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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Ebooks Kindle

      Informo o lançamento recente, em plataforma de ebooks Kindle, de Suspiro seco, o mais novo romance de minha autoria. Disponível aqui.







segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Fernando Pessoa

Livro do mês: Livro do Desassossego


     A primeira observação a se propor sobre o Livro do Desassossego, de Fernando Pessoa, advém de seu teor altamente poético. Desde as primeiras páginas, percebe-se a sua estreita relação com os poemas do autor, especialmente aqueles produzidos entre os anos de 1913 a 1917. Este foi o período mais produtivo de Fernando Pessoa, justamente quando foram elaboradas as correntes poéticas - paulismo, interseccionismo e sensacionismo, - e escritos os grandes poemas, “Ode Triunfal” (1914), “Ode Marítima” (1915), “Saudação a Walt Whitman” (1915), considerados o ponto alto no uso de recursos sensacionistas.


    Os poemas que se aproximam dos textos poéticos que integram o Livro do Desassossego relacionam-se à corrente do paulismo, caracterizando-se por explorar traços oriundos do Simbolismo, através de referências a uma atmosfera de sonho, marcada por vocábulos etéreos que revelam imagens estáticas e uma paisagem crepuscular. O poema “Impressões do Crepúsculo” constitui a mais típica experiência de poesia escrita nos moldes desta corrente, com o uso dos elementos característicos, ligados ao “vago, à sutileza e à complexidade”, de acordo com os postulados versados em artigos publicados então pelo jovem poeta na revista A Águia (1912). Vejamos uma parte do fragmento 78:

“Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser. Como se não tivéssemos dormido, sobrevive em nós qualquer coisa de sonho, e há um torpor do sol do dia a aquecer a superfície estagnada dos sentidos. É uma bebedeira de não ser nada, e a vontade é um balde despejado para o quintal por um movimento indolente do pé à passagem.”

      Não há um enredo a emaranhar a teia de anotações avulsas, nem uma sequência de ações desenroladas no tempo. Os registros atendem antes a um desejo de compreender o sentido de alguma sensação, ou a ausência de sentido das coisas. Daí vem seu tom de radical e funda melancolia.

      Resulta de um projeto de toda uma vida, na medida em que integra escritos esparsos, anotações, divagações, reflexões, comentários sobre o cotidiano, a escrita, a passagem do tempo, um mosaico diversificado de espécies textuais. O que seria, a princípio, um exercício de prosa poética vincada de tiradas decadentistas, de títulos vagos e solenes (“Na Floresta do Alheamento”, “Maneira de bem sonhar”, “Conselhos às mal casadas”, “Marcha fúnebre para o Rei Segundo da Baviera”) evolui para ser a complexa criação em prosa, numa linguagem preciosa, de três heterônimos (Bernardo Soares, Vicente Guedes, um obscuro Barão de Teive). Algumas páginas teriam gênese num Diário de Vicente Guedes, embora, em sua totalidade, a autoria seja atribuída a Bernardo Soares, “ajudante de guarda-livros, na cidade de Lisboa”, o alter-ego de Fernando Pessoa funcionário em casas de comércio na “rua dos Douradores”.



PESSOA, Fernando. Livro do Desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

domingo, 7 de janeiro de 2018

Carlos Heitor Cony (1926 - 2018)

      Aos 91 anos, morreu no último dia 5, no Rio de Janeiro, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony. Estreou em 1958, com o romance O ventre, revelando marcas literárias de Sartre, seguido de dois títulos, A verdade de cada um e Tijolo de segurança, com os quais ganhou prêmio. Em 1961, deu a lume a novela Informação ao crucificado, a que se seguiram livros de crônica e de ficção, como Pessach - a travessia, (1967), um dos pontos altos de sua produção, em pleno governo militar, com uma proposta política ambígua, ao apresentar um protagonista que se revela, simultaneamente, participante e crítico de qualquer postura radical. A atividade de intelectual, sem medo de emitir opiniões sobre o contexto político, rende-lhe prisão na década de 60. Seguiram-se Pilatos (1973) e, duas décadas após, outro grande romance, Quase memória (1995), forte mergulho no passado familiar e do país, êxito de crítica e de público. Os anos seguintes forma bastante férteis,  dando sequência à análise dos valores, conflitos e decepções da classe média nas obras: O piano e a orquestra, A casa do poeta trágico, Romance sem palavras, (que retoma a temática de Pessach - a travessia),  A tarde de sua ausência. Recebeu o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996; em 1998, foi condecorado pelo governo francês. Era membro da ABL, desde 2000.


