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quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ítalo Mudado (1931-2011)


Faleceu hoje em Belo Horizonte, aos 80 anos, Ítalo Mudado, professor aposentado de literatura portuguesa da UFMG e conhecido homem de teatro (ator e encenador). Ítalo Mudado era um intelectual refinado, profundo conhecedor de tragédia grega, com mais de 50 anos dedicados ao teatro: montou obras clássicas da dramaturgia universal e brasileira (Sófocles, Gogol, Fernando Pessoa,Guimarães Rosa, Machado de Assis). Levou aos palcos textos fundamentais da literatura de todos os tempos, como os Sermões, de Vieira e O rubi no umbigo, de Ferreira Gullar. Formou vários atores. O último espetáculo sob sua direção reuniu duas pequenas peças, - O doido e a morte, do português Raul Brandão, e Amor por anexins, de Arthur Azevedo, no centro Cultural da UFMG, nos meses de outubro e novembro de 2010. Excelente intérprete de poesia, gravou, junto com Affonso Romano de Sant'Anna, um CD com poemas de Henriqueta Lisboa. Será sepultado amanhã, dia 23 de junho, às 14:00 hs, no cemitério do Bonfim.

domingo, 19 de junho de 2011

Contradições e descompassos


Com certa constância, somos tomados de uma sensação de desconforto, ou ficamos sem entender direito porque alguma coisa é daquele jeito. Algum compartimento não bate bem com o outro, alguma coisa está deslocada. Nada muito grave, a ponto de nos encaminhar para o Pinel, mas estranhamos.

Um exemplo simples, para ninguém dizer que não compreendeu. O meu/nosso querido Cruzeiro, após brilhante campanha na Libertadores, mesmo sendo desclassificado quase no final, perdeu para o Figueirense, no Brasileirão. Dá pra entender?

Os jornais de hoje deram que viver no Brasil é mais caro que nos Estados Unidos, em torno de 30% mais caro. Complicado: o que dizer da contrapartida em qualidade de vida? É evidente que levamos desvantagem.

Durante algum tempo torcia para que uma coisa influenciasse a outra. Belo Horizonte sedia um dos grupos teatrais mais inventivos e criativos do país, o Galpão, com atores de gabarito, pesquisas de linguagem e recursos cênicos. Esperava-se que o cenário teatral da cidade correspondesse a um padrão de qualidade, que um público exigente se agregasse, etc. Ledo engano: mais de 70% das peças encenadas enquadram-se no gênero besteirol, com um padrão medíocre.

Outro descompasso, este no terreno da literatura. Acreditar que, com a proliferação do miniconto, o conto curto, aumentasse o número de leitores de livros de ficção. Só se interessa pelo miniconto o leitor que já se interessa por literatura em geral, o leitor normal que aprecia narrativas mais extensas.

Pirateando a historiadora Mary del Priore, autora do livro História da intimidade, que deve ser lido com urgência: “Como queremos ser a oitava economia do mundo, se ainda batemos em gays na Avenida Paulista? A Avenida Paulista é uma das mais sofisticadas da nossa maior metrópole”. Tudo a ver.

Nossos bisavôs eram pedófilos? Parece que não. Por que casavam com meninas novinhas, a partir dos doze anos? Convém buscar a contextualização no livro atrás referido.

Ainda sobre o tema anterior, desta vez a tão propalada pedofilia na Igreja Católica. O jornalista português João Perreira Coutinho, em crônica na Folha de São Paulo, analisou a situação dessa prática no âmbito da Alemanha. Cito de memória, posso estar errado, mas a proporção é pequena: em torno de 20 mil casos, algo em torno de uns 200 envolvem padres católicos. Convenhamos, um caso que fosse, seria indesejável. Mas convenhamos.

Ao fim e ao cabo, uma estranheza histórica. O imperador Alexandre III, o Magno, da Macedônia, (Grécia), que viveu de 356 a 323 a.C. Em curto reinado, dominou o império persa, o Egito e norte da Ásia. Suas vitórias mais importantes foram em Graniscus, Issus (onde venceu o lendário rei Dario), Gaugamela e Hidaspes. No grande giro pelos continentes africano e asiático (norte da Índia e Afeganistão), revelou-se grande estrategista em batalhas, fundou cidades (seis denominadas Alexandria), tentou governar usando a cooperação de nobres persas, designando alguns como governadores. Era bissexual. Desagradou generais gregos, morreu aos 33 anos, de febre ou envenenado.


Na imagem, Colin Farrell no papel de Alexandre, em filme de Oliver Stone (2004).

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Márcio Almeida

Livro do mês:
      O poeta Márcio Almeida, após intervir culturalmente em Belo Horizonte na década de 80, regressou para a província, onde acaba de publicar um livro oportuno e curioso, A minificção do Brasil- em defesa dos frascos & dos comprimidos. São ensaios, rótulo flexível para caracterizar uma produção crítica receptiva ao comentário e à reflexão axiológica sobre literatura, de mistura a resenhas fartas em erudição e associações hermenêuticas. Como se trata de um intelectual militante nas frentes da cultura, excessivamente premiado, reconhecido pela apaixonada participação em movimentos poéticos, suas avaliações sempre terão ressonância. Um livro sem dúvida irregular, mas com impecável mapeamento do miniconto no Brasil, desfazendo uma série de distorções que vão se tornando corriqueiras no contexto cultural mais recente.

