva, elegante. A linguagem refinada, artificial, beirando a certo preciosismo estilístico, como forma de sustentar um ritmo frouxo, é um traço reconhecido pela crítica. 

      "Não se coloca em questão a competência artesanal e a densidade descritiva do trabalho de Lisboa, até de sofisticação no domínio da linguagem, mas falta espontaneidade e algum fulgor do imediato e de algo que surpreenda e possa desarmar a mão segura da estilista. Neste sentido, aquilo que aparenta sensibilidade e simplicidade feminina muitas vezes chega ao leitor como um bordado domesticado, no limite da saturação e do exagero," (SCHOLLHAMMER, 2009, 136).

      Pelo recorte peculiar, qual seja o de delegar a uma adolescente o foco narrativo, resulta um olhar menos contaminado por juízos racionais, mais livre e ingênuo para apreender o outro e a diferença. Num relato em que a temática da imigração ocorre não por motivos econômicos, que impele a saída do solo pátrio em busca de oportunidades, mas por razões afetivas. Um subsídio produtivo, para operacionalizar os conceitos de identidade, tradução cultural e entre-lugar.

LISBOA, Adriana. Azul-corvo. Rio de Janeiro: Rocco, 2010.
SCHOLLHAMMER, Karl Erik. Ficção brasileira contemporânea. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2009.
   

domingo, 30 de setembro de 2012

Autran Dourado (1926-2012)

      A bruxa anda mesmo à solta. A Indesejada das gentes fugiu do poema de Bandeira e vai ceifando vítimas. Morreu hoje no Rio de Janeiro, onde morava desde o ano de 1954, o romancista mineiro Autran Dourado. Autor de meia dúzia de romances fundamentais para a literatura brasileira, traduzido para o inglês, alemão, francês, espanhol, norueguês, integra, com o romance Ópera dos mortos, a Coleção de obras representativas, da UNESCO. Nascido em Patos (MG), passou a residir desde o primeiro mês de vida no sul de Minas, nas cidades de Monte Santo e São Sebastião do Paraíso, por conta da transferência do pai, juiz de direito. Publicou, dentre outros, os romances Sombra e exílio (1950), A barca dos homens (1961), Uma vida em segredo (1964), Ópera dos mortos (1967), O risco do bordado (1970), Os sinos da agonia (1974), Novelário de Donga Novais (1978), Lucas Procópio (1984) e Ópera dos fantoches (1994). Revela-se notável contista em Nove histórias em grupos de três (1957) e discute a teoria ficcional em Uma poética do romance: matéria de carpintaria (1976).  Os maiores prêmios: Machado de Assis (2008, ABL) e o Luís de Camões (2000, governos do Brasil e Portugal). 

                                              (Foto de Ana Carolina Fernandes/Folhapress)
      A obra de Autran Dourado, intrigante e elaborada com sofisticados recursos técnicos, tem gerado diversos estudos, no país e no exterior. Até 1996, quando Eneida Maria de Souza organizou o volume Autran Dourado, para a Coleção "Encontro com Escritores Mineiros", havia, no âmbito acadêmico, 28 dissertações e teses de doutorado nela centradas, sendo duas na França e uma na Alemanha. Em depoimento transcrito no livro referido, o autor manifesta preferência pelo breve e delicado relato da vida de Biela:
      "Um livro que me toca particularmente em toda a minha obra é quase que uma elegia. Se eu fosse poeta teria feito do tema e da história desse livro uma elegia. É o filho de quem mais gosto - Uma vida em segredo. Tenho por ele muita ternura, pois escrito em tom menor, num tom mais intimista. Eu não posso comparar Uma vida em segredo com Os sinos da agonia, que é um romance polifônico, para usar a terminologia de Bakhtin". (SOUZA, 1996, p.42-43)

      Seus romances podem ser analisados sob a perspectiva do conhecimento da história de Minas Gerais e da sábia fusão de traços populares e eruditos. A decadência da sociedade mineira é descrita através de uma memória prodigiosa, incapaz de se desvencilhar de um passado que insiste em se insinuar no presente através de detalhes desbotados e indícios de ruína. Nas palavras de Eduardo Portela: "Autran Dourado é um cronista requintado da decadência rural. De um Brasil que será cada vez mais 'um retrato na parede'. Mas um cronista que perdurará, porque redimido pela dimensão estética". (SOUZA, 1996, p. 105-106)  Um narrador astuto, o disfarce autoral, personagens atormentadas, reflexões sobre os bastidores da escrita e os recuos no tempo são elementos em geral presentes em seus relatos.

SOUZA, Eneida Maria de. Autran Dourado. Belo Horizonte: Centro de Estudos literários da UFMG; Curso de Pós-Graduação em Letras-Estudos Literários, 1996. 114 p.

sábado, 22 de setembro de 2012

Monteiro Lobato racista?

      A obra de Monteiro Lobato (1882-1948) tem ocupado os debates nos cadernos culturais, após a audiência ocorrida no Supremo Tribunal Federal, para discutir a presença de racismo no livro Caçadas de Pedrinho, título constante do Programa Nacional Biblioteca na Escola. O caso arrasta-se desde 2010, com a recomendação do CNE (Conselho Nacional de Educação) de que o livro, publicado em 1933, deveria ser retirado do Programa referido, por alegação de racismo. O ministro Luiz Fux em nota alega "relevante conflito em torno de preceitos constitucionais, no caso, a liberdade de expressão e a vedação ao racismo". O MEC liberou, exigindo que constasse nos livros distribuídos uma "nota explicativa".  A medida não foi considerada suficiente para o Iara (Instituto de Advocacia Racial) do Rio de Janeiro que teria se manifestado contra, argumentando "que a obra faz referências ao negro com estereótipos fortemente carregados de elementos racistas".  Dentre os fragmentos portadores de racismo cita-se a descrição de tia Anastácia como "macaca de carvão".

