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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Herberto Hélder

Livro do mês: Poesia toda

      Os grandes livros de poemas não são lidos de uma assentada. Vão sendo lidos aos poucos, de vagar, como devem ser. A eles voltamos com frequência e muito gosto. Com Poesia toda, de Herberto Hélder (1930-2015), não foi diferente. Sempre que me via carente de bons poemas, voltava ao tijolão de 575 páginas. O que se seguia eram instantes de puro encantamento e renovado prazer.
      Herberto Hélder, possuidor de uma escrita exuberante e hermética, volta-se para o resgate de energias arquetípicas em A colher na boca (1961), A máquina lírica (1964), O bebedor noturno (1968), Cobra (1977), A cabeça entre as mãos (1982). Segundo Natália Correia, “A poesia de Herberto Hélder, sempre obsessiva, reflete como que um imenso orgasmo sem fim. Nela, a mulher – o gênero, mais que o amor individualizado – é a musa universal, receptáculo dos seus excessos e do êxtase que o projeta numa insaciável tensão. Daí, a corrosão de um erotismo que nele é visceral, orgiástico, e que mais não cessa, qual canto cósmico da atitude de amar e da presença matriarcal” (CORREIA, 1999, 455).


      A expressão dessa voz lírica arrojada, de um fôlego desmedido, vem desde o primeiro livro revelando-se dotada de uma dimensão mágica e cosmológica, nomeando e exaltando o corpo feminino como força aglutinadora de energias universais:

      “Dai-me uma jovem mulher, com sua harpa de sombra
      e seu arbusto de sangue. Com ela
      encantarei a noite.
      Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
      Seus ombros beijarei, a pedra pequena
      do sorriso de um momento.
      Mulher quase incriada, mas com a gravidade
      de dois seios, com o peso lúbrico e triste
      da boca. Seus ombros beijarei.

      Cantar? Longamente cantar.
      Uma mulher com quem beber e morrer.
      Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
      o atravessar trespassada por um grito marítimo
      e o pão for invadido pelas ondas -
      seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
      Ele – imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
      de alegria e de impudor.
      Seu corpo arderá para mim
      sobre um lençol mordido por flores com água.

      Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
      E enquanto ao dorso imagina, sob os dedos,
      os bordões da melodia,
      a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
      desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
      - Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
      as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
      mulher de pés no branco, transportadora
      da morte e da alegria.

       Dai-me uma mulher tão nova como a resina
      e o cheiro da terra.
      Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
      E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
      cantarei seu sorriso ardendo,
      suas mamas de pura substância,
      a curva quente dos cabelos.
      Beberei sua boca, para depois cantar a morte
      e a alegria da morte”.
      (…)
      (HÉLDER, 1990, 18-19)

      O efeito em mim produzido pela poesia de Herberto Hélder corresponde antes a um mergulho num discurso matizado de efeitos fantásticos e cognitivos, mais do que uma passiva fruição de uma delirante montagem de imagens. Percebi nos seus poemas uma recolha de associações oníricas, mais do que um inventário de práticas poéticas cristalizadas. Uma inusitada capacidade de dizer coisas simples e belas, ao mesmo tempo, algo como -

      “Somente o mundo é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
            aos laços
            das constelações. (…)
      Porque o corpo é uma gruta de onda saltam
      os sóis, uma insónia que liga
            o dia ao dia,
      pelos jardins trespassando os estúdios
      ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
            astros brancos”.
      (HÉLDER, 1990, 376)

      “E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
      cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
            às janelas
      as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
            do espelho de onde salta
      uma braçada de luz. Cada lenço que ata
            a própria seda do lenço
      o desata”.
      (HÉLDER, 1990, 364)

      Como se a leitura só pudesse alcançar sua efetiva evolução se nos despíssemos, nos desnudássemos forçosamente do arcabouço lógico. Então era aceitar o desafio: enveredar sem freios numa desordenada aventura verbal, executada com pleno domínio de ritmo, sem desvios sintáticos e sobressaltos sentimentais. A leitura de Herberto Hélder demanda um ajuste no sentido de codificar um discurso de exaltada espessura subjetiva e alargada densidade emotiva. Até 2015, era considerado o maior poeta português vivo, com todo o merecimento.