      A primeira evidência digna de relevo é a defesa intransigente do pioneirismo de Elias José na criação do miniconto. Em vida o escritor teve ruidoso reconhecimento, tanto de público como de crítica. Dos poucos que lograram merecida e ampla visibilidade, apesar de residir no interior de Minas, em Guaxupé, por ele transformada em cidade polo de irradiação cultural. Autor de uma obra extensa, diversificada nos vários gêneros (poesia, ficção adulta, ficção juvenil, ensaio), publicado por grandes editoras, Elias José teve considerável acolhida por parte de escritores e críticos renomados (como Octávio de Faria, Temístocles Linhares, Luís Carlos Lisboa, Antônio Carlos Villaça, Nelly Novais Coelho, Antônio Sérgio Bueno, Victor Júdice, Consuelo Albergaria Prado). Entre os prêmios, destacam-se o Jabuti (1974) para o melhor livro de ficção, o Fernando Chinaglia (1980), o APCA, de melhor poesia infantil (1983).


      
      Márcio Almeida recolhe farto material, em cuidadosa e paciente pesquisa e reafirma o que não deveria ser novidade, mas nem sempre é referido: Elias José é o criador inquestionável do chamado miniconto, em 1968, na plaquette editada na cidade de Guaxupé, intitulada Poleiro de urus. Em 1969, em outra plaquette, desta vez intitulada Cadernos 20, nº 1, aparecem vários contos breves. Em 1971, o termo miniconto é usado por Sebastião Rezende pela primeira vez, em Cadernos 20, nº 2, de Guaxupé:

miniconto (mini, maxicanto) é a visão do mundo. Maneira de ser e agir. Dinâmico, pois. Miniconto, como rotulação possível de ser substituído: minipoema, minicrônica, miniromance, polimini ou minitudo. Nunca menos, abrangente e variável como as mudanças de nosso tempo, instrumento maleável, conciso, objetivo, sintético, cioso de sua funcionalidade, aqui-agora,lá-sempre, ubíquo, polivante, verbivocovisual. Com ele sentir e ver o mundo sem desperdícios e derramamentos. (...) (ALMEIDA, 2010, p. 124).

      Wilson Martins, em artigo publicado no Suplemento Literário de O Estadão, em março de 1971, reconhece o termo, comentando o livro A mal amada, de Elias José: “(...) Cedendo a uma terminologia que, se não é literária, é, pelo menos, sintomática, o autor distingue as suas produções em minicontos, contos e maxicontos” (ALMEIDA, 2010, p.115). O que deveria ser um dado incontestável, mero reconhecer do seu a seu dono, acaba por ser ignorado em inúmeros trabalhos de mestrado e doutorado, recentemente produzidos, em universidades das quais era de se esperar maior seriedade e enquadramento científico. Os mal informados e desavisados pesquisadores, Pedro Gonzaga e Marcelo Spalding, bem como seus doutos orientadores, candidatos a coveiros dos fundadores do miniconto, mantêm vínculos com a UFRGS.

      No ensaio sobre Elias José, o tom polêmico não brota inopinado, era esperado, vindo de onde veio. Envolvido desde a juventude nos movimentos de intervenção poética em Minas Gerais, Márcio Almeida aproximou-se de Elias José em meados dos anos de 1960. A amizade entre os dois fortaleceu laços de solidariedade, permutas entre os grupos de duas cidades, por eles liderados (Oliveira e Guaxupé), num contexto de grande efervescência cultural nas Gerais, com Adélia Prado, Lázaro Barreto e Osvaldo André despontando em Divinópolis; Ronald Claver, Léa Nilce, Marcantônio Guimarães e Magda Frediani em Belo Horizonte; Neide Malaquias em Itapecerica. Mas isto é outra história. A despeito da seriedade com que se entregavam à literatura, um permaneceu e outro regressou à província, onde os ares são mais arejados e o risco da desumanização é menor. Quem são os autores de Guaxupé, pioneiros do miniconto no Brasil? Francisca Vilas Boas, Elias José, Marco Antônio Soares de Oliveira e Sebastião Rezende.

      A ligação visceral de Elias José ao miniconto está registrada na história da literatura recente, respaldada com assertivas e elogios de grandes autores. Ignorar, ou fazer uso de evasivas para contornar o problema, serve apenas para acrescer a precariedade da pesquisa científica no Brasil, atingindo na área de Letras um grau de patética desinformação. Bastaria este ensaio, minucioso levantamento textual e crítico sobre os primórdios do miniconto no Brasil, para notabilizar o livro de Márcio Almeida. Além desta peça, outras três figuram entre as melhores, justamente as mais extensas, sobre os minicontos de P. J. Ribeiro, os de Ardino Aragão e a minificção poética de Adriana Versiani, trabalhos exaustivos, conduzidos com desenvoltura e preocupação interpretativa. Merece destaque ainda a disponibilidade e o empenho em apreciar autores pouco conhecidos, que não publicaram em editoras de grande porte, como Adalgisa Mendonça Botelho, Wilson Gorj, Oscar Kellner Neto, Uilcon Pereira e as trinta mulheres que vieram a lume em Escritoras suicidas, em leituras bem elaboradas, executadas de forma compromissada e sem condescendência modesta (para não dizer falsa). Mesmo com certa displicência de rigor em duas resenhas mais frágeis, não se pode ignorar a sólida pesquisa que fundamenta pelo menos um terço da matéria. O livro de Márcio Almeida afirma-se como referência e subsídio indispensável e abrangente, sem adesão a modismos, para a devida contextualização histórica da mininarrativa produzida no Brasil.

ALMEIDA, Márcio. A minificção no Brasil - em defesa dos frascos e dos comprimidos. Oliveira: Edição do autor, 2010. 313 p.