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terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Belo Horizonte

      Em homenagem aos 120 anos de Belo Horizonte, que hoje se comemoram, transcrevo página do romance Outono atordoado, alusiva à cidade. Clique.




sábado, 9 de dezembro de 2017

Joaquim Manuel Magalhães

Livro do mês:     

      Joaquim Manuel Magalhães (Consequência do lugar é de 1974) está ligado à geração poética surgida em Portugal nos anos 70 e aos jovens que em 1976 lançaram Cartucho – Antônio Franco Alexandre, Helder Moura Pereira, João Miguel Fernandes Jorge. Esta experiência coletiva assinala um aspecto básico para a compreensão de sua poesia, a companhia de outros, a elaboração criativa a partir da leitura de outros autores. A dimensão de poeta crítico pode ser delineada através do percurso que vai de Os dois crepúsculos (1981) a Dylan Thomas (1982), de Um pouco da morte (1989) a Rima pobre (1999). A poesia de Cartucho (poemas amassados, à semelhança de bombons) mostra-se particularmente voltada para a reabilitação da subjetividade e a expressão do desejo. De acordo com sua formulação, a geração dos anos 70 assume “um discurso cuja tensão é menos verbal do que explicitamente emocional” (Magalhães, 1981, 258).



      Seu poema subentende a marca cética da linguagem: ainda quando emerge de sentidos localizáveis, recusa quaisquer certezas ou paraísos e sobrevive, sempre, no limiar da dúvida: “Não és real, eu não existo./ Raízes desertas do auriga.” (Magalhães, 1990, 14) Construída nas bordas (e nas dobras) da realidade, transfere para a espessura da linguagem a respiração vertiginosa da paisagem urbana:

         (…) Uma vez
         saí da cidade para a aldeia costeira.
         Cantavam. Perguntou
         o que era o jantar, apanhou canas,
         com um golpe de rins soltou um ramo
         da macieira. A lua recebe a luz
         do seu corpo deitado. (Magalhães, 1990, 31)

      O cenário físico, com suas conotações específicas de luminosidade, configura um recorte luminoso da experiência, estabelecendo uma irradiação entre a natureza e o sujeito nela inserto:

         Os rilheiros dos cereais em rama
         e os almenares de palha erguiam-se
         na eira bem lavrada de travessia e de forcão.
         Os melros entoam um canto de companhia
         fugitivo, metálico sobre nós os dois. (Magalhães, 1990, 48)

      O poeta cria um simulacro da realidade, dela lhe chegam vestígios indecisos que apontam para uma das funções da poesia: transfigurar o real ou transformá-lo em antídoto:

         Detesto a poesia. Essa tarefa
         debruada de troca social. (“Transvasamento”)

      Detestar a poesia por sabê-la espaço de transferência das utopias? A única provável permanência? O terreno minado onde pulsam as ilusões da representação? Um forma de diálogo impossível, uma vez que sempre escapa alguma coisa na depuração da linguagem: do um apenas com todos os outros?


MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Uma luz com toldo vermelho. Lisboa: Presença, 1990.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

As querelas do Prêmio Oceanos 2017

      Divulgada a lista dos premiados em 2017 no Prêmio Oceanos, Maria Teresa Horta, premiada ex-aequo em quarto lugar, expôs sua recusa ao mesmo. Importantes autores portugueses têm-lhe endossado apoio, por considerarem falta de respeito ou "humilhação" um quarto lugar, dividido com outro escritor. Em verdade, Maria Teresa Horta, desde a década de 1960, vem produzindo uma obra de excepcional qualidade na poesia portuguesa contemporânea. Mas não se trata do Prêmio Camões, honraria que contempla a totalidade da obra, pode-se argumentar. Mesmo assim, a romancista Inês Pedrosa, no blog Delito de opinião, observou: "Não achavam Anunciações - a obra em causa neste prémio - digna do Prémio? Não a premiassem, e assumissem essa decisão. Dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino é que não é coisa que se faça a uma autora que, desde 1960, quando publicou a colectânea de poemas Espelho inicial, até hoje, construiu uma obra ímpar, com mais de 40 livros publicados". Contam-se, dentre outros, títulos da consistência de Tatuagem (1961), poemas incluídos na publicação coletiva Poesia 61, Amor habitado (1963),  Minha senhora de mim (1967), as ficções Ambas as mãos sobre o corpo (1970), As luzes de Leonor (2011). Sem esquecer a coautoria de Novas cartas portuguesas (1971), juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, obra considerada transgressora pela censura salazarista, submetida a ruidoso processo policial, de amplas repercussões.
      O menino referido, o escritor brasileiro Bernardo Carvalho, tem 57 anos e 11 romances, alguns publicados em Portugal: foi justamente o primeiro vencedor do Prêmio Portugal Telecom, origem do atual Prêmio Oceanos, em 2003, com o romance Nove noites. Com o impasse, Selma Caetano, curadora do Oceanos, afirmou que o prêmio relativo ao quarto lugar será integralmente destinado a Bernardo Carvalho. Integraram o Júri seis intelectuais  e editores brasileiros, Beatriz Resende, Mirna Queiroz, Heloísa Jahn, Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz, além do português Antônio Guerreiro e a luso-angolana Ana Mafalda Leite.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Prêmio Oceanos 2017