CORREIA, Natália. Antologia de poesia portuguesa erótica e satírica. 3a. ed. Lisboa: Antígona & Frenesi, 1999.
HÉLDER, Herberto. Poesia toda. Lisboa: Assírio & Alvim, 1990.
PEREIRA, Edgard; OLIVEIRA, Paulo Motta; OLIVEIRA, Silvana M. Pessôa de. Intersecções – ensaios de literatura portuguesa. Campinas: Komedi, 2002.



sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Os cadernos culturais

Os (cada vez mais) precários cadernos de cultura


      A convivência com escritores, de alguns anos para cá, serviu para fundamentar informações que envolvem alguns aspectos ligados à imprensa escrita. Reclamam, os escritores em geral, e só por eles posso falar, que cada vez mais se deteriora a cobertura por parte da imprensa a eventos na área literária. O silêncio, a falta de eco nos ditos cadernos específicos, de notas e informações sobre o cenário cultural (eventos, lançamentos, exposições), pode estar ligado a vários fatores. Em alguns casos, de pessoas que mantêm presença nas redes sociais, através de blogs, nos quais expõem opiniões e posturas, a falta de eco tem lá razões de ordem política, ou ideológica. A cor dos olhos é um argumento pequeno para motivar posicionamento de natureza social.

                                                       (Imagem:jws.com.br)

      Se o enunciador não se exime de fazer comentários não alinhados com as expectativas de determinado grupo, pode tornar-se alvo de críticas negativas oriundas desse grupo. Como vivemos uma época de adesões e rejeições que sempre possuem desdobramentos partidários ou políticos, aí o caldo engrossa de vez. Qualquer indício de apoio ou simpatia por ideias ou crenças será lido de forma inflamada pelo grupo que se alinha no lado oposto. Na realidade brasileira contemporânea, os cadernos culturais são remanescentes de um jornalismo de rosto socialista, refratário às críticas direcionadas aos descaminhos recentes da política de esquerda nos últimos treze anos de governo petista. O que se observa é um jornalismo de raso lastro intelectual, de espessura medíocre, que não suporta análises matizadas de maior envergadura e consistência hermenêutica. Nas configurações mais comuns e espalhadas, são redutos adestrados pela narrativa de que houve golpe com o impeachment da presidente afastada. No caso da literatura, área já solapada pelos ditos estudos culturais dos anos recentes, alijada da cobertura jornalística, o estrago pela não divulgação de eventos é maior. Quem fica prejudicada é a sociedade, atulhada de fofocas e pitis de famosos, desprovida de um canal eficiente e imparcial de informação e serviço.    

sábado, 30 de setembro de 2017

Edgard Pereira

Livro do mês:

Dias portugueses e outros

      O gênero diário tem uma pegada no cotidiano, no ritmo vertiginoso dos acontecimentos. Há diversos perfis de diário, desde aqueles diários meio clandestinos, escrita secreta em que se registram os segredos íntimos, que em geral ficam escondidos e não são destinados à publicação. 


      Dias portugueses e outros é um livro que não se enquadra nesse perfil de diário íntimo. De natureza mais aberta, engloba, além de eventos pessoais e familiares, ocorrências ligadas ao contexto mais amplo da sociedade. Simultaneamente escrita de si, de eventos que reverberam na subjetividade e de ocorrências sociais, ainda que filtradas pelo sujeito que as anota, as páginas resultantes constituem uma tentativa de compreensão da realidade. O esforço de representação da realidade, afastando-se da camada superficial da espuma dos dias, que é matéria jornalística, pretende elevar-se a uma dimensão reflexiva. Diante de múltiplos sinais e acontecimentos, o escritor posiciona-se buscando novos sentidos para interpretar os fatos.
      Edgard Pereira, nascido em Minas Gerais em 1948, estreou como ficcionista em 1976, com o livro de contos Violeta Trindade, ao qual sucederam O lobo do cerrado (1996) e o romance Outono atordoado (premiado pela Xerox do Brasil em 2001). Professor aposentado de literatura portuguesa da UFMG, doutor em Letras pela UFRJ, de sua produção como crítico literário e ensaísta constam os títulos Portugal, poetas do fim do milênio (1999), Mosaico insólito (2006) e Arquivo e rota das sombras, edição portuguesa de 2014.


