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quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Anelito de Oliveira

Livro do mês:    

     Como não lembrar a veemência, a presença lúcida e convicta, do jovem estudante, sempre além do desempenho normal? Editou nos anos 80 uma folha cultural, o Não, para a qual me pediu um artigo. Com a velocidade do foguete, estava depois nomeado editor do legendário Suplemento Literário do Minas Gerais, desempenhando com brilhantismo o cargo. Escrevia uns poemas de extrema sofisticação, imagens e ideias despregadas da experiência, as palavras querendo sair do papel para a rua, rodeadas de vida para todo o lado.
     Anelito de Oliveira é dos raros intelectuais disponíveis ao diálogo, lançado numa rede de produtividade e solidariedade. Dotado de uma despojada grandeza de alma, que parece saltar do corpo avantajado, jamais perde a delicadeza e o trato elegante. Dediquei-lhe um comentário crítico, publicado, com breves alterações, em dois livros: o meu Mosaico insólito e o volume III da coleção Literatura e afrodescendência no Brasil, lançado recentemente pela editora da UFMG, aqui comentada como livro do mês de novembro. Uma forma precária de retribuir à sua fidalguia de mulato, por ter citado meu nome entre aqueles que o teriam "movido" no projeto do livro Três festas, a love song as Monk, livro de 2004. Ao focar o ser humano excepcional que informa o poeta, destaco o culto da amizade, vivenciado como força capaz de rebentar a barreira do deserto.

      Três festas, a love song as Monk, livro denso, veloz, complexo, apesar do formato ascético, magérrimo, quase cinquenta páginas, traz o condão de misturar versos ligados à experiência a reflexões mais amplas, direcionadas à realidade maior do país, numa elegia alegórica fundada nas várias festas/faces (utopias e descalabros) da nossa identidade como grande nação. "O que a / Gente precisa é fazer muita pesquisa e/ / Mostrar para as pessoas preconceituosas/ Que os negros são muito importantes para/ O Brasil, mas sem briga, sem guerra". O trabalho com a linguagem poética não se faz em extensão, mas em intensidade e concentração.

     No poema um sujeito exercita a linguagem como forma de resistência, diante do consumismo selvagem e totalitário. A excessiva presença da realidade geo-gráfica não deixa de inscrever uma ruptura com os pressupostos politicamente corretos, numa rota de fuga às fórmulas aparentemente pacificadas. Engana-se quem vê nesta poesia o plácido refúgio da lírica ensimesmada. O esforço por compreender as razões históricas da realidade brasileira intersecciona-se com a busca desesperada do indivíduo: "Buscamo-nos, e tudo perdemos a cada movimento desta busca".
     O poema torna-se, assim, o lugar propício para dissolver as barreiras da asfixia e das totalidades paralisantes: "Enfrento./ Enfrento o todo./ Enfrento-te. (...) Enfrento-me". Autor culto e refinado, o poeta conhece a lição de Levinas de que "a necessidade de uma fera é inseparável da luta e do medo". As máscaras que insistem em nos proteger da tirania e da opressão, nos sucessivos embates existenciais, não conseguem camuflar a constatação de que somos desprovidos de segurança e as ideias de certeza e completude não passam de ilusão. "Estava, na metrópole, naquele espaço/ Sem lugar pra fragilidades". O livro é uma festa intempestiva e ousada na linguagem, de novo elaborada para desafinar o coro dos contentes. Dentre os recursos usados, vale referir o ritmo sempre renovado, o vertiginoso fluxo poético, as inusitadas articulações (ressoando os arranjos jazzísticos), o uso de expressões prosaicas, a travessia do exterior para o interior, do individual para o universal. A imagem de uma floresta, exterior ou íntima, fecha um dos poemas mais herméticos. Pouco importa, se uma ou outra, é precisamente essa hesitação que sugere a sua polivalência enigmática. 

     E não chego até a festa.

     Permaneço entre os fios
     de um tecido infinito.
     Nem calor nem calafrio,
     Nada me sabe nem resta.

     Contido, tal como grito
     dentro do rio, floresta


     OLIVEIRA, Anelito. Três festas - a love song as Monk. Belo Horizonte: Anome, 2004.

sábado, 12 de novembro de 2011

Homenagem a Rui Mourão


Na foto, Rui Mourão e eu, no jardim do anexo do Museu da Inconfidência.
     Tento registrar, em síntese, o que se passou na mesa em homenagem a Rui Mourão, no Fórum das letras, no dia de ontem, em Ouro Preto. Inclusive os incidentes insólitos, reveladores do formato informal, pouco cerimonioso, do evento. A idealizadora Guiomar de Gramont, num ato falho compreensível diante do volume de tarefas, anuncia, para compor a mesa, o senhor Edgar da Mata Machado. Duas personalidades com esse nome, já falecidos: um poeta simbolista (1878-1907), o outro um jurista católico (1914-1995), ambos famosos. Permaneço imóvel na platéia. Aquilo não era comigo. Topar fantasmas, poetas loucos  e alferes inflamados nas ladeiras e esquinas de Ouro Preto não é algo improvável. A meu lado, galhofeiro, meio sorriso estampado no rosto, Jaime do Prado Gouvêa, editor do Suplemento literário do Minas Gerais, brinca: "Edgard, você é irmão do Ayres da Mata Machado".  De pronto, Guiomar de Gramont consertou, pediu desculpas e teve início a sessão, dali em diante mediada por Armando Wood. Este considerou que as mulheres devem ter prioridade e passou a palavra para Maria do Carmo Lanna Figueiredo.
     Em breve exposição, Maria do Carmo L. Figueiredo desenvolveu com lucidez dois aspectos relacionados ao romance Boca de chafariz: a relação igualitária dispensada a dois personagens que representam o universo das artes, ficcionalizados de forma não-hierárquica, Aleijadinho e Bené da flauta; a presença e simbologia da água, já anunciada no título, como elemento ligado à memória e à diversidade de vozes que permeiam a narrativa. A debatedora passou a palavra para o escritor Rui Mourão que reconheceu, entre outras coisas, que toda interpretação é válida, desde que coerente. Caso contrário, é uma fantasia, afirmou.
     Em minha exposição, centrei-me no romance Curral dos crucificados, de 1971. Após comentar o impacto causado à época do lançamento, focalizei a importância que assumem na obra de Rui Mourão a crítica social e a inovação das estruturas narrativas. Romance extremamente multifacetado, Curral dos crucificados representa a confluência de inúmeros motivos do romance nordestino (o retirante, a repressão policial, a seca, a viagem para o sul) e antecipa rumos da ficção brasileira (o romance documentário do fim dos anos 70 e 80, em especial A festa, de Ivan Ângelo). Questionado sobre suas intenções como militante do grupo Tendência e produtor de ficção, Rui Mourão discorreu a respeito da contextualização do ufanismo na literatura brasileria, como se deu a crítica a essa postura na modernidade, a contrapartida do romance nordestino como uma elaboração excessivamente conteudística, com um tratamento ingênuo na linguagem.
 

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Eduardo de Assis Duarte

Livro do mês:    

Acaba de sair do prelo da UFMG a antologia crítica Literatura e afrodescendência no Brasil, resultado de um projeto auspicioso. Obra monumental, os quatro volumes consumiram dez anos de dedicação de seu organizador, Eduardo de Assis Duarte. Importância científica à parte, a amplitude da empreitada editorial traduz-se em números expressivos. Para sua realização, envolveram-se 61 pesquisadores, integrantes de 21 universidades brasileiras e seis estrangeiras. São focalizados 100 autores brasileiros afrodescendentes, por meio de nota biográfica, lista de obras, estudo crítico, referência bibliográfica e excertos, ao longo de 2010 páginas. As capas reproduzem obras do artista plástico Jorge dos Anjos.




     Paradoxalmente, até 1970, os estudos pioneiros voltados à literatura negra produzida no Brasil constituem especialidade de pesquisadores estrangeiros. O francês Roger Bastide em 1943 publica A poesia afro-brasileira, abordando vários autores, com ênfase naqueles surgidos no século XIX (Gonçalves Dias, Gonçalves Crespo, Luiz Gama, Cruz e Sousa). Em 1953, com Estudos afro-brasileiros, Bastide centra-se na imprensa negra. Dois professores norte-americanos dedicam-se à representação do negro na literatura brasileira: Raymond Sayers publica dois livros sobre o tema, O negro na literatura brasileira (1958) e Onze estudos de literatura brasileira (1983); Gregory Rabassa publica sua pesquisa em 1965, O negro na ficção brasileira.