      Foram anunciados ontem, no Instituto Itaú, em São Paulo, os vencedores do Prêmio Oceanos de Literatura de 2017. A premiação passou a levar este nome em 2015, após mais de uma década ser conhecida como Prêmio Portugal Telecom. Concorrem as obras lançadas em língua portuguesa no ano anterior; neste ano os finalistas somaram 51 títulos (31 brasileiros, 19 portugueses, um angolano).
      A grande vencedora deste ano é a portuguesa Ana Teresa Pereira, com o romance Karen (Relógio D'água). Colecionadora de troféus, com mais de duas dezenas de títulos publicados, surgiu como escritora em 1989, ganhando o Prêmio Caminho de Literatura Policial, com Matar a imagem; em 2005, sua obra Se nos encontrarmos de novo foi considerada a melhor ficção do ano pelo PEN Clube Português e, em 2007, seu romance A neve faturou o Prêmio Máxima de Literatura.

                                                         (Foto: dnotícias.pt)

      Silviano Santiago, outro colecionador de distinções, ficou em segundo lugar, com Machado (Cia. das Letras), título também ganhador do Jabuti deste ano. Com o romance Mil rosas roubadas, o autor mineiro foi o vencedor da primeira edição do Oceanos, em 2015.
      O terceiro lugar coube a Helder Moura Pereira, com o livro de poemas Golpe de teatro (Assírio & Alvim), que recebeu em abril o Grande Prêmio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores). Autor de títulos marcantes da poesia portuguesa contemporânea (como Sedução pelo inimigo, Carta de rumos, Um raio de sol, Mútuo consentimento,  Lágrima),  Helder M. Pereira, como os outros portugueses premiados, inédito no Brasil, vem sendo, enfim, justamente reconhecido. Ao lado de mais três poetas (Antônio Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães), Pereira  participou do histórico Cartucho, (Lisboa, 1976), objeto de análise em minha tese de doutorado, defendida em 1997 na UFRJ, publicada depois, sob o título de Portugal, poetas do fim do milênio (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999).
      No quarto lugar, ficaram empatados dois livros: Anunciações, da poeta portuguesa Maria Teresa Horta, e Simpatia pelo demônio, do brasileiro Bernardo Carvalho.
      Os vencedores recebem quantia em dinheiro: R$100 mil para o primeiro colocado, R$60 mil para o segundo; R$40 mil para o terceiro; R$30 mil divididos entre os dois classificados em quarto lugar.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Frans Krajcberg (1921-2017)

      Aos 96 anos, morreu ontem, no Rio de Janeiro, Frans Krajcberg, artista plástico de grande projeção internacional, conhecido pelos trabalhos feitos em madeira calcinada de incêndios florestais. Nascido na Polônia, morou na Rússia, onde estudou engenharia e artes, e na Alemanha, tendo perdido os familiares em campo de concentração nazista. Em 1948, chegou ao Brasil, naturalizando-se brasileiro em 1957. Apaixonado pelo país, fixou-se inicialmente no Paraná, depois na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Artista múltiplo, escultor, pintor, fotógrafo, gravurista, atuou no território limítrofe entre a arte e a militância ecológica. Sua obra em geral caracteriza-se por intervenções em troncos e raízes, considerados como objetos visuais de forte impacto espacial.

                                   
                                                  (Imagem: conexão planeta.com.br)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nélida Piñon

      Livro do mês




      Compete às sagas serem portadoras dos valores e apreensões do contexto em que foram escritas. No caso de A república dos sonhos, depara-se o leitor com uma visão de mundo esfacelada pelo arbítrio de uma ditadura, a um tempo impiedosa diante da corrupção e dos movimentos libertários. O Brasil, como república de sonhos, expõe-se como território recetivo aos imigrantes, ao mesmo tempo em que se busca reescrever seu fantasioso passado de impunidade, de prodigalidade inquieta, fonte de oportunidades e expectativa de desenvolvimento. O mito da terra provedora, de riquezas inesgotáveis, perpassa ao longo dos capítulos da trama: “Era hora de voltar a escavar as terras brasileiras, em busca de tesouros. Sempre teve certeza de encontrá-los” (PIÑON, 2015,126).