                                                         (Imagem de Caros Amigos)
      As obras literárias são representativas não apenas da bagagem cultural do autor, mas do contexto em que foram escritas. São depositárias do legado de contingências e contradições históricas. Não são obras de edificação moral, rol de conselhos de atuação proveitosa e solidária. Ao contrário, a presença de traços de boa conduta, de forma gratuita, desprovidos de conexão ficcional contribui para mediocrizar o alcance estético. Quando se mostram interessadas em atuar no sentido da conversão, engajadas num compromisso de elevação moral, perdem em vigor e complexidade. As obras literárias acolhem por vezes o contraditório, as perversões sexuais, a intolerância, a ideia preconcebida, as crendices. Universo construído através de palavras e signos, de existência basicamente textual, movimenta personagens que se relacionam em intrigas regidas pelos parâmetros do verossímil e não  do verdadeiro.  Como afirma Noemi Jaffe, em artigo recente na Folha de São Paulo: "A literatura - e a arte- são territórios onde cabem o erro, o preconceito, a divergência e a loucura". Por serem ficção (fingimento) e participarem de outro mundo autônomo, não se prestam a inquéritos jurídicos, relevantes e pertinentes no mundo real. Os laços com o mundo real são fluidos, tênues, consistentes apenas num sistema de referência.

      Grandes obras literárias são julgadas fora de contextualização e rotuladas aleatoriamente. O poema Os lusíadas, de Camões, ponto alto da literatura portuguesa, escrito no século XVI, é considerado um libelo imperialista, por relatar a expansão ideológica da aristocracia lusa. Nesse aspecto o autor não oculta ser um  admirador do ideário e das memórias daqueles reis que foram dilatando "a fé, o Império". O excepcional poeta e ficcionista argentino Jorge Luís Borges permanece incólume, a despeito de ter sido fartamente patrulhado como conservador. Fernando Pessoa atravessa gerações de admiradores, apesar de ter sofrido uma campanha depreciativa, em razão de articulações favoráveis à monarquia. A Bíblia exibe passagens carregadas de violência e intolerância, atenuadas quando analisadas em seu devido contexto e intencionalidade.

      Lidas hoje, num contexto em que as relações étnicas evoluíram, algumas passagens de Monteiro Lobato podem soar como racistas. O perigo é ignorar o contexto em que foram criadas, numa sociedade de estruturas sociais muito rígidas, em que a separação entre brancos e negros, ricos e pobres era muito sensível. Pedrinho vive numa família de fazendeiros, na certa descendentes (dentro do pacto do mundo ficcional possível) de antigos proprietários de escravos. Os negros em geral ainda viviam em ofícios subalternos, como colonos ou agregados de proprietários de terra ou ricos comerciantes.  A questão não é proibir sua obra, atitude que evidencia obscurantismo próprio dos tempos inquisitoriais e nazistas. Cabe reciclar os modos de leitura, renovar as expectativas, perceber alterações capazes de modificar a sociedade, sem eliminar a diversidade e as conexões vitais.

JAFFE, Noemi. Não se pode tratar alunos como meros espectadores ingênuos. Folha de São Paulo. São Paulo, Ilustrada, p.3, 11 set.2012.

domingo, 9 de setembro de 2012

Mário de Andrade e os amigos mineiros

      Há sessenta e oito anos, por esses dias de setembro, Mário de Andrade (1893-1945) saltava na Gare da Central do Brasil em Belo Horizonte, após sacolejar mais de vinte horas de trem. Era o dia 4 de setembro de 1944. O escritor paulista visitava pela quarta e última vez a capital mineira, então uma provinciana cidade de quase trezentos mil habitantes, sob o pretexto de preparar um grupo de jovens escritores para um Congresso literário a se realizar, no ano seguinte, em São Paulo. Acima de tudo, ao que parece, Mário, à época um tanto decepcionado com a vida literária, pressentia que os novos amigos de Minas poderiam confortá-lo. As outras três viagens ocorreram por motivações várias, ainda que o signo da amizade esteja presente. Em 1919 viajou sozinho a Ouro Preto, para conhecer o poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens, selando o início de uma amizade que coroava uma grande admiração. Em abril de 1924, integrou a famosa caravana de modernistas (Olívia Guedes Penteado, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, o pianista russo René Thiollier, o francês Blaise Cendrars) que visitou Minas Gerais, para estudar a arquitetura barroca colonial, passando por Belo Horizonte, Ouro Preto, Mariana, São João del Rey, Tiradentes. Conhece Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), com quem passaria a se corresponder, e alguns novos escritores.  A terceira viagem ocorreu em 1939, atendendo a convite do DCE (representado pelos irmãos Wilson e Carlos Castelo Branco na diretoria) para proferir conferência aos estudantes. Conhece os jovens escritores  Murilo Rubião (1916-1991), Paulo Mendes Campos (1922-1991), Otto Lara Resende (1922-1992), Hélio Pellegrino (1924-1988), Wilson Figueiredo (nascido capixaba em 1924, mas criado em Minas desde bebê),  Henriqueta Lisboa (1901-1985) e João Etienne Filho (1918-1997), dentre outros.

