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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Massaud Moisés (1928-2018)

      Registro, com pesar, o falecimento ontem, 11 de abril, do professor e crítico literário Massaud Moisés, catedrático de literatura portuguesa da USP. Publicou trabalhos marcantes de literatura portuguesa e no campo da teorização literária, tais como A literatura portuguesa  (29 ed.), A literatura portuguesa através de textos (26 ed.), além do que, talvez, seja seu trabalho mais importante,  A criação literária, em  3 volumes, Poesia, Prosa I e Prosa II. Encontramo-nos em 2002, trocamos livros, enviou-me, pelo correio, autografados, os três volumes de  A criação literária, com afetuosa dedicatória. Guardo a lembrança de um homem culto, elegante e atencioso.


                                                (Foto: academiapaulistadeletras)


segunda-feira, 9 de abril de 2018

Rodrigo Octavio


      Livro do mês:


      Rodrigo Octavio (1866-1944), jurista e renomado magistrado brasileiro, nascido em Campinas, formou-se bacharel pela Faculdade de Direito de São Paulo. Serviu como secretário da Presidência da República do governo de Prudente de Morais (1894-1896). Delegado do Brasil em diversas conferências internacionais (Haia, 1910 e 1912; Bruxelas, 1909-1912; Washington, 1916; Paris, 1919), foi ministro do Supremo Tribunal Federal de 1929 a 1934. Ocupou a cadeira 36 na Academia Brasileira de Letras. Além de volumes de memória (Coração aberto, 1928, Minhas memórias dos outros, 1934-1936)), publicou obras de direito e política internacional, como: Domínio da União e dos Estados (1897), Direito do estrangeiro no Brasil (1909), a codificação do direito internacional privado (1910), Questão de Lambari (1916), Dicionário de direito internacional privado (1935).
      Quando representa o prefeito de Lambari (Hugo Werneck) na contenda jurídica da água mineral, defronta-se, no tribunal, com ninguém menos que Rui Barbosa, contratado advogado pelo Estado de Minas Gerais.




      Em Minhas memórias dos outros, seu livro de maior fôlego, sob o ponto de vista literário, de acordo com especialistas, Rodrigo Octávio registra sua amizade com Machado de Assis, já autor consagrado. “A lembrança que guardo de Machado de Assis é das mais intensas de minha vida”, afirma, no início do capítulo III. A atenção ao velho bruxo prossegue por mais de vinte páginas: “Pode-se afirmar que o prestígio e o sucesso da Academia Brasileira eram a grande preocupação do Mestre. // Machado não era um homem sociável, era mesmo de difícil familiaridade. Finamente polido, atencioso para com toda a gente, tinha ele, entretanto, um muito limitado círculo de relações de visita, e essas mesmas, confinadas no seu bairro, dentro de um pequeno raio da casa em que, por tantos anos, viveu” (Octavio, 1979, 54-55).

      Outros encontros com homens representativos da cultura e da política são também relatados, ao lado de eventos de alta relevância histórica de que o autor participou. O final do século XIX e o início do novo século, vistos de uma forma direta e detalhada por alguém que partilhou os acontecimentos, ressurgem de maneira fluente e viva. Machado de Assis, Salvador de Mendonça, Luís Guimarães, Rui Barbosa, Barão do Rio Branco, Guimarães Passos, Luís Murat, Pardal Malet, Coelho Neto, Aluízio Azevedo, Rodolfo Bernardelli, Duque de Caxias, José do Patrocínio, Olavo Bilac, dentre outros, movimentam-se nestas páginas, escritas com o tom de reminiscência e a nota do afeto. Os primeiros anos da Academia Brasileira de Letras, desde a fundação, de que participou junto do autor de Dom casmurro, sua jornada como núcleo de desenvolvimento intelectual do país, os membros da primeira hora compõem preciosa memória da vida cultural do país. O memorialismo do autor não cultiva ressentimentos e fatos pitorescos, impõe-se como testemunho sereno e analítico.