      A paisagem ensolarada de Galícia paira sobre as personagens que de lá saíram, na ilusão de se enriquecerem numa América coroada de fartura e extravagância. Em polos opostos, movimentam-se os protagonistas Madruga e Venâncio. Em Madruga presenciamos a sedução pela aventura numa América construída em sonhos, cultivados por uma desenfreada ambição: “De resto, sou ainda um estrangeiro nesta terra, sob permanente suspeita. Meu único sonho é conquistar o Brasil” (PIÑON, 2015,168). O apelo da aventura, envolta nas asas da cobiça, norteia os seus movimentos, ao se deparar com as oportunidades de trabalho e riqueza.
      Viver no Brasil para Venâncio só se justifica se puder projetar nos elementos naturais a lembrança comovida de sua terra distante: “Quantas vezes, desta varanda do Leblon, poderiam eles, em seguidos exercícios de imaginação, alcançar a Galícia em rápidas braçadas, levados apenas pelos alísios, favoráveis à navegação” (PIÑON, 2015,301). Galego aqui exilado, europeu que se deixa aos poucos e com dificuldade contaminar pela cultura tropical, compõe um diário, importante documento de interpretação de hábitos e costumes brasileiros: “Ninguém aqui se isenta facilmente dos apelos sexuais. Eles ganham forma pela manhã, sem hora de se esgotar” (PIÑON, 2015,390). O lento e gradativo processo que encaminha Venâncio à loucura produz devastadora destruição no ânimo de Madruga, o antigo amigo de todos os dias. “Os motivos que atraíram Venâncio à América divergiam frontalmente dos seus. Ele não viera de tão longe para esburacar a terra pelas manhãs, criando bolhas e feridas pelo corpo, em busca de um tesouro. O único tesouro de Venâncio consistia em preservar o direito ao sonho” (PIÑON, 2015,252).
      A produção de um romance vigilante em relação ao tempo de sua escrita – e numa dimensão grandiosa – acarreta alguns ajustes de contas ao autor. Um deles, inarredável, diz respeito à aceitação resignada da impotência de sua geração diante da avassaladora opressão instalada pelo estado autoritário. Vários blocos narrativos alternam-se, sem que a linguagem tendente ao poético e às digressões reflexivas se modifique. Projeto arrojado, complexo, realizado numa extraordinária combinação de sabedoria e excepcional domínio de recursos.
      A lenta e extenuante agonia de Eulália atravessa todo o relato que se alastra esmiuçando as escaramuças familiares, a agrura de viver num espaço a princípio inóspito e os expedientes adotados pelos imigrantes no esforço de adaptação à nova terra. Personagens reais misturam-se aos fictícios, com os quais se moldam harmoniosamente, como os botões novos ocupam o lugar antes ocupado por outros que se perderam. Santiago Dantas, Manuel Bandeira, Getúlio Vargas ocupam algumas páginas com sua aura histórica polida, sem influenciar a sequência da trama, convocados a compor um canto da moldura de um quadro previamente esboçado. Ao narrador multifacetado não escapam as sutilezas dos pequenos gestos, nem a desmedida das grandes empreitadas.







PIÑON, Nélida. A república dos sonhos. Rio de Janeiro: Record, 2015. (Edição comemorativa dos 30 anos)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Herberto Helder

Livro do mês: Poesia toda

      Os grandes livros de poemas não são lidos de uma assentada. Vão sendo lidos aos poucos, de vagar, como devem ser. A eles voltamos com frequência e muito gosto. Com Poesia toda, de Herberto Helder (1930-2015), não foi diferente. Sempre que me via carente de bons poemas, voltava ao tijolão de 575 páginas. O que se seguia eram instantes de puro encantamento e renovado prazer.
      Herberto Helder, possuidor de uma escrita exuberante e hermética, volta-se para o resgate de energias arquetípicas em A colher na boca (1961), A máquina lírica (1964), O bebedor noturno (1968), Cobra (1977), A cabeça entre as mãos (1982). Segundo Natália Correia, “A poesia de Herberto Helder, sempre obsessiva, reflete como que um imenso orgasmo sem fim. Nela, a mulher – o gênero, mais que o amor individualizado – é a musa universal, receptáculo dos seus excessos e do êxtase que o projeta numa insaciável tensão. Daí, a corrosão de um erotismo que nele é visceral, orgiástico, e que mais não cessa, qual canto cósmico da atitude de amar e da presença matriarcal” (CORREIA, 1999, 455).