     Uma das finalidades da obra, delineada com segurança e densidade pelo organizador, Eduardo Duarte, constitui a literatura de autoria negra e sua relação, às vezes promíscua, com a cultura ocidental, elitista e preconceituosa. Dessa forma, contribui para oxigenar o debate sobre a diversidade das afirmações identitárias, por parte dos afrodescendentes brasileiros, num arco de propostas que vão desde a aceitação, em suas múltiplas formas (orgulho, combate, vergonha) ao recalque. Procura-se destacar a ideia de afrodescendência como construção identitária, em detrimento da mera ascendência racial e biológica.       
     Denominado Precursores, o primeiro volume abriga autores nascidos antes de 1930, como Caldas Barbosa, Machado de Assis, Gonçalves Dias, Cruz e Sousa, Lima Barreto, Carolina de Jesus e Abdias Nascimento, entre outros.  O segundo volume, com o título de Consolidação, agrega trinta autores, nascidos entre os anos de 1930 e 1950. Contempla uma variada gama de escritores, alguns (como Nei Lopes e Martinho da Vila), com lugar relevante na Música Popular, ao lado de outros nomes, como Joel Rufino dos Santos, Muniz Sodré, Conceição Evaristo, Osvaldo de Camargo, Adão Ventura, Paulo Colina, Domício Proença Filho. Com o rótulo de Contemporaneidade, o terceiro volume concentra autores nascidos na segunda metade do século XX. Com forte predomínio de poetas sobre prosadores, são analisados autores que publicaram nas últimas três décadas, alguns presentes em blogs e sites na internet, como Cuti, Miriam Alves, Edimilson de Almeida Pereira, Anelito de Oliveira, Paulo Lins, Éle Semog, Jussara Santos, Ana Maria Gonçalves, entre outros. O quarto volume é dedicado a questões teóricas.
     Por ser um trabalho coletivo (e um serviço cultural prestado ao público), obras dessa natureza contam com a padronização como um preceito incontornável: são avessas a quebra de rigor e formato, requerem observação de normas comuns. A grandiosidade e o alcance do projeto em parte respondem pelas ocasionais rupturas do roteiro. Senão vejamos. A arrumação cronológica como critério de entrada dos autores não é seguida com absoluto rigor: Fausto Antônio que "nasceu em 7 de fevereiro de 1958" vem após Esmeralda Ribeiro, "nascida em outubro de 1958"; deveria vir antes, por ser oito meses mais velho. Não é o único deslocamento. Coisas de pouca monta, bagatelas metodológicas, mas que podiam ser evitadas. Diferente do deslocamento das notas dos textos críticos que deveriam vir no seu devido lugar, ou seja, após o texto crítico a que se referem, antes da listagem de obras e dos excertos. A resenha crítica é uma espécie textual autônoma, da qual as notas (referências bibliográficas) não quadram ser deslocadas. Por sua vez, os excertos antológicos constituem outro segmento textual, cuja autoria não pode correr o risco de se confundir com a autoria dos textos críticos. 
     Ser afrodescendente no Brasil pode parecer algo redundante: todos seríamos descendentes de negros, à exceção dos cônsules da Suécia e Dinamarca. Dito assim, pode soar espirituoso, mas não como recusa a participar do projeto. Explica o organizador: "...detentores de obras individuais de relevo estão aqui ausentes e por vários motivos. Dentre os vivos, há aqueles que não aceitam a vinculação de sua obra ao universo cultural afrodescendente por julgarem que seus escritos transcendem tal identificação. Dentre os falecidos com obras ainda fora do domínio público, algumas ausências se justificam pela impossibilidade de contato com herdeiros ou representantes legais" (DUARTE, 2011, p. 34). A justificativa tem sua razoabilidade técnica, mas não estanca a surpresa diante de algumas rasuras, tais como: Mário de Andrade, Jorge de Lima, Catulo da Paixão Cearense, Marcelo Gama, Narciso Araújo, Galdino de Castro, João Dornas Filho, Ascenso Ferreira, João Ubaldo Ribeiro, Ana Paula Maia, Sebastião Nunes, Ricardo Aleixo, entre muitos outros, o último militante da causa negra até há pouco tempo num jornal de Belo Horizonte. Vai-se lá saber o motivo.
     Dois autores têm estudos de minha autoria: Adão Ventura (foto) e Anelito de Oliveira. Do primeiro tentei abarcar o conjunto da obra. O mesmo não ocorreu com o segundo, uma vez que só tive acesso ao livro Três festas -a love song as Monk, no qual a questão afro recebe um tratamento mais marcante, após a entrega dos estudos críticos. Viva o escritor brasileiro afrodescendente!

DUARTE, Eduardo de Assis. (Org.) Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica. Belo Horizonte: UFMG, 2011. 4v.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Prêmio para Benito Barreto



     Perdoem a autorreferência. Após relatar a dificuldade em me contatar, o escritor Benito Barreto agradece o meu artigo sobre seu romance Toque de silêncio em Vila Rica. Sob o título de "História e fantasia", o artigo foi publicado no caderno Pensar do jornal Estado de Minas (B.H., 28 mai.2011) e neste espaço também em maio. O romance acaba de ser premiado pela UBE, seção Rio de Janeiro, na categoria romance histórico. Merecidíssimo por sinal. O final do artigo dizia: "Toque de silêncio em Vila Rica é um forte candidato ao melhor livro de ficção do ano, sem concessões e tom menor, colorido e diversificado mergulho nos sangrentos idos do final do século dezoito das Gerais". O ano nem acabou e as previsões vão se concretizando. Parabéns, Benito Barreto. Aguardamos com interesse o último volume da tetralogia sobre a Inconfidência, prometido para abril do próximo ano.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Ana Paula Maia

Livro do mês:

     Ana Paula Maia, escritora prestigiada da nova geração, em seu livro Carvão animal, elabora um ambiente hiperrealista, tendo como pano de fundo a associação laboral do homem com o fogo. Os protagonistas são funcionários do corpo de bombeiros, de uma mina de carvão e de um crematório. A opção por trabalhos grosseiros, em que a noção de limite assume proporções impactantes, acrescenta aos eventos relatados forte contorno grotesco, para não dizer, na fronteira da barbárie, ainda que consentida pelo tecido social. Asfixiantes, sufocantes e pesados, os três ambientes são descritos separadamente e nada os integra, a não ser o trabalho degradante e a progressiva desumanização, de que se mostram investidos. A autora carioca, explorando a questão da identidade em situações extremas, antes publicou O habitante das falhas subterrâneas (7 letras, 2003) e Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos (Record, 2009).



     Assim, Ernesto Wilson é um bombeiro que detesta motosserra e "a única coisa que gosta de enfrentar é o fogo". Os que trabalham nas minas acabam vitimados por doença de pulmão, óbvio. Os mineiros, como Edgar Wilson, têm um "tom amarelado, com fuligem na saliva e cinza nos olhos". Os que enfrentam profissionalmente os fornos de crematório convivem com corpos incinerados e com a banalidade excessiva da morte. Daí que os grandes acidentes são festejados na implacável ótica do mercado capitalista: quanto mais mortos, mais lucro. Noções elevadas de dignidade, compaixão, mágoa, são luxo de uma geração ultrapassada. Paradoxalmente, em meio à massiva degradação, emergem gestos imprevistos de solidariedade e respeito, como prova de que a condição humana não se perdeu de todo. Os personagens são peças de uma engrenagem impassível, cruel e opressora.  Esse, o universo ficcional de Ana Paula Maia, que vez por outra resulta artificial, pelo acúmulo de grotesco e elementos góticos, aqui no sentido de macabros e exóticos. A arte não deixa de ser produto de uma certa artificialidade, enfim. Após uma existência sem perspectiva, desprovida de conforto, numa sucessão de filas de ônibus, SUS, médico, banco, o sujeito é jogado numa câmara gélida, na fila do crematório. Quando os fornos atingem a exaustão, o recurso é apelar a uma carvoaria existente "a uns vinte quilômetros", lá, onde "as nuvens pesam mais, como imensos blocos de concreto".
     O vertiginoso encadeamento de violência e tragédia do final não mais surpreende o leitor. Isto é, aquele que ali conseguiu chegar. O interesse repousa no foco ousado nesses lugares irrespiráveis e inóspitos  de sobrevivência e na capacidade de extrair, das figuras simples que os humanizam, ainda que expostas a situações aparentemente constrangedoras (como moer ossos de cadáveres) arroubos de fraternidade. Convenhamos, alcançar tal objetivo não é pouca tarefa para a escrita.

MAIA, Ana Paula. Carvão animal. Rio de Janeiro: Record, 2011.

domingo, 25 de setembro de 2011

Encontro com Escritores: José Saramago

      Em fins dos anos 80 do século passado, num congresso internacional, realizado pela Faculdade de Letras da UFMG, apresentei uma comunicação sobre um romance de José Saramago (1922-2010). O futuro prêmio Nobel também participou do congresso e esteve presente à mesa redonda de que participei. O objeto de minha comunicação foi o romance O ano da morte de Ricardo Reis, de 1984. Além dele, Saramago já publicara Levantado do chão (1980), Memorial do convento (1982) e A jangada de pedra (1986). O evento em vários aspectos fugiu ao formato convencional dos colóquios então realizados na área de Letras. Não foi realizado no campus da Pampulha, mas num grande centro de convenções do Estado, no bairro da Gameleira, em Belo Horizonte. A Faculdade de Letras era novata no complexo da Pampulha, funcionara até meados dos anos 80 na rua Carangola, no bairro Santo Antônio. Alguns espaços (como o auditório) não existiam ainda ou estavam em obras. José Saramago estava em franca ascensão como romancista, despertava interesse no mundo todo, andava cercado por uma legião de paparazzi letradas (as mulheres eram maioria), que não lhe davam tréguas. 