                                               (Imagem do Instituto Moreira Salles)

      A foto reúne os autodenominados quatro cavaleiros do apocalipse: Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende.

       Na última viagem, iniciada no dia 3 de setembro de 1944, Mário estreitou laços de amizade com escritores com os quais já se correspondia e fez novos contatos. Entre os amigos mais antigos, contavam  os conhecidos em 1924, como Emílio Moura (1902-1971), Abgar Renault (1901-1995), Pedro Nava (1903-1984), Rodrigo Melo Franco (1898-1969), com quem havia trabalhado, no Rio de Janeiro, como assessor no âmbito da implantação do SPHAN (Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), além dos intelectuais conhecidos em 1939. Um deles, Fernando Sabino (1923-2004), não se encontrava em Belo Horizonte, fora ao Rio de Janeiro resolver pendências familiares. Carlos Drummond de Andrade já se mudara, em 1934, para a capital federal, na função de chefe de gabinete do Ministro da Educação, Gustavo Capanema. O grupo de amigos mineiros ampliou-se e, à altura, compreendia também Sábato Magaldi (1927-2016), com menos de vinte anos e que se tornaria renomado crítico teatral. Todos mais tarde acabaram se impondo, unidos por laços de afeto e cumplicidade, em diversas áreas de atuação, de forma brilhante. Há registros de que, além dos quatro "cavaleiros do apocalipse", estiveram também no Cassino da Pampulha, nessa noite, os futuros cineastas e irmãos Renato e Geraldo Santos.

      Dentre as múltiplas atividades de Mário de Andrade, músico de formação, que num conhecido poema afirma ser "trezentos", coexistem o pesquisador, o folclorista, o poeta, o romancista, o crítico e o incentivador de novos talentos, tanto na literatura como em outras artes. Os jovens enviavam-lhe textos e livros, na expectativa de receber orientação e conselhos sobre o material produzido. O autor de Macunaíma, não se sabe como, encontrava tempo para responder a todos que a ele se dirigiam, numa peculiar relação de mentor intelectual. Dos mais distantes recantos do país, jovens endereçavam para a rua Lopes Chaves, em São Paulo, cartas, objetos de arte e recebiam resposta.

                                           (Imagem do IEB, USP)

      "Lhe escrevo. Por que lhe escrevo primeiro? 'Eu sou trezentos', e não consigo saber firme qual dos trezentos me move. Talvez eu esteja mais próximo do Hélio, mas talvez você esteja mais próximo de mim...(Não imaginei procurado esta sutileza: saiu sem eu querer e não a entendo bem! Apenas sei que é verdadeira.) Talvez porque seja a carta mais fácil. O Hélio me preocupa demais... O Paulo é o que mais me inquieta...Você nem me inquieta, nem me preocupa exatamente. A modos que você me 'ocupa'; a sua presença é menos insistente, mas é mais contante, me envolve com aquele silêncio quente das conivências. Nós já nos conhecemos desde o princípio do mundo".

      O fragmento acima faz parte de uma carta de Mário de Andrade a Otto Lara Resende, datada de 24 de setembro de 1944, uns quinze dias após a última viagem a Belo Horizonte. A aproximação do escritor paulista com os mineiros acentuou-se em 1943, através de um encontro em São Paulo com Hélio Pellegrino, João Etienne e o nadador Fernando Sabino, que participaria de uma Olimpíada Universitária. Os jovens mineiros causaram impressão no consagrado escritor, tendo incentivado a correspondência entre eles. Regressando a São Paulo, após a visita a Minas de 1944, Mário escreve em primeiro lugar a Otto Lara Resende. Por quê? Afinidades poéticas, na certa. Em Belo Horizonte, a 10 de setembro de 1944, houve uma esticada ao Cassino da Pampulha, recém inaugurado; ali beberam, conversaram e Otto, de madrugada, escreveu de um jato o "Poema para Mário de Andrade". Entre outras coisas, o poema diz: "Acima das dançarinas e das acrobacias,/ tua lucidez me espia/ complacente".

      A revista Serrote I, do Instituto Moreira Salles, publica a carta de Mário e o poema de Otto Lara Resende. Vale a pena ler na íntegra. Dentre os estudiosos da correspondência de Mário de Andrade, cabe citar os nomes de Antonio Candido, Marco Antônio de Moraes, Valdomiro Santana, Silviano Santiago e Eneida Maria de Sousa.

MORAES, Marco Antônio de. Mário e o pirotécnico aprendiz. (Org.) Belo Horizonte: Ed. UFMG; São Paulo: IEB-USP; São Paulo: Ed. Giordano, 1995.

(Este texto recebeu pequenas alterações em 18/08/2016.)

domingo, 2 de setembro de 2012

Joaquim Manuel Magalhães


Livro do Mês: 