PEREIRA, Edgard. Dias portugueses e outros. Belo Horizonte: Suspiros PS, 2017.


sábado, 26 de agosto de 2017

Evaldo Balbino

     

Livro do mês:

      A poesia de Evaldo Balbino, estampada no livro Moinho, transita, hábil, por sólidos e tradicionais veios, como as trilhas aladas de Cecília Meireles: “Escrevo porque o tempo insiste / e a minha vida está incompleta”. O próprio título acolhe uma dimensão circular, de uma operação que se repete no tempo, afeita a triturar grãos. O forte simbolismo da preparação do alimento enriquece o ofício, concebido como aprendizagem e partilha de conhecimento. Recupera por vezes o estatuto primitivo do vate, de procedência ancestral, o bardo arrebatado, posto em delírio: “Minha alma é secular / como o meu corpo. / Quer copular antes da morte / que os come” (“Um modo”).


      Pulsando em rotas contraditórias, inerentes à contingência existencial, o poeta faz emergir, simultânea à aferição da implacável condição humana fadada ao sofrimento, o reiterado apelo à fruição - “Vivamos, / mesmo que os moinhos estejam mortos / e o que se trituram/ são apenas sonhos” (“Clareira”). O sujeito poético, impulsionado pelo labor de escolher e misturar palavras, equilibra-se, exposto às intempéries, entre o rigor e a impassibilidade da pedra e a leveza do ar: “Escrevamos / um moinho de pedra / incorruptível”. Escrever impõe-se como atividade fundamental, exercida sob “o nervoso atrito de meus dedos”, incapaz de eliminar o sentido da urgência: “dia após dia eu não tenho / nada mais que palavras se ofertando / ao sustento infindável dos meus sonhos” (“Entre duas margens”).



BALBINO, Evaldo. Moinho. Belo Horizonte: Scriptum livros, 2006.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Novo livro

      Saindo do prelo, um mergulho no passado recente,
Dias portugueses e outros. Aguarde.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

Em louvor da cachaça


      A aguardente produzida com a cana-de-açúcar, vulgarmente conhecida como cachaça, cana ou pinga, é uma bebida bastante popular no Brasil. Com cachaça e limão, prepara-se a famosa caipirinha, coquetel fartamente celebrado. A cachaça também inspira poetas, como se observa nas quadras de Paschoal Motta e Hélio Petrus, em duelo poético.





BEBA, HÉLIO, A SUA ARCANA;
VOU DE SUPER DUBARROSO,
ESTA DA MAIS PURA CANA,
ME TORNA SEMPRE GARBOSO.
 
VALE A VIDA COM ALEGRIA,
NA PINGA DE PREFERÊNCIA,
SAUDÁVEL, SEM ALERGIA,
POR TODA MINHA EXISTÊNCIA.
 
... Aí:
 
HP, de pronto, joga verde com propostas sutis, numa manha:
 
    FAÇAMOS, ANTES, UM PACTO:
    SÓ DIZER O VERDADEIRO;
    NÃO VALE CAIR NO MATO
    E ESCORREGAR DO POLEIRO...

    SOU JUSTO EM MINHAS RAZÕES,
    DESDE PEQUENO EU BENDIGO:
    NUNCA TOMEI BELISCÕES
    ABAIXO DO MEU UMBIGO...
 
    SE ALGUMA MENTIRA DIZ,
    PEÇA PRIMEIRO LICENÇA:
    VOU CONSULTAR O JUIZ
    PRA VER SE EXISTE CLEMÊNCIA.
 
COM POUCOS VERSOS DERRUBO
ESSA LOQUAZ PRETENSÃO:
ARCANA NÃO É DO VULGO,
É CANA DE SELEÇÃO.
        