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Wilmar Silva

Livro do mês:

YGUARANI

      Retorno à produção poética de Wilmar Silva, focando agora um livro múltiplo publicado no estrangeiro- Yguarani.  Wilmar Silva não é nenhum estreante na literatura. Sua estreia - um tanto longíngua, como co-autor, ao lado de Roberto Natalino - deve-se ao poema  Lágrimas & orgasmos (1986). Depois vieram alguns livros, como a estreia individual, Aguas selvagens  (1990), o belo e premiado Moinho de Flechas (1994), Çeiva (1997), o surpreendente Anu (2001), Arranjos de pássaros e flores (2002), Cachaprego (2004). Yguarani (2009) integra os quatro últimos livros referidos.


      Wilmar Silva sabe obviamente escrever segundo as normas linguísticos. Como poeta, cultiva a liberdade de escrever fora dos padrões normativos da língua. Desconstruir pode constituir um atalho. Assim, grava por vezes: "vozcábulo", "spingáridas", "armasdilha", "vacalumis", "piar de nhambu", "dencheteupeixecardumo", "pésgada", "latasdainhas","cavlaos selvagaens",  "maisrinbondos", sem o menor escrúpulo. Esquece de pontuar segundo a rigidez ortográfica. A grafia errada projeta a incorporação da linguagem caipira, deixando à flor dos versos o caráter tirânico da linguagem culta.
      Uma página, um poema de Anu:

      cabraéteucaisbeloervamart
      taquaradbambuémeuoboé
      dsioripeabóbardaberimbau
      qcontendaschuvanodeserto
      melditalagoartoheraosolm
      capivarávidapintabordias
      boiboletraqmeucãotoária

      Seja lá o que possa significar, o poeta inaugura uma nova prosódia. Na esteira de Rimbaud, Verlaine, Baudelaire, Pound. Recupera algumas expressões do meio rural - balaio, arapuca, parede de barauna, araticuns, taquara.  O que ressalta destes usos: a instantânea captação de sensações, a associação brusca de palavras, o impacto verbal diante da descoberta da natureza, o registro da arbitrariedade dos signos.   A leitura resulta, por sua vez, uma atividade lúdica, livre, sem opressões, cabendo ao agente (o leitor) a escolha do caminho, o acaso de compor a viagem que lhe aprouver. Ao driblar os ditames do signo, ratifica o uso do risco e do berro. Ao sugerir uma nova forma de leitura, ao afastar-se das convenções, lança a semente de uma nova poética. Ao desacralizar o poema, torce-lhe o pescoço, como insinuava Verlaine, na contramão de séculos de retórica e teoria literária. Ao propor uma nova grafia, sugere um novo sistema de ler, sugere um novo mundo. Uma nova forma de viver, conviver, relacionar, digerir as coisas, a necessidade urgente de descobrir o dia, o dia-a-dia, o cotidiano, de jogar-se na estrada, no rumo do sol.



SILVA, Wilmar. Yguarani. Maia (Portugal): Cosmorama, 2009.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Belo Horizonte

      Em homenagem aos 120 anos de Belo Horizonte, que hoje se comemoram, transcrevo página do romance Outono atordoado, alusiva à cidade. Clique.




sábado, 9 de dezembro de 2017

Joaquim Manuel Magalhães

Livro do mês:     

      Joaquim Manuel Magalhães (Consequência do lugar é de 1974) está ligado à geração poética surgida em Portugal nos anos 70 e aos jovens que em 1976 lançaram Cartucho – Antônio Franco Alexandre, Helder Moura Pereira, João Miguel Fernandes Jorge. Esta experiência coletiva assinala um aspecto básico para a compreensão de sua poesia, a companhia de outros, a elaboração criativa a partir da leitura de outros autores. A dimensão de poeta crítico pode ser delineada através do percurso que vai de Os dois crepúsculos (1981) a Dylan Thomas (1982), de Um pouco da morte (1989) a Rima pobre (1999). A poesia de Cartucho (poemas amassados, à semelhança de bombons) mostra-se particularmente voltada para a reabilitação da subjetividade e a expressão do desejo. De acordo com sua formulação, a geração dos anos 70 assume “um discurso cuja tensão é menos verbal do que explicitamente emocional” (Magalhães, 1981, 258).