         Joaquim Manuel Magalhães constitui hoje um dos nomes tutelares da poesia portuguesa. Tendo estreado individualmente em 1974, com o livro Consequência do lugar, participou da experiência ousada de Cartucho em 1976. De lá para cá tem publicado regularmente, alternando a produção poética com uma atenta reflexão sobre a poesia portuguesa contemporânea, como atestam três fundamentais livros de crítica - Os dois crepúsculos (1981), Um pouco da morte (1989) e Rima pobre (1999. É ainda autor de um exaustivo ensaio sobre o poeta Dylan Thomas, como parte de sua integração acadêmica. Em outra área também tem se empenhado, com traduções reconhecidas e premiadas de poesia grega e espanhola contemporâneas. Personalidade polêmica, de convivência entre a aspereza e o intratável, atualizou no contexto literário português das últimas quatro décadas alguns lances típicos de um “enfant terrible” da estirpe rara de um Jean Cocteau ou de um Rimbaud. O leitor de antologias e recolhas de poesia dos últimos trinta anos conhece um pouco de suas recusas e sonegações.
         A poesia estampada em Alta noite em alta fraga revela uma severa vigilância sobre a expansão lírica, na busca de um equilíbrio entre a dicção individual e o grito asfixiante num repertório temático de amplas dimensões. A recepção positiva a este livro em Portugal, à época do lançamento, revelou-se unânime, resenhas e comentários ressaltando a altíssima tensão poética. Como se tratasse de uma obra única, desconectada da produção anterior. O que é um tanto falso: as recorrências a motivos de outros poemas são várias; em especial duas, de forte impacto: a consciência da escrita e do sujeito. Algumas posturas, disseminadas em torno da contaminação da escrita pela experiência, inscrevem-se, ainda que aparentemente desconexas ou refreadas: “Escrevo para não esquecer:/ o silvo de um muro, uma chave quebrada,/ tudo o que da alameda já não vejo/ e quando descia do alto do adro/ para dentro das tuas mãos” (p.41), reelaboração de um eixo nodal de Alguns livros reunidos, através de assertivas como “Prefiro a arte de esquecer à de lembrar...” (“Contava-me das viagens nocturnas”). Reforçando a intratextualidade, lemos “Detesto o esteticismo, os que seguem/ a literatura, quero um corpo habitual/ adormecido na madrugada...” (p.75), reverberando alguma atmosfera dilacerada e cética presente no livro Uma luz com toldo vermelho - “Detesto a poesia”. E o que dizer dos bares cuja música “atenuava um pouco/ a pretérita euforia das ruas” (p.58) retomando as caves suspeitas de livros anteriores? Ou como não aproximar idiossincrasias nos modos de enunciação, tais como “Tudo o que me dói enterra-se/ no pátio do detonador” (p.71) em ressonância a modulações análogas: “Começo onde a memória dói” de Alguns livros reunidos ?

 Como acontece nas grandes intervenções no tecido cultural de uma nação, o rescaldo assume proporções alarmantes, como se de uma pós-guerra civil se tratasse. Ficam aparentemente em plano secundário as postulações subjetivas e o desespero diante da utopia desmantelada. Está em causa o balanço de um país e de uma época, repensados através de uma poderosa lucidez e de uma radical veemência: “Os ruídos sobem de qualquer lugar,/ sintetizadores, martelos, desabamentos / uma percussão alheia a qualquer justiça./ Nenhuma janela que não fale/ da construção administrativa dos piores instintos./ Todo o lixo do humano feito sebo/ em qualquer lugar. Ainda que me digam/ que vivemos em democracia eu digo/ que não sei” (p.78).