      A expressão dessa voz lírica arrojada, de um fôlego desmedido, vem desde o primeiro livro revelando-se dotada de uma dimensão mágica e cosmológica, nomeando e exaltando o corpo feminino como força aglutinadora de energias universais:

      “Dai-me uma jovem mulher, com sua harpa de sombra
      e seu arbusto de sangue. Com ela
      encantarei a noite.
      Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
      Seus ombros beijarei, a pedra pequena
      do sorriso de um momento.
      Mulher quase incriada, mas com a gravidade
      de dois seios, com o peso lúbrico e triste
      da boca. Seus ombros beijarei.

      Cantar? Longamente cantar.
      Uma mulher com quem beber e morrer.
      Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
      o atravessar trespassada por um grito marítimo
      e o pão for invadido pelas ondas -
      seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
      Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
      de alegria e de impudor.
      Seu corpo arderá para mim
      sobre um lençol mordido por flores com água.

      Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
      E enquanto ao dorso imagina, sob os dedos,
      os bordões da melodia,
      a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
      desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
      - Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
      as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
      mulher de pés no branco, transportadora
      da morte e da alegria.

       Dai-me uma mulher tão nova como a resina
      e o cheiro da terra.
      Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
      E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
      cantarei seu sorriso ardendo,
      suas mamas de pura substância,
      a curva quente dos cabelos.
      Beberei sua boca, para depois cantar a morte
      e a alegria da morte”.
      (…)
      (HELDER, 1990, 18-19)

      O efeito em mim produzido pela poesia de Herberto Helder corresponde antes a um mergulho num discurso matizado de efeitos fantásticos e cognitivos, mais do que uma passiva fruição de uma delirante montagem de imagens. Percebi nos seus poemas uma recolha de associações oníricas, mais do que um inventário de práticas poéticas cristalizadas. Uma inusitada capacidade de dizer coisas simples e belas, ao mesmo tempo, algo como -

      “Somente o mundo é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
            aos laços
            das constelações. (…)
      Porque o corpo é uma gruta de onda saltam
      os sóis, uma insónia que liga
            o dia ao dia,
      pelos jardins trespassando os estúdios
      ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
            astros brancos”.
      (HELDER, 1990, 376)

      “E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
      cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
            às janelas
      as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
            do espelho de onde salta
      uma braçada de luz. Cada lenço que ata
            a própria seda do lenço
      o desata”.
      (HELDER, 1990, 364)

      Como se a leitura só pudesse alcançar sua efetiva evolução se nos despíssemos, nos desnudássemos forçosamente do arcabouço lógico. Então era aceitar o desafio: enveredar sem freios numa desordenada aventura verbal, executada com pleno domínio de ritmo, sem desvios sintáticos e sobressaltos sentimentais. A leitura de Herberto Helder demanda um ajuste no sentido de codificar um discurso de exaltada espessura subjetiva e alargada densidade emotiva. Até 2015, era considerado o maior poeta português vivo, com todo o merecimento.


CORREIA, Natália. Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. 3a. ed. Lisboa: Antígona & Frenesi, 1999.
HELDER, Herberto. Poesia toda. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.
PEREIRA, Edgard; OLIVEIRA, Paulo Motta; OLIVEIRA, Silvana M. Pessôa de. Intersecções – ensaios de literatura portuguesa. Campinas: Komedi, 2002.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Os cadernos culturais

Os (cada vez mais) precários cadernos de cultura


      A convivência com escritores, de alguns anos para cá, serviu para fundamentar informações que envolvem alguns aspectos ligados à imprensa escrita. Reclamam, os escritores em geral, e só por eles posso falar, que cada vez mais se deteriora a cobertura por parte da imprensa a eventos na área literária. O silêncio, a falta de eco nos ditos cadernos específicos, de notas e informações sobre o cenário cultural (eventos, lançamentos, exposições), pode estar ligado a vários fatores. Em alguns casos, de pessoas que mantêm presença nas redes sociais, através de blogs, nos quais expõem opiniões e posturas, a falta de eco tem lá razões de ordem política, ou ideológica. A cor dos olhos é um argumento pequeno para motivar posicionamento de natureza social.