      O encontro que mantive com Saramago não ocorreu na sala do evento, nem no jantar de confraternização, nem em suposto lançamento de livro, mas num banheiro. Só nesse local menos nobre e público o nosso encontro banal seria possível. Não foi nada planejado, não houve estratégia alguma. O acaso, mais do que escolher caminhos, contenta-se em nos empurrar, tangido por forças ignotas.  Ora, deu-se que, tangido ou empurrado pelo acaso, vi-me lado a lado, com uma separação de dois bojos, com o grande escritor. Quase emparelhados, ali, no mictório do banheiro. Findo o descarrego, encaminhei-me ao lavatório, para a higiene natural. Aproximou-se então um senhor magro e alto, terno vincado, óculos de lentes grossas, corpo esbelto, rosto seco e barba aparada. Inquieto, desempenado. Cumprimentei-o com um cordial boa tarde e um gesto de cabeça. Impessoais, os dois gestos, apontavam para o emissor, um tanto tímido, tomado de surpresa diante do escritor famoso. Ele, talvez embaraçado pelo comprimento inesperado em local pouco afeito a veleidades de etiquetas, respondeu com um sorriso mecânico, o aspecto grave.  Entrou outro cara, um cheiro de cigarro invadiu o ambiente quando a porta se abriu. O banheiro ficava no final de um corredor, no qual algumas pessoas fumavam. O futuro Nobel de literatura deu um pigarro curto, seguido de uma pequena tosse. As pessoas ficam leves, quando aliviadas. Notei no canto da parede uma garrafa de desinfetante, esquecida pelo faxineiro. Ele falou:
         "Que alívio! Enfim, posso voltar ao labirinto".
         "O senhor refere-se ao prédio ou à literatura?" Perguntei, afoito.
        "Os dois", respondeu, completando: "Ambos assemelham-se a lugares montanhosos de beira-abismo, todo cuidado é pouco". Saímos dali e não mais o vi. Uma década mais tarde, em 1998, foi agraciado com o Prêmio Nobel de Literatura.

sábado, 10 de setembro de 2011

Linda como Juiz de Fora!



Não conheço Juiz de Fora. O pouco que conheço é uma parte da periferia, um restaurante de beira de estrada, onde fazia parada o ônibus Util, a caminho do Rio de Janeiro, nas viagens quando cursava disciplinas no Doutorado da UFRJ. Primos meus moraram em Juiz de Fora e contavam maravilhas. O título acima é um verso de Manuel Bandeira, o último do poema "Mangue".  

Decidi reler Bandeira na semana passada. Duas palavras sobre sobre ele, sem intenção crítica. Bandeira, como é sabido, teria sido desenganado por médicos aos dezessete anos; no entanto, morreu aos 82 anos, bem vividos, inteiramente consagrados ao estudo e à criação literária, com regulares intervalos dedicados ao violão e ao desenho. Em busca de cura, por nove anos perambulou por estações de tratamento no país (Campanha, em Minas, Teresópolis, no estado do Rio, Quixeramobim e Fortaleza, no Ceará) e na Europa (Clavadei, na Suiça). Nasceu em 1886 no Recife, morreu em 1968, no Rio de Janeiro. Antecipou algumas conquistas do Modernismo, não quis participar da Semana de Arte Moderna em São Paulo em 1922, mas um poema seu, "Os sapos" foi declamado e incorporado à rebeldia  do evento. Deixou uma obra da maior importância, é reconhecido como mestre pelos poetas de todos os quadrantes. Estreou com A cinza das horas, em 1917, tendo como sintomática abertura os versos "Eu faço versos como quem morre/ de desalento, de desencanto. / Fecha meu livro se por agora/ não tens motivo nenhum de pranto". 



Bandeira, acostumado a vivenciar por dentro a experiência estética, nem por isso optou por um registro solene. Simplicidade, tom menor, linguagem coloquial, por vezes infantil, intimismo, descontração marcam seus poemas. Expressa o cotidiano de forma impactante e direta, o que não elimina o cuidado na elaboração. O primeiro modernismo, em que pese sua ânsia de ruptura, não se constrange diante da realidade imediata, local. Bandeira cita várias cidades: Juiz de Fora, Recife, Belém do Pará ("Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial/ Beleza eterna da paisagem"), Araxá ("As três mulheres do sabonete Araxá"), Mangaratiba e outras.  Alguém dirá que ele cita o sabonete Araxá, não a cidade, mas de tabela... Mário de Andrade tematiza a capital mineira no famoso "Noturno de Belo Horizonte". Os autores que produzem no chamado segundo modernismo mostram-se mais tocados pelo interesse social e apelos universais, sem esquecer a realidade circundante. Carlos Drummond de Andrade e Cecília Meireles citam cidades, em poemas de circunstância ou calcados na memória.

Em outro registro, desta vez em carta a Gilberto Freyre, Manuel Bandeira lembra uma estação de água em Cambuquira, de onde vai até Campanha, na segunda visita que lhe faz, em 1935. Estudei nessa cidade na adolescência por seis anos. Como ali vivi numa época de fundamentos e raízes, a evocação de Bandeira tem o dom de acordar sensações muito caras.

"Anteontem fui numa excursão a Campanha, cidadezinha morta que fica a um 3/4 de hora daqui. Faz agora justamente 30 anos que cheguei lá carregado. Verifiquei que era um camelo em 1905, pois não senti então a delícia que são aquelas ruas tão simples, tão modestas, com os seus casarões quadrados, quase todas com bicos de telhado em forma de asa de pombo. Há lá uma rua Direita (hoje tem nome de gente) que é um encanto: tão genuinamente brasileira, tão boa, dando vontade de morar nela. O passeio que foi de noite, com o luar (uma lua sem nada de mozarlesco, lua-Dantas, simples e bom satélite) foi dessas cousas que a gente não esquece. Diante das duas casas onde morávamos, e onde passei o Diabo, me senti valado, com um nó na garganta. Assim como no interior da matriz, uma igreja tristíssima, essa, sim, parece o "huge baru" que Luccock viu nas igrejas de Ouro Preto. Faziam a Via-Sacra e eu estive longo tempo imaginando quantas vezes minha mãe e minha irmã estiveram ali ajoelhadas rezando para que eu não morresse". (BANDEIRA, 1935).

BANDEIRA, Manuel. Libertinagem & Estrela da manhã. Rio de Janeiro: MEDIAfashion (Folha de São Paulo), 2008.
BANDEIRA, Manuel. Carta de Manuel Bandeira a Gilberto Freyre. Cambuquira, 23 de março de 1935 (Centro de Documentação da Fundação Gilberto Freyre, Recife).
VICENTE, Silvana Moreli. Gilberto Freyre e Manuel Bandeira em crônica epistolar. Teresa revista de literatura brasileira. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. USP, nº8/9. São Paulo: Ed.34, 2008, p.189-204.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Oiro de Minas


Livro do mês: Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais


Alguns livros surgem estigmatizados como objetos de culto e admiração no próprio nascedouro. Estamos diante de um desses: Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais, publicado em Portugal em novembro de 2007, com tiragem de 500 exemplares, em primeira e “única edição”, “com as características técnicas e artísticas aqui apresentadas”, conforme compromisso acordado entre a Editora, a organizadora e autores. À época do lançamento, em Lisboa, o livro mereceu o seguinte comentário do poeta e escritor Eduardo Pitta: “...impressionou-me a elevada qualidade desses poetas mineiros de agora, completamente desconhecidos em Portugal”. Ser publicado além mar, por si só, releva a importância do livro, tendo em vista a rica tradição e o elevado patamar da linguagem poética no país de Camões, Pessoa, Pessanha, Sophia Andersen, Fiama e Al Berto. O mérito da espinhosa tarefa, selecionar a nata da produção poética revelada em Minas a partir dos anos 80, cabe à jovem poeta suiço-italiana, a organizadora Prisca Agustoni, integrante dos quadros docentes da UFJF, por merecimento arrebatada de imediato à pertença da cultura brasileira, pela admiração que lhe devota. A consistência do projeto pode ser delineada através da cuidadosa, competente e sensível percepção dos desdobramentos de eixos temáticos e expressivos da moderna poesia brasileira nas Gerais.