A cidade, outrora espaço de civilizada vizinhança e conhecimento, é revelada como lugar de devastação e bárbaro consumismo: “Aos balcões de cafés de azulejo,/ com telemóveis pendurados nos cintos/ e os cartões de crédito em dente na carteira” (p.79). A consciência de que o progresso aporta consigo a destruição e a miséria é contígua à ideia de poesia como linguagem de denúncia, não pactuada com a erosão: “Cada próspera cidade tem no seu meio/ uma cidade de subnutrição, crianças mortas,/ desalojados, desemprego” (p. 9). E, sobretudo, no bojo do desencanto diante de utopias globalizadas, a sucessão de logros e enganos corrói a certeza de que o sistema urbano um dia representou a síntese positiva do progresso e igualdade de oportunidades: “O ódio étnico, o rodeio do nacionalismo,/ os padrões de migração que mudam/ imensas cidades povoadas de despovoamento(p.11-12).
A contrapartida subjetiva do livro, atravessada pelo desejo, indicia, a seu modo, com a habitual síntese de sutileza e contundência, também um balanço, por sua vez irônico e amargo: “...O dia de depois é inteiramente inútil/ e temos de nos bastar com o prazer de estar só” (p. 61). A interface da demanda erótica, menos prestigiada pela recepção, se ressente de um confronto conturbado com o fluir do tempo, configurando o poema como o espaço desamparado da memória, aquilo que resiste ao apagamento: “Eu digo para mim que é esta/ a utilidade da poesia,/ a lembrança” (p.60). O uso de vocábulos raros e preciosos, em desuso no dia-a-dia, nos títulos de alguns poemas (“Valvulina”, “Arandela”, “Adiafa”, “Acendimento”, “Columbário”) constitui mais um traço a apontar para a poesia como espaço daquilo que não encontra eco no mundo real. A experiência erótica, com aceno na intimidade e no afeto, surge como uma das mais singulares aventuras do sujeito, ainda que em inusitadas manifestações: “Esta noite dormi com os amantes/ que tinham morrido. Ouvia-os/ no espaço por onde ondeia o nada. // (...) Emprestam à minha mão o sexo/ que também eles um dia prenderam” (p.44). O sujeito vê-se fragmentado e terrivelmente devastado num presente sem horizontes e perspectivas, assolado pela idéia do tempo que avança para toldar uma sensibilidade prestes a despedir-se do mundo dos prazeres: “Ficarei entregue à velhice que começa/ e em breve fugirá, dado à assombração,/ gases, flatulência, desaires” (p.64).
A dimensão trágica e impetuosa desta lírica pós-moderna de certa forma parodia as íngremes apóstrofes românticas, em que pesem a ênfase à noite e referências mortuárias (“Com tanto túmulo para visitar.” p.47), além das inúmeras alusões à doença do século - “um vírus que nos deixou entregues/ ao anjo sem guarda” (p.27); “Tenho medo das manchas, dos lugares/ dos gânglios, da primeira impotência” (p.74). Da altura dessa noite e dessa fraga descortina-se o arejado espectro de um mundo em erosão, seja na vertente maior (o país), seja na esfera menor (o sujeito): “Teve o que todos tinham, em quantidade escassa,/ até cobrir-se de desterro e de ilegais” (p.77). O azedume atinge indiscriminadamente tanto as potestados do Olimpo, como os detentores do poder. A devastação da cidade é metonímia da devastação subjetiva, as experiências de ruína se sucedem: “Ao alto dessas ruas que Lisboa já não tem/ havia um andar quase arruinado/ (...) No vagar desse desmoronamento/ essa ruína foi tua e foi minha,/ o seu reboco de cal, a pele refém,/ a cisterna petrificada” (p.53). Por mais que pareçam bizantinas as analogias, não há como ignorar a matriz romântica: os cimos, as viagens na minha terra, as relações com os mortos, o isolamento inspirado do vate, os envios à tradição cultural (Antunes/Esteves/ Garrett/Pessoa), a busca de identidade coletiva diante de pinhais extintos.
Nessa escrita em ziguezague, cumpre recortar de “Arqueiro” passagens emblemáticos de uma proposta poética radical (na esteira do famoso poema “Princípio” de Os dias, pequenos charcos, retomado num ensaio sobre Antônio Osório incluído em Os dois crepúsculos): “Voltar ao real, sim. Como o disse/ quando outros se refugiavam/ na linguagem da linguagem” (p.69). A ideia retorna em “Mãe-da-lua”: “Mas o poema fala, fala de si,/ apanha o real porque nele está / quem o escreve, que sou eu...” (p.38). Os traços gerais da poesia de Cartucho retornam modalizados em novo contexto: o regresso à subjetividade discursiva, a revitalização da narratividade, o retorno ao cotidiano asfixiado e a descoberta da dimensão erótica do corpo. Desfeitos os laços de ruptura com a linguagem poética tradicional e as ilusões eufóricas da inovação, o poema se faz numa linha de diálogo com o passado e de fluidez de limites entre o sujeito da escrita e o sujeito empírico: “(...) tudo nos poemas é suposto/ excepto quem os escreve” (p.69).
Entre os pares antitéticos postos em tensão, os signos apontam um arco dialético: os bairros periféricos, vistos como “bairros malfazejos” à sobrevivência (miséria, violência) desdobram-se em bairros benfazejos para o exercício de uma sexualidade marginalizada (demanda, prostituição), compreendida na máxima do tango - “Mi suerte necesita de tu suerte” ou na ideia de que “A sinceridade despedaçada não é/ uma ética da devastação/ para o que de mim permanece em pé” (p.67). Surpreendem o grito e a ousadia de rondar o abismo e partilhar o vazio, a tentativa de vislumbrar estrelas caducas e ilusórias, no rescaldo de um território minado, nos flancos de uma visibilidade cada dia mais ameaçada, a sexualidade errante vivida mais como prática discursiva do que como paixão: “Outrora pude rir-me dos bairros malfazejos/ porque encontrei a blindagem do teu rosto/ encostada a cada ponte que levava/ de um lado do mundo ao outro lado da desolação” (p. 43). Correlações intertextuais à parte, talvez seja oportuno perceber nessa difusa narratividade a noção de poesia como escrita cultural incorporadora, de acordo com a hermenêutica de Edwar Said, na tentativa de abarcar nos escombros do país o espelho das turbulências do coração e da sexualidade. Reescrita de Mensagem, de Pessoa? Sim, mas por que não também reescrita de “Dois excertos de ode” ou “Passagem das horas” do mesmo Pessoa, ou de Viagens na minha terra, de Garret? Publicado há pouco mais de dez anos, parece ter saído do prelo, dada a veemência de sua atualidade.

MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Alta noite em alta fraga. Lisboa: Relógio d’água, 2001.



domingo, 19 de agosto de 2012

A guerra civil na Síria

     

       O conflito na Síria parece ter atingido um ponto extremo e a pacificação torna-se,  a cada dia, mais difícil de ser alcançada. No início, as notícias imprecisas davam conta de uma turbulência interna que, depois, verificou-se serem de maiores proporções. A violência entre as forças do governo e os grupos rebeldes extermina centenas de pessoas diariamente, há quinze meses. Os relatos dão conta de bombardeios em várias cidades, como Aleppo, Damasco, Azaz, onde os alvos eram os cidadãos comuns, e não o Exército Livre da Síria. Isso mesmo, as vítimas são homens, idosos, jovens,  mulheres, crianças, não soldados.  Em Assukar, recentemente, foram encontrados 13 cadáveres, as mãos atadas às costas, alvejados à queima-roupa. Os números variam, de uma agência para outra, mas nem por isso são menos desconcertantes, assustadores. A ONU fala em 18 mil mortos, o Observatório Sírio de Direitos Humanos admite que os mortos ultrapassam a marca dos 23 mil.


