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domingo, 25 de setembro de 2011

Encontro com Escritores: José Saramago

      Em fins dos anos 80 do século passado, num congresso internacional, realizado pela Faculdade de Letras da UFMG, apresentei uma comunicação sobre um romance de José Saramago (1922-2010). O futuro prêmio Nobel também participou do congresso e esteve presente à mesa redonda de que participei. O objeto de minha comunicação foi o romance O ano da morte de Ricardo Reis, de 1984. Além dele, Saramago já publicara Levantado do chão (1980), Memorial do convento (1982) e A jangada de pedra (1986). O evento em vários aspectos fugiu ao formato convencional dos colóquios então realizados na área de Letras. Não foi realizado no campus da Pampulha, mas num grande centro de convenções do Estado, no bairro da Gameleira, em Belo Horizonte. A Faculdade de Letras era novata no complexo da Pampulha, funcionara até meados dos anos 80 na rua Carangola, no bairro Santo Antônio. Alguns espaços (como o auditório) não existiam ainda ou estavam em obras. José Saramago estava em franca ascensão como romancista, despertava interesse no mundo todo, andava cercado por uma legião de paparazzi letradas (as mulheres eram maioria), que não lhe davam tréguas. 



      O encontro que mantive com Saramago não ocorreu na sala do evento, nem no jantar de confraternização, nem em suposto lançamento de livro, mas num banheiro. Só nesse local menos nobre e público o nosso encontro banal seria possível. Não foi nada planejado, não houve estratégia alguma. O acaso, mais do que escolher caminhos, contenta-se em nos empurrar, tangido por forças ignotas.  Ora, deu-se que, tangido ou empurrado pelo acaso, vi-me lado a lado, com uma separação de dois bojos, com o grande escritor. Quase emparelhados, ali, no mictório do banheiro. Findo o descarrego, encaminhei-me ao lavatório, para a higiene natural. Aproximou-se então um senhor magro e alto, terno vincado, óculos de lentes grossas, corpo esbelto, rosto seco e barba aparada. Inquieto, desempenado. Cumprimentei-o com um cordial boa tarde e um gesto de cabeça. Impessoais, os dois gestos, apontavam para o emissor, um tanto tímido, tomado de surpresa diante do escritor famoso. Ele, talvez embaraçado pelo comprimento inesperado em local pouco afeito a veleidades de etiquetas, respondeu com um sorriso mecânico, o aspecto grave.  Entrou outro cara, um cheiro de cigarro invadiu o ambiente quando a porta se abriu. O banheiro ficava no final de um corredor, no qual algumas pessoas fumavam. O futuro Nobel de literatura deu um pigarro curto, seguido de uma pequena tosse. As pessoas ficam leves, quando aliviadas. Notei no canto da parede uma garrafa de desinfetante, esquecida pelo faxineiro. Ele falou:
         "Que alívio! Enfim, posso voltar ao labirinto".
         "O senhor refere-se ao prédio ou à literatura?" Perguntei, afoito.
        "Os dois", respondeu, completando: "Ambos assemelham-se a lugares montanhosos de beira-abismo, todo cuidado é pouco". Saímos dali e não mais o vi. Uma década mais tarde, em 1998, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.

sábado, 10 de setembro de 2011

Linda como Juiz de Fora!



Não conheço Juiz de Fora. O pouco que conheço é uma parte da periferia, um restaurante de beira de estrada, onde fazia parada o ônibus Util, a caminho do Rio de Janeiro, nas viagens quando cursava disciplinas no Doutorado da UFRJ. Primos meus moraram em Juiz de Fora e contavam maravilhas. O título acima é um verso de Manuel Bandeira, o último do poema "Mangue".  