PM apela e recorda seu etéreo protetor etílico:      
 
 BACO PASSOU POR SÃO PEDRO
 ESPALHANDO A SUA GRAÇA,
 OS PURIS NO MATO TREDO
 SE ACALMARAM C’A CACHAÇA.

 COMO FOSSE NUM NIRVANA,
 OS ÍNDIOS VIVIAM AO LÉU,
 PLANTARAM ROÇAS DE CANA,
 PRA DUBARROSO DO CÉU...

 BACO ACERTOU A RECEITA
 PARA A ALEGRIA FUTURA,
 A PINGA ESPANTOU A MALEITA;
 E HOJE ARCANA QUEM ATURA?

 SÓ UM INCRÉU D’ARCANA INGERE
 UMA GOTA E MAIS NADA;
 DUBARROSO QUEM PREFERE
 TEM A FÉ RECUPERADA...
HP rebate com ameaça de seus protetores num juízo final:

TODO O JUIZ IRMANA
NUM JUÍZO PAVOROSO:
AOS BONS ELE DARÁ ARCANA;
AOS INFIÉIS, DUBARROSO.

ORDENARÁ A SEUS ANJOS
A SEPARAÇÃO ARCANA:
FAZENDO LINDOS ARRANJOS
À DIREITA, COM ARCANA.

DESPEJARÁ TODA IRA
DO SEU TRONO MAJESTOSO,
QUEIMANDO EM CELESTE PIRA
A INFERNAL DUBARROSO:
 
O POVO INGRATO E MALDOSO,
DE CAIM, RAÇA ESQUISITA,
ADORAVA DUBARROSO,
E EM JAVÉ NÃO ACREDITA!







sábado, 15 de julho de 2017

Miguel Torga

      O autor português Miguel Torga (1907-1995), pseudônimo de Adolfo Correia da Rocha, produziu obras literárias na área da ficção, da poesia, do teatro e do memorialismo. Na juventude, passou uma temporada de cinco anos no Brasil, mais precisamente na região de Leopoldina, Minas Gerais, em fazenda de um tio, tendo frequentado o Ginásio Leopoldinense. Sobre a permanência de Torga em solo brasileiro, registre-se o trabalho exemplar de Pedro Rogério Couto Moreira, desenvolvido a partir da leitura de páginas do Diário, do autor português e de pesquisas de campo - Geografia sentimental de Miguel Torga em Minas (Brasília, Thesaurus, 2016).

                            (Foto: formatura no curso de medicina, espacomigueltorga.pt)

"Coimbra, 25 de maio de 1949. O Marquês de Sade. Um calafrio que só as leituras proibidas dão. A gente volta cada página arrepiado, com a sensação de que está a meter a alma no Inferno. E é essa inquietação que todos os livros deviam provocar. (...) O homem necessita do pecado para viver, como de especiarias para comer. Julgo mesmo que o futuro se esforçará por contrariar cada vez mais a sonolência beócia das páginas cor-de-rosa.

Vila Nova, 3 de Dezembro de 1935 — Morreu Fernando Pessoa. Mal acabei de ler a notícia no jornal, fechei a porta do consultório e meti-me pelos montes a cabo. Fui chorar com os pinheiros e com as fragas a morte do nosso maior poeta de hoje, que Portugal viu passar num caixão para a eternidade sem ao menos perguntar quem era".


Do Diário V.


quarta-feira, 5 de julho de 2017

Adélia Prado

Livro do mês:        