OCTAVIO, Rodrigo. Minhas memórias dos outros. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 1979.

quarta-feira, 21 de março de 2018

Laís Corrêa de Araújo

Em homenagem ao Dia da poesia, transcrevo um poema de grande poeta mineira

Sólida e só


Não como mulher
- seu pêlo de garça -
mas muro de ardente
sarça.
Não breve e inofensiva
- seu decorado rosto -
mas garra de sol
posto.
Não desatenta e viva
- o seio indivisível -
nas pá de solidão
audível.
Não trêmula e constante
- o desejo luzente -
mas árbitro de fato
potente.
Não o matriz intermédio
- de sexo equipada -
mas bravia orla
drenada.
Não a língua sutil
- entranha a lacerar -
mas a lucidez abjeta
do azar.
Não feminina. Fêmea
sólida e só, inteira,
por um instante eterno
- clareira. 


 Laís Corrêa de Araújo, em Cantochão. (Belo Horizonte: Imprensa Publicações/Governo do Estado de Minas Gerais, 1967.)

sábado, 17 de março de 2018

Ronald Werneck

 O poema é de Ronald Werneck, enviado por Paschoal Motta.



A VOZ DA MORTA
para Marielle Franco,
in memoriam

a voz da morta
o caos na porta
e o que importa
cale-se não
cale-se não
a voz que vaza
em todas casas
cale-se não
cale-se não
a voz que porta
tudo que importa
a voz da morta
cale-se não
cale-se não

Ronaldo Werneck
15 março 2018
                                              (Foto: brasil.estadao.com.br)

quarta-feira, 14 de março de 2018

Stephen Hawking (1942-2018)


     
                                                  (Imagem: pragmatismopolitico.com.br)


      Morreu esta manhã em Cambridge, onde morava, o cientista Stephen Hawking, aos 76 anos. Matemático, físico e especialista de renome em cosmologia, aos 21 anos foi diagnosticado portador de esclerose lateral amiotrófica, com estimava médica de que morreria em breve. A doença degenerativa não foi obstáculo a que prosseguisse em suas pesquisas, desse aulas e escrevesse quinze livros de divulgação científica. A imagem do pesquisador de ponta, recluso numa cadeira de roda, era conhecida e respeitada em todo o mundo. Ocupou a cadeira de Isaac Newton, como professor de matemática na Universidade de Cambridge ao longo de três décadas, de 1979 a 2009, comunicando-se, nos últimos anos, através de um sintetizador de voz.
      Casou duas vezes, a primeira vez com a professora Jane Hawking, que registrou em dois livros a vida com o cientista e lhe deu três filhos. Foi divulgada uma relação extra-conjugal da esposa, no entanto consentida. A segunda, com a enfermeira Elaine Mason, acusada de ter abusado o marido, que preferiu não apresentar queixa, reatando os laços com a mãe de seus filhos. Dentre os livros, destacam-se A estrutura em grande escala do espaço-tempo (1973), com George Ellis, Uma breve história do tempo (1988), cuja venda atingiu mais de dez milhões de exemplares, Buracos negros, universos bebês (1994), O universo numa casca de noz (2001).

domingo, 4 de março de 2018

Érico Veríssimo

Livro do mês: Solo de clarineta 2


      Durante os últimos dias, li Solo de clarineta 2, de Érico Veríssimo (1905-1975), signatário de uma das mais importantes sagas romanescas da literatura brasileira, O tempo e o vento. O volume, publicado um ano após a morte do autor, incorpora as memórias relativas às viagens, integrando as notas esparsas, encontradas nos esboços e últimos projetos, algumas escritas nos EUA e na Europa. Dito assim, dá uma impressão neutra e fria da densa atmosfera humana que perpassa a escrita deste livro. A viagem aos EUA deve-se ao desejo de conhecer os netos que ali nascem, da filha recém-casada com um judeu americano, moradora em Washington. A viagem à Península Ibérica recolhe provavelmente as impressões de outras viagens (uma patrocinada por editores) feitas à Europa: numa delas foi alvo de algumas homenagens, à medida em que se desloca no solo português. As impressões sobre a Espanha são fortemente marcadas pela busca das lembranças e lugares onde viveu o poeta Federico Garcia Lorca. Um breve capítulo, no final, apresenta uma rápida incursão à Holanda.