      O Conselho de Segurança da ONU continua dividido: de um lado, Rússia e China desfavoráveis a sanções, do outro, Grã-Bretanha, França e Estados Unidos pressionam por sanções duras ao governo de Assad. Diante das dificuldades na implantação do plano de paz, Kofi Annan, que se posicionara contra a permanência do ditador, afasta-se do cargo de negociador; assume o diplomata argelino Brahimi, ao qual desejamos sucesso. Especialistas afirmam que o governo sírio comete crimes de guerra contra a humanidade. A demora na solução do impasse preocupa, quanto mais tarda, mais a barbárie se intensifica, ampliando as mortes, as mutilações, o risco de epidemias, fome, a destruição generalizada.
      Diante da falta de consenso entre os membros do Conselho de Segurança, os países emergentes deveriam forçar ações pela paz. A diplomacia da conciliação parece amputada. Em sua coluna de hoje, na Folha de São Paulo, Clóvis Rossi declara-se, também, cético: "Esclareço que, para mim, tais recursos já se esgotaram, mas aceito a visão do Itamaraty de que ainda cabe esperar mais (espero que ainda sobrem sírios vivos e inteiros quando a diplomacia brasileira achar que é hora de endurecer, mesmo que seja sem perder a ternura)". 

      (Imagens: Shaam News Networkq |AFP)

ROSSI, Clóvis. Dilma, desça do muro na Síria. Folha de São Paulo. São Paulo, Mundo, p. 22, 19 ago.2012.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

João Baptista Santiago Sobrinho

Livro do mês:

      Alguns livros instalam-se como artefatos estranhos ou herméticos, não alinhando-se às convenções do gênero. É o caso de Nimuendaju, pesado volume de 365 páginas, de autoria de João Baptista S. Sobrinho, sobre o qual nada se escreveu, relegado ao olvido imerecido. De forte impregnação regional, elaborado em linguagem retorcida e marcada por um epigonismo em relação ao legado de Guimarães Rosa, o romance beira as dimensões do realismo mágico, de mistura a ingredientes grotescos e burlescos. A influência linguística de Rosa, excessiva e um tanto despropositada, parece decorrer de admiração exacerbada pelo mestre de Cordisburgo: o acadêmico João Baptista assina diversos ensaios sobre temas rosianos. Assume, no livro enfocado, um estatuto de narrador ungido para criar uma nova linguagem, secundado por processos arcaicos ou de aglutinação, no encalço de corruptelas facilmente assimiláveis por conta do dialeto regional. Assim, o leitor depara-se a cada parágrafo com expressões saborosas, algumas obscuras, procedentes dos veios arcaizantes ou de neologismos, tais como: desgrenho, laravinto, polvorinho, fumaça de bironhas, amento, carirrostras caretas, escarabéus, gurugunha, esbodega, engriguilho, poça sanguina, coisa cavernuda, caruara. Não obstante a roupagem exuberante, não se pode negar a força de um escritor nato, consciente de sua prosódia, mas que acredita no seu ofício. A crença no poder transfigurador da linguagem, a urgência de uma palavra nova, a reprodução fonética do falar caipira e de fórmulas mágicas de cura constituem uma contribuição positiva. 


      "Não deve o leitor ser delicado à maneira dos tintins. Dois dedos não são boas pinças. Antes ver curto, em cutiladas. Danificando. Pra esfúrdia fazer sentido, dê o tapa. Escrever é um crime de amor, combina-se pelas costas, com aquilo que vem munho de redemunhos. Os mundos, quaisquer, se inventam, malgrado os quereres das pessoas, revezes doidos, assim, por sugestões, sei lá onde. Existirão forças que agulham tricotando tricas? (p.44)"
      Os casos narrados envolvem uma multifacetada galeria de tipos e seres exóticos, virgens desvairadas, trancadas em quartos escuros, padres que divulgam os pecados dos fiéis, curandeiros alucinados, poetas delirantes, iluminados dervixes, frades obstinados, pseudo cientistas aloprados, filólogos provincianos, lazarentos abandonados, coronéis abastados e violentos, prostitutas arrependidas, toda uma curiosa comunidade desvalida e possessa, a escória sebenta do sertão primitivo. No limite destrambelhado entre a loucura e a normalidade. 
      Se a unidade no plano linguístico é alcançada, o mesmo não se pode afirmar do arcabouço diegético. Codificado em registro indígena, o título Nimuendaju, cuja tradução seria aquele que faz o próprio caminho, apesar da amplitude sugestiva, revela-se insuficiente para outorgar uma unidade temática às várias histórias. Seria interessante rever o autor, criador de expressivas descrições, em outro momento, livre das peias e empréstimos rosianos.

SANTIAGO SOBRINHO, João Baptista. Nimuendaju. Belo Horizonte: O lutador, 2004.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

Gore Vidal (1925-2012)

      Com a morte de Gore Vidal, ocorrida na madrugada da última terça-feira, a América perde um de seus mais brilhantes, críticos e impiedosos escritores. Tendo surgido como intelectual em fins dos anos 40, deixou vasta e sólida bibliografia, nos mais variados gêneros (ensaio, ficção, roteiro de filmes, peças de teatro, memórias). De família influente, neto de senador, transitou em elevadas esferas do meio político e cultural americano e europeu. Cultivou amizades famosas, entre as quais, grandes nomes da política e da cultura, como os Kennedy, Eleanor Roosevelt, Truman Capote, Tennesse Williams, Edmund Wilson, Paul Newman, Christopher Isherwood, Jack Kerouac, Paul Bowles, Santayana, Norman Mailer, Leonard Bernstein, o duque e a duquesa de Windsor.  Pioneiro na abordagem da temática homossexual na moderna ficção, pela ousadia revelada, tornou-se alvo de forte perseguição por parte da imprensa de Nova York. Líder inconteste da comunidade gay, embora se recusasse a portar bandeiras, viveu durante 55 anos uma união homoafetiva com o publicitário Howard Austen, morto em 2003.