          Adélia Prado logra executar, em Os componentes da banda, uma partitura narrativa desfibrada, sem músculos. Fruto de uma arejada conceção do que seja uma novela, ou um concerto verbal de feição aglutinadora, a obra acolhe breves relatos, receitas domésticas, reflexões intempestivas, pensamentos aleatórios, esboços de poemas, lembranças do passado, registros diários e devaneios de uma anódina rotina doméstica. A narradora não faz segredos de seu estatuto de dona de casa, em segundo casamento, envolvida em tarefas corriqueiras, pequenos compromissos, eventos banais, efemérides citadinas e familiares. Na verdade, uma dublê de dona de casa e professora: “Em plena aula a cantineira abre a porta, sem bater: ‘ponho o que pra senhora hoje? Tem empada e biscoito frito.’ Sinto tanta vergonha que não tenho coragem de escolher. Põe qualquer coisa, falo depressa, pros meninos se esquecerem de que eu posso escolher entre empada e biscoito frito” (PRADO, 1985, 22). Sem esquecer as impressões fugidias sobre uma ou outra palavra – como “soturno”, a preferida do pai, ou “pudera”, considerada a mais bela palavra pela mãe. Prefere ser conhecida por compositora, não como escritora. Rodeada de frades solícitos, comadres espevitadas, amigas desconfiadas e parentes pernósticos, a narradora irascível se deixa contaminar pela poeta, religiosa e onipresente.



          “Não pinto o cabelo, os fios brancos têm excelente brilho, Deus me quer tão bem, as pessoas pensam que pinto as mechas esmeradamente. Penso em fazer balé, pra dar boa diligência aos gestos. Como se movem lindo os bailarinos. Senti uma sensação esquisita, a mocinha me elogiou: ‘que pés lindos!’ Papai tinha pés inacreditáveis, era bom ver ele descalço, pés para amoroso trabalho de estátua. Nunca soube. Fora melhor também eu não saber. Mãos não tenho bonitas, só quem acha é Pedro que se ri apenas de minhas orelhas” (PRADO, 1985, 78-79).

          Não há um enredo decisivo, uma ossatura de fatos encadeados logicamente. Mas os fatos narrados têm uma graça pitoresca, provocam um interesse dobrado em quem deles se aproxima, seduzido por uma descrição ingênua, uma situação simultaneamente grotesca e engraçada, o coloquial tosco. Sucedem-se, sem encadeamento rigoroso e uma fixação sólida em algum contexto, notações e comentários avulsos sobre eventos rarefeitos: um casamento na roça, um aniversário de criança, uma novena ensaiada. O que salva toda essa barafunda de intriga esgarçada é uma postura descontraída diante da linguagem, como se a cada linha a narradora se revelasse encantada pelo poder mágico das palavras. “Não sou carioca, por isso não uso verão, uso tempo de calor, quando a gente fazíamos piquenique na cachoeira do rio Lambari. Eu era má, eu já fui bem mazinha, quando comprava um queijo, era só pra mim. As mulheres na feira têm ancas de surrar marido, que belo manto adiposo, verdadeiras rainhas” (PRADO, 1985, 154).
          Por vezes o relato beira o universo infantil por ser poético, ou seria o contrário? A mistura de lucidez e sutileza, de lirismo e objetividade, com uma deliberada tentativa de embaralhar o universo referencial, culmina num mergulho desordenado no fluxo de consciência que só consegue pausa e respiração num apelo místico, cessado apenas com um ponto final.


PRADO, Adélia. Os componentes da banda. Rio de Janeiro: Guanabara, 1985. 

terça-feira, 6 de junho de 2017

Josué Montello

Livro do mês: Cais da sagração


      Retorna este título à rubrica - livro do mês, após encerrada a leitura. Impossível resistir ao poder de sedução do autor, que se impõe com perfeito domínio dos recursos narrativos. O leitor percebe quando o autor se entrega prazeirosamente à prática da escrita: Josué Montello (1917-2006) é bom exemplo dessa virtude. Transmite o gosto em descrever o rosto, as pestanas, as sobrancelhas das personagens, o que transparece a cada página. "A fisionomia devastada, sentia as mãos frias, o coração em disparada, o mesmo aperto na garganta"( MONTELLO, s.d.,53). Em poucas palavras, o narrador descreve a rotina de um grupo humano, sob a moldura ensolarada da orla de São Luís do Maranhão. Alguns aspectos singulares dão colorido às descrições vazadas em linguagem sóbria e elegante.