                                              (Imagem: gauchazh.clicrbs.com.br)

      Romancista consagrado, com uma notável sequência de sucessos literários – os romances urbanos (década de 30 e 40) e os romances históricos (anos 40 a 60), - em Solo de clarineta 2, o autor delineia os eventos que pontuaram a visita a algumas cidades portuguesas (Faro, Setúbal, Amarante, Barcelos, Lagos, Santarém, Vila Real, Évora, Lisboa, dentre outras), configurando o núcleo mais significativo da matéria, um apreciável roteiro cultural e turístico. Alguns fatores concorrem para o merecido e crescente rol de manifestações de apreço recebidas. Érico Veríssimo colhe os frutos de uma carreira de inegável consagração popular, acrescida pelo entusiasmo do embaixador brasileiro, e crítico literário de méritos, Álvaro Lins, que o recebe em salões lotados de grandes nomes da cultura lusa. Por trás da maratona de deslocamentos, noites de autógrafos, jantares e conferências, move-se, em surdina, um conflito entre um elenco de intelectuais e o poder salazarista, com lances de marketing dos dois lados, na disputa pelo patrocínio da presença do autor gaúcho em Portugal. O autor brasileiro procura evadir-se dos compromissos oficiais, mas nem sempre consegue se desvencilhar das benesses das instituições. Nesse ponto o leitor fica com um pé atrás. Por mais que afirme sua autonomia e defenda as liberdades individuais, não consegue livrar-se totalmente dos afagos emanados da sólida estrutura do poder ditatorial. Dirigido pelo editor português Souza Pinto, o BMW atravessa o mapa de Portugal, numa cronometrada viagem promocional, gozando de uma assessoria de alto nível por conta de Jorge de Sena. Érico Veríssimo sente-se à vontade no contato com populares que lhe solicitam autógrafos e fotos.

“Surgem duas mulheres com braçadas de flores para Mafalda. Quem serão? Alguém me sussurra ao ouvido que se trata da irmã e da sobrinha de Teixeira de Pascoais. Minha companheira recebe as flores, desce do carro. Fazemos o mesmo. Somos conduzidos a um prédio que minha memória não consegue identificar. Numa de suas salas vemos uma mesa com travessas cheias de doces, cálices e garrafas. Mafalda, Jorge e Luís Fernando provam dos doces, garantem-me que são excelentes. Souza Pinto acende seu cachimbo. Beberico um cálice de Porto. A irmã de Teixeira Pascoais está com os olhos cheios de lágrimas. O grande poeta e ensaísta português faleceu há uns sete anos. Souza Pinto olha o relógio-pulseira. Um cidadão de Amarante nos saúda com um discurso cheio de palavras generosas para com os apressados visitantes da noite. Ao agradecer a recepção, sinto-me no dever de falar sobre Teixeira de Pascoais, o que não me é nada fácil, pois embora eu saiba da grande importância desse escritor na literatura de língua portuguesa, não posso honestamente afirmar que lhe conheço a obra a fundo. Souza Pinto dá o sinal de partida. Para chegar até ao automóvel levo mais tempo do que esperava, pois no caminho sou interrompido várias vezes para autografar livros meus trazidos por alguns amarantinos. Distribuímos apertos de mão e abraços de despedidas. Se vamos voltar? Um dia… quem sabe? Entramos no veículo, que se põe em movimento. Volto a cabeça para trás. Várias pessoas nos acenam com lenços e mãos, do meio da rua. Amarante… Sei que esta é a cidade portuguesa onda na antiguidade viviam as mais ilustres famílias judias que a partir do século XIII foram forçadas a converter-se ao catolicismo para fugir às perseguições, às torturas e frequentemente à morte. Em sua maioria continuaram a praticar sua religião às escondidas. Eram conhecidos pelo nome depreciativo de marranos, isto é, porcos imundos. Esta cidade foi um dos maiores viveiros de ‘cristãos novos’ de Portugal” (VERÍSSIMO, 1986, 182).

