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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sem mim


Após três noites com Teatro cheio no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, o grupo Corpo viaja por algumas capitais, levando o belíssimo espetáculo Sem mim. O mote são sete cantigas de amigo de Martin Codax, jogral galego-português do século XIII. Mais populares e simples do que as cantigas de amor, as cantigas de amigo medievais revelam o cotidiano da moça da época, sempre à espera do namorado, em suas confidências com amigas, a mãe, ou o mar. Com uma perfomance rigorosa e representativa de constante pesquisa e experimentação de vários recursos aplicados à dança, os bailarinos sobem à cena, num espetáculo fascinante, em coreografia sugestiva, atravessada por jogos de luz e raios laser coloridos. Coreografia de Rodrigo Pederneiras, cenografia de Paulo Pederneiras, figurino de Freusa Zechmeister. Os créditos atribuem a música a José Miguel Wisnik e Carlos Nuñes, os quais contaram com as partituras de Martin Codax, descobertas em 1915 pelo espanhol Pedro Vindel. De toda a produção do cancioneiro medieval, as partituras de seis canções de Martin Codax são as únicas que chegaram aos nossos dias.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Maria Lúcia Lepecki (1940- 2011)



A escritora e ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki morreu no último dia 24 de julho aos 71 anos em Lisboa, vítima de câncer. Maria Lúcia Lepecki nasceu em Axará, no estado de Minas Gerais, no Brasil, mas estava radicada há várias décadas em Portugal, sendo uma profunda conhecedora da literatura portuguesa. Brasileira de nascimento e portuguesa por casamento, Maria Lúcia Lepecki estudou em Paris, foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian e professora catedrática na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fui aluno de Maria Lúcia Lepecki, na Faculdade de Letras da UFMG, em 1970, antes de se transferir para a Universidade de Lisboa. Apresentou-me, então, a Boris Shnaiderman, através do qual publiquei minha primeira resenha, no extinto Suplemento literário do Estadão, em 1971. Deixa muitas saudades.

Os seus principais livros: Eça na ambiguidade. Lisboa: Jornal do Fundão, 1974; Autran Dourado: uma leitura mítica. São Paulo: Quíron, 1976 (Prêmio Nacional da Crítica, Brasília, 1977); Ideologia e imaginário, ensaio sobre José Cardoso Pires. Lisboa: Moraes, 1978; Romantismo e realismo em Júlio Dinis. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1980; Meridianos do texto. Lisboa: Assírio e Alvim, 1979; Sobreimpressões. Ensaios de literatura portuguesa e africana. Lisboa: Caminho, 1988.

Francisco José Viegas, romancista e Secretário de Estado de Cultura de Portugal, lamentou sua morte, referindo que "foi uma grande professora, capaz de motivar várias gerações para a leitura de literatura de língua portuguesa, além de ter escrito alguns ensaios marcantes sobre o romance contemporâneo e sobre literatura comparada".

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sérgio Mudado



Livro do mês:


Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta, terceiro romance de Sérgio Mudado, passou a despertar interesse ao ser listado como um dos dez finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2011. Trata-se de uma narrativa ligeira, movimentada, em parte aparelhada com os traços dos relatos picarescos, tendente ao anedótico e fabuloso, de mistura às ousadias do gênero, sem deixar de enveredar pelos caminhos do grotesco (como observa Benedito Nunes no prefácio).


Rompendo os padrões convencionais do narrador distanciado e onisciente, o estatuto do narrador aqui se mostra de forma compósita e multifacetada. Para comandar o fio narrativo, o autor delega essa tarefa a uma narradora, a qual dialoga naturalmente com uma leitora, que a acompanha montada num vagaroso pangaré. Os comentários de um e outro, ou de uma e outra, contaminam o fluxo narrativo, em ritmo de ziguezague. No intuito de criar cumplicidade entre as diversas instâncias do pacto romanesco, os juízos e comentários surgem marcados pela ambiguidade, uma vez que nem sempre esclarecem, colaborando para esconder ou tornar obscura alguma passagem. Por trás de uma estrutura narrativa grotesca (seguimos a lição de Benedito Nunes), de base ilusionista e dotada de artifícios inusitados, como a presença do médico e autor Sérgio Mudado em meio aos eventos ficcionais, a intriga toma um ritmo vertiginoso e quase sempre hilariante.