       "Os igaratés de pesca, com as suas pequenas velas triangulares, iam começando a voltar, na tarde que lentamente esmorecia. Uma claridade de cristal partido dançava por cima das ondas, enquanto uma luz mais suave, ora vermelha, ora rósea, diluindo-se em tonalidades violáceas, se estendia sobre as águas inquietas, riscada a espaços pelo balanceio calmo das asas das gaivotas. Um traço roxo, tirando a cinza, fechava o horizonte, no ponto em que o mar se encontrava com o céu, e acima desse traço alastrava-se a fulguração esbraseada do sol, que parecia também ondular no dorso das vagas a sua cabeça decepada" (MONTELLO, s.d.,72-73).



      Cais da sagração traz um protagonista rico de experiência, o velejador Severino. E o estilo é elegante, transparente, as descrições poéticas e sugestivas. Ainda atual, comove pela densidade humana e amplo espectro de motivações. O final flagra o conflito vivido pelo velho barqueiro, experimentado nas lides do mar, ao perceber o desinteresse do neto pelo seu ofício. Mestre Severino, de índole fria, assassino da mulher Vanju, ao espreitar artimanhas adversas, decide morrer no mar, lançando-se no perigo da grande tempestade que sacode as altas ondas alvoroçadas. O pior lhe ronda a mente: morrer, "arrastando na morte o neto que não queria ser barqueiro" (MONTELLO, s.d., 297). Josué Montello transfigura nesse desenlace o drama de muitos pais (ou avós) que sofrem a indiferença dos descendentes. Entre ondas agitadas e trovões, o barco avança "aos trombolhões", na treva escura oceano adentro, retalhado por relâmpagos. Os eventos sucedem-se dramáticos, nas malhas de uma destinação trágica, ampliada por vínculos religiosos. Nessa luta com o mar, o neto descobre seu destino, amparando o avô arquejante. 

                                                           (Foto: www.terra.com.br)

     Ao lado de Graciliano Ramos, Jorge Amado, José Lins do Rego, Lúcio Cardoso, Guimarães Rosa, Érico Veríssimo, Osman Lins, Clarice Lispector, Josué Montello integra a seleção dos expoentes da moderna ficção brasileira. Autor de extensa obra ficcional, ensaísta de méritos, testado em vários títulos, publicou também biografias, peças teatrais, novelas e diários. Muitos livros de sua autoria figuram entre as mais expressivas criações romanescas do país, como A décima noite (1959), Os degraus do paraíso (1965), Cais da sagração (1971), Os tambores de São Luís (1975), A noite sobre Alcântara (1978), O largo do desterro (1981), O baile da despedida (1992).

MONTELLO, Josué. Cais da sagração. Rio de Janeiro: Record/Altaya, s.d.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Armando Silva Carvalho (1938-2017)

      Morreu esta manhã, em hospital de Caldas da Rainha, Portugal, o escritor Armando Silva Carvalho. Acima de tudo, como poeta, deixa uma obra relevante, embora a produção do ficcionista e tradutor também seja digna de apreço. Seus principais livros de poesia compreendem O comércio dos nervos (1968), Armas brancas (1977), Técnicas de engate (1979), Canis Dei (1995), Lisboas (2000), Sol a sol (2005), O amante japonês (2008), nos quais se evidenciam, ao lado da consciência do labor poético, um forte interesse pelas pulsões do afeto, do corpo, da experiência cotidiana, sem se contaminar de banalidade, acrescido pelas solicitações eruditas e um refinado registro de tradições lusas. O que não impedia a paixão pelos brasileiros Elis Regina e João Cabral de Melo Neto. O que foi passado a limpo (2007) é o título da obra poética que colige a produção completa até então. Em prosa, publicou Portuguex  (1977), Em nome da mãe (1994), O homem que sabia a mar (2001), O menino ao colo. Momentos, falas, lugares do sublime Santo António (2003), Elena e as mãos dos homens (2004), dentre outros. Traduziu Stéphane Mallarmé, Marguerite Duras, Samuel Beckett, Aimé Césaire, Jean Genet.

                                                   (Foto: www.sol.sapo.pt)