      Como ocorre no território ficcional, o autor revela uma grande dose de compreensão do ser humano, de um intelectual disposto a compreender o mundo. “… em vez de estar descrevendo neste livro apenas meu encontro com a terra e a gente portuguesas, eu gostaria de poder também contar de como, com audácia e bravura, consegui sublevar algumas guarnições militares nacionais e a maioria do povo português contra o governo de Oliveira Salazar, derrubando-o e estabelecendo a democracia em Portugal” (VERÍSSIMO, 1986, 235). Mesmo em se tratando de uma escrita que, por natureza, muito releva da postura subjetiva, não são banidas as digressões irônicas, o apelo reformista e uma acesa consciência crítica:

“O perigo das memórias está no fato de que, com raras exceções, o memorialista, como a maioria dos outros homens, tem um grande apreço, amor e admiração pelo seu próprio eu: acha que tudo quanto lhe acontece é digno de ser contado, oralmente ou por escrito, em prosa ou verso, e que o leitor ou ouvinte tem de estar necessariamente muito interessado na vida do narrador – isto é, do herói, em tudo quanto ele viu, fez, pensou, disse, ouviu, sentiu… Nunca é tarde demais para uma confissão. Uma das razões que por muito tempo me impediram de escrever memórias foi o temor de resvalar para essa ridícula autovalorização. Estou certo de que ao escrever estas páginas não me livrei de todos os pecadilhos que mencionei” (VERÍSSIMO, 1986, 235).

VERÍSSIMO, Érico. Solo do clarineta 2. 7a. ed. Rio de Janeiro: Ed. Globo, 1986.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Ebooks Kindle

      Informo o lançamento recente, em plataforma de ebooks Kindle, de Suspiro seco, o mais novo romance de minha autoria. Disponível aqui.







segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Fernando Pessoa

Livro do mês: Livro do Desassossego


     A primeira observação a se propor sobre o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, advém de seu teor altamente poético. Desde as primeiras páginas, percebe-se a sua estreita relação com os poemas do autor, especialmente aqueles produzidos entre os anos de 1913 a 1917. Este foi o período mais produtivo de Fernando Pessoa, justamente quando foram elaboradas as correntes poéticas - paulismo, interseccionismo e sensacionismo, - e escritos os grandes poemas, “Ode Triunfal” (1914), “Ode Marítima” (1915), “Saudação a Walt Whitman” (1915), considerados o ponto alto no uso de recursos sensacionistas.


    Os poemas que se aproximam dos textos poéticos que integram o Livro do Desassossego relacionam-se à corrente do paulismo, caracterizando-se por explorar traços oriundos do Simbolismo, através de referências a uma atmosfera de sonho, marcada por vocábulos etéreos que revelam imagens estáticas e uma paisagem crepuscular. O poema “Impressões do Crepúsculo” constitui a mais típica experiência de poesia escrita nos moldes desta corrente, com o uso dos elementos característicos, ligados ao “vago, à sutileza e à complexidade”, de acordo com os postulados versados em artigos publicados então pelo jovem poeta na revista A Águia (1912). Vejamos uma parte do fragmento 78:

“Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.”

      Não há um enredo a emaranhar a teia de anotações avulsas, nem uma sequência de ações desenroladas no tempo. Os registros atendem antes a um desejo de compreender o sentido de alguma sensação, ou a ausência de sentido das coisas. Daí vem seu tom de radical e funda melancolia.

      Resulta de um projeto de toda uma vida, na medida em que integra escritos esparsos, anotações, divagações, reflexões, comentários sobre o cotidiano, a escrita, a passagem do tempo, um mosaico diversificado de espécies textuais. O que seria, a princípio, um exercício de prosa poética vincada de tiradas decadentistas, de títulos vagos e solenes (“Na Floresta do Alheamento”, “Maneira de bem sonhar”, “Conselhos às mal casadas”, “Marcha fúnebre para o Rei Segundo da Baviera”) evolui para ser a complexa criação em prosa, numa linguagem preciosa, de três heterônimos (Bernardo Soares, Vicente Guedes, um obscuro Barão de Teive). Algumas páginas teriam gênese num Diário de Vicente Guedes, embora, em sua totalidade, a autoria seja atribuída a Bernardo Soares, “ajudante de guarda-livros, na cidade de Lisboa”, o alter-ego de Fernando Pessoa funcionário em casas de comércio na “rua dos Douradores”.



PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Carlos Heitor Cony (1926 - 2018)

      Aos 91 anos, morreu no último dia 5, no Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. Estreou em 1958, com o romance O ventre, revelando marcas literárias de Sartre, seguido de dois títulos, A verdade de cada um e Tijolo de segurança, com os quais ganhou prêmio. Em 1961, deu a lume a novela Informação ao crucificado, a que se seguiram livros de crônica e de ficção, como Pessach - a travessia, (1967), um dos pontos altos de sua produção, em pleno governo militar, com uma proposta política ambígua, ao apresentar um protagonista que se revela, simultaneamente, participante e crítico de qualquer postura radical. A atividade de intelectual, sem medo de emitir opiniões sobre o contexto político, rende-lhe prisão na década de 60. Seguiram-se Pilatos (1973) e, duas décadas após, outro grande romance, Quase memória (1995), forte mergulho no passado familiar e do país, êxito de crítica e de público. Os anos seguintes forma bastante férteis,  dando sequência à análise dos valores, conflitos e decepções da classe média nas obras: O piano e a orquestra, A casa do poeta trágico, Romance sem palavras, (que retoma a temática de Pessach - a travessia),  A tarde de sua ausência. Recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996; em 1998, foi condecorado pelo governo francês. Era membro da ABL, desde 2000.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Wilmar Silva

Livro do mês:

YGUARANI

      Retorno à produção poética de Wilmar Silva, focando agora um livro múltiplo publicado no estrangeiro- Yguarani.  Wilmar Silva não é nenhum estreante na literatura. Sua estreia - um tanto longíngua, como co-autor, ao lado de Roberto Natalino - deve-se ao poema  Lágrimas & orgasmos (1986). Depois vieram alguns livros, como a estreia individual, Aguas selvagens  (1990), o belo e premiado Moinho de Flechas (1994), Çeiva (1997), o surpreendente Anu (2001), Arranjos de pássaros e flores (2002), Cachaprego (2004). Yguarani (2009) integra os quatro últimos livros referidos.


      Wilmar Silva sabe obviamente escrever segundo as normas linguísticos. Como poeta, cultiva a liberdade de escrever fora dos padrões normativos da língua. Desconstruir pode constituir um atalho. Assim, grava por vezes: "vozcábulo", "spingáridas", "armasdilha", "vacalumis", "piar de nhambu", "dencheteupeixecardumo", "pésgada", "latasdainhas","cavlaos selvagaens",  "maisrinbondos", sem o menor escrúpulo. Esquece de pontuar segundo a rigidez ortográfica. A grafia errada projeta a incorporação da linguagem caipira, deixando à flor dos versos o caráter tirânico da linguagem culta.
      Uma página, um poema de Anu:

      cabraéteucaisbeloervamart
      taquaradbambuémeuoboé
      dsioripeabóbardaberimbau
      qcontendaschuvanodeserto
      melditalagoartoheraosolm
      capivarávidapintabordias
      boiboletraqmeucãotoária

      Seja lá o que possa significar, o poeta inaugura uma nova prosódia. Na esteira de Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Pound. Recupera algumas expressões do meio rural - balaio, arapuca, parede de barauna, araticuns, taquara.  O que ressalta destes usos: a instantânea captação de sensações, a associação brusca de palavras, o impacto verbal diante da descoberta da natureza, o registro da arbitrariedade dos signos.   A leitura resulta, por sua vez, uma atividade lúdica, livre, sem opressões, cabendo ao agente (o leitor) a escolha do caminho, o acaso de compor a viagem que lhe aprouver. Ao driblar os ditames do signo, ratifica o uso do risco e do berro. Ao sugerir uma nova forma de leitura, ao afastar-se das convenções, lança a semente de uma nova poética. Ao desacralizar o poema, torce-lhe o pescoço, como insinuava Verlaine, na contramão de séculos de retórica e teoria literária. Ao propor uma nova grafia, sugere um novo sistema de ler, sugere um novo mundo. Uma nova forma de viver, conviver, relacionar, digerir as coisas, a necessidade urgente de descobrir o dia, o dia-a-dia, o cotidiano, de jogar-se na estrada, no rumo do sol.



SILVA, Wilmar. Yguarani. Maia (Portugal): Cosmorama, 2009.