Decidi reler Bandeira na semana passada. Duas palavras sobre sobre ele, sem intenção crítica. Bandeira, como é sabido, teria sido desenganado por médicos aos dezessete anos; no entanto, morreu aos 82 anos, bem vividos, inteiramente consagrados ao estudo e à criação literária, com regulares intervalos dedicados ao violão e ao desenho. Em busca de cura, por nove anos perambulou por estações de tratamento no país (Campanha, em Minas, Teresópolis, no estado do Rio, Quixeramobim e Fortaleza, no Ceará) e na Europa (Clavadei, na Suiça). Nasceu em 1886 no Recife, morreu em 1968, no Rio de Janeiro. Antecipou algumas conquistas do Modernismo, não quis participar da Semana de Arte Moderna em São Paulo em 1922, mas um poema seu, "Os sapos" foi declamado e incorporado à rebeldia  do evento. Deixou uma obra da maior importância, é reconhecido como mestre pelos poetas de todos os quadrantes. Estreou com A cinza das horas, em 1917, tendo como sintomática abertura os versos "Eu faço versos como quem morre/ de desalento, de desencanto. / Fecha meu livro se por agora/ não tens motivo nenhum de pranto". 



Bandeira, acostumado a vivenciar por dentro a experiência estética, nem por isso optou por um registro solene. Simplicidade, tom menor, linguagem coloquial, por vezes infantil, intimismo, descontração marcam seus poemas. Expressa o cotidiano de forma impactante e direta, o que não elimina o cuidado na elaboração. O primeiro modernismo, em que pese sua ânsia de ruptura, não se constrange diante da realidade imediata, local. Bandeira cita várias cidades: Juiz de Fora, Recife, Belém do Pará ("Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial/ Beleza eterna da paisagem"), Araxá ("As três mulheres do sabonete Araxá"), Mangaratiba e outras.  Alguém dirá que ele cita o sabonete Araxá, não a cidade, mas de tabela... Mário de Andrade tematiza a capital mineira no famoso "Noturno de Belo Horizonte". Os autores que produzem no chamado segundo modernismo mostram-se mais tocados pelo interesse social e apelos universais, sem esquecer a realidade circundante. Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles citam cidades, em poemas de circunstância ou calcados na memória.

Em outro registro, desta vez em carta a Gilberto Freyre, Manuel Bandeira lembra uma estação de água em Cambuquira, de onde vai até Campanha, na segunda visita que lhe faz, em 1935. Estudei nessa cidade na adolescência por seis anos. Como ali vivi numa época de fundamentos e raízes, a evocação de Bandeira tem o dom de acordar sensações muito caras.

"Anteontem fui numa excursão a Campanha, cidadezinha morta que fica a um 3/4 de hora daqui. Faz agora justamente 30 anos que cheguei lá carregado. Verifiquei que era um camelo em 1905, pois não senti então a delícia que são aquelas ruas tão simples, tão modestas, com os seus casarões quadrados, quase todas com bicos de telhado em forma de asa de pombo. Há lá uma rua Direita (hoje tem nome de gente) que é um encanto: tão genuinamente brasileira, tão boa, dando vontade de morar nela. O passeio que foi de noite, com o luar (uma lua sem nada de mozarlesco, lua-Dantas, simples e bom satélite) foi dessas cousas que a gente não esquece. Diante das duas casas onde morávamos, e onde passei o Diabo, me senti valado, com um nó na garganta. Assim como no interior da matriz, uma igreja tristíssima, essa, sim, parece o "huge baru" que Luccock viu nas igrejas de Ouro Preto. Faziam a Via-Sacra e eu estive longo tempo imaginando quantas vezes minha mãe e minha irmã estiveram ali ajoelhadas rezando para que eu não morresse". (BANDEIRA, 1935).