                                                       (Imagem:jws.com.br)

      Se o enunciador não se exime de fazer comentários não alinhados com as expectativas de determinado grupo, pode tornar-se alvo de críticas negativas oriundas desse grupo. Como vivemos uma época de adesões e rejeições que sempre possuem desdobramentos partidários ou políticos, aí o caldo engrossa de vez. Qualquer indício de apoio ou simpatia por ideias ou crenças será lido de forma inflamada pelo grupo que se alinha no lado oposto. Na realidade brasileira contemporânea, os cadernos culturais são remanescentes de um jornalismo de rosto socialista, refratário às críticas direcionadas aos descaminhos recentes da política de esquerda nos últimos treze anos de governo petista. O que se observa é um jornalismo de raso lastro intelectual, de espessura medíocre, que não suporta análises matizadas de maior envergadura e consistência hermenêutica. Nas configurações mais comuns e espalhadas, são redutos adestrados pela narrativa de que houve golpe com o impeachment da presidente afastada. No caso da literatura, área já solapada pelos ditos estudos culturais dos anos recentes, alijada da cobertura jornalística, o estrago pela não divulgação de eventos é maior. Quem fica prejudicada é a sociedade, atulhada de fofocas e pitis de famosos, desprovida de um canal eficiente e imparcial de informação e serviço.    

sábado, 30 de setembro de 2017

Edgard Pereira

Livro do mês:

Dias portugueses e outros

      O gênero diário tem uma pegada no cotidiano, no ritmo vertiginoso dos acontecimentos. Há diversos perfis de diário, desde aqueles diários meio clandestinos, escrita secreta em que se registram os segredos íntimos, que em geral ficam escondidos e não são destinados à publicação. 


      Dias portugueses e outros é um livro que não se enquadra nesse perfil de diário íntimo. De natureza mais aberta, engloba, além de eventos pessoais e familiares, ocorrências ligadas ao contexto mais amplo da sociedade. Simultaneamente escrita de si, de eventos que reverberam na subjetividade e de ocorrências sociais, ainda que filtradas pelo sujeito que as anota, as páginas resultantes constituem uma tentativa de compreensão da realidade. O esforço de representação da realidade, afastando-se da camada superficial da espuma dos dias, que é matéria jornalística, pretende elevar-se a uma dimensão reflexiva. Diante de múltiplos sinais e acontecimentos, o escritor posiciona-se buscando novos sentidos para interpretar os fatos.
      Edgard Pereira, nascido em Minas Gerais em 1948, estreou como ficcionista em 1976, com o livro de contos Violeta Trindade, ao qual sucederam O lobo do cerrado (1996) e o romance Outono atordoado (premiado pela Xerox do Brasil em 2001). Professor aposentado de literatura portuguesa da UFMG, doutor em Letras pela UFRJ, de sua produção como crítico literário e ensaísta constam os títulos Portugal, poetas do fim do milênio (1999), Mosaico insólito (2006) e Arquivo e rota das sombras, edição portuguesa de 2014.


PEREIRA, Edgard. Dias portugueses e outros. Belo Horizonte: Suspiros PS, 2017.


sábado, 26 de agosto de 2017

Evaldo Balbino

     

Livro do mês:

      A poesia de Evaldo Balbino, estampada no livro Moinho, transita, hábil, por sólidos e tradicionais veios, como as trilhas aladas de Cecília Meireles: “Escrevo porque o tempo insiste / e a minha vida está incompleta”. O próprio título acolhe uma dimensão circular, de uma operação que se repete no tempo, afeita a triturar grãos. O forte simbolismo da preparação do alimento enriquece o ofício, concebido como aprendizagem e partilha de conhecimento. Recupera por vezes o estatuto primitivo do vate, de procedência ancestral, o bardo arrebatado, posto em delírio: “Minha alma é secular / como o meu corpo. / Quer copular antes da morte / que os come” (“Um modo”).


      Pulsando em rotas contraditórias, inerentes à contingência existencial, o poeta faz emergir, simultânea à aferição da implacável condição humana fadada ao sofrimento, o reiterado apelo à fruição - “Vivamos, / mesmo que os moinhos estejam mortos / e o que se trituram/ são apenas sonhos” (“Clareira”). O sujeito poético, impulsionado pelo labor de escolher e misturar palavras, equilibra-se, exposto às intempéries, entre o rigor e a impassibilidade da pedra e a leveza do ar: “Escrevamos / um moinho de pedra / incorruptível”. Escrever impõe-se como atividade fundamental, exercida sob “o nervoso atrito de meus dedos”, incapaz de eliminar o sentido da urgência: “dia após dia eu não tenho / nada mais que palavras se ofertando / ao sustento infindável dos meus sonhos” (“Entre duas margens”).



BALBINO, Evaldo. Moinho. Belo Horizonte: Scriptum livros, 2006.