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terça-feira, 25 de outubro de 2011

Prêmio para Benito Barreto



     Perdoem a autorreferência. Após relatar a dificuldade em me contatar, o escritor Benito Barreto agradece o meu artigo sobre seu romance Toque de silêncio em Vila Rica. Sob o título de "História e fantasia", o artigo foi publicado no caderno Pensar do jornal Estado de Minas (B.H., 28 mai.2011) e neste espaço também em maio. O romance acaba de ser premiado pela UBE, seção Rio de Janeiro, na categoria romance histórico. Merecidíssimo por sinal. O final do artigo dizia: "Toque de silêncio em Vila Rica é um forte candidato ao melhor livro de ficção do ano, sem concessões e tom menor, colorido e diversificado mergulho nos sangrentos idos do final do século dezoito das Gerais". O ano nem acabou e as previsões vão se concretizando. Parabéns, Benito Barreto. Aguardamos com interesse o último volume da tetralogia sobre a Inconfidência, prometido para abril do próximo ano.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ana Paula Maia

Livro do mês:

     Ana Paula Maia, escritora prestigiada da nova geração, em seu livro Carvão animal, elabora um ambiente hiperrealista, tendo como pano de fundo a associação laboral do homem com o fogo. Os protagonistas são funcionários do corpo de bombeiros, de uma mina de carvão e de um crematório. A opção por trabalhos grosseiros, em que a noção de limite assume proporções impactantes, acrescenta aos eventos relatados forte contorno grotesco, para não dizer, na fronteira da barbárie, ainda que consentida pelo tecido social. Asfixiantes, sufocantes e pesados, os três ambientes são descritos separadamente e nada os integra, a não ser o trabalho degradante e a progressiva desumanização, de que se mostram investidos. A autora carioca, explorando a questão da identidade em situações extremas, antes publicou O habitante das falhas subterrâneas (7 letras, 2003) e Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (Record, 2009).



     Assim, Ernesto Wilson é um bombeiro que detesta motosserra e "a única coisa que gosta de enfrentar é o fogo". Os que trabalham nas minas acabam vitimados por doença de pulmão, óbvio. Os mineiros, como Edgar Wilson, têm um "tom amarelado, com fuligem na saliva e cinza nos olhos". Os que enfrentam profissionalmente os fornos de crematório convivem com corpos incinerados e com a banalidade excessiva da morte. Daí que os grandes acidentes são festejados na implacável ótica do mercado capitalista: quanto mais mortos, mais lucro. Noções elevadas de dignidade, compaixão, mágoa, são luxo de uma geração ultrapassada. Paradoxalmente, em meio à massiva degradação, emergem gestos imprevistos de solidariedade e respeito, como prova de que a condição humana não se perdeu de todo. Os personagens são peças de uma engrenagem impassível, cruel e opressora.  Esse, o universo ficcional de Ana Paula Maia, que vez por outra resulta artificial, pelo acúmulo de grotesco e elementos góticos, aqui no sentido de macabros e exóticos. A arte não deixa de ser produto de uma certa artificialidade, enfim. Após uma existência sem perspectiva, desprovida de conforto, numa sucessão de filas de ônibus, SUS, médico, banco, o sujeito é jogado numa câmara gélida, na fila do crematório. Quando os fornos atingem a exaustão, o recurso é apelar a uma carvoaria existente "a uns vinte quilômetros", lá, onde "as nuvens pesam mais, como imensos blocos de concreto".
     O vertiginoso encadeamento de violência e tragédia do final não mais surpreende o leitor. Isto é, aquele que ali conseguiu chegar. O interesse repousa no foco ousado nesses lugares irrespiráveis e inóspitos  de sobrevivência e na capacidade de extrair, das figuras simples que os humanizam, ainda que expostas a situações aparentemente constrangedoras (como moer ossos de cadáveres) arroubos de fraternidade. Convenhamos, alcançar tal objetivo não é pouca tarefa para a escrita.

MAIA, Ana Paula. Carvão animal. Rio de Janeiro: Record, 2011.