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: MEDIAfashion (Folha de São Paulo), 2008.
BANDEIRA, Manuel. Carta de Manuel Bandeira a Gilberto Freyre. Cambuquira, 23 de março de 1935 (Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre, Recife).
VICENTE, Silvana Moreli. Gilberto Freyre e Manuel Bandeira em crônica epistolar. Teresa revista de literatura brasileira. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP, nº8/9. São Paulo: Ed.34, 2008, p.189-204.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Oiro de Minas


Livro do mês: Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais


Alguns livros surgem estigmatizados como objetos de culto e admiração no próprio nascedouro. Estamos diante de um desses: Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais, publicado em Portugal em novembro de 2007, com tiragem de 500 exemplares, em primeira e “única edição”, “com as características técnicas e artísticas aqui apresentadas”, conforme compromisso acordado entre a Editora, a organizadora e autores. À época do lançamento, em Lisboa, o livro mereceu o seguinte comentário do poeta e escritor Eduardo Pitta: “...impressionou-me a elevada qualidade desses poetas mineiros de agora, completamente desconhecidos em Portugal”. Ser publicado além mar, por si só, releva a importância do livro, tendo em vista a rica tradição e o elevado patamar da linguagem poética no país de Camões, Pessoa, Pessanha, Sophia Andersen, Fiama e Al Berto. O mérito da espinhosa tarefa, selecionar a nata da produção poética revelada em Minas a partir dos anos 80, cabe à jovem poeta suiço-italiana, a organizadora Prisca Agustoni, integrante dos quadros docentes da UFJF, por merecimento arrebatada de imediato à pertença da cultura brasileira, pela admiração que lhe devota. A consistência do projeto pode ser delineada através da cuidadosa, competente e sensível percepção dos desdobramentos de eixos temáticos e expressivos da moderna poesia brasileira nas Gerais.



Os nomes garimpados mostram-se caudatários  de modos e processos de três contextos tutelares do que se conhece de melhor da poesia brasileira (Oswald, Drummond, Concretos). Um contexto posterior à brilhante constelação de nomes mineiros, como Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Affonso Ávila, Laís Correia de Araújo, Affonso Romano de Sant'Anna e Adão Ventura. O rol de autores recolhidos não se constrange diante da grandiosidade da pirâmide: mostra-se representativo da ideia de escrita como partilha, intercâmbio e renovação do arcabouço artístico, como acentua Fernando Fiorese: “livro só existe no plural./ De modo que não há como abrir/ um único, sem com isso outro,/ e assim acionar a espiral/ que, par em par, outros abrirá”. Dez autores são convocados, alguns (complementando a assertiva de Pitta) também desconhecidos em sua terra: Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Júlio Polidoro, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edmilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva e Fabrício Marques. De cada um apresentam-se em torno de treze a catorze poemas, amostragem suficiente para dar conta dos rumos e percursos seguidos.

Nessa vertente, somos surpreendidos pela densidade lírica de uma voz singular e desafiadora, atravessada de um toque expressionista, com uma tendência à deformação e ao excesso, alcançada pelos versos de Eustáquio Gorgone: “A solidão ama/ corações completos./ É noiva que propõe/ tachonar a liberdade./ Visita qualquer um,/ criança ou adulto./ Brota nos travesseiros/ como flor de macela./ E muitas vezes arma/ seu camarim num tumor”. Na dicção coloquial de Júlio Polidoro, o pendor reflexivo hesita sufocado, reverberando a intrínseca ambiguidade da palavra: “e como, sendo ovelha, ser pastor,/ se a fala, como falso condutor,/ tem muitas e nenhuma direção?” Em lente de aumento, bifocal, a poesia de Donizete Galvão mira a realidade, com o aparente intento de fotografá-la, desvelando-a em camadas superpostas: “o berne/ plantado/ no lombo do boi/ estremunha/ ao ser cutucado/ com óleo queimado// o verme/ solapa/ a polpa da goiaba/ estremece/ na fruta sem forma/ caída no chão”. Para além dos sinais da decadência material (“a coleção de cacos de louça”, “o perecível”, “o cavalo baio com o olho cego”) as insistentes enumerações de ruínas e escombros do mundo real nesta poesia parecem funcionar como reflexo  do mundo interior – “inventário de perdas/ rol de inutilidades/ vasos vazios e quebrados”. O impacto entre a experiência e a realidade, esta quase sempre dotada de esmagadora beleza, vem à tona de forma aparentemente direta, numa expressão poética de fortes ressonâncias atávicas, no poema “Êxodo”, de Wilmar Silva: “comemos a fruta/ que o tempo madurou/ no ventre da terra// (...) miramos os pássaros/ e ouvimos gorjeios/ desfeitas as rédeas/ os potros sumiram”.