      Seu poema subentende a marca cética da linguagem: ainda quando emerge de sentidos localizáveis, recusa quaisquer certezas ou paraísos e sobrevive, sempre, no limiar da dúvida: “Não és real, eu não existo./ Raízes desertas do auriga.” (Magalhães, 1990, 14) Construída nas bordas (e nas dobras) da realidade, transfere para a espessura da linguagem a respiração vertiginosa da paisagem urbana:

         (…) Uma vez
         saí da cidade para a aldeia costeira.
         Cantavam. Perguntou
         o que era o jantar, apanhou canas,
         com um golpe de rins soltou um ramo
         da macieira. A lua recebe a luz
         do seu corpo deitado. (Magalhães, 1990, 31)

      O cenário físico, com suas conotações específicas de luminosidade, configura um recorte luminoso da experiência, estabelecendo uma irradiação entre a natureza e o sujeito nela inserto:

         Os rilheiros dos cereais em rama
         e os almenares de palha erguiam-se
         na eira bem lavrada de travessia e de forcão.
         Os melros entoam um canto de companhia
         fugitivo, metálico sobre nós os dois. (Magalhães, 1990, 48)

      O poeta cria um simulacro da realidade, dela lhe chegam vestígios indecisos que apontam para uma das funções da poesia: transfigurar o real ou transformá-lo em antídoto:

         Detesto a poesia. Essa tarefa
         debruada de troca social. (“Transvasamento”)

      Detestar a poesia por sabê-la espaço de transferência das utopias? A única provável permanência? O terreno minado onde pulsam as ilusões da representação? Um forma de diálogo impossível, uma vez que sempre escapa alguma coisa na depuração da linguagem: do um apenas com todos os outros?
      Não confundir com o livro de título semelhante, Um toldo vermelho, de 2010, no qual o autor, infelizmente, procedeu a uma alteração radical e devastadora à totalidade de sua produção poética.


MAGALHÃES, Joaquim Manuel. Uma luz com toldo vermelho. Lisboa: Presença, 1990.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

As querelas do Prêmio Oceanos 2017

      Divulgada a lista dos premiados em 2017 no Prêmio Oceanos, Maria Teresa Horta, premiada ex-aequo em quarto lugar, expôs sua recusa ao mesmo. Importantes autores portugueses têm-lhe endossado apoio, por considerarem falta de respeito ou "humilhação" um quarto lugar, dividido com outro escritor. Em verdade, Maria Teresa Horta, desde a década de 1960, vem produzindo uma obra de excepcional qualidade na poesia portuguesa contemporânea. Mas não se trata do Prêmio Camões, honraria que contempla a totalidade da obra, pode-se argumentar. Mesmo assim, a romancista Inês Pedrosa, no blog Delito de opinião, observou: "Não achavam Anunciações - a obra em causa neste prémio - digna do Prémio? Não a premiassem, e assumissem essa decisão. Dar-lhe um rebuçadinho para dividir com outro menino é que não é coisa que se faça a uma autora que, desde 1960, quando publicou a colectânea de poemas Espelho inicial, até hoje, construiu uma obra ímpar, com mais de 40 livros publicados". Contam-se, dentre outros, títulos da consistência de Tatuagem (1961), poemas incluídos na publicação coletiva Poesia 61, Amor habitado (1963),  Minha senhora de mim (1967), as ficções Ambas as mãos sobre o corpo (1970), As luzes de Leonor (2011). Sem esquecer a coautoria de Novas cartas portuguesas (1971), juntamente com Maria Velho da Costa e Maria Isabel Barreno, obra considerada transgressora pela censura salazarista, submetida a ruidoso processo policial, de amplas repercussões.
      O menino referido, o escritor brasileiro Bernardo Carvalho, tem 57 anos e 11 romances, alguns publicados em Portugal: foi justamente o primeiro vencedor do Prêmio Portugal Telecom, origem do atual Prêmio Oceanos, em 2003, com o romance Nove noites. Com o impasse, Selma Caetano, curadora do Oceanos, afirmou que o prêmio relativo ao quarto lugar será integralmente destinado a Bernardo Carvalho. Integraram o Júri seis intelectuais  e editores brasileiros, Beatriz Resende, Mirna Queiroz, Heloísa Jahn, Maria Esther Maciel, Everardo Norões e Eucanaã Ferraz, além do português Antônio Guerreiro e a luso-angolana Ana Mafalda Leite.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Prêmio Oceanos 2017