      Em suas memórias, ergue monumental painel das gerações dos anos 50 a 70, numa visão panorâmica que aborda as mudanças de comportamento, a liberação sexual e os desdobramentos da Guerra Fria. Crítico impiedoso da política americana, fustiga a excessiva militarização e a expansão globalizada do imperialismo ianque, opondo-se frontalmente à guerra do Vietnã e à invasão do Iraque. Não se intimida em relevar os bastidores do jet set, os escândalos e idiossincrasias de uma infindável lista de notáveis. Mais do que um criador de frases de efeito, Gore Vidal produziu um admirável monumento à literatura, numa produção diversificada, em que se destacam a simplicidade, a elegância, o humor refinado, a  ironia certeira e a irreverência. Dentre seus livros, cabe citar A cidade e o pilar, Juliano, Messias, Myron, Lincoln, Império, Hollywood e Washington, Palimpsesto.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Vitorino Nemésio visita Minas Gerais


      Nascido nos Açores (Ilha Terceira) em 1901, o intelectual português Vitorino Nemésio morreu em 1978, Lisboa. Professor universitário, poeta, ensaísta, romancista, crítico literário, em todas as áreas com expressiva desenvoltura, foi também apresentador de televisão de sucesso, na televisão portuguesa nos anos de 1969, "Se bem me lembro".  Segundo David Mourão-Ferreira, "nasceu com um talento multiforme que daria, à vontade, para mais de dez autores, e todos eles de primeira água". Conviveu em Lisboa com José Régio, João Gaspar Simões, Natália Correa, Urbano Tavares Rodrigues, Paulo Quintela a partir da década de quarenta. Num de seus poemas, afirma: "Todas as tardes levo a minha sombra a beber/ como uma nuvem no mar de que saiu o meu ser".

      Visitou Minas Gerais em 1952, tendo proferido uma conferência na Faculdade de Letras (então Neolatinas), da Universidade de Minas Gerais, sediada no edifício Acaiaca, no centro de Belo Horizonte. O escritor Heitor Martins, na época estudante calouro, esteve presente nesse evento. Não era ainda conhecido o romancista, depois consagrado: Vitorino Nemésio foi apresentado como historiador literário, autor de A mocidade de Herculano, o único livro seu disponível na Biblioteca. Assim como, mais recentemente, o poeta António Franco Alexandre evoca, no livro Visitação, lugares do Brasil, após uma temporada no país, Nemésio também se encanta com as cidades históricas mineiras.  Escreve poemas e crônicas sobre Belo Horizonte, as cidades históricas (Ouro Preto, Sabará, Mariana), posteriormente descobre o Rio de Janeiro e a Bahia. A presença do Brasil é significativa em sua obra. Minas é vista por ele como um pedaço de Portugal no Brasil. 
      "...parece-nos que trepamos de um Rio magnífico, mas estrangulado em morros e brumas tropicais, a uma coisa de sonho, um acampamento etéreo de pastores de zebus fugidos, onde faíscam vidraças de palácios irreais. (...)" O nome primitivo do local chamava-se precisamente Curral del Rey.

      "Os sinos de Ouro Preto soam-me como timbre de menino, do outro lado da vida. (...) Estou em Minas Gerais, e é como se estivesse num Portugal caldeado de vilas do Norte e do Sul. A ponte, à Casa dos Contos, parece estender-se sobre o Tâmega e colocar-nos na vila de Amarante. A rua do Conde de Bobadela, que trepa ao Largo do Paço (Tiradentes), parece de Montemor-o-Novo, quando se vai para Évora. Não fora este ar de Calvário abolido e sentia-me no Minho ou no Alentejo".

      "Sabará é tão nobre como a Viseu dos corregedores".
      "Mariana parece-me uma espécie de nossa Lousã, a cavalo entre a serra e a baixada".

      Da vasta produção de Vitorino Nemésio, destacam-se: os romances Varanda de Pilatos (1926), a obra-prima Mau tempo no canal (1944); os livros de poemas  Eu comovido a oeste, Poemas brasileiros e O bicho harmonioso; os livros de ensaio Corsário das ilhas e O segredo de Ouro Preto (1954).


Cf. MARTINS, Heitor. Vitorino Nemésio, poeta em Belo Horizonte. Revista da Academia Mineira de Letras.  vol. XLIX, Belo Horizonte: Academia Mineira de Letras, 2008.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Jorge de Sena

         O escritor português Jorge de Sena nasceu em Lisboa, em 1919; morreu em Santa Bárbara, Califórnia, a 4 de junho de 1978. Produziu poesia, ficção, teatro, ensaio, crítica (de cinema e literária), tradução. A importância como poeta e ficcionista é indiscutível, seu romance  Sinais de fogo é um dos pontos altos da novelística em língua portuguesa, no âmbito do século XX. Como pesquisador, renovou os estudos sobre Camões e Fernando Pessoa. Como professor de Teoria da Literatura, Literatura Portuguesa e Inglesa, conviveu entre nós, no Brasil, de 1959 a 1965, primeiramente (1959 a 1961)  na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, depois em Araraquara (de agosto de 1961 a outubro de 1965). Viajou para os Estados Unidos a 6 de outtubro de 1965, dando sequência ao exílio, para lecionar Literatura Portuguesa e Brasileira em Madison, na Universidade de Wisconsin, depois em Santa Bárbara, Califórnia, até falecer. Era formado em engenharia civil, mas dedicou toda a sua vida às letras.