Os nomes garimpados mostram-se caudatários  de modos e processos de três contextos tutelares do que se conhece de melhor da poesia brasileira (Oswald, Drummond, Concretos). Um contexto posterior à brilhante constelação de nomes mineiros, como Henriqueta Lisboa, Emílio Moura, Affonso Ávila, Laís Correia de Araújo, Affonso Romano de Sant'Anna e Adão Ventura. O rol de autores recolhidos não se constrange diante da grandiosidade da pirâmide: mostra-se representativo da ideia de escrita como partilha, intercâmbio e renovação do arcabouço artístico, como acentua Fernando Fiorese: “livro só existe no plural./ De modo que não há como abrir/ um único, sem com isso outro,/ e assim acionar a espiral/ que, par em par, outros abrirá”. Dez autores são convocados, alguns (complementando a assertiva de Pitta) também desconhecidos em sua terra: Eustáquio Gorgone de Oliveira, Donizete Galvão, Júlio Polidoro, Ricardo Aleixo, Maria Esther Maciel, Fernando Fábio Fiorese Furtado, Edmilson de Almeida Pereira, Iacyr Anderson Freitas, Wilmar Silva e Fabrício Marques. De cada um apresentam-se em torno de treze a catorze poemas, amostragem suficiente para dar conta dos rumos e percursos seguidos.

Nessa vertente, somos surpreendidos pela densidade lírica de uma voz singular e desafiadora, atravessada de um toque expressionista, com uma tendência à deformação e ao excesso, alcançada pelos versos de Eustáquio Gorgone: “A solidão ama/ corações completos./ É noiva que propõe/ tachonar a liberdade./ Visita qualquer um,/ criança ou adulto./ Brota nos travesseiros/ como flor de macela./ E muitas vezes arma/ seu camarim num tumor”. Na dicção coloquial de Júlio Polidoro, o pendor reflexivo hesita sufocado, reverberando a intrínseca ambiguidade da palavra: “e como, sendo ovelha, ser pastor,/ se a fala, como falso condutor,/ tem muitas e nenhuma direção?” Em lente de aumento, bifocal, a poesia de Donizete Galvão mira a realidade, com o aparente intento de fotografá-la, desvelando-a em camadas superpostas: “o berne/ plantado/ no lombo do boi/ estremunha/ ao ser cutucado/ com óleo queimado// o verme/ solapa/ a polpa da goiaba/ estremece/ na fruta sem forma/ caída no chão”. Para além dos sinais da decadência material (“a coleção de cacos de louça”, “o perecível”, “o cavalo baio com o olho cego”) as insistentes enumerações de ruínas e escombros do mundo real nesta poesia parecem funcionar como reflexo  do mundo interior – “inventário de perdas/ rol de inutilidades/ vasos vazios e quebrados”. O impacto entre a experiência e a realidade, esta quase sempre dotada de esmagadora beleza, vem à tona de forma aparentemente direta, numa expressão poética de fortes ressonâncias atávicas, no poema “Êxodo”, de Wilmar Silva: “comemos a fruta/ que o tempo madurou/ no ventre da terra// (...) miramos os pássaros/ e ouvimos gorjeios/ desfeitas as rédeas/ os potros sumiram”.

Por ser ficção, a poesia revela-se por vezes como investimento emotivo entre a sensação e as palavras, elaboração engenhosa de uma outra esfera de realidade, aplicada e apta a alcançar um efeito codificado pela percepção daquilo que se ignora. Tal como em versos de Maria Esther Maciel, de dosada sensualidade: “Te exila em minha teia/ me define com tua senha/ perenizando em meu corpo/ o teu mistério - / entre cortinas,/ no refúgio exato dos lençóis”. Experiência sensível expressa pela palavra, revelação de um outro mundo, paralelo ao mundo real, a poesia serve-se de elementos do cotidiano ou de uma cidade para logo evadir-se, em meio a sugestões lúdicas, como nos versos de Fernando Fiorese: “De quantas cidades estive,/ Diamantina tem o tamanho/ do corpo com que se ama e vive,/ com folgas e bolsos largos/ para acolher-nos no regaço”. Esta é uma escrita apurada na árida lição cabralina, decidida a simultaneamente desconfiar das certezas do mundo e seguir uma rota transgressora - “Como quem de viagem/ sabe o prazer de andar/ sem endereço ou idade,/ com a roupa amassada,/ também escrever comparte/ esse corpo sem abas”. Edimilson de Almeida Pereira não esquece o substrato afrodescendente, antes o convoca e integra como sintaxe libertária e agregadora: “Outra língua alicia o palato, não se quer instrumento de suicídio. Não pode ser engolida para selar o desejo. É para uso desobediente, sendo mais livre quanto mais nos pertence. A essa língua não se veda o devaneio, uma vez afiada a vida é tudo o que se queira”. Para Ricardo Aleixo, a poesia está irremediavelmente amarrada à errância urbana e à tentativa de decifrar no caos os sinais positivos: “Conheço a cidade/ como a sola do meu pé (...) // Como os cegos/ conheço o labirinto// por pisá-lo/ por tê-lo”. Iacyr Freitas mergulha no tenso exercício de interrogação sobre o mistério da existência e as ruínas da entrega amorosa - “levaram-me pelas mãos/ sobre o feno/ fizeram-me reconhecer/ os oceanos que me modelaram/ para o acaso // agora entendo/ o espasmo que rebenta/ dos alheios frutos/ a ferrugem e o claustro/ sob a magnitude que amo”. Fabrício Marques foge do tom solene e altissonante, com uma pegada de rap, num inventivo salto pelas trilhas da tradição: “a poesia/ não tem pressa/ não tem prazo/ não tem glosa// a poesia/ está em ramos/ está em rosa”.

Toda antologia vem marcada com as idiossincrasias de seu organizador, não há como fugir, toda escolha é subjetiva. Nesta os poetas alistados provêm de múltiplos sítios de experimentação da linguagem. É bom que tal ocorra, o que não quer dizer que o conjunto careça de um eixo. Por mais que se inscreva o sentido plural inerente à elaboração poética, os recursos retóricos emanam de vetores oriundos da densidade e da produtividade, antes de serem efeitos puramente decorativos. Por força das raízes ibéricas, os mineiros conservam um lastro de tradição barroca, a mesma que “testa o sentido, duvida de si mesma”, no dizer de Edimilson Pereira. A destreza e o bom gosto na mistura do léxico atual com o raro (ou arcaico) conferem ao poema um austero e sofisticado alcance no terreno da semântica. Brilhos a mais, em meio a tantos quilates de fulgor.


AGUSTONI, Prisca. (Seleção e prefácio). Oiro de Minas, a nova poesia das Gerais. Lisboa: Pasárgada, 2007. 160 p.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Sem mim


Após três noites com Teatro cheio no Palácio das Artes, em Belo Horizonte, o grupo Corpo viaja por algumas capitais, levando o belíssimo espetáculo Sem mim. O mote são sete cantigas de amigo de Martin Codax, jogral galego-português do século XIII. Mais populares e simples do que as cantigas de amor, as cantigas de amigo medievais revelam o cotidiano da moça da época, sempre à espera do namorado, em suas confidências com amigas, a mãe, ou o mar. Com uma perfomance rigorosa e representativa de constante pesquisa e experimentação de vários recursos aplicados à dança, os bailarinos sobem à cena, num espetáculo fascinante, em coreografia sugestiva, atravessada por jogos de luz e raios laser coloridos. Coreografia de Rodrigo Pederneiras, cenografia de Paulo Pederneiras, figurino de Freusa Zechmeister. Os créditos atribuem a música a José Miguel Wisnik e Carlos Nuñes, os quais contaram com as partituras de Martin Codax, descobertas em 1915 pelo espanhol Pedro Vindel. De toda a produção do cancioneiro medieval, as partituras de seis canções de Martin Codax são as únicas que chegaram aos nossos dias.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Maria Lúcia Lepecki (1940- 2011)



A escritora e ensaísta brasileira Maria Lúcia Lepecki morreu no último dia 24 de julho aos 71 anos em Lisboa, vítima de câncer. Maria Lúcia Lepecki nasceu em Axará, no estado de Minas Gerais, no Brasil, mas estava radicada há várias décadas em Portugal, sendo uma profunda conhecedora da literatura portuguesa. Brasileira de nascimento e portuguesa por casamento, Maria Lúcia Lepecki estudou em Paris, foi bolsista da Fundação Calouste Gulbenkian e professora catedrática na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Fui aluno de Maria Lúcia Lepecki, na Faculdade de Letras da UFMG, em 1970, antes de se transferir para a Universidade de Lisboa. Apresentou-me, então, a Boris Shnaiderman, através do qual publiquei minha primeira resenha, no extinto Suplemento literário do Estadão, em 1971. Deixa muitas saudades.

Os seus principais livros: Eça na ambiguidade. Lisboa: Jornal do Fundão, 1974; Autran Dourado: uma leitura mítica. São Paulo: Quíron, 1976 (Prêmio Nacional da Crítica, Brasília, 1977); Ideologia e imaginário, ensaio sobre José Cardoso Pires. Lisboa: Moraes, 1978; Romantismo e realismo em Júlio Dinis. Lisboa: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1980; Meridianos do texto. Lisboa: Assírio e Alvim, 1979; Sobreimpressões. Ensaios de literatura portuguesa e africana. Lisboa: Caminho, 1988.

Francisco José Viegas, romancista e Secretário de Estado de Cultura de Portugal, lamentou sua morte, referindo que "foi uma grande professora, capaz de motivar várias gerações para a leitura de literatura de língua portuguesa, além de ter escrito alguns ensaios marcantes sobre o romance contemporâneo e sobre literatura comparada".