      Foram anunciados ontem, no Instituto Itaú, em São Paulo, os vencedores do Prêmio Oceanos de Literatura de 2017. A premiação passou a levar este nome em 2015, após mais de uma década ser conhecida como Prêmio Portugal Telecom. Concorrem as obras lançadas em língua portuguesa no ano anterior; neste ano os finalistas somaram 51 títulos (31 brasileiros, 19 portugueses, um angolano).
      A grande vencedora deste ano é a portuguesa Ana Teresa Pereira, com o romance Karen (Relógio D'água). Colecionadora de troféus, com mais de duas dezenas de títulos publicados, surgiu como escritora em 1989, ganhando o Prêmio Caminho de Literatura Policial, com Matar a imagem; em 2005, sua obra Se nos encontrarmos de novo foi considerada a melhor ficção do ano pelo PEN Clube Português e, em 2007, seu romance A neve faturou o Prêmio Máxima de Literatura.

                                                         (Foto: dnotícias.pt)

      Silviano Santiago, outro colecionador de distinções, ficou em segundo lugar, com Machado (Cia. das Letras), título também ganhador do Jabuti deste ano. Com o romance Mil rosas roubadas, o autor mineiro foi o vencedor da primeira edição do Oceanos, em 2015.
      O terceiro lugar coube a Helder Moura Pereira, com o livro de poemas Golpe de teatro (Assírio & Alvim), que recebeu em abril o Grande Prêmio de Poesia da APE (Associação Portuguesa de Escritores). Autor de títulos marcantes da poesia portuguesa contemporânea (como Sedução pelo inimigo, Carta de rumos, Um raio de sol, Mútuo consentimento,  Lágrima),  Helder M. Pereira, como os outros portugueses premiados, inédito no Brasil, vem sendo, enfim, justamente reconhecido. Ao lado de mais três poetas (Antônio Franco Alexandre, João Miguel Fernandes Jorge e Joaquim Manuel Magalhães), Pereira  participou do histórico Cartucho, (Lisboa, 1976), objeto de análise em minha tese de doutorado, defendida em 1997 na UFRJ, publicada depois, sob o título de Portugal, poetas do fim do milênio (Rio de Janeiro: Sette Letras, 1999).
      No quarto lugar, ficaram empatados dois livros: Anunciações, da poeta portuguesa Maria Teresa Horta, e Simpatia pelo demônio, do brasileiro Bernardo Carvalho.
      Os vencedores recebem quantia em dinheiro: R$100 mil para o primeiro colocado, R$60 mil para o segundo; R$40 mil para o terceiro; R$30 mil divididos entre os dois classificados em quarto lugar.


quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Frans Krajcberg (1921-2017)

      Aos 96 anos, morreu ontem, no Rio de Janeiro, Frans Krajcberg, artista plástico de grande projeção internacional, conhecido pelos trabalhos feitos em madeira calcinada de incêndios florestais. Nascido na Polônia, morou na Rússia, onde estudou engenharia e artes, e na Alemanha, tendo perdido os familiares em campo de concentração nazista. Em 1948, chegou ao Brasil, naturalizando-se brasileiro em 1957. Apaixonado pelo país, fixou-se inicialmente no Paraná, depois na Bahia, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Artista múltiplo, escultor, pintor, fotógrafo, gravurista, atuou no território limítrofe entre a arte e a militância ecológica. Sua obra em geral caracteriza-se por intervenções em troncos e raízes, considerados como objetos visuais de forte impacto espacial.