Por ser ficção, a poesia revela-se por vezes como investimento emotivo entre a sensação e as palavras, elaboração engenhosa de uma outra esfera de realidade, aplicada e apta a alcançar um efeito codificado pela percepção daquilo que se ignora. Tal como em versos de Maria Esther Maciel, de dosada sensualidade: “Te exila em minha teia/ me define com tua senha/ perenizando em meu corpo/ o teu mistério - / entre cortinas,/ no refúgio exato dos lençóis”. Experiência sensível expressa pela palavra, revelação de um outro mundo, paralelo ao mundo real, a poesia serve-se de elementos do cotidiano ou de uma cidade para logo evadir-se, em meio a sugestões lúdicas, como nos versos de Fernando Fiorese: “De quantas cidades estive,/ Diamantina tem o tamanho/ do corpo com que se ama e vive,/ com folgas e bolsos largos/ para acolher-nos no regaço”. Esta é uma escrita apurada na árida lição cabralina, decidida a simultaneamente desconfiar das certezas do mundo e seguir uma rota transgressora - “Como quem de viagem/ sabe o prazer de andar/ sem endereço ou idade,/ com a roupa amassada,/ também escrever comparte/ esse corpo sem abas”. Edimilson de Almeida Pereira não esquece o substrato afrodescendente, antes o convoca e integra como sintaxe libertária e agregadora: “Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida é tudo o que se queira”. Para Ricardo Aleixo, a poesia está irremediavelmente amarrada à errância urbana e à tentativa de decifrar no caos os sinais positivos: “Conheço a cidade/ como a sola do meu pé (...) // Como os cegos/ conheço o labirinto// por pisá-lo/ por tê-lo”. Iacyr Freitas mergulha no tenso exercício de interrogação sobre o mistério da existência e as ruínas da entrega amorosa - “levaram-me pelas mãos/ sobre o feno/ fizeram-me reconhecer/ os oceanos que me modelaram/ para o acaso // agora entendo/ o espasmo que rebenta/ dos alheios frutos/ a ferrugem e o claustro/ sob a magnitude que amo”. Fabrício Marques foge do tom solene e altissonante, com uma pegada de rap, num inventivo salto pelas trilhas da tradição: “a poesia/ não tem pressa/ não tem prazo/ não tem glosa// a poesia/ está em ramos/ está em rosa”.

Toda antologia vem marcada com as idiossincrasias de seu organizador, não há como fugir, toda escolha é subjetiva. Nesta os poetas alistados provêm de múltiplos sítios de experimentação da linguagem. É bom que tal ocorra, o que não quer dizer que o conjunto careça de um eixo. Por mais que se inscreva o sentido plural inerente à elaboração poética, os recursos retóricos emanam de vetores oriundos da densidade e da produtividade, antes de serem efeitos puramente decorativos. Por força das raízes ibéricas, os mineiros conservam um lastro de tradição barroca, a mesma que “testa o sentido, duvida de si mesma”, no dizer de Edimilson Pereira. A destreza e o bom gosto na mistura do léxico atual com o raro (ou arcaico) conferem ao poema um austero e sofisticado alcance no terreno da semântica. Brilhos a mais, em meio a tantos quilates de fulgor.


AGUSTONI, Prisca. (Seleção e prefácio). Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais. Lisboa: Pasárgada, 2007. 160 p.