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Sérgio Mudado



Livro do mês:


Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta, terceiro romance de Sérgio Mudado, passou a despertar interesse ao ser listado como um dos dez finalistas do Prêmio São Paulo de Literatura 2011. Trata-se de uma narrativa ligeira, movimentada, em parte aparelhada com os traços dos relatos picarescos, tendente ao anedótico e fabuloso, de mistura às ousadias do gênero, sem deixar de enveredar pelos caminhos do grotesco (como observa Benedito Nunes no prefácio).


Rompendo os padrões convencionais do narrador distanciado e onisciente, o estatuto do narrador aqui se mostra de forma compósita e multifacetada. Para comandar o fio narrativo, o autor delega essa tarefa a uma narradora, a qual dialoga naturalmente com uma leitora, que a acompanha montada num vagaroso pangaré. Os comentários de um e outro, ou de uma e outra, contaminam o fluxo narrativo, em ritmo de ziguezague. No intuito de criar cumplicidade entre as diversas instâncias do pacto romanesco, os juízos e comentários surgem marcados pela ambiguidade, uma vez que nem sempre esclarecem, colaborando para esconder ou tornar obscura alguma passagem. Por trás de uma estrutura narrativa grotesca (seguimos a lição de Benedito Nunes), de base ilusionista e dotada de artifícios inusitados, como a presença do médico e autor Sérgio Mudado em meio aos eventos ficcionais, a intriga toma um ritmo vertiginoso e quase sempre hilariante.

Por força da motivação ilusionista, o relato tenta captar a força torrencial do tempo, sendo simultaneamente envolvido pela energia desordenada do próprio tempo. O enredo, ainda que cercado de elementos mágicos e históricos, tem uma banal motivação: Juca Peralta é um caixeiro-viajante, funcionário da Philips, uma multinacional holandesa sediada em Belo Horizonte, encarregado de vender um rádio de três ondas, denominado o Matador, razão de suas andanças em trem de ferro, entre a capital de Minas e Montes Claros. Entre o nebuloso histórico e a magia, a intriga move-se em ritmo frenético, promovendo uma reviravolta na percepção da realidade, confrontando personagens históricas e fictícias, mito e realidade, tais como a feiticeira Cleópatra, o mago Noge, Ary Barroso, o governador Bento Antão, Juca Peralta, o jovem Fábio, Noel Rosa, Van Eik, Hitler, o delegado Luciano, Tiburtina e os dois maridos, as cortesãs do palácio de dona Olimpia, o historiador Licamar, o negociante Trajano Macedo e toda uma infinidade de figurações esdrúxulas e misteriosas. Dentre as múltiplas tarefas do Autor, convocado episodicamente à instância de personagem, além da construção de um relato aberto, fragmentado e receptivo às vozes de várias personagens, avulta o papel de editor de uma gama variada de discursos. Registre-se que a atuação do autor como personagem é uma presença rápida e de relativa autonomia. A duplicidade de papéis, no entanto, não é gratuita: duplicam-se os papeis e funções do Autor (da autoria) para assim se diluírem as perspectivas do autoritarismo? As notações de tempo, um tanto fluidas, são capazes de abarcar uma linha temporal dilatada: começam no ano fatídico de 1939, início da segunda grande guerra mundial. Não é ocioso lembrar, portanto, a impossibilidade histórica de Sérgio Mudado, nascido em 1948, ter comparecido naquele ano, para socorrer o empresário holandês, num caso de pneumotórax.


A alusão ao leitor que vai na garupa, em algum momento identificado como leitora, reforça a presença do interlocutor implícito e retoma a figura da “amável leitora” da narrativa ficcional do século XIX. “Em verdade, preciso, admito sem pudor, da tua ajuda. A mágica pode acontecer sem a presença do mago, que pode estar operando a uma distância formidável do seu objeto. Nenhuma forma de magia, no entanto, pode ocorrer sem testemunho. (...) Então, eis o dom que te é conferido: poderás sonhar-me nos idos de tua imaginação, saber-me nas linhas dos teus lábios, seguir-me nas estrelas do teu rumo. Sou, doravante, o teu espaço, semeei-te em mim e, portanto, estás agora plenamente preparado, pois te tornaste o mais hábil leitor - meu e de ti mesma, pois tu és, doravante, também quem eu sou” (p.15). Esse narrador, que insiste em sua natureza feminina, (pela possibilidade de procriar?), gera em si mesmo a instância do leitor - “o mais hábil leitor”, reduplicando o que já estava erigido em dupla função (de autor e personagem). O pacto romanesco (a contiguidade entre autor, narrador, leitor e personagem) ocupa um lugar explícito no relato. A ideia de excesso e desmedida, delineada no título (os negócios extraordinários), reveladora do intento de extravasar os limites, é sintomática de uma concepção diegética sem freios, transgressora de princípios estabilizados milenarmente. O processo narrativo incorpora uma diversidade de discursos, oriundos de fontes literárias, científicas, folclóricas e históricas, cujos fios costuram uma ampla e formidável tapeçaria do mundo. Os índices relacionados com a Minas colonial misturam-se aos pruridos de modernidade tecnológica, às incursões desaforadas na história política mineira, às ocorrências repressivas do Estado Novo e aos prenúncios dos horrores do nazismo em franca ascensão. Dessa forma a mais sonhada que elaborada “história subterrânea de Minas Gerais” constitui outro índice da inútil tentativa de recriar o incessante fluir do tempo. “...Minas é habitada por gente intratável e aqui no sertão os dias nunca amanhecem serenos. Esta terra parece desprender tumultos; a água exala motins e os campos destilam liberdade” (p.122).


Como água incontrolável de enchente, a narrativa vai assimilando resíduos de história e folclore, arroubos patrioteiros e peripécias sensuais, entulhos e tudo o mais que encontra no caminho. Da mesma forma que o submarino alemão, mergulhado nas ruas fétidas do Arrudas como espetáculo de magia, não esconde o interesse do Reich pelo ouro das Minas. Romance de imenso fôlego, tal como o do holandês tocador de trombone do início do relato, Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta revelam um autor maduro, inventivo, matizado, sugestivo e irônico, plenamente consciente das artimanhas ficcionais.



MUDADO, Sérgio. Os negócios extraordinários de um certo Juca Peralta. Belo Horizonte: 
Crisálida, 2010. 432 p.

domingo, 31 de julho de 2011

Crônica da casa assassinada



                                                (Foto de divulgação, de João Caldas.)

Com casa lotada, no Teatro Alterosa, assisti ontem à peça Crônica da casa assassinada, baseada em romance homônimo de Lúcio Cardoso, com grupo carioca, adaptação de Dib Carneiro e direção de Gabriel Vilela. Hoje é a última apresentação em Belo Horizonte, às 19 horas.


O romancista mineiro Lúcio Cardoso tem sido enquadrado na linhagem dos grandes moralistas do Ocidente, voltados aos problemas da consciência; notadamente no seu caso interessado em mostrar como os aspectos sombrios da sexualidade atormentam os indivíduos. De imediato, deve ser reconhecido o esforço positivo em adaptar aos palcos um dos textos maiores da literatura brasileira, não apenas em extensão, mas em densidade e exuberância técnica e estética. A primeira cena convoca a nota impactante e nervosa que acompanha todo o espetáculo: a cena de sexo incestuosa entre mãe e filho, mais claramente, entre o jovem André e sua mãe, em agonia no leito de morte. Ainda que mais tarde, de forma nebulosa, seja aventada a hipótese de o jovem ser filho de Ana e não de Nina, o incesto está irremediavelmente inscrito e vivido como desejo mórbido que passa a contaminar as outras personagens. E a brutal oscilação entre vida e morte, entre corpo desejante e corpo em decomposição, em suas variadas conotações de ruína física e moral, parece atar o destino da família. Concentrada no casarão de tradicional fazendeiros das Gerais, a trama transcorre em meio a paixões extremas e desintegradoras. O ambiente fechado, pouco arejado e opressivo, abriga a progressiva desintegração financeira e moral dos Menezes.