                                   
                                                  (Imagem: conexão planeta.com.br)

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Nélida Piñon

      Livro do mês




      Compete às sagas serem portadoras dos valores e apreensões do contexto em que foram escritas. No caso de A república dos sonhos, depara-se o leitor com uma visão de mundo esfacelada pelo arbítrio de uma ditadura, a um tempo impiedosa diante da corrupção e dos movimentos libertários. O Brasil, como república de sonhos, expõe-se como território recetivo aos imigrantes, ao mesmo tempo em que se busca reescrever seu fantasioso passado de impunidade, de prodigalidade inquieta, fonte de oportunidades e expectativa de desenvolvimento. O mito da terra provedora, de riquezas inesgotáveis, perpassa ao longo dos capítulos da trama: “Era hora de voltar a escavar as terras brasileiras, em busca de tesouros. Sempre teve certeza de encontrá-los” (PIÑON, 2015,126).


      A paisagem ensolarada de Galícia paira sobre as personagens que de lá saíram, na ilusão de se enriquecerem numa América coroada de fartura e extravagância. Em polos opostos, movimentam-se os protagonistas Madruga e Venâncio. Em Madruga presenciamos a sedução pela aventura numa América construída em sonhos, cultivados por uma desenfreada ambição: “De resto, sou ainda um estrangeiro nesta terra, sob permanente suspeita. Meu único sonho é conquistar o Brasil” (PIÑON, 2015,168). O apelo da aventura, envolta nas asas da cobiça, norteia os seus movimentos, ao se deparar com as oportunidades de trabalho e riqueza.
      Viver no Brasil para Venâncio só se justifica se puder projetar nos elementos naturais a lembrança comovida de sua terra distante: “Quantas vezes, desta varanda do Leblon, poderiam eles, em seguidos exercícios de imaginação, alcançar a Galícia em rápidas braçadas, levados apenas pelos alísios, favoráveis à navegação” (PIÑON, 2015,301). Galego aqui exilado, europeu que se deixa aos poucos e com dificuldade contaminar pela cultura tropical, compõe um diário, importante documento de interpretação de hábitos e costumes brasileiros: “Ninguém aqui se isenta facilmente dos apelos sexuais. Eles ganham forma pela manhã, sem hora de se esgotar” (PIÑON, 2015,390). O lento e gradativo processo que encaminha Venâncio à loucura produz devastadora destruição no ânimo de Madruga, o antigo amigo de todos os dias. “Os motivos que atraíram Venâncio à América divergiam frontalmente dos seus. Ele não viera de tão longe para esburacar a terra pelas manhãs, criando bolhas e feridas pelo corpo, em busca de um tesouro. O único tesouro de Venâncio consistia em preservar o direito ao sonho” (PIÑON, 2015,252).
      A produção de um romance vigilante em relação ao tempo de sua escrita – e numa dimensão grandiosa – acarreta alguns ajustes de contas ao autor. Um deles, inarredável, diz respeito à aceitação resignada da impotência de sua geração diante da avassaladora opressão instalada pelo estado autoritário. Vários blocos narrativos alternam-se, sem que a linguagem tendente ao poético e às digressões reflexivas se modifique. Projeto arrojado, complexo, realizado numa extraordinária combinação de sabedoria e excepcional domínio de recursos.
      A lenta e extenuante agonia de Eulália atravessa todo o relato que se alastra esmiuçando as escaramuças familiares, a agrura de viver num espaço a princípio inóspito e os expedientes adotados pelos imigrantes no esforço de adaptação à nova terra. Personagens reais misturam-se aos fictícios, com os quais se moldam harmoniosamente, como os botões novos ocupam o lugar antes ocupado por outros que se perderam. Santiago Dantas, Manuel Bandeira, Getúlio Vargas ocupam algumas páginas com sua aura histórica polida, sem influenciar a sequência da trama, convocados a compor um canto da moldura de um quadro previamente esboçado. Ao narrador multifacetado não escapam as sutilezas dos pequenos gestos, nem a desmedida das grandes empreitadas.







PIÑON, Nélida. A república dos sonhos. Rio de Janeiro: Record, 2015. (Edição comemorativa dos 30 anos)