Por força da motivação ilusionista, o relato tenta captar a força torrencial do tempo, sendo simultaneamente envolvido pela energia desordenada do próprio tempo. O enredo, ainda que cercado de elementos mágicos e históricos, tem uma banal motivação: Juca Peralta é um caixeiro-viajante, funcionário da Philips, uma multinacional holandesa sediada em Belo Horizonte, encarregado de vender um rádio de três ondas, denominado o Matador, razão de suas andanças em trem de ferro, entre a capital de Minas e Montes Claros. Entre o nebuloso histórico e a magia, a intriga move-se em ritmo frenético, promovendo uma reviravolta na percepção da realidade, confrontando personagens históricas e fictícias, mito e realidade, tais como a feiticeira Cleópatra, o mago Noge, Ary Barroso, o governador Bento Antão, Juca Peralta, o jovem Fábio, Noel Rosa, Van Eik, Hitler, o delegado Luciano, Tiburtina e os dois maridos, as cortesãs do palácio de dona Olimpia, o historiador Licamar, o negociante Trajano Macedo e toda uma infinidade de figurações esdrúxulas e misteriosas. Dentre as múltiplas tarefas do Autor, convocado episodicamente à instância de personagem, além da construção de um relato aberto, fragmentado e receptivo às vozes de várias personagens, avulta o papel de editor de uma gama variada de discursos. Registre-se que a atuação do autor como personagem é uma presença rápida e de relativa autonomia. A duplicidade de papéis, no entanto, não é gratuita: duplicam-se os papeis e funções do Autor (da autoria) para assim se diluírem as perspectivas do autoritarismo? As notações de tempo, um tanto fluidas, são capazes de abarcar uma linha temporal dilatada: começam no ano fatídico de 1939, início da segunda grande guerra mundial. Não é ocioso lembrar, portanto, a impossibilidade histórica de Sérgio Mudado, nascido em 1948, ter comparecido naquele ano, para socorrer o empresário holandês, num caso de pneumotórax.


A alusão ao leitor que vai na garupa, em algum momento identificado como leitora, reforça a presença do interlocutor implícito e retoma a figura da “amável leitora” da narrativa ficcional do século XIX. “Em verdade, preciso, admito sem pudor, da tua ajuda. A mágica pode acontecer sem a presença do mago, que pode estar operando a uma distância formidável do seu objeto. Nenhuma forma de magia, no entanto, pode ocorrer sem testemunho. (...) Então, eis o dom que te é conferido: poderás sonhar-me nos idos de tua imaginação, saber-me nas linhas dos teus lábios, seguir-me nas estrelas do teu rumo. Sou, doravante, o teu espaço, semeei-te em mim e, portanto, estás agora plenamente preparado, pois te tornaste o mais hábil leitor - meu e de ti mesma, pois tu és, doravante, também quem eu sou” (p.15). Esse narrador, que insiste em sua natureza feminina, (pela possibilidade de procriar?), gera em si mesmo a instância do leitor - “o mais hábil leitor”, reduplicando o que já estava erigido em dupla função (de autor e personagem). O pacto romanesco (a contiguidade entre autor, narrador, leitor e personagem) ocupa um lugar explícito no relato. A ideia de excesso e desmedida, delineada no título (os negócios extraordinários), reveladora do intento de extravasar os limites, é sintomática de uma concepção diegética sem freios, transgressora de princípios estabilizados milenarmente. O processo narrativo incorpora uma diversidade de discursos, oriundos de fontes literárias, científicas, folclóricas e históricas, cujos fios costuram uma ampla e formidável tapeçaria do mundo. Os índices relacionados com a Minas colonial misturam-se aos pruridos de modernidade tecnológica, às incursões desaforadas na história política mineira, às ocorrências repressivas do Estado Novo e aos prenúncios dos horrores do nazismo em franca ascensão. Dessa forma a mais sonhada que elaborada “história subterrânea de Minas Gerais” constitui outro índice da inútil tentativa de recriar o incessante fluir do tempo. “...Minas é habitada por gente intratável e aqui no sertão os dias nunca amanhecem serenos. Esta terra parece desprender tumultos; a água exala motins e os campos destilam liberdade” (p.122).


Como água incontrolável de enchente, a narrativa vai assimilando resíduos de história e folclore, arroubos patrioteiros e peripécias sensuais, entulhos e tudo o mais que encontra no caminho. Da mesma forma que o submarino alemão, mergulhado nas ruas fétidas do Arrudas como espetáculo de magia, não esconde o interesse do Reich pelo ouro das Minas. Romance de imenso fôlego, tal como o do holandês tocador de trombone do início do relato, Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta revelam um autor maduro, inventivo, matizado, sugestivo e irônico, plenamente consciente das artimanhas ficcionais.



MUDADO, Sérgio. Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta. Belo Horizonte: 
Crisálida, 2010. 432 p.