A adaptação teatral consegue captar os momentos decisivos da tragédia que, se no romance recebe uma complexa e arrastada arquitetura discursiva, formada pelo entrelaçamento de vários discursos, no palco se vê desenvolvida em fragmentos vertiginosos, carregados de denso e patético simbolismo. Nina, a bela carioca liberada, tal como no romance, concentra em si a semente da degradação. Ela carrega uma beleza única, “mórbida e em declínio, como se vibrasse em uníssono com o espírito que presidia a casa toda”, depõe o farmacêutico. A montagem de Gabriel Vilela explora de forma criativa, com efeitos visuais e sonoros apropriados, a atmosfera sufocada e tensa em que as personagens são domadas por instintos e atormentadas pela repressão e sentimento de culpa. Os traços mineiros presentes na montagem centram-se sobretudo na arquitetura barroca (a réplica da fachada da igreja de São Francisco de Assis, no fundo da cena), e na obstinada submissão à religiosidade, às convenções sociais e aos indecifráveis desígnios da fatalidade. Somados aos motivos ibéricos (as canções românticas), tais motivos ampliam-se, tornando-se elementos míticos e universais.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Se gritar pega ladrão


Todos conhecem a sequência da marchinha: não fica um, meu irmão. A desmoralização da classe política parece não ter fim. Poucos se salvam. A imprensa mais uma vez tem cumprido o seu papel de investigar e divulgar a farra da corrupção e do descaso com o dinheiro público. Só no Ministério dos Transportes já são vinte os demitidos, por envolvimento com esquemas de desvio de verbas e cobrança de propinas. Dos mais graúdos para baixo, em escala decrescente. Como se não bastassem as denúncias em torno de outros ministros, como Aluísio Mercadante, Orlando Silva, Ana de Holanda e Fernando Hadad. Demorou a queda de Palocci, agora cai Alfredo Nascimento. Algum resíduo de ética parece ter vindo à tona. A malta estava montada em pontos estratégicos, no comando da indústria de aditivos e favorecimento entre amigos e partidários há pelo menos oito anos, ou seja, desde o famigerado governo Lula, que não sabia de nada. Quando me exponho em assuntos políticos, fica parecendo que tenho ligações partidárias. Talvez fosse razoável dizer que, há oito anos, votei no PT. Afastei-me indignado à época do escândalo do mensalão, lá por volta de 2006. Todos esses vinte nomes e sobrenomes sonantes foram ratificados pelo atual governo, fazem parte dos apoios e alianças torpes que o sustentam. Esses políticos recebem uma fortuna em salários e mordomia e não se contentam, envolvem-se até o pescoço em negociatas e maracutaias, jamais estão satisfeitos. Mais lama está por vir.

O país se vê atingido covardemente por aqueles que deveriam zelar pela lisura e honestidade no trato com o dinheiro dos impostos. Não sobra verba para escolas, segurança, estradas, hospitais, creches, combate às drogas. A cultura da corrupção deita garras afiadas por todos os lados. E ainda querem tocar as obras da Copa debaixo do pano... Os estudantes estão apáticos, a UNE e os sindicatos foram silenciados com benesses. Se gritar pega ladrão...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Os primeiros (e segundos) passos em marxismo








Quando algum aluno solicita um livro onde possa empreender uma iniciação ao pensamento marxista, não titubeio. Mais do que um esboço de formação marxista, um verdadeiro curso de pós-graduação em materialismo histórico: o volume 36, Col. Grandes cientistas sociais, Marx, Engels, História, da ed. Ática. Longe de mim arvorar-me em militante marxista, ou o que fosse. Tive formação convencional, humanidades em seminário, certa tendência à síntese conciliadora, sobre os grandes temas universais, no geral conservadora. Não me incomoda assinalar. Depois, por conta própria, fiz vigorosas incursões no estudo de filosofia e política e fui amealhando alguma informação mínima sobre enquadramento ideológico, posicionamento político, ciência política, evolução do pensamento, História (assim, com inicial maiúscula). Um bocado de leituras, uma franca disponibilidade ao desafio e à evolução do pensamento.


Agrada verificar que temos no Brasil um elenco de intelectuais de alto gabarito, para todas as tendências. No que diz respeito ao marxismo, nem se fala. Evito citá-los, para não incorrer no risco de algum provável esquecimento. Digno de nota, um traço produtivo: a conexão estreita entre o pensamento de vertente marxista e denso lastro literário. Astrogildo Pereira, um dos primeiros biógrafos de Machado de Assis e fundador do Partido comunista, é um caso exemplar a esse aspecto. Alguns glosadores da parceria Marx/Engels, inflamados em seu ímpeto libertário, mostram-se às vezes mais marxistas que os próprios. "Ser radical é ir à raiz das coisas. Ora, a raiz do homem é o homem", este é um dos postulados de  efeito do materialismo dialético.  Apesar de Marx ter afirmado que, antes de O capital, só escrevera bagatelas, não é verdade. Assinou consistentes ensaios de sociologia, história e filosofia.


Como introdução ao pensamento marxista, muita coisa poderia ser aventada, inclusive uma coleção de larga difusão popular, distribuída em bancas de jornais e revistas, da editora Abril, responsável pela publicação em 3 volumes de O capital, de Marx, (col. Os economistas) com apresentação de Jacob Gorender. Os anos 80 do século passado foram férteis em divulgação do ideário marxista no país. Mas nada supera o volume acima mencionado, uma cuidada antologia de textos fundamentais, produção editorial de primeiríssimo mundo, com uma equipe exclusiva de tradutores e uma excelente introdução de Florestan Fernandes, de quase 150 páginas. Uma ou outra falha de revisão passa despercebida, diante do investimento cultural observado. Traz índice analítico e onomástico.


Marx, Engels: História. Org. Florestan Fernandes. São Paulo: Ática, 1983. Col. Grandes cientistas sociais. 495 p.




sexta-feira, 1 de julho de 2011

Edney Silvestre



Livro do mês:

O livro de Edney Silvestre impressiona pelo acabamento literário, intriga envolvente, mistura de gêneros e dimensão alegórica. Para um estreante no gênero, trata-se de um grande romance, elaborado com sofisticada estrutura narrativa e engenhosa reconstituição histórica. Não surpreende ter arrebatado dois grandes prêmios em 2010: o Jabuti de melhor romance, o prêmio São Paulo de Literatura (categoria estreante). Um ano em que o Jabuti derrapou, com a polêmica premiação do romance de Chico Buarque, Leite derramado, (segundo colocado na categoria romance) alçado a o livro do ano. Se eu fechar os olhos agora revela um narrativa ágil, os fatos sucedem-se num ritmo acelerado, desde a primeira cena: dois garotos fogem da escola, vão nadar no lago e lá dão de cara com uma mulher morta, jogada no mato, o corpo mutilado. Começa então uma longa batalha para desvendar o crime. Paralelo à busca do verdadeiro assassino, transcorre o amadurecimento forçado dos dois garotos, que se vêem atirados numa realidade cruel. Recursos típicos do folhetim, associados ao ritmo investigativo do romance policial, criam uma atmosfera de suspense em torno da história da vítima, que se mistura promiscuamente com a história de uma cidade do interior fluminense. Violência, opressão, preconceito racial, taras sexuais, escândalos em suas mais torpes ramificações, diretamente relacionados à alta sociedade, vêm à tona e são esmiuçados. A verdade também vem à tona no desenlace, entre lances decisivos e trágicos, envolvendo a classe dominante da região, sustentada e validada pelos estratos judiciários, religiosos e financeiros.


Acabada a leitura, alguns pilares da arquitetura ficcional me inquietam. Como dois garotos, aparentemente ingênuos, acabam envolvidos numa trama policial? Recebem ajuda de um idoso ex-comunista, é verdade, um militante decadente, que no passado fora torturado pela polícia de Vargas. Até onde o estofo neorrealista, com sua moldura engessada, o gosto pelos detalhes, o enfoque maniqueísta, é um suporte produtivo na elaboração de uma obra que se pretende engajada na realidade brasileira das últimas seis décadas? A evocação do filme A doce vida, de Fellini, em que as imagens um tanto delirantes reverberam a hipocrisia das relações entre Estado e Igreja, não é apenas um aspecto circunstancial, ligado ao contexto dos anos 60: funciona como espécie de contraponto temático e estilístico, a um dos momentos de mais alta densidade crítica do romance. A meta proposta – delinear o seu alcance político – requer um breve percurso teórico.


Acreditam os adeptos da análise política da literatura que o desempenho deliberadamente engajado de uma obra pode produzir um efeito contrário, quando alguns elementos excedem em sua dosagem. Não se cogita no aspecto do engajamento como objetivo final, da intenção trotskista de defender uma determinada ideologia, com o natural desdobramento de se produzir arte como espaço de propaganda, resultando quase sempre numa arte de encomenda, panfletária, de precário valor estético. Edney Silvestre não faz arte desse tipo. Mas o excesso de situações politicamente corretas, envolvendo o estatuto do narrador, e o ímpeto de, através da escrita, atuar no sentido de fazer justiça, no sentido absoluto, são armadilhas escorregadias, propensas a escamotear o inconsciente político. Uma obra comprometida aparentemente com a dialogia pode colaborar para disseminar um conteúdo monológico. Dito de outro modo: um artefato estético construído com as torpezas da lama social e empenho idealista, ainda que recheado de boas intenções e voluntarismo positivo, pode ter um efeito reacionário. Um projeto literário aparentemente revolucionário, comprometido com os oprimidos, muitas vezes acaba se revelando reacionário. Aquela coisa de o leitor receber tudo pronto, mastigado e digerido. Falta o contraditório, sobra pouco para pensar e participar. Flávio Kothe afirma, de forma direta: “uma obra pode estar recheada de ideologemas de esquerda e acabar funcionando a favor da direita, assim como uma obra pode armar-se de ideologema de direita e adotar um ponto de vista narrativo contrário do autor para conseguir funcionar com maior contundência (Sâo Bernardo)” (KOTHE, 1981, 188). Em crônica publicada na Folha de São Paulo, há um ano, Luiz Felipe Pondé, peremptório e debochado, dizia não gostar de arte como “ferramenta de cidadania”, atributo que, a seu ver, faz da arte “coisa de retardado”.