      O motivo da vinda de Jorge de Sena para o Brasil, em 1959, está ligado à sua posição política e a seu envolvimento em falhado golpe de Estado, contra a ditadura de Salazar. Obrigado a sair de Portugal, aproveitou o convite para o IV Colóquio Internacional de Estudos Luso-Brasileiros, realizado pela Universidade da Bahia, para se exilar voluntariamente no Brasil. A família, de oito filhos, viria depois. Toda a movimentação teria se dado, graças à atuação de amigos influentes. Paralelo ao magistério, desenvolveu longa colaboração no Suplemento Literário do jornal O Estado de São Paulo, fez grandes amizades no meio intelectual e deu continuidade à produção de sua obra. Após desvencilhar-se de inúmeras dificuldades burocráticas, conseguiu defender tese de livre-docência, versando sobre os sonetos de Camões, na Faculdade de Araraquara, em 1964. Seus principais livros: Perseguição, Coroa da terra, As evidências, Post-scriptum, Fiudelidade, Metamorfoses, Arte da música, Peregrinatio ad loca infecta, Conheço o sal (poesia);   O fisico prodigioso, Os grão-capitães, Sinais de fogo  (ficção); A estrutura de Os Lusíadas e outros estudos camonianos, Dialécticas da Literatura, Os sonetos de Camões e o soneto quinhentista peninsular (ensaio)correspondência com autores (Eduardo Lourenço, Virgílio Ferreira, Dante Moreira Leite).         

      Entre os lugares que Jorge de Sena teria escolhido, para trabalhar no Brasil, antes de ser acolhido pela Faculdade de Assis, estava Belo Horizonte. O que se sabe, como motivo do impedimento para que tal se concretizasse, teriam sido entraves burocráticos, questões de documentos. Pergunta-se: como exigir documentação impecável, completa, a quem era considerado persona non grata em seu país, de onde saiu fugido? Esse assunto por vezes me inquieta. Tenciono descobrir alguma coisa, consultando registros institucionais, para descobrir quem teria sido a pedra no meio do caminho de Sena para Belo Horizonte. Sem querer patrulhar quem quer que seja, nem dar azo às conjeturas sobre o que poderia ter sido a presença de  Jorge de Sena na Universidade Federal de Minas Gerais, uma certeza existe: foram questões menores, burocráticas. Para dizer o mínimo, sabe-se que a máquina burocrática pode ser usada, quando de interesse, pelas eminências pardas, como recurso para o expurgo ideológico. E são acionadas picuinhas, como faltam um carimbo aqui, uma assinatura acolá, um brasão e uma rubrica ali. Formalidades estéreis e inócuas. Sua obra teria sido outra?  Melhor, impossível.
      Desde que a revista portuguesa O tempo e o modo, em 1968, dedicou um número exclusivo a Jorge de Sena, o culto ao poeta não mais parou. Na década de 80, surgiram as primeiras dissertações e teses; os estudos foram se multiplicando. Vários nomes se destacam, entre os pioneiros na divulgação de sua obra: João Gaspar Simões, Adolfo Casais Monteiro, Eduardo Lourenço, Eugênio Lisboa, Luciana Stegagno Picchio, Eduardo Prado Coelho, Joaquim Manuel Magalhães, Luís Adriano Carlos, Fernando Guimarães, George Monteiro, Carlo Vitorio Cattaneo, Ángel Crespo, Frederick Williams, Fernando J. B. Martinho, Jorge Fazenda Lourenço, Ana Maria Gottardi Leal, Gilda da Conceição Santos, Márcia Valéria Z. Gobbi, Márcia Vieira Maia (as quatro últimas brasileiras). A seguir, fragmentos do conhecido poema "Em Creta, com o Minotauro".


Nascido em Portugal, de pais portugueses,
e pai de brasileiros no Brasil,
serei talvez norte-americano quando lá estiver.
Colecionarei nacionalidades como camisas se despem,
se usam e se deitam fora, com todo o respeito
necessário à roupa que se veste e que prestou serviço.

Eu sou eu mesmo a minha pátria. A pátria
de que escrevo é a língua em que por acaso de gerações
nasci. E a do que faço parte e de que vivo é esta
raiva que tenho de pouca humanidade neste mundo
quando não acredito em outro, e só outro quereria
que este mesmo fosse. Mas, se um dia me esquecer de
tudo, espero envelhecer
tomando café em Creta
com o Minotauro,
sob o olhar de deuses sem vergonha.

O Minotauro compreender-me-á.
Tem cornos, como os sábios e os inimigos da vida.
É metade boi e metade homem, como todos os homens.

É aí que quero reencontrar-me de ter deixado
a vida pelo mundo em pedaços repartida, como dizia
aquele pobre diabo que o Minotauro não leu, porque,
como toda a gente, não sabe português.
Também eu não sei grego, segundo as mais seguras informações.

Com pátrias nos compram e nos vendem, à falta
de pátrias que se vendam suficientemente caras para haver vergonha
de não pertencer a elas. Nem eu, nem o Minotauro,
teremos nenhuma pátria.

Em Creta, com o Minotauro,
sem versos e sem vida,
sem pátrias e sem espírito,
sem nada, nem ninguém,
que não seja o dedo sujo,
hei-de tomar em paz o meu café.

SENA, Jorge de. Poesia III. 3ª ed. Lisboa: Ed. 70, 1989. (PLI)