De um lado, evidencia-se a recorrência a pressupostos idealistas na elaboração do enredo ao restaurar, de certa forma, a convicção de que a infância é um paraíso de inocência, justiça e solidariedade. Os heróis são dois garotos de classe média, empenhados em descobrir a verdade dos fatos relacionados ao assassinato, à revelia do interesse da própria polícia em fazê-lo. Para tanto, sacrificam a natural fruição dos folguedos. Plenamente convictos de sua verdade, opõem-se à grande maioria dos atores sociais. Por sua vez, a postura combativa de Ubiratan e sua militância no sentido de conscientizá-los tem paradoxalmente o condão de tornar caricata sua eficácia: “Os meganhas de Getúlio Vargas arrancaram todas as minhas unhas. Uma a uma. A sangue frio. Me torturaram. Mataram amigos meus” (SILVESTRE, 2010, 84). Alçado à instância interpretativa de sua própria fabulação, o teor crítico da personagem se vê esgarçado, diante de uma estrutura social sôfrega por divulgar os indícios de sua ruína. “- Em 1937 fui torturado pela primeira vez. A polícia de Vargas arrancou todas as minhas unhas. Uma por uma” (SILVESTRE, 2010, 196). A autovitimização, as referências à repressão da era Vargas, aliadas à instância idealista na feitura do relato (adolescentes no papel de bem sucedidos investigadores) funcionam como dados circunstanciais tendentes à inscrição num difuso projeto de engajamento.

Ler um texto é antes de tudo situá-lo como expressão histórica de seu tempo ou do tempo nele representado, compreendê-lo em seu contexto. As ciências humanas pressupõem a contextualização para seu efetivo desenvolvimento. F. Jameson desenvolve uma teoria de interpretação política da literatura, “um modelo hermenêutico novo, mais adequado, imanente ou anti-transcendente” em seu livro O inconsciente político (JAMESON, 1992, 20). A História nos é apresentada sob a forma de um texto, afirma o pesquisador americano, empolgado pela argumentação marxista, complementando que as categorias ficcionais não reproduzem rigorosamente a realidade histórica. Seria ocioso, todavia, no atual estágio, ignorar que os dois sistemas (a História e a ficção) se contaminam e irrigam de forma dialética. Narrativas alegóricas “constituem uma persistente dimensão dos textos literários exatamente porque refletem uma dimensão fundamental do nosso pensamento coletivo e de nossas fantasias coletivas referentes à História e à realidade” (JAMESON, 1992, 30).

Toda a querela da leitura ideológica remete à ideia espinhosa de mediação, ou seja, a relação entre instâncias e a possibilidade de transferência de um plano para outro. Seria ingenuidade desconhecer a interdependência dos códigos, ainda mais diante da brutal evidência de que os fatos sociais são unos e indivisíveis, trazendo, contudo, no seu bojo, a inseparável conexão entre os usos da linguagem e as contradições sociais. O desempenho estético decorre quase sempre de índices implícitos ou sugeridos, disseminados sutilmente no tecido narrativo. Por muito que se enraíze na realidade brasileira dos últimos sessenta anos, reconstituindo com maestria o cenário geográfico e humano, o romance de Edney Silvestre não ultrapassa o horizonte de uma visão panorâmica do interior fluminense, no início da decadência da aristocracia cafeeira. Nesse aspecto, a denúncia das contradições internas e da corrupção é o desenvolvimento natural de um determinado contexto ou estilo. Os dados de uma obra devem ser “questionados em termos de suas condições formais e lógicas e, particularmente, de suas condições semânticas de possibilidade” (JAMESON, 1992,52). Flávio Kothe, mais próximo de nós, assim argumenta: “a arte, mesmo em suas pretensões mais realistas, nunca pode ser a 'realidade', entendida como uma coisa em si nem pode ser o sublime de um mundo das ideias. Essas buscas de identidade só podem redundar em fracasso e frustração” (KOTHE, 1981, 106-107). Se eu fechar os olhos agora pode se enquadrar na categoria de narrativa alegórica. Esta interpretação, explorada amiúde nas resenhas sobre o livro, provém do próprio romance: “- Aparências enganam. Mais cedo ou mais tarde vocês irão aprender. Nada neste país é o que parece. E esta cidade é um microcosmo do Brasil” (SILVESTRE, 2010,84). O narrador espalha dados sobre a historicidade de seu relato, muitos dos quais envolvem uma crítica contundente aos costumes da aristocracia rural.

Outro teórico, Bakhtin, vê coincidência entre a ideologia do autor e a do herói. Para ele, a soberania ideológica do autor é um traço do romance monológico, daí seu acento ideológico único. A palavra do autor e a palavra do herói estão no mesmo plano.

O destinatário da literatura distingue-se do público estático que se emociona com o conteúdo das matérias veiculadas pelos veículos de comunicação de massa. A lição mais evidente da teoria marxista de Jameson privilegia não tanto a capacidade de o texto literário reproduzir a estrutura social, mas sua força manipuladora, ao controlar ou reprimir elementos dispersos e interditos, nos quais se plasma o inconsciente político. A complexidade estrutural do foco narrativo, no romance de Silvestre, é sintomática nesse aspecto. Três narradores alternam suas vozes, ao longo do livro: o relato de Eduardo, um dos garotos; o narrador onisciente; o relato de Paulo, o outro garoto, elaborado na idade adulta. Aparentemente diferentes, emanam um discurso convergente, de feitio autoritário. Além de complexo, o foco narrativo é sofisticado, no intuito de despistar as possíveis interpretações biográficas. Quando tudo leva a crer que o narrador se identifica com Eduardo, o menino de pele clara, ou que Eduardo seria seu porta-voz, passados mais de trinta anos, reaparece Paulo na pele de funcionário da ONU, incorporando uma dimensão cosmopolita ao texto. Eduardo está morto e seu neto envia-lhe uma pasta com o relato. “Não moro em lugar nenhum, realmente. Vivo onde trabalho” (SILVESTRE, 2010, 282), diz o ex-garoto moreno. Não seria uma forma de indiciar uma interface com o autor? Edney Silvestre é conhecido correspondente internacional da uma grande rede de televisão brasileira. Envolvido em projeto de ajuda humanitária e promoção de grupos sociais, o protagonista da trama expressa mais um dado positivo, politicamente correto a seu respeito. Bonito, redondo.

SILVESTRE, Edney. Se eu fechar os olhos agora. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2010.

Suporte teórico:
BAKHTIN, Mikhail. Problemas da poética de Dostoiévski. Trad. Paulo Bezerra. Rio de Janeiro: Forense-Universitária, 1981.
JAMESON, Fredric. O inconsciente político. Trad. Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Ática, 1992.
KOTHE, Flávio. Literatura e sistemas intersemióticos. São Paulo: Cortez, 1981.tura e sistemas intersemióticos. São Paulo: Cortez, 1981.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Ítalo Mudado (1931-2011)


Faleceu hoje em Belo Horizonte, aos 80 anos, Ítalo Mudado, professor aposentado de literatura portuguesa da UFMG e conhecido homem de teatro (ator e encenador). Ítalo Mudado era um intelectual refinado, profundo conhecedor de tragédia grega, com mais de 50 anos dedicados ao teatro: montou obras clássicas da dramaturgia universal e brasileira (Sófocles, Gogol, Fernando Pessoa,Guimarães Rosa, Machado de Assis). Levou aos palcos textos fundamentais da literatura de todos os tempos, como os Sermões, de Vieira e O rubi no umbigo, de Ferreira Gullar. Formou vários atores. O último espetáculo sob sua direção reuniu duas pequenas peças, - O doido e a morte, do português Raul Brandão, e Amor por anexins, de Arthur Azevedo, no centro Cultural da UFMG, nos meses de outubro e novembro de 2010. Excelente intérprete de poesia, gravou, junto com Affonso Romano de Sant'Anna, um CD com poemas de Henriqueta Lisboa. Será sepultado amanhã, dia 23 de junho, às 14:00 hs, no cemitério do Bonfim.

domingo, 19 de junho de 2011

Contradições e descompassos


Com certa constância, somos tomados de uma sensação de desconforto, ou ficamos sem entender direito porque alguma coisa é daquele jeito. Algum compartimento não bate bem com o outro, alguma coisa está deslocada. Nada muito grave, a ponto de nos encaminhar para o Pinel, mas estranhamos.

Um exemplo simples, para ninguém dizer que não compreendeu. O meu/nosso querido Cruzeiro, após brilhante campanha na Libertadores, mesmo sendo desclassificado quase no final, perdeu para o Figueirense, no Brasileirão. Dá pra entender?

Os jornais de hoje deram que viver no Brasil é mais caro que nos Estados Unidos, em torno de 30% mais caro. Complicado: o que dizer da contrapartida em qualidade de vida? É evidente que levamos desvantagem.

Durante algum tempo torcia para que uma coisa influenciasse a outra. Belo Horizonte sedia um dos grupos teatrais mais inventivos e criativos do país, o Galpão, com atores de gabarito, pesquisas de linguagem e recursos cênicos. Esperava-se que o cenário teatral da cidade correspondesse a um padrão de qualidade, que um público exigente se agregasse, etc. Ledo engano: mais de 70% das peças encenadas enquadram-se no gênero besteirol, com um padrão medíocre.

Outro descompasso, este no terreno da literatura. Acreditar que, com a proliferação do miniconto, o conto curto, aumentasse o número de leitores de livros de ficção. Só se interessa pelo miniconto o leitor que já se interessa por literatura em geral, o leitor normal que aprecia narrativas mais extensas.

Pirateando a historiadora Mary del Priore, autora do livro História da intimidade, que deve ser lido com urgência: “Como queremos ser a oitava economia do mundo, se ainda batemos em gays na Avenida Paulista? A Avenida Paulista é uma das mais sofisticadas da nossa maior metrópole”. Tudo a ver.

Nossos bisavôs eram pedófilos? Parece que não. Por que casavam com meninas novinhas, a partir dos doze anos? Convém buscar a contextualização no livro atrás referido.

Ainda sobre o tema anterior, desta vez a tão propalada pedofilia na Igreja Católica. O jornalista português João Perreira Coutinho, em crônica na Folha de São Paulo, analisou a situação dessa prática no âmbito da Alemanha. Cito de memória, posso estar errado, mas a proporção é pequena: em torno de 20 mil casos, algo em torno de uns 200 envolvem padres católicos. Convenhamos, um caso que fosse, seria indesejável. Mas convenhamos.

Ao fim e ao cabo, uma estranheza histórica. O imperador Alexandre III, o Magno, da Macedônia, (Grécia), que viveu de 356 a 323 a.C. Em curto reinado, dominou o império persa, o Egito e norte da Ásia. Suas vitórias mais importantes foram em Graniscus, Issus (onde venceu o lendário rei Dario), Gaugamela e Hidaspes. No grande giro pelos continentes africano e asiático (norte da Índia e Afeganistão), revelou-se grande estrategista em batalhas, fundou cidades (seis denominadas Alexandria), tentou governar usando a cooperação de nobres persas, designando alguns como governadores. Era bissexual. Desagradou generais gregos, morreu aos 33 anos, de febre ou envenenado.


Na imagem, Colin Farrell no papel de Alexandre, em filme de Oliver Stone (2004).

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Márcio Almeida

Livro do mês:
      O poeta Márcio Almeida, após intervir culturalmente em Belo Horizonte na década de 80, regressou para a província, onde acaba de publicar um livro oportuno e curioso, A minificção do Brasil- em defesa dos frascos & dos comprimidos. São ensaios, rótulo flexível para caracterizar uma produção crítica receptiva ao comentário e à reflexão axiológica sobre literatura, de mistura a resenhas fartas em erudição e associações hermenêuticas. Como se trata de um intelectual militante nas frentes da cultura, excessivamente premiado, reconhecido pela apaixonada participação em movimentos poéticos, suas avaliações sempre terão ressonância. Um livro sem dúvida irregular, mas com impecável mapeamento do miniconto no Brasil, desfazendo uma série de distorções que vão se tornando corriqueiras no contexto cultural mais recente.

      A primeira evidência digna de relevo é a defesa intransigente do pioneirismo de Elias José na criação do miniconto. Em vida o escritor teve ruidoso reconhecimento, tanto de público como de crítica. Dos poucos que lograram merecida e ampla visibilidade, apesar de residir no interior de Minas, em Guaxupé, por ele transformada em cidade polo de irradiação cultural. Autor de uma obra extensa, diversificada nos vários gêneros (poesia, ficção adulta, ficção juvenil, ensaio), publicado por grandes editoras, Elias José teve considerável acolhida por parte de escritores e críticos renomados (como Octávio de Faria, Temístocles Linhares, Luís Carlos Lisboa, Antônio Carlos Villaça, Nelly Novais Coelho, Antônio Sérgio Bueno, Victor Júdice, Consuelo Albergaria Prado). Entre os prêmios, destacam-se o Jabuti (1974) para o melhor livro de ficção, o Fernando Chinaglia (1980), o APCA, de melhor poesia infantil (1983).


      
      Márcio Almeida recolhe farto material, em cuidadosa e paciente pesquisa e reafirma o que não deveria ser novidade, mas nem sempre é referido: Elias José é o criador inquestionável do chamado miniconto, em 1968, na plaquette editada na cidade de Guaxupé, intitulada Poleiro de urus. Em 1969, em outra plaquette, desta vez intitulada Cadernos 20, nº 1, aparecem vários contos breves. Em 1971, o termo miniconto é usado por Sebastião Rezende pela primeira vez, em Cadernos 20, nº 2, de Guaxupé:

miniconto (mini, maxicanto) é a visão do mundo. Maneira de ser e agir. Dinâmico, pois. Miniconto, como rotulação possível de ser substituído: minipoema, minicrônica, miniromance, polimini ou minitudo. Nunca menos, abrangente e variável como as mudanças de nosso tempo, instrumento maleável, conciso, objetivo, sintético, cioso de sua funcionalidade, aqui-agora,lá-sempre, ubíquo, polivante, verbivocovisual. Com ele sentir e ver o mundo sem desperdícios e derramamentos. (...) (ALMEIDA, 2010, p. 124).

      Wilson Martins, em artigo publicado no Suplemento Literário de O Estadão, em março de 1971, reconhece o termo, comentando o livro A mal amada, de Elias José: “(...) Cedendo a uma terminologia que, se não é literária, é, pelo menos, sintomática, o autor distingue as suas produções em minicontos, contos e maxicontos” (ALMEIDA, 2010, p.115). O que deveria ser um dado incontestável, mero reconhecer do seu a seu dono, acaba por ser ignorado em inúmeros trabalhos de mestrado e doutorado, recentemente produzidos, em universidades das quais era de se esperar maior seriedade e enquadramento científico. Os mal informados e desavisados pesquisadores, Pedro Gonzaga e Marcelo Spalding, bem como seus doutos orientadores, candidatos a coveiros dos fundadores do miniconto, mantêm vínculos com a UFRGS.

      No ensaio sobre Elias José, o tom polêmico não brota inopinado, era esperado, vindo de onde veio. Envolvido desde a juventude nos movimentos de intervenção poética em Minas Gerais, Márcio Almeida aproximou-se de Elias José em meados dos anos de 1960. A amizade entre os dois fortaleceu laços de solidariedade, permutas entre os grupos de duas cidades, por eles liderados (Oliveira e Guaxupé), num contexto de grande efervescência cultural nas Gerais, com Adélia Prado, Lázaro Barreto e Osvaldo André despontando em Divinópolis; Ronald Claver, Léa Nilce, Marcantônio Guimarães e Magda Frediani em Belo Horizonte; Neide Malaquias em Itapecerica. Mas isto é outra história. A despeito da seriedade com que se entregavam à literatura, um permaneceu e outro regressou à província, onde os ares são mais arejados e o risco da desumanização é menor. Quem são os autores de Guaxupé, pioneiros do miniconto no Brasil? Francisca Vilas Boas, Elias José, Marco Antônio Soares de Oliveira e Sebastião Rezende.

      A ligação visceral de Elias José ao miniconto está registrada na história da literatura recente, respaldada com assertivas e elogios de grandes autores. Ignorar, ou fazer uso de evasivas para contornar o problema, serve apenas para acrescer a precariedade da pesquisa científica no Brasil, atingindo na área de Letras um grau de patética desinformação. Bastaria este ensaio, minucioso levantamento textual e crítico sobre os primórdios do miniconto no Brasil, para notabilizar o livro de Márcio Almeida. Além desta peça, outras três figuram entre as melhores, justamente as mais extensas, sobre os minicontos de P. J. Ribeiro, os de Ardino Aragão e a minificção poética de Adriana Versiani, trabalhos exaustivos, conduzidos com desenvoltura e preocupação interpretativa. Merece destaque ainda a disponibilidade e o empenho em apreciar autores pouco conhecidos, que não publicaram em editoras de grande porte, como Adalgisa Mendonça Botelho, Wilson Gorj, Oscar Kellner Neto, Uilcon Pereira e as trinta mulheres que vieram a lume em Escritoras suicidas, em leituras bem elaboradas, executadas de forma compromissada e sem condescendência modesta (para não dizer falsa). Mesmo com certa displicência de rigor em duas resenhas mais frágeis, não se pode ignorar a sólida pesquisa que fundamenta pelo menos um terço da matéria. O livro de Márcio Almeida afirma-se como referência e subsídio indispensável e abrangente, sem adesão a modismos, para a devida contextualização histórica da mininarrativa produzida no Brasil.

ALMEIDA, Márcio. A minificção no Brasil - em defesa dos frascos e dos comprimidos. Oliveira: Edição do autor, 2